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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

TÓ BRANCO - AMÉLIA CURADO - RUÍ FELÍCIO - PARABÉNS


António (Tó ) Branco

60 Anos

09.10.1949







Amélia (Mela) Curado

66 Anos

09.10.1943



Rui Felício

65 Anos

09.10.1944





O Blog do Cavalinho Selvagem,
deseja-lhes muitos parabéns,
muitas felicidades
e muitos anos de vida.







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sexta-feira, 15 de maio de 2009

E para a sossega não vai um tintinho?

Oh Felicio, bota aí mais um...diz o Chaves.
Do Ri-Ri

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quarta-feira, 8 de abril de 2009

EDUCAÇÕES MODERNAS

Era o primeiro ano do Paulinho na escola para onde entrara há dois meses e já tinha o seu novo computador “Magalhães”.
Andava entusiasmado! Já dominava perfeitamente os jogos, os acessos à internet, tudo!
O pior é que à noite era um castigo para ele se ir deitar. Aquilo já era demais...Certa noite, a mãe proibiu-o de abrir o computador e obrigou-o a ir para a cama. O miúdo fez um berreiro infernal e ela para tentar acalmá-lo resolveu contar-lhe uma história:

- Quando a noite caiu... – começou ela.
O Paulinho nem a deixou prosseguir:
- A noite caiu? Ela magoou-se, mãe?
- Não, meu filho, não foi isso que eu quis dizer. Vou começar de novo:
- Quando a noite apareceu...
De novo o Paulinho:
- Mãe, a noite telefonou a avisar que ia aparecer? Ou ela apareceu do nada, como a mãe diz quando a avó Conceição vem cá a casa?
- Não, Paulinho! Ela não apareceu do nada, a noite aparece sempre, toda a gente está à espera dela ao fim do dia e é sempre bem vinda.
- A mãe quer dizer que a avó Conceição não é bem vinda?
A mãe, já impaciente, perdeu o controle:
- Eu não disse isso, filho! O que eu quero dizer é que a noite quando chega, não fica a olhar para ver se o chão está bem limpo.
Também não fica a olhar para as tuas mãos para ver se as unhas estão cortadas, e, muito menos, não diz que o pai está magro, que não se deve estar a alimentar bem...
Nem que as camisas dele estão muito mal passadas a ferro...
E também não diz que os vidros das janelas estão a precisar de uma limpeza a sério...
De novo, o Paulinho:
- Mãe, parece que a mãe não gosta da avó Conceição! Vou dizer ao pai que não gosta da mãe dele, coitadinha...
- Eu gosto tanto dela, é tão boazinha para mim...
O menino Paulinho começou a chorar, e a mãe, já muito irritada, receando que o filho fosse contar ao marido o que ela tinha acabado de dizer, adopta nova postura:
- Esquece a história, Paulinho, pronto! Não chores...
- Hoje deixo-te ir para o computador, vai lá...Só hoje!
O Paulinho, sem perceber nada, pára de chorar, levanta-se e vai a correr, eufórico, abrir o computador.
Como a mãe esperava, nem pensou mais na história...
Clicou várias vezes no teclado do “Magalhães”, e ficou encantado ao ver correrem no monitor sucessivas imagens de meninas quase sem roupa ou mesmo despidas...

Rui Felicio
08-04-2009

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terça-feira, 7 de abril de 2009

