A Fe Move Montanhas...não Move Calhaus
Todos temos um ponto fraco. Todos. Sem excepção. Por isso esta afirmação não é uma regra mas um axioma. Não se demonstra, impõe-se por si. Mas atenção. Há uma diferença importante entre uma, vamos lá, fraqueza e um defeito ou uma virtude. Estes últimos podem ser corrigidos, o primeiro não. Já pensaram bem no vosso ponto fraco? Não? Então pensem que eu vou encurtar esta lengalenga dizendo qual é o meu ponto fraco: são os meus braços! É verdade, os meus braços são fracos. Agora sinto-vos a pensar como é que posso afirmar isso e eu remeto-vos para a afirmação inicial: é uma evidência! Mas posso ajudar relatando um caso que me levou a esta conclusão.
...
Naquele tempo, tinha eu os meus 12 anos, as gerações M, S e XS gostavam de mimetar todos os eventos desportivos importantes. Vinha o Mundial de Hóquei e lá íamos para os bueiros para exercícios com talos de couve e porrada. Vinha o Mundial de Futebol e nós lá íamos para a Praça dos Baloiços para uma jogatanas e ... porrada. Vinham os Jogos Olímpicos e nós lá íamos para a Praça dos Baloiços correr, saltar, lançar e ... não aqui não havia porrada porque nós éramos muito ciosos do espírito olímpico. A Praça, medida por fora, tinha 200 metros (mais ou menos claro, mas a precisão não era relevante para efeitos de quem ganhava e de quem perdia). Só não havia maratona mas isso era por causa das tonturas causadas por andar tantas vezes à volta daquilo. Ainda pensámos em ir alternando o sentido da marcha de tantos em tantos quilómetros. Só que, se pensarem bem havia um ligeiro senão. Passávamos a ter corredores frente a frente e isso era como no hóquei ou no futebol, e já perceberam como ia acabar. Exactamente, à porrada!

O local das provas, cheio de mirones
Eu entrava sempre na corrida rainha: 50 metros, sem barreiras. Nunca desisti, perdendo sempre apenas por alguns segundos. Lá está, mas isso tinha que ver com as pernas, não com os braços. Mas depois voltei-me para as disciplinas ditas técnicas. Para não me cansar a pensar escolhi o lançamento do peso. Acontece que com tanta geração junta (M,S e XS) era difícil chegar a acordo sobre o objecto a lançar, o peso. Argumentavam uns que podia ser uma bola de futebol. Afinal era redonda. Outros diziam que não podia ser pois se é certo que tinha volume, não tinha densidade, o que por uma lei conhecida da física, significava que não tinha peso, que era exactamente o que devia ter para ser. Outros argumentavam em favor das imensas campânulas brancas no topo dos postes de iluminação. Eram redondas, tinham volume e densidade. Logo... já sabem espero, tinha peso. Mas aí saiu a terreiro a terceira geração dizendo que o objecto, uma vez lançado não era reutilizável visto ser de vidro e só existirem dois postes na praça. Este foi o argumento irrefutável da minha geração (XS) para propor como alternativa: um calhau! E lá tratámos de arranjar um. Tinha todas propriedades necessárias. Bem, não era muito redondo, mas isso eram minudências.
Escolhido o objecto só faltava ditar as regras. Aí foi simples: era correr com o calhau na mão na zona da relva e antes de chegar à caixa de areia onde estavam os baloiços atirar o dito o mais longe possível. Como já era à época obcecado por gestão por objectivos defini logo o meu, ambicioso: não ser o último. Para isso acontecer teria que responder à força bruta das gerações M e S (e alguns XS que não eram nada raquíticos) com a inteligência da técnica. E foi o que fiz. Chegou o momento. Coloquei o calhau na palma da mão, as costas da mão sobre o ombro e encostei o calhau ao pescoço debaixo do queixo. A assistência estava uma parte em pé na fronteira relva areia, outra parte sentada à frente dos primeiros com os pés na areia. Todos já a antecipar a risota, resultado de uma prestação abaixo do ridículo da minha parte. Não lhes liguei. Arranquei a toda a velocidade e chegado ao limite da relva atirei o peso, perdão o calhau.
Só que....
O calhau voar, voou ... só que como as galinhas: voo raso e muito estardalhaço. O problema residiu na técnica usada. É que sou canhoto. E como se isso não fosse suficiente no momento do lançamento confundi tudo com o lançamento do disco: logo rodei o corpo no sentido dos ponteiros do relógio e lá vai disto. Pela descrição do recinto desportivo e da colocação dos candidatos a gozadores já devem ter percebido a razão do estardalhaço. O calhau foi directo para o braço do Pires (Rua A) e aterrou suavemente na cabeça do Estaca (Martins ,Rua do Volta a Atrás) que estava sentado na beira. Estava sentado mas deixou de estar acto contínuo pois caiu inanimado na areia com o sangue a sair-lhe pela cabeça.
