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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

INDECISÃO

CHAMPAGNE

Quero me deixar levar por este desejo novo e inesperado que me surpreende, quero viver até sorver esta quimera que parece dizer-me: “venho questionar as tuas certezas demasiadamente ancoradas”.
Como recusá-lo? Negá-lo é demasiado fácil e demasiado difícil ao mesmo tempo...
Recusa-se um copo de champanhe? Sim, parece que às vezes se deve recusar tal copo, com o argumento de que se quer evitar a dor de cabeça ou a indisposição que se lhe pode seguir. Se se recusar, resta-nos o prazer de admirar a textura do vidro, a observação do liquido efervescente, a contemplação da sua cor subtil, a captação das exalações capitosas que dele emanam. Sem nunca tocar nem provar o divino néctar, teremos roçado o suave deleite que nos aparece como um maléfico mas gostoso veneno.
O meu lado cartesiano diz-me: São futilidades! Reage!
O meu lado físico, carnal responde-lhe: Descartes, deixa o corpo dela entregar-se a este convite tão sedutor.
Suspiro, sim suspiro. Por duas razões, suspiro de impaciência porque o recuso, mas suspiro também de insatisfação no meu ardente desejo de concretizá-lo.
Estranho este desejo que emergiu de repente de nenhum lado, ou antes, de nenhum lugar preciso. E no entanto, eu já antes conheci este desejo muito físico, muito desconcertante, sem nunca o saciar.
Conheço a dor e o tormento da indecisão. É normal quando se é jovem. Quando se é jovem, isso explica-se pela natural vergonha e pelo receio da novidade. Fica guardado como um segredo. São desejos que são fruto da pura atracção, da presença muito carnal ou mesmo e unicamente resultado da sua própria presença.
Mas agora é diferente. Parece que acedo a um desejo já de uma nova geração, aceso por partículas ou electrões, ou mesmo por um pensamento subliminar ou telepático, sendo eu, ainda para mais, precisamente de uma outra e mais antiga geração.
Deste desejo, deste tempo forte, como em música, conheço-lhe a mecânica e o desenrolar, e sobretudo a frustração de não ter perto o seu causador.
Para não sofrer, aceito a realidade com racionalismo, antes que a fraqueza se instale, como na música.

05-02-2009

Tradução e Adaptação livres
de um texto da autoria de uma leitora assidua
do blog Cavalo Selvagem
Publicação, tradução e adaptação livre, realizadas sob autorização prévia da Autora
identificada pela ADM

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quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

EQUIVOCO

PRAZERES TERRENOS

Através de um olhar sensível e guloso ela foi a escolhida entre tantas.
Delicadamente, as mãos pegam-lhe, tocam-na...
A sua superfície fresca e húmida aumenta-lhe o desejo de a consumir.
Com medo de a magoar, deixa as mãos girarem em volta do seu corpo, levemente, com cuidado... Começa a despi-la lentamente... Detém-se perto do seu umbigo, de cada vez que as mãos por ali passam... À medida que a pele branca vai aparecendo, apetecível, provocante, cresce-lhe água na boca, a respiração acelera-se...
De repente, já descontroladamente, sem pudor, o instrumento que minutos antes, com muito carinho, junto com as suas mãos, também a tocava e despia, entra pelo corpo dela, abrindo-a, dividindo-o ao meio.
Sofregamente, aproxima a boca e encosta-a sobre o corpo desejado. Chupa-lhe o sumo saboroso, doce, ligeiramente ácido, como se essa fosse a última coisa que ele faria na vida.
Vai-a consumindo, desfrutando o seu gosto, aqui, acolá , em todo o lado... Tenta prolongar aqueles momentos, mas a ânsia crescente com que o faz, leva a que tudo acabe em breve. Ela amolece, esvaziada...O seu corpo que antes era túmido e firme está agora esvaído, sem rigidez...Reduzido a algumas encarquilhadas peles...

Retomado o fôlego pouco tempo depois , o olhar dele, que a escolhera entre as outras, , revela-se insaciável e procura uma próxima vítima. Quer reviver o prazer obtido há pouco!
Escolhe outra, igualmente bela, também ela insinuante, e começa a repetir tudo de novo, agora com a nova escolhida, usando a mesma faca, ainda molhada e pegajosa do sumo da anterior laranja que delicadamente tinha descascado...

