Figuras do Bairro - Albino Barbeiro
O Albino Barbeiro
Cíclicamente, deambulavam pelo nosso Bairro, algumas figuras muito conhecidas na cidade, aquilo a que na gíria apelidávamos de “típicas”.Hoje venho aqui falar-vos de uma, por poucos conhecida, e que por este Bairro andou,calcorreando ruas e praças naquela que era a sua profissão: barbeiro. Não possuía estabelecimento que se lhe conhecesse nem emprego por conta de outrem. Era pura e simplesmente barbeiro ao domicílio. De mala na mão, lá ia de porta em porta visitando os clientes habituais, entre ao quais me incluía.
Os meus cortes de cabelo eram sempre momentos épicos. Criança que era, detestava aquele sacrifício supremo de me sentar num banco de cozinha, enquanto o Albino, para suavizar o meu choro convulsivo, ia relatando jogos de futebol dando uma entoação abrasileirada à voz , à mistura com o som do matraquear da tesoura e do pente castanho e gasto com que me alisava o cabelo. Gradualmente, o meu choro ia-se desvanecendo, à medida que me apercebia que o Albino barbeiro estava nos procedimentos finais, ou seja, quando de navalha de cabo preto bem apertada na mão e o dedo polegar em riste apontado ao céu, me acertava as patilhas. Acto contínuo, punha-se à minha frente, flectindo as pernas, ficando cara a cara comigo, balançando a cabeça de um lado para o outro como se fosse um pêndulo. Certificava-se se as patilhas estavam à mesma altura. Aquele momento ainda hoje me assusta, ao lembrar aquela cara magra e gasta de que se destacava por baixo de um nariz afilado um respeitável bigode, e ainda hoje, ao relembrar a sua figura frágil, mais tenho a convicção de que aquela magreza pouco tinha a ver com a sua matriz genética, mas com um rosário de dificuldades e limitações.
E o corte de cabelo terminava numa apoteose de pó de talco, derramado em quantidades generosas sobre o meu pescoço, e num enorme pincel com que o Albino barbeiro me limpava os olhos e orelhas em movimentos frenéticos.
Apesar disso, era um homem divertido e reinadio. Vivia numa rua estreita, numa casa humilde, junto à Sé Velha, mesmo em frente a uma agência funerária. Dizia por brincadeira que quando abria a janela do quarto, de manhã, e dava de caras com os caixões, ficava logo bem disposto…
Em determinada tarde domingueira, montou-se no Choupalinho um ringue de luta livre.O lutador, que se intitulava de nacionalidade grega, desafiava as cerca de cinco dezenas de basbaques que circundavam a arena, sem que alguém se atrevesse a defrontar tal figura.Atemorizados, todos olhavam com respeito aquela montanha de carne e músculos, até que, vinda de lá de trás, uma voz resoluta se perfilou: vou eu !!!
Com assombro, todos viram então o Albino barbeiro dar um salto felino para uma entrada no ringue em apoteose, colhendo as palmas e o respeito dos circunstantes . Teve azar.Conforme deu o salto, tropeçou numa corda que delimitava o ringue e desabou no recinto, batendo com a cabeça no chão e perdendo os sentidos, que o mesmo é dizer que o corajosoAlbino, mesmo antes de começar o combate já estava KO. E assim se finou o seu momento de glória, tendo todos percebido sem grande esforço, que perante luta tão desigual, aquele incidente mais não era que a antecipação do que certamente iria acontecer. O Albino barbeiro a sair do ringue inanimado… e de charola.
De (Quito) -Rua D
Pub maio2008
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