INJUSTIÇAS

O Carlos era um bom homem. Respeitador da lei e das obrigações sociais e conjugais. Mas a sua ingenuidade e credulidade eram muitas vezes motivo de chacota por parte de quem o conhecia bem...
Por isso interrogava-se, e da mesma forma o faziam os seus amigos, por que razão um dia a Fernanda, sua mulher, sem mais nem menos, o acusou de adultério exigindo-lhe o divórcio. A ele, que nunca conhecera sexualmente nenhuma outra mulher para além da Fernanda!
aEstarrecido, e desta vez incrédulo, assistiu no tribunal ao modo como o Juiz permitiu, magnânimo, ao advogado da sua mulher interrogar, alegar, argumentar, ao mesmo tempo que, com ar intimidatório, lá do alto da sua cátedra, impedia o inexperiente e jovem advogado oficioso que tinha sido nomeado para o defender, de desempenhar o seu papel, interrompendo-o a cada palavra sua, desfazendo-lhe todas as tentativas de promover a sua defesa.
A Fernanda enunciou, perante o ar benevolente do Juiz, com inteira liberdade, uma por uma, as acusações de adultério que lhe fizera e quando ele procurou negá-las o Juiz mandou-o calar, dizendo-lhe que já estava suficientemente esclarecido...
O Juiz decretou o divórcio! E por efeito dele, a divisão dos bens do casal, como é de lei. Ainda por cima, todos esses bens tinham sido adquiridos com o seu exclusivo trabalho...
Felizmente não havia filhos, o que evitou a discussão sobre a quem caberia a sua guarda...
Passado algum tempo, o Carlos descobriu que o Juiz que o condenara era, desde há muito, amante da Fernanda e entendeu então a razão da sua rápida condenação sem provas, sem direito a defesa, a partilha dos bens...
Revoltado, congeminou a vingança e certa noite invadiu a casa do Juiz e matou-os aos dois enquanto dormiam. Entregou-se à polícia, confessou o duplo homicídio e voltou a ser julgado no mesmo Tribunal onde antes tinha sido injustiçado, dizendo para os seus botões: - Ao menos agora serei condenado com justiça!
O ingénuo Carlos enganou-se de novo. O Tribunal absolveu-o por considerar que o que ele fez foi para lavar a sua honra e para reparar a injustiça de que tinha sido vítima.
Vá-se lá entender a Justiça!

Rui Felício
07-04-2009

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quinta-feira, 2 de abril de 2009

POLÉMICAS

Mussolini, Hitler e Estaline atingiram o poder de formas diferentes. O primeiro, com o apoio da Igreja e com legitimação maioritária da população, cansada de uma vida miserável e de uma instabilidade política continuada, o segundo, por nomeação presidencial como tentativa de acalmar os seus apaniguados que semeavam o terror nas ruas, o terceiro pela subida a pulso na engrenagem do partido que o guindou a secretário-geral.
Há quem considere essas tomadas do poder, em qualquer um destes casos, como formalmente legítimas, porque obedeceram às regras politicas então vigentes em cada um dos respectivos países.
O mesmo não sucedeu em Portugal, com Salazar, que se alcandorou à chefia politica em resultado de um golpe de Estado militar. Diferente foi também a ascensão ao poder por parte de Franco que, em Espanha, teve que vencer uma sangrenta guerra civil que ele próprio desencadeou contra o regime republicano.
Embora os objectivos fossem semelhantes, ou seja, a instauração de regimes ditatoriais, com a abolição das liberdades e, no extremo, com a eliminação física dos opositores, os percursos foram variados, como se vê.
Curiosamente, porém, a conservação do poder a todo o custo, por parte de qualquer um destes ditadores, assumiu métodos semelhantes. Neles, apesar das falsamente apregoadas diferenças ideológicas, todos pareciam estar de acordo. Todos eles, uns mais descaradamente, outros mais cinicamente, utilizaram o terror para cortarem as veleidades de quem se lhes opusesse.
Chegando à eliminação física, pura e simples, por processos bárbaros, mesmo sanguinários!
Para manterem o povo amordaçado perante as suas barbáries, utilizaram frequentemente, além do terror, também o sofisma.
Quantas vezes não foram os próprios ditadores a semearem o caos, de forma encoberta e maquiavélica, para depois candidamente aparecerem, como se Pilatos fossem, aos olhos da população, convencendo-a de que não lhes era deixada alternativa senão a de sentenciarem o “justo castigo” dos prevaricadores? Em nome da estabilidade...
Utilizem-se todos os meios, mesmo os mais execráveis, para se atingirem os fins. Era a máxima presente nos seus espíritos tortuosos. E o fim último dos ditadores é sempre a concentração nas suas mãos do poder absoluto.
Não consigo deixar de estabelecer um paralelismo, porventura disparatado na opinião de alguns dos que me lêem, entre estas reflexões que a História nos proporciona e o que às vezes se passa no blogue com a aparição dos anónimos.
Cujo objectivo é claramente semear o caos. O caos que pode legitimar, com o inocente apoio de muitos, a implementação das medidas mais castradoras da liberdade de todos.
É um dilema sobre o qual já foram expressas as mais variadas opiniões.
Falta saber, e essa é a razão mais importante, com que intenção os anónimos semeiam o caos.
Até lá, todas as reflexões são possíveis. Não descartemos nenhuma delas...

