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segunda-feira, 6 de abril de 2009

Um artista Africano

Para conhecimento.
Para grandes males, grandes remédios...
Embora já tenha um tempo,
o bom do Doutor continua a dar consultas
e dizem que com resultados positivos

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Após 6 meses seguidos no mato

Norte de Moçambique - 1969
Após 6 meses seguidos no mato a construir picadas, pontes e pistas para aviões, eis que chega o esperado mês de férias.
5 dias de coluna no “pica chouriço” (a pé com varas a picar o terreno por causa das minas) para fazer uns 150 km, dormindo debaixo dos camiões…pelo sim, pelo não, e depois de uma noite no quartel, segue-se mais uma viagem de umas 7 horas de camião, em coluna, até à cidade mais próxima, então chamada de Nova Freixo, distante mais 250 km.
Dormida no aquartelamento e no dia seguinte avião a hélice até Lourenço Marques. Noite no aeroporto e partida no dia seguinte no Boeing 707 para Lisboa. Pais à espera no aeroporto e partida para Coimbra.
Paragem a meio da viagem para comer qualquer coisa. Vem a comida e bebidas e eu pergunto: a água é boa para beber? Hábito de quem escolhia os melhores locais dos rios por onde se passava para encher os depósitos de água adicionando os respectivos comprimidos. O empregado responde-me incrédulo pela pergunta: claro que sim.
Toca a beber pela garrafa e a mãe: Oh Vítor, deita a água no copo. Distracção de quem há muito não usava copo. Pratos lavadinhos como devem ser, garfo e faca, um luxo. Tomo mais atenção e não dou mais barraca.
Após um mês de férias, o regresso.
Chegada à sede da companhia e, dia seguinte, mato outra vez… que estás fresquinho, diz o capitão.
6 horas da noite o jantar, talvez feijão com toucinho. Os mosquitos, alguns com centímetros de comprimento, caem continuamente na comida. O pessoal empurra-os para a beira do prato e continua a comer. Eu, tendo perdido o hábito, perco também o apetite.
Um mês depois.
5h30 da manhã. Levanto-me, saio do abrigo e começo a cismar: hoje é que vai ser. Bacalhau assado.
Efeito Pavlov, começo a salivar.
Tinha trazido comigo, no regresso de férias, uns 10 kg de bacalhau.
Chamo o soldado cozinheiro e digo-lhe: hoje vais assar o bacalhau que eu trouxe e fazes as batatas assadas com a pele.
A notícia espalha-se. Tiros são disparados para o ar em sinal de contentamento.
Durante toda a manhã não se falou noutra coisa, o almoço é bacalhau, do bom, não daquele bacalhau liofilizado que comíamos de vez em quando.
12h00, regresso do local da construção da ponte, distante uns 500 metros da zona de protecção e dos abrigos.
Cozinheiro, o bacalhau?
Meu alferes é só mais 5 minutos.
Acabamos de nos sentar e…pum, pum, pum.
Começa um ataque em grande escala: granadas de morteiro chovem por todo o lado, tiros de metralhadoras pesadas e de automáticas também. Felizmente o nosso perímetro de segurança é um quadrado com uns 100 metros de lado, protegido com barreiras de terra. Tiros directos não entravam e as granadas iam passando por cima.
O ataque durava há mais de uma hora. Cheiro a pólvora por todo o lado. Estamos a ficar sem munições.
Peço, via rádio, a ajuda da força aérea. Os caças chegam uma hora depois, mesmo quando o ataque terminava, e os atacantes fugiam.
Damos indicação aos caças, via rádio, para onde se tinham dirigido os atacantes. Ouvem-se disparos de roquetes. Tudo tinha passado e felizmente ninguém ficou ferido. Descansamos e regressa a calma.
Ouve-se então um grito de angústia…O BACALHAU?
Corremos para a grelha e… um monte de qualquer coisa preta.
Chora-se.
Vitor Costa

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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Mas que Pequeno Almoço

Ano de 1969, norte de Moçambique,
semanas depois da chegada do homem à Lua
Manhã cedo, 5h30, toca a levantar que o Sol também já se ergueu. Levanto-me e sacudo da camisa o pó que tinha caído durante a noite, por entre os troncos das árvores que cobriam o abrigo subterrâneo, onde dormíamos uns 5 ou 6, numa lona estendida sobre a terra.
O abrigo estava situado no alto de um monte a uns cem metros de um pequeno rio, seco nesta época do ano, onde trabalhávamos na construção de uma ponte, necessária para a quando chegasse a época de chuvas
Calço as botas, um bocejo seguido de uma espreguiçadela e esfregar de olhos.
Saio para o exterior. Já está calor, espreito o leito seco do rio e os pilares da ponte em construção.
Fome, nem por isso, porque a ementa é já conhecida e é a mesma de sempre: café com mistura de cevada e chicória (com a variante de só cevada ou só chicória), pão normalmente com 2 ou 3 dias de idade e um tubo de plástico contendo um doce para barrar o pão, do qual nunca me apercebi qual o fruto que lhe deu origem.
Dirijo-me para o local onde estão a distribuir o pequeno-almoço a pensar se não vou substitui-lo por uma cerveja e uma lata de chouriço em conserva para acompanhar o pão.
A uns 20/30 metros de mim está já constituída uma fila, junto à improvisada cozinha, todos de púcaro na mão para receberem o café.
De repente…pum, pum, pum.
Tiros ouvem-se por toda a parte a baterem e a passarem por entre as árvores e folhagens; caem algumas granadas fora da zona de protecção de um muro de terra, construído na noite anterior, a circundar os abrigos subterrâneos.
Reina e estabelece-se uma grande confusão. Vamos rapidamente buscar as armas, que estavam encostadas às árvores.
Meu alferes, não sei onde está o morteiro!
Alguém trás o morteiro, mas onde estão as granadas?! Ninguém sabe!
Escassos minutos depois (que pareceram horas) de ter começado o tiroteio, o silêncio. Quem atacou já tinha debandado. Aparecem as granadas.
Ouço alguém chamar-me com berros de aflição. Meu alferes estou ferido! Deita-se no chão a chorar e aponta para uma grande mancha escura na perna das calças, junto à virilha.
Grito: enfermeiro!
Peço ao soldado mais perto: dá cá a tua faca. Pego na faca, rasgo as calças e procuro o ferimento.
Não vejo nada. Rasgo mais as calças e…nada.
Perplexo e sem saber bem o que se está a passar olho para os bocados rasgados das calças e… café.
Na atrapalhação o soldado tinha entornado o púcaro com o café ainda quente e julgava que tinha sido ferido.
Vitor Costa

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