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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

DAMAS Ó BUFÉ

DAMAS Ó BUFÉ
Assim rezava o panfleto que publicitava mais um baile de sábado no Clube Recreativo do Calhabé:
Grandioso Baile com inicio às 21,00 de sábado!
Dance ao som do famoso conjunto Os Ases do Ritmo que abrilhantará o evento com os últimos êxitos musicais!
Tango, valsa, foxtrot, rock and roll, slow rock.
Concursos, Cor, Alegria, Confetis!
Haverá matinée dançante no domingo à tarde.
Lá vou eu, mais alguns bairradinos. Às 21,00 horas estávamos prontos para o embate.
A palavra “embate” é apropriada. Como se lembram, os rapazes juntavam-se todos a um canto, como se de uma prova de atletismo se tratasse, à espera do sinal de partida.
O nervoso apoderava-se de nós quando percebíamos que os músicos se aprestavam para iniciar mais um tema. Os olhares tentavam cruzar-se com os das raparigas que, sentadas ao pé das suas mães, procuravam adivinhar por quem iriam ser convidadas para dançar.
Aos primeiros acordes, como cardume de sardinhas à tona de água, os rapazes fervilhavam em direcção às meninas, fazendo o convite à sua escolhida com uma pequena vénia.
A menina acedia, se estivesse para aí virada, ou fingia-se distraída se aquele não fosse o par da sua preferência, evitando dar-lhe tampa de forma ostensiva.
A pouco e pouco os pares rodopiavam ao som da música e procuravam dançar numa zona da sala, o mais longe possível dos olhares fiscalizadores das mamãs.
O baile já decorria há umas duas horas. Eu dançava com uma moça avantajada, bastante alta, de costas largas, peito farto.
Subitamente, um elemento da Direcção do Clube sobe ao palco onde o conjunto tocava e em voz vibrante e gesto largo gritou:
- Reeeessssté.....!!! – fazendo sinal aos músicos para interromperem a música que estavam a tocar.
- Feito silêncio, dirigiu-se então aos pares que, parados, olhavam para o palco. Com um sorriso melífluo informou:
- Damas ó bufe! Os cavalheiros deverão acompanhar as suas damas ao bufe, onde encontrarão deliciosos bolos e laranjadas Bussaco.
Todos os pares se encaminharam então para um pequeno bar onde estavam já dispostos diversos pequenos pratos, cada um com quatro bolos e uma laranjada e um copo junto de cada um.
As meninas comiam um bolinho, bebiam uma laranjada e o cavalheiro que a acompanhava pagava a despesa, não sem antes a convidar a comer mais.
Era uma pergunta de cortesia, porque invariavelmente a menina recusava, agradecendo...
Bom, com o meu par, as coisas não se passaram bem assim.
Comeu o primeiro bolo, emborcou metade da laranjada e pegou num segundo bolo sem sequer me dar oportunidade de lho oferecer.
Ainda com a boca cheia, pegou num terceiro bolo, pronta a enfardá-lo logo que acabasse de mastigar o segundo...
Enfiei a mão no bolso, tentando disfarçadamente contar as moedas que tinha comigo.
Não havia dúvida, o dinheiro mal chegava já para pagar a despesa feita.
Tentei travá-la, com um sorriso e boas palavras...
- A música já voltou a tocar... Vamos para a sala?
Fulminou-me com o olhar e, ríspida, disse-me:
- Calma! Ainda falta mais um bolo..
E prosseguiu, dirigindo-se ao empregado que observava atrás do balcão:
- Estou embuchada...Dê-me mais uma laranjada!
Limpou os 4 bolos e mais 2 laranjadas!
Tive que ir aos meus colegas que já estavam na sala pedir dinheiro emprestado para pagar o estrago.
Ela apercebendo-se disso, ainda rematou:
- Estes pelintras....

Texto de Rui Felício
de 17.6.08

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