Rui Felício
02-04-2009

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quarta-feira, 1 de abril de 2009

EXPERIMENTAÇÕES

Eram ambas mulheres novas, mas suficientemente adultas e conhecedoras da vida...
Lidia, uma esbelta mulher, dinâmica, olhar profundo, algo intimidativo, era professora de danças de salão, nos Alunos de Apolo.
A sua aluna Sandra, igualmente bela, distinguia-se dela pela melancolia do seu olhar, pelo ar meigo e distante, pela pacatez, o que a tornava uma apetecível mas quase inacessível mulher.
...........
- Lidia, recebi o teu recado, querias falar comigo?
- Sandra, minha querida, sei que tens gostado muito do curso de dança e das aulas.
- Sim, é verdade!
- Mas estou preocupada contigo! Pareces-me ausente, sem entusiasmo, desinteressada da vida, embora sejas uma das nossas melhores bailarinas - disse inquisitiva a Lidia.
- Desde a morte prematura do meu marido que deixei de apreciar a vida, isso é verdade, respondeu-lhe a Sandra, pensativa, com os olhos no tecto...
De chofre a professora Lidia, disparou:
- Sandra! nunca reparaste no interesse que o Alfredo tem por ti? Só um cego não vê como ele está apaixonado, menina! Vive a vida, não te feches em recordações de momentos que não voltam...
- Mas eu julgava que o Alfredo fosse teu namorado, Lidia! Não sei porquê, mas pensava...
A professora riu-se muito e explicou-lhe que eram apenas bons amigos de há muitos anos. Nada mais do que isso.
- Sandra, mereces e precisas que a tensão sexual encoberta e reprimida em ti se solte! Temos que incentivar isso! - decidiu a Lidia com o seu habitual ar autoritário...
...........
A Lidia fechou a porta, fixou os seus olhos verdes, ávidos e sensuais nos olhos da Sandra. Fê-la estremecer de constrangimento, mas também de curiosidade.
Os corpos de ambas aproximaram-se sem que nenhuma delas tivesse feito nada para essa aproximação. O toque dos dedos da Lidia no cabelo, na cara, nos braços da Sandra pareceu a ambas fruto do acaso, nada que estivesse pensado. Algo invisível fazia os dedos da Lidia deslizarem levemente na pele aveludada da Sandra. Os braços envolviam-na sem lhe tocarem, mas era o suficiente para a Sandra sentir o sangue do seu corpo refluir a uma velocidade estonteante. Ela ainda não percebia se gostava do que sentia ou se tudo não passava de uma ilusão, de uma situação escabrosa segundo os parâmetros da sua educação.
Queria fugir de vergonha, mas a doçura da proximidade da Lidia obrigava-a a permanecer quieta, esperando por mais, por melhor...
A experiente Lidia levou até ao extremo a sua sedução para obrigar a Sandra a soltar os seus desejos contidos e reprimidos desde a morte do marido.
Aproximou os seus lábios entreabertos, dos lábios da Sandra. Mas não a beijou... ficou a milímetros, fazendo-lhe sentir a sua respiração, mas não consumando o beijo...
.......................
E, de repente, sem que a Sandra percebesse a razão, comandou com voz imperativa:
- Agora sai, Sandra! Vai para casa! E pensa se queres ou não aproveitar o amor do Alfredo.
Passou uma noite de insónias, dividida entre como seria ter ao pé de si o belo rapaz que era o Alfredo, e a lembrança das incríveis sensações que a Lidia lhe fez despertar depois de dois anos de viuvez.
No dia seguinte dançou na escola com o Alfredo, por decisão da professora. Sentiu como era bom ser conduzida pelos braços fortes do Alfredo, estremecendo a cada toque mais intimo das suas mãos, do seu corpo...
Algum tempo depois casaram. A professora sentia-se feliz por ter proporcionado o enlace..
Depois de um mês de lua de mel, a Sandra voltou à escola. Queria falar com a Lidia.
- Lidia, vim ver-te...
- Sandra, querida, que bom! Dou-te os meus parabéns. Perdi os meus alunos dilectos, mas estou muito feliz pelo vosso casamento.
A Sandra aproximou-se da Lidia, calada, com um olhar provocante e estranhamente impetuoso. Pegou-lhe na mão e beijou-lha, aquecendo-a, humedecendo-a. Os seus lábios estavam vermelhos, sedentos...
A mulher segura e dominadora que era a Lidia olhou espantada e um tanto assustada, para a irreconhecível Sandra, sem perceber o que ela iria fazer, mas receando adivinhar...
A Sandra aproximou-se mais e sussurrou-lhe ao ouvido:
Cala-te e faz tudo o que eu te mandar. Envolveu-lhe suavemente o corpo, passou os lábios no seu pescoço, acariciou-a longamente e, por fim, deu-lhe o beijo na boca que da outra vez não tinham chegado a consumar.
...........
Depois, explicou-lhe:
Eu queria experimentar para poder comparar entre o teu beijo e o do Alfredo...
Para isso tinha que acabar contigo aquilo que da outra vez não chegámos a acabar...
Sou muito tua amiga, és uma mulher muito atraente, mas ainda bem que casei com ele... – disse a Sandra com uma sonora gargalhada...

