Norte de Moçambique - 1969
Após 6 meses seguidos no mato a construir picadas, pontes e pistas para aviões,
eis que chega o esperado mês de férias.5 dias de coluna no
“pica chouriço” (a pé com varas a picar o terreno por causa das minas)
para fazer uns 150 km, dormindo debaixo dos camiões…pelo sim, pelo não, e depois de uma noite no quartel, segue-se mais uma viagem de umas 7 horas de camião, em coluna, até à cidade mais próxima, então chamada de
Nova Freixo, distante mais 250 km.
Dormida no aquartelamento e no dia seguinte avião a hélice até Lourenço Marques. Noite no aeroporto e partida no dia seguinte no Boeing 707 para Lisboa. Pais à espera no aeroporto e partida para Coimbra.Paragem a meio da viagem para comer qualquer coisa. Vem a comida e bebidas e eu pergunto:
a água é boa para beber? Hábito de quem escolhia os melhores locais dos rios por onde se passava para encher os depósitos de água adicionando os respectivos comprimidos. O empregado responde-me incrédulo pela pergunta: claro que sim.
Toca a beber pela garrafa e a mãe:
Oh Vítor, deita a água no copo. Distracção de quem há muito não usava copo. Pratos lavadinhos como devem ser, garfo e faca, um luxo. Tomo mais atenção e não dou mais barraca.Após um mês de férias, o regresso.Chegada à sede da companhia e, dia seguinte, mato outra vez… que estás fresquinho, diz o capitão.
6 horas da noite o jantar, talvez feijão com toucinho. Os mosquitos, alguns com centímetros de comprimento, caem continuamente na comida. O pessoal empurra-os para a beira do prato e continua a comer. Eu, tendo perdido o hábito, perco também o apetite.
Um mês depois.5h30 da manhã. Levanto-me, saio do abrigo e começo a cismar: hoje é que vai ser.
Bacalhau assado.Efeito Pavlov, começo a salivar.
Tinha trazido comigo,
no regresso de férias, uns 10 kg de bacalhau.Chamo o soldado cozinheiro e digo-lhe: hoje vais assar o bacalhau que eu trouxe e fazes as batatas assadas com a pele.
A notícia espalha-se. Tiros são disparados para o ar em sinal de contentamento.
Durante toda a manhã não se falou noutra coisa,
o almoço é bacalhau, do bom, não daquele bacalhau liofilizado que comíamos de vez em quando.12h00, regresso do local da construção da ponte, distante uns 500 metros da zona de protecção e dos abrigos.
Cozinheiro, o bacalhau?Meu alferes é só mais 5 minutos.Acabamos de nos sentar e…pum, pum, pum.
Começa um ataque em grande escala: granadas de morteiro chovem por todo o lado, tiros de metralhadoras pesadas e de automáticas também. Felizmente o nosso perímetro de segurança é um quadrado com uns 100 metros de lado, protegido com barreiras de terra.
Tiros directos não entravam e as granadas iam passando por cima.O ataque durava há mais de uma hora. Cheiro a pólvora por todo o lado. Estamos a ficar sem munições.
Peço, via rádio, a ajuda da força aérea. Os caças chegam uma hora depois, mesmo quando o ataque terminava, e os atacantes fugiam.
Damos indicação aos caças, via rádio, para onde se tinham dirigido os atacantes. Ouvem-se disparos de roquetes. Tudo tinha passado e felizmente ninguém ficou ferido. Descansamos e regressa a calma.
Ouve-se então um grito de angústia…O BACALHAU?Corremos para a grelha e…
um monte de qualquer coisa preta.Chora-se. Vitor CostaEtiquetas: Episodios Africa, Vitor Costa