Ainda não sei mas não compreendo porque é que as pessoas têm tanto medo da maravilhosa idade que vai dos sessenta aos setenta anos.Os sessenta anos não são para mim nenhum problema e se partir também não penso que aconteça algum problema neste mundo. Durante um tempo dizia-se que entre os quarenta e oito e os cinquenta e dois anos, era a altura propícia para os ataques cardíacos.
Já passei. Depois dizem que entre os sessenta e os setenta anos, é um período de alto risco pois os que passam ainda vão durar muitos anos. Não sei, pois nunca vi o meu certificado de garantia. Com tudo o que já vi e que ainda estou para ver pois agora é tudo a correr, quando o Momento chegar já não me preocupa, até nem quero ver. O que me deixa dúvidas, é a tal missa de corpo presente. Penso que devia ser uma missa de Acção de Graças.
Graças, por ter vivido.Graças, por não ter que andar mais tempo a arrastar o caruncho e a tentar mostrar ainda que sou uma pessoa activa.
Graças, porque sendo uma velharia própria da idade, não tenho que mostrar que ainda tenho ideias "novas".
Graças, para não mais ter que dizer "pois é", "é verdade", "falaste mesmo a calhar", vê lá que me ia passando" como se fosse uma grande admiração, quando na relidade são pequeninos esquecimentos que ninguém nota! Graças, porque de acordo com os três períodos acima, já ninguém mais me tem de dizer queainda estou um rapaz novo.
Graças, porque Aquele que me controla, qual computador ainda não igualado pelo bicho humano, não tem que andar dia e noite a introduzir as minhas boas e más acções no meu dossier, qual escravo da minha existência que não tem descanso nem sindicato para exigir horas dignas de trabalho, nem horas extraordinários e assim me libertar do sentimento de culpa pelo que Ele sofre por mim. Ele é, de uma outra época, ainda dos duros e resistentes, anterior ao meu tempo,
pois Ele nunca se queixou do excesso de trabalho, nem de um simples cansaço cerebral. Tão Bom e tão meu Escravo.
Graças, porque não mais tenho que pensar se faço o bem ou o mal, tortura que me é imposta ao milésimo de segundo para gáudio de Um só, que nunca me foi apresentado.
Graças, porque deixei de ser aquele velho casmurro e resmungão, que está convencido que até é condescendente e a quem os outros se sorriem para não me chocarem psicológicamente.
Graças, por ter partido e não ser mais um a lixar sistema de saúde, enchendo-lhe os hospitais.
Graças, por me ter libertado da doença mais longa que conheço, pois a doença da vida faz com que nascemos para morrer.
Graças, por ter deixado de ser mais um condenado à morte. Graças, por ter morrido, porque jamais vi um morto queixar-se. Por tudo isto, penso que devia ter direito a uma missa de Acção de Graças.
Assim e até à Apoteose Final, viva a ALEGRIA.
Chico TorreiraEtiquetas: Chico Torreira