Rui Felício
01-04-2009

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terça-feira, 31 de março de 2009

SUCEDEU NO IC1....

Embati num carro em alta velocidade quando tentava atravessar a estrada.
Estive mais de um dia inconsciente.
Soube mais tarde, que sobrevivi graças à prontidão com que o dono do carro, logo depois do choque, imobilizou a viatura, saiu, correu para mim, auxiliou-me e tudo fez com inusitado carinho e dedicação, para que me fossem prestados os primeiros socorros.

Durante todo o tempo em que estive inconsciente, foram-me tratados os ferimentos, fui alimentado a soro, os ténues sinais de vida foram monitorizados passo a passo...
Já livre de perigo, embora ainda adormecido pelos fármacos que me injectaram, o dono do carro levou-me para sua casa, alimentou-me, tratou-me com o maior desvelo.
Isto foi o que me contaram mais tarde.
Mas não foi nada disso que eu pensei, quando finalmente recobrei os sentidos.
Ainda meio atarantado, ao ver-me rodeado de grades, engaiolado, com um prato com comida e um copo com água, a primeira reacção que tive foi:
- Estou preso! Devo ter morto o gajo do carro! Condenaram-me!
Autor: Pardal do Campo

Rui Felício
31-03-2009

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sexta-feira, 27 de março de 2009

TARDE INESQUECIVEL

Como estava combinado, ela foi ter com ele...
Às três da tarde entrou, começou a ficar ansiosa, o coração palpitava mais forte, o sangue rosava-lhe as faces...Enquanto esperava, meio deitada, meio sentada, as mãos dela suavam, as pernas tremiam-lhe, o corpo estremecia-lhe, deixava-a de lábios abertos, sorvendo o ar que lhe faltava, quase sem conseguir respirar.
Quando ele se aproximou e a envolveu, sentiu o bafo quente da sua respiração, olharam-se nos olhos, e ela ficou subitamente tensa, imóvel, com a cabeça revolta por um turbilhão de pensamentos, de medos, de vontades...
A pouco e pouco foi desistindo de resistir e entregou-se nas mãos dele.
Delicada mas firmemente ele envolve-a, invade-a, explora-a e vai-lhe pedindo que nada receie, porque será carinhoso e cuidadoso...
Mesmo assim, ela deixa escapar de vez quando um suave gemido, menos de dor, mais de ansiedade...
Quando ele termina, a paz relaxante fá-la descontrair, o coração gradualmente aquieta-se e minutos depois, recupera o fôlego e levanta-se ainda cambaleante.
Despedem-se, ele abre-lhe a porta, ela sorri-lhe e sai...
Pelo caminho até sua casa ela não consegue deixar de pensar naquela hora de suprema tensão, ainda sente na boca o gosto daqueles momentos inesquecíveis e à noite, deitada sozinha na sua cama, as insónias não lhe permitem tirar da cabeça aquela hora passada na cadeira do dentista.