Nesse momento tive que mostrar que era mesmo bom na prova dos 50 metros, só que agora com barreiras! Tive que ultrapassar o meu irmão FazTudo que me queria placar, fintar duas oliveiras correr pelo quintal a dentro dos Marcos Franco saltar os arbustos que me separavam da minha casa com a ajuda do pau que servia para estender a roupa entrar porta dentro esbaforido olhando de soslaio para a minha mãe que estava nas lides domésticas subir as escadas para o primeiro andar entrar no meu quarto e esconder-me debaixo da cama... ofegante! Mas o meu irmão já estava no cimo das escadas. Isto porque não teve que se fintar a ele próprio mas apenas fintar duas oliveiras correr pelo quintal a dentro dos Marcos Franco saltar os arbustos que me separavam da minha casa com a ajuda do pau que servia para estender a roupa entrar porta dentro esbaforido olhando de soslaio para a minha mãe que estava nas lides domésticas, subir as escadas para o primeiro andar e entrar no quarto. Nem debaixo da cama teve que se meter! Mas aí chegado começou uma conversa desconhecida nele todo falinhas mansas que não havia problema que só queria falar comigo sobre o ocorrido. Acreditei e saí debaixo da cama. Custou-me mais um dente! Aos berros gritei para a minha mãe: “Ó mãe, o Carlos bateu-me”. A resposta da minha mãe foi salomónica: “Bate-lhe tu também”. Preferi não ir por aí!
Fiquei os dois dias seguintes por casa, argumentando que não me estava a sentir muito bem. A progenitura acreditou. Durante esses dias, de tempos a tempos ia espreitar à janela para ver se vinha a polícia para me prender (afinal tinha cometido um atentado contra a integridade física de um cidadão) ou uma ambulância do Hospital do Lorvão ou do Sobral Cid (o acto era prova de uma grande insanidade). Ou ambos. Mas nesse caso eu estava descansado. A ser verdade o que me diziam os da geração L, que naquele tempo os polícias batiam em cidadãos indefesos, seguramente que os enfermeiros levariam primeiro os polícias. Ao terceiro dia sem novidades resolvi ir respirar ar puro.
Dava eu os primeiros passos na rua F em direcção à casa da Titá quando vejo surgir em sentido oposto o Estaca. E ficámos frente a frente. Ele com a cabeça entrapada e eu com um dente a menos. Para quebrar o gelo que sentia no ambiente quis ser simpático e disse:
-- Ó Estaca, estás com bom aspecto!
-- Graças a ti, respondeu ele.
-- Ó Estaca, tens que entender, eu sou um gajo de fé, e a fé move montanhas. Sempre acreditei que ia conseguir!
E o Estaca sentenciou filosoficamente:
-- Ó Jó-Jó, p****, a fé até pode mover montanhas, mas não move calhaus. O teu problema são os braços. És fraco de braços!
Caí de joelhos, esmagado por esta visão holística do mundo e das coisas e passei a adoptá-la. Ainda hoje sou capaz de ver uma floresta mesmo sem existirem árvores.
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Naquele tempo, tinha eu os meus 12 anos, as gerações M, S e XS gostavam de mimetar todos os eventos desportivos importantes. Vinha o Mundial de Hóquei e lá íamos para os bueiros para exercícios com talos de couve e porrada. Vinha o Mundial de Futebol e nós lá íamos para a Praça dos Baloiços para uma jogatanas e ... porrada. Vinham os Jogos Olímpicos e nós lá íamos para a Praça dos Baloiços correr, saltar, lançar e ... não aqui não havia porrada porque nós éramos muito ciosos do espírito olímpico. A Praça, medida por fora, tinha 200 metros (mais ou menos claro, mas a precisão não era relevante para efeitos de quem ganhava e de quem perdia). Só não havia maratona mas isso era por causa das tonturas causadas por andar tantas vezes à volta daquilo. Ainda pensámos em ir alternando o sentido da marcha de tantos em tantos quilómetros. Só que, se pensarem bem havia um ligeiro senão. Passávamos a ter corredores frente a frente e isso era como no hóquei ou no futebol, e já perceberam como ia acabar. Exactamente, à porrada!

O local das provas, cheio de mirones
Escolhido o objecto só faltava ditar as regras. Aí foi simples: era correr com o calhau na mão na zona da relva e antes de chegar à caixa de areia onde estavam os baloiços atirar o dito o mais longe possível. Como já era à época obcecado por gestão por objectivos defini logo o meu, ambicioso: não ser o último. Para isso acontecer teria que responder à força bruta das gerações M e S (e alguns XS que não eram nada raquíticos) com a inteligência da técnica. E foi o que fiz. Chegou o momento. Coloquei o calhau na palma da mão, as costas da mão sobre o ombro e encostei o calhau ao pescoço debaixo do queixo. A assistência estava uma parte em pé na fronteira relva areia, outra parte sentada à frente dos primeiros com os pés na areia. Todos já a antecipar a risota, resultado de uma prestação abaixo do ridículo da minha parte. Não lhes liguei. Arranquei a toda a velocidade e chegado ao limite da relva atirei o peso, perdão o calhau.
