Há
momentos na vida que outros momentos jamais apagarão na nossa memória. Claro que o distanciamento dos momentos vividos fazem com que tenhamos a certeza que a confiança na memória nos permite.
Vem isto a propósito do próximo
almoço em Mira e as recordações que a muitos de nós nos liga a
Praia de Mira da nossa juventude.
Foi na
Praia de Mira numa tenda feita de pano de lençol que iniciei as minhas aventuras campistas. Não havia parque de campismo e tínhamos que pedir autorização ao
Guarda Florestal, Sr. Páscoa, para que pudéssemos acampar nas matas próximo da barrinha. Também sacos-cama ainda não existiam e
eram cobertores que nos serviam de agasalho ao dormir e não só.
A primeira noite foi um desassossego de anedotas e piadas, com a pilha eléctrica que falhava e nos deixava às escuras ou com a ponta
do cobertor que um puxava e a imediata reclamação de quem ficava descoberto… só o cansaço dum dia de muita agitação venceu a resistência às risadas que teimosamente queriam resistir à força do sono. Mas foi este que por fim venceu e, o sono das consciências tranquilas prolongou-se pela manhã fora até que a fome começou a apertar. Depois foi o jogo do empurra para ver quem é que ia comprar o pão,
por fim organizámo-nos com uma escala de serviço que foi minimamente cumprida. Foi então que aprendi que para fazer um tacho de arroz não era necessário um pacote inteiro de arroz. Numa das vezes, à medida que nos aproximávamos da tenda mais cheirava a esturro e o
NiNi impávido e sereno sentado numa pedra a ler e a panela ao lume e tudo esturricado. Nestas alturas havia sempre a alternativa - SANDES -, e estas foram o que nos safou durante aqueles dias.
A grande
atracção da Praia de Mira era para alem da praia e da barrinha,
os bailaricos no Mira Sol, o cinema ao ar livre e claro as miúdas que se iam conhecendo.
As noites eram frescas e húmidas e o cinema era ao ar livre num pátio nas traseiras
do café Tomé, tínhamos
que ir embrulhados nos cobertores, e que bem sabia a troca de confidências que as mãos dos parezinhos faziam por baixo daqueles cobertores…
A altas horas da noite lá íamos
a uma padaria, que ficava por
traz do Mira Sol, comprar carcaças de mistura acabadinhas de sair do forno de lenha. As carcaças eram grandes e marchavam uma data
delas barradas com margarina (não tínhamos manteiga nem …colesterol). Aquele cheiro e o sabor daquele pão acabado de cozer com a margarina a escorrer é das recordações que nunca se esquecem.
Uma noite alguém gritou
“a tenda está a meter água tenho os pés encharcados”, gerou-se grande alvoroço, apalpa aqui apalpa acolá e a resposta em uníssono
“eh pá, vai-te lixar então não vês que estás a dormir com os pés de fora”.
As dunas
…”dunas são como divãs”, e foram um bom aconchego para alguns namoricos que se consolidaram em cima daquelas areias movediças, enquanto outros não passaram daquele bom momento que se recorda.
Havia sempre uns desmancha prazeres, os topas, que lá vinham espreitando por entre as ervas das dunas e quando eram topados um gajo levantava-se e ao ver as cabeças espreitando dizia
“está um lindo dia” e sempre lá algum respondia
“s´está”… “s´está” …
Então até breve em Mira.
De Abílio SoaresP.S.- Estive muito longe daqui, em férias, e só hoje retomei o vosso contacto, pelo que agradeço a todos os amigos que amavelmente me mandaram mensagens no meu aniversário que foi passado em Suzdal (sabem onde fica?). Etiquetas: Abilio Soares