Rui Felício
27-03-2009

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CURA MILAGROSA

Dezoito aninhos... Na flor da idade, a curvilínea silhueta da Inês atraia os olhares masculinos pela sensualidade das formas. Porém, os que a observavam de perto, viravam a cara com um semblante de desilusão.
A sua pele parecia a superfície de um planeta cravejado pelas bolhas de inúmeros vulcões.
Experimentou de tudo, a conselho das pessoas suas amigas. Mel com açúcar, água de lavar o arroz, óleo culinário, sumo de maçã, tudo!...Sem resultados...
Finalmente foi ao dermatologista, jovem médico recém-formado, que lhe receitou uma enorme parafernália de pomadas para ela besuntar o corpo e a cara.
As pequenas melhoras, quase imperceptíveis, que se notavam passados dois meses, estavam longe de terem resolvido o problema. Farta de gastar dinheiro em pomadas, sem resultados palpáveis, desabafou com uma amiga que lhe disse a rir, com ar de gozo:
- Tu precisas é de arranjar um namorado! Vais ver que isso te passa em três tempos... Voltou ao dermatologista, mostrou-lhe a ineficácia dos medicamentos e, meio envergonhada, mas disposta a tudo para descobrir a cura, contou-lhe o que a amiga lhe tinha dito.
O jovem médico que, desde a primeira vez que a viu, não conseguira esquecer a beleza física daquela rapariga, apesar do problema da pele, confessou-lhe como se sentia atraído por ela e que gostava que ela o aceitasse como seu namorado.
A Inês aceitou o pedido, mais como uma derradeira panaceia para o seu mal, do que propriamente porque o médico a atraísse.
Namoraram, o acne começou visivelmente a melhorar e acabaram por casar. Nos primeiros tempos de casados, a pele da Inês estava praticamente curada!
Mas voltava a piorar sempre que o marido tinha que se ausentar por alguns dias para ir ao estrangeiro a Congressos de Dermatologia.
Quando ele regressava a pele tinha voltado a encher-se de borbulhas. Que logo desapareciam depois de alguns dias de convívio conjugal. A relação causa e efeito começava a delinear-se...
Sempre assim acontecia. Melhorava quando o marido estava em casa e piorava na sua ausência!
Um dia o marido avisou-a que teria que ir a um Congresso na China, mas que desta vez iria estar ausente por quase um mês!
E, no dia da partida, olhava ela o carro dele a afastar-se na esquina da rua, em direcção ao aeroporto, foi surpreendida pelo belo filho do dono do minimercado do bairro que lhe disse:
- Olá Inês, queres provar um dióspiro? O meu pai comprou umas caixas deles que tem lá no supermercado para vender.
- São uma delícia! – disse ele estendendo-lhe um que trazia na mão...
Ela puxou-o bruscamente pelo braço, meteu o rapagão dentro de casa, fechou a porta e disse-lhe, com ar ansioso e provocador:
- Sim quero! Durante um mês, quero todos os dias um, pelo menos!
Quando o marido regressou ao fim de um mês, ficou espantado :
- Desta vez, apesar da minha longa ausência, a tua pele está impecável, sem marcas, sem borbulhas! Pareces estar curada, definitivamente!
- Pois é querido. O que me curou foram os dióspiros que diariamente tenho comido...

Rui Felício 27-03-2009

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quinta-feira, 26 de março de 2009

Mas que Reportagem?