Só que....
O calhau voar, voou ... só que como as galinhas: voo raso e muito estardalhaço. O problema residiu na técnica usada. É que sou canhoto. E como se isso não fosse suficiente no momento do lançamento confundi tudo com o lançamento do disco: logo rodei o corpo no sentido dos ponteiros do relógio e lá vai disto. Pela descrição do recinto desportivo e da colocação dos candidatos a gozadores já devem ter percebido a razão do estardalhaço. O calhau foi directo para o braço do Pires (Rua A) e aterrou suavemente na cabeça do Estaca (Martins ,Rua do Volta a Atrás) que estava sentado na beira. Estava sentado mas deixou de estar acto contínuo pois caiu inanimado na areia com o sangue a sair-lhe pela cabeça.
Nesse momento tive que mostrar que era mesmo bom na prova dos 50 metros, só que agora com barreiras! Tive que ultrapassar o meu irmão FazTudo que me queria placar, fintar duas oliveiras correr pelo quintal a dentro dos Marcos Franco saltar os arbustos que me separavam da minha casa com a ajuda do pau que servia para estender a roupa entrar porta dentro esbaforido olhando de soslaio para a minha mãe que estava nas lides domésticas subir as escadas para o primeiro andar entrar no meu quarto e esconder-me debaixo da cama... ofegante! Mas o meu irmão já estava no cimo das escadas. Isto porque não teve que se fintar a ele próprio mas apenas fintar duas oliveiras correr pelo quintal a dentro dos Marcos Franco saltar os arbustos que me separavam da minha casa com a ajuda do pau que servia para estender a roupa entrar porta dentro esbaforido olhando de soslaio para a minha mãe que estava nas lides domésticas, subir as escadas para o primeiro andar e entrar no quarto. Nem debaixo da cama teve que se meter! Mas aí chegado começou uma conversa desconhecida nele todo falinhas mansas que não havia problema que só queria falar comigo sobre o ocorrido. Acreditei e saí debaixo da cama. Custou-me mais um dente! Aos berros gritei para a minha mãe: “Ó mãe, o Carlos bateu-me”. A resposta da minha mãe foi salomónica: “Bate-lhe tu também”. Preferi não ir por aí!
Fiquei os dois dias seguintes por casa, argumentando que não me estava a sentir muito bem. A progenitura acreditou. Durante esses dias, de tempos a tempos ia espreitar à janela para ver se vinha a polícia para me prender (afinal tinha cometido um atentado contra a integridade física de um cidadão) ou uma ambulância do Hospital do Lorvão ou do Sobral Cid (o acto era prova de uma grande insanidade). Ou ambos. Mas nesse caso eu estava descansado. A ser verdade o que me diziam os da geração L, que naquele tempo os polícias batiam em cidadãos indefesos, seguramente que os enfermeiros levariam primeiro os polícias. Ao terceiro dia sem novidades resolvi ir respirar ar puro.
Dava eu os primeiros passos na rua F em direcção à casa da Titá quando vejo surgir em sentido oposto o Estaca. E ficámos frente a frente. Ele com a cabeça entrapada e eu com um dente a menos. Para quebrar o gelo que sentia no ambiente quis ser simpático e disse:
-- Ó Estaca, estás com bom aspecto!
-- Graças a ti, respondeu ele.
-- Ó Estaca, tens que entender, eu sou um gajo de fé, e a fé move montanhas. Sempre acreditei que ia conseguir!
E o Estaca sentenciou filosoficamente:
-- Ó Jó-Jó, p****, a fé até pode mover montanhas, mas não move calhaus. O teu problema são os braços. És fraco de braços!
Caí de joelhos, esmagado por esta visão holística do mundo e das coisas e passei a adoptá-la. Ainda hoje sou capaz de ver uma floresta mesmo sem existirem árvores.
A verdadeira Praça dos Baloiços. Aqui estamos 4 manos, de cima para baixo: Belinha, Vitor, Afonso e Jó-Jó. "E o FazTudo onde está?" perguntam e bem. Andava à minha procura para me bater.


Jó-Jó
jaPub.em Jul08
jaPub.em Jul08
Etiquetas: Fotos Antigas, Fotos Grupos, JoJo


1 Comentários:
Conseguistes fazer-me rir com essa que fizeste ao estaca(que é feito dele?). Mas regas muito, o teu irmão(faztudo) alguma vez te partiu algum dente, mentiroso!!
Um abraço por estas recordações
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