Uma Rosa para Maria João Pires
No dizer do conceituado jornalista Fernando Pauloro Neves, no melhor jornal semanário regional de Portugal – O Jornal do Fundão - o Projecto Cultural de Belgais, finou-se. Era previsível, neste nosso Portugal dos Pequeninos. A burocracia e os rigores orçamentais venceram a intemporalidade da música de Mozart, Choupin, Debussy, Schubert ou Bach - digo eu…Sobrou a virtuosa pianista, que pelos quatro cantos do mundo, engrandeceu e engrandece - mesmo com a dupla nacionalidade que pretende assumir – o nosso País.
Com a devida vénia aqui fica, pela pena do citado jornalista, numa edição recente do Jornal do Fundão, o tributo à pianista que lhe é dedicado:“ A pianista é uma mulher franzina, mas com grande força interior. Mal toca no piano e os primeiros sons preenchem o silêncio, agiganta-se, como se libertasse o deus que habita a sua arte criadora. Agora quase se ouve o respirar, que às vezes parece suspenso, tão denso é, de quem assiste à magia desses instantes únicos e definitivos..
É como se de o piano se elevassem os seus amigos Mozart, Choupin, DebussY ou Schubert e subitamente ficassem presos à gente para todo o sempre. As mãos, prodígio da aventura da criação, caminham pelo teclado fazendo corpo à obra. A pianista tem os olhos fechados no fascínio que parece ser a sagração da totalidade do tempo (…) .
A pianista anda pelo mundo semeando arte e poesia. Onde quer que esteja, em Madrid ou em Berlim, em Paris ou em Tóquio, em Roma ou em S. Paulo, em Viena ou em Lisboa, pinta os dias de alegria, com a força e a determinação de uma ave que risca o céu por cima de todos os mares.
A pianista, no seu percurso planetário, confunde-se com o som de uma “humanidade a inventar” e nessa intervenção é capaz de tocar o coração da gente (…). A pianista, de cada vez que abraça o piano, de cada vez que fecha os olhos na combustão da sua arte, de cada vez que cava no fundo da alma o acto criador, dá-se plenamente numa dádiva que só os grandes artistas são capazes de ousar. A música é então esse caminho infinito que lavra o tempo.
A pianista cumpre essa aventura exaltante como um destino. Imagino Mozart com as interpretações de Maria João Pires na cabeça, feliz e grato pelo génio da pianista, e penso se ele pudesse, havia de colher uma rosa vermelha para oferecer como um beijo a quem tanta alegria e beleza já nos deu.”… E é com esta bela prosa que João Pauloro Neves homenageia Maria João Pires.
E eu, ao lê-lo, não posso deixar de recordar o dia em que ela me recebeu no seu camarim, juntamente com a grande artista de teatro Eunice Munhoz, após um memorável espectáculo declamado em homenagem à escritora e poetisa Natália Correia, tendo como pano de fundo os “Nocturnos” de Chopin. A simpatia e simplicidade de ambas cativou-me.
Diz João Pauloro Neves que Mozart ofereceria uma rosa vermelha a Maria João Pires. Mozart vive para além da morte. É transversal aos tempos. E eu, simples mortal, na minha pobre condição terrena, ofereço-lhe um cravo. Um cravo de esperança.
Esperança de que um dia, neste nosso Portugal, haja muitas Quintas de Belgais - naquele que foi um belo projecto que envolvia centenas de crianças na aprendizagem da música - enquanto vamos ouvindo com desgosto e desassossegada paciência o tão belo como soturno Requiem de Mozart.
Quito
Etiquetas: Escritos, Maria João Pires, Quito