Tendo visto ontem á noite o trabalho de Joaquim Furtado e conhecendo a vivência que o Rui Felicio teve nestes acontecimentos, provocamo-lo para ele levantar a ponta do veu.
E num comentario ali ao lado, assim escreveu:

Escrevi no blog "Camaradas da Guiné" sobre isto.
Lamento que o Cap. Aparício tenha inventado a história do ataque. Não houve ataque nenhum!
A jangada virou-se porque ele e um major que ali estava, desautorizaram o Alf. Diniz responsável pela travessia, intimando-o a fazer embarcar todo o pessoal que estava na margem.
E que representava o dobro da lotação da jangada!
A causa da tragédia foi o excesso de lotação que fez naufragar a jangada.Já tive ocasião de dizer isto na SIC quando esta estação de televisão há uns anos passou um filme sobre o assunto.
E não há documentação forjada nos circuitos militares que me desminta porque eu fui testemunha ocular e vitima. E comigo mais 13 soldados do meu pelotão que ali morreram ingloriamente.
Falo em documentação forjada porque ela serviu de fundamento ao tal filme que falseou a verdade.
Disse na SIC naquela altura que tal documentação, para mim, só comprovava o corporativismo castrense que tentou ilibar o Cap. Aparicio das suas responsabilidades.
Felizmente que esta reportagem agora, do Joaquim Furtado, deu voz a quem lá esteve, permitindo fazer o contraditório.
O que revela a categoria deste excelente jornalista.
...........
Finalmente:

A razão porque o Cap. Aparicio obrigou, contra a sua vonatde, o Alf. Diniz a meter mais gente que a lotação da jangada é muito simples:
Se assim tivesse sido feito, ele, Cap. Aparicio ficaria sozinho na margem sul do rio, com apenas 60 homens.
O seu medo de ser atacado com tão poucos efectivos levou-o a puxar dos galões e dar a ordem de embarque, contrariando todas as regras de segurança.
Disse na SIC que posso viver 100 anos que jamais me desmentirão, porque o dia 6 de Fevereiro de 1969 ficou gravado para sempre, com todos os pormenores do que se passou... Infelizmente.

E por mim chega de tropa...Volto só para esclarecer uma coisa.
As imagens filmadas pelo José Nico são verdadeiras, mas posteriores ao desastre.
Para além de que são imagens de soldados portugueses e não de guerrilheiros do PAIGC.

Por último, quem esteve na guerra sabe que entre o som dos disparos de morteiro e a queda das granadas medeiam cerca de 20 segundos.
A experiência dos militares que estavam na jangada era naquela altura já muita, dado que tinham todos mais de um ano de Guiné, habituados a estas situações.
Se fosse verdade o que diz o Cap. Aparício, a sua reacção não teria sido de pânico como ele tenta fazer crer. Até porque o rigor dos ataques com morteiros de campanha é muito pouco e o mais provável seria que a flagelação nem sequer atingisse o rio. Quanto mais a jangada!
Mas repito! Não houve qualquer ataque!
Nem o PAIGC, experiente como era, se arriscaria a tal acto, sabendo que no terreno estavam cerca de 800 homens e no ar alguns aviões e helicópteros.

Rui Felício

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terça-feira, 24 de março de 2009