20-01-2009

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terça-feira, 27 de janeiro de 2009

NOITADAS


RELÓGIO DE CUCO

Tinha os meus 16 anos.
Pedi aos meus pais para ir a uma festa de amigos a seguir ao jantar...
Autorizaram-me sob a condição de não aparecer em casa depois da meia noite.
- Prometo! disse eu...
Mas as horas foram passando e as bebidas e o álcool a acumularem-se no estômago e no sangue, cada vez em maior quantidade. Pouco antes das 3 da manhã, bêbado que nem um cacho, despedi-me dos outros que estavam como eu, ou piores ainda, e fui para casa.
Mal entrei e fechei a porta, o relógio de cuco que tínhamos no hall disparou, o pássaro de madeira saiu da gaiola e cantou 3 vezes. Receoso que os meus pais tivessem acordado e se apercebessem das horas tão tardias, resolvi tentar imitar o relógio e fazer “cu-cu” mais 9 vezes.
Assim, para quem ouvisse o cuco, seria meia-noite! Fiquei orgulhoso de mim mesmo, por me ter ocorrido uma ideia tão brilhante e oportuna. Pelo silêncio da casa, a habilidade parecia ter surtido efeito.
Tinha evitado o sermão e missa cantada que o atraso me agoirava .
Na manhã seguinte, o meu pai perguntou-me a que horas tinha eu chegado. Respondi-lhe: - Devia ser mais ou menos meia-noite!
O ar do meu pai não denunciava qualquer desconfiança. Parecia que daquela vez eu tinha escapado! Graças à minha repentina imaginação... Então ele voltou-se para a minha mãe e disse-lhe calmamente:
- Precisamos de um relógio novo, ou de mandar reparar este... E prosseguiu, perante o meu olhar atento e progressivamente mais incrédulo: - Esta madrugada o nosso relógio fez “cu-cu” 3 vezes, depois, não percebo porquê, berrou um prolongado “meeeerda!”.
Fez “cu-cu” mais 4 vezes e espirrou estrondosamente.
Voltou a cantar mais 3 vezes, gorgolejou duas pastosas gargalhadas e acabou por fazer “cu-cu” mais 2 vezes.
A seguir deve ter tropeçado no gato que miou assanhado, deitou abaixo a mesinha da entrada da sala, arrotou cavernosamente, vomitou na carpete e só depois é que recolheu à sua casinha.

27-01-2009

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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

O GENIO - Contos e antologias

Com o aproximar do GEG, o nervosismo é evidente . A analogia com o ciclismo é apropriada.
Neste desporto ha quem sprint na fase final da corrida depois de ter percorrido a etapa na cauda do pelotão. Outros colocam-se junto à meta em bicos de pes para que a TV os apanhe.
Recebemos este texto que poderia ser considerado deselegante, mas que se apropria sempre a momentos finais e de grande intensidade.
Poderia ser dedicado aos homens, como poderia ser dedicado às mulheres.
Este veio a propósito das mulheres.

As mulheres são mesmo especiais.....................
Um amigo nosso caminhava na praia de Mira e tropeçou numa velha lâmpada, daquelas que dão à praia.
Pegou nela, esfregou-a e... um génio saltou lá de dentro, que lhe disse:
-O.K! Libertaste-me da lâmpada, blá, blá, blá! Esquece aquela história dos 3 desejos! Tens direito a 1 desejo apenas e ponto final!
O homem disse:
- Eu sempre quis ir à Ilha da Madeira , mas tenho um medo enorme de voar... e no mar costumo ficar enjoado. Podes construir uma ponte até à Ilha da Madeira , para eu poder ir de carro visitar o Morato?
O génio riu-se muito e disse:-
- Impossível. Pensa na logística do assunto. Como é que os pilares chegavam ao fundo do Oceano Atlântico? Pensa em quanto betão armado, em quanto aço, em quanta mão de obra...
Não, de maneira nenhuma! Pensa noutro desejo...
O homem compreendeu e tentou pensar num desejo realmente possível.
- Fui casado e divorciado 4 vezes. As minhas mulheres disseram sempre que eu não me importava com elas e que era um insensível. Então, é meu desejo compreender as mulheres; saber como se sentem por dentro e o que estão a pensar quando não falam connosco; saber porque estão a chorar... Saber realmente o que querem quando não dizem nada... saber porque dizem sempre mal umas das outras, saber como fazê-las realmente felizes!
O génio respondeu:
- Olha, mas sempre queres a ponte com três ou quatro faixas?

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