INDECISÃO
CHAMPAGNE
Quero me deixar levar por este desejo novo e inesperado que me surpreende, quero viver até sorver esta quimera que parece dizer-me: “venho questionar as tuas certezas demasiadamente ancoradas”.
Como recusá-lo? Negá-lo é demasiado fácil e demasiado difícil ao mesmo tempo...
Recusa-se um copo de champanhe? Sim, parece que às vezes se deve recusar tal copo, com o argumento de que se quer evitar a dor de cabeça ou a indisposição que se lhe pode seguir. Se se recusar, resta-nos o prazer de admirar a textura do vidro, a observação do liquido efervescente, a contemplação da sua cor subtil, a captação das exalações capitosas que dele emanam. Sem nunca tocar nem provar o divino néctar, teremos roçado o suave deleite que nos aparece como um maléfico mas gostoso veneno.
O meu lado cartesiano diz-me: São futilidades! Reage!
O meu lado físico, carnal responde-lhe: Descartes, deixa o corpo dela entregar-se a este convite tão sedutor.
Suspiro, sim suspiro. Por duas razões, suspiro de impaciência porque o recuso, mas suspiro também de insatisfação no meu ardente desejo de concretizá-lo.
Estranho este desejo que emergiu de repente de nenhum lado, ou antes, de nenhum lugar preciso. E no entanto, eu já antes conheci este desejo muito físico, muito desconcertante, sem nunca o saciar.
Conheço a dor e o tormento da indecisão. É normal quando se é jovem. Quando se é jovem, isso explica-se pela natural vergonha e pelo receio da novidade. Fica guardado como um segredo. São desejos que são fruto da pura atracção, da presença muito carnal ou mesmo e unicamente resultado da sua própria presença.
Mas agora é diferente. Parece que acedo a um desejo já de uma nova geração, aceso por partículas ou electrões, ou mesmo por um pensamento subliminar ou telepático, sendo eu, ainda para mais, precisamente de uma outra e mais antiga geração.
Deste desejo, deste tempo forte, como em música, conheço-lhe a mecânica e o desenrolar, e sobretudo a frustração de não ter perto o seu causador.
Para não sofrer, aceito a realidade com racionalismo, antes que a fraqueza se instale, como na música.
05-02-2009
Tradução e Adaptação livres
de um texto da autoria de uma leitora assidua
do blog Cavalo Selvagem
de um texto da autoria de uma leitora assidua
do blog Cavalo Selvagem
Publicação, tradução e adaptação livre, realizadas sob autorização prévia da Autora
identificada pela ADM
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Etiquetas: Contos