CONTO DO VIGÁRIO

Desconhecido de todos, bem posto, transportava-se num topo de gama da Mercedes...
Hospedou-se no Hotel dos Templários e fez constar que era criador de gado e fornecedor de carne de grande qualidade.
Visitou os principais talhos e supermercados de Tomar, Torres Novas, Entroncamento, Golegã e de toda aquela região.
Quase todos lhe encomendavam carne de bovino, não só pela sua inegável qualidade, mas também e principalmente, porque a vendia a preços muito abaixo dos que eram praticados pelos outros fornecedores.
Em pouco tempo conquistou todo o mercado retalhista, tornando-se o único fornecedor contra quem a concorrência nada podia.
A fama do Sr. Torquato espalhou-se e já não havia ninguém que dele não ouvisse falar.
Dirigiu-se ao Banco do Entroncamento ( cujo nome prefiro omitir... ), onde tinha aberto conta, na qual ia depositando diariamente o produto das vendas que fazia.
O gerente do Banco telefonou-lhe e disse-lhe que gostava de o conhecer e de falar com ele. O encontro foi aprazado e o gerente bancário sugeriu-lhe que aplicasse o dinheiro acumulado na sua conta, da qual até então não tinha sido feito qualquer levantamento.
O Sr. Torquato explicou-lhe que muito em breve iria fazer um grande investimento de compra de uns milhares de cabeças de gado, pelo que iria necessitar de reunir todos os fundos disponíveis, incluindo aqueles que estavam ali depositados, que serviriam para sinalizar o negócio.
Aliás, já que ali estava, aproveitava até para propor ao Banco, que lhe concedesse uma garantia bancária para firmar o contrato de compra do gado, dado que o pagamento iria ser feito, mensalmente, ao longo de um ano e o vendedor exigia-lhe essa garantia enquanto toda a verba não fosse liquidada.
O gerente bancário iria propor superiormente a emissão dessa garantia, necessitando apenas que o Sr. Torquato lhe indicasse os bens que possuía como contra garantia.
Os bens eram todos constituídos por cabeças de gado. Não possuía património imobiliário...
Combinaram então visitarem as herdades, que o Sr. Torquato disse terem sido por si arrendadas, e onde apascentava o seu gado.
Começaram, no primeiro dia, por visitar a Herdade da Cardosa na Golegã, onde o gerente pôde ver cerca de duas centenas de bovinos a pastar. Em cada um dos dias seguintes visitaram mais umas dez herdades, constatando o gerente que, em cada uma delas, existia igual numero de cabeças de gado. Ou seja, no total, o gerente bancário viu mais de dois mil animais pachorrentamente a pastar em diversos locais do Ribatejo.
A garantia bancária on first demand, de elevado montante, a favor do beneficiário vendedor, foi emitida sob proposta do gerente do Banco e entregue ao Sr. Torquato.
Da conta que este tinha no Banco foi levantado todo o dinheiro. O Sr. Torquato deixou de ser visto, desaparecendo tão subitamente como tinha aparecido um mês antes.
O beneficiário da garantia, três mese mais tarde exigiu a execução da garantia, por incumprimento contratual definitivo do Sr. Torquato.
O Banco teve de pagar o avultado montante que ela representava e quando foi à procura das cabeças de gado que o gerente tinha visto, percebeu que eram sempre os mesmos duzentos animais que diariamente eram mudados de local. E mesmos esses já tinham sido há muito retirados da Herdade da Cardosa.
Rui Felício
24-03-2009

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segunda-feira, 23 de março de 2009

SUFOCO
( As loucuras das noites do bairro... )
Desde há uns dias que o entretenimento preferido nas noites do Café do Sr. Silva era o da aposta do bolo de arroz. O bolo de arroz , de formato cilíndrico e aspecto fálico possuía uma consistência densa. Feito de uma mistura de farinha, margarina, açúcar e fermento, tornava-se num pasta consistente e encorpada, quando em contacto com a saliva ou com qualquer tipo de bebida que se lhe adicionasse . A mastigação tornava-se difícil, penosa e demorada. Devia comer-se em pequenos pedaços, sob pena de se transformar numa massa semelhante à do cimento , de difícil ou mesmo impossível deglutição. As apostas que há várias noites se vinham repetindo no Café, consistiam em cronometrar o tempo que cada candidato demorava para ingerir completamente um bolo de arroz. Logo que completamente engolido, o apostador teria que abrir a boca e mostrar que nela já não existia nenhum vestígio do bolo de arroz. Parando-se então a cronometragem...
Existia um registo dos tempos gastos em cada aposta. O recorde cifrava-se em 50 segundos e pensava-se que seria muito difícil bate-lo. Mas certa noite, o Murta apresentou-se no Café do Silva pronto a bater o recorde, por margem concludente. Dizia ele, graças a uma técnica infalível que idealizara. Precisaria apenas de meio minuto para engolir um bolo de arroz. As apostas choveram. Ninguém acreditava que o Murta conseguisse cumprir o que prometia. Em vez de ir metendo pequenos pedaços do bolo na boca, meteu-o todo inteiro, de uma só vez. Acto continuo, emborcou um grande copo de água que previamente tinha posto em cima do balcão. Com as bochechas quase a rebentar, ajudava a mastigação com os dedos por fora da cara a pressionarem a massa que se formara dentro da boca.
Os segundos iam passando. ..Os olhos do Murta esbugalhavam-se mais e mais, raiando-se de vermelho.
A pele arroxeava-se, os dedos enclavinhavam-se e o Murta, já em grande aflição procurava ingerir mais água, na tentativa de fazer descer aquela pasta que se lhe bloqueara na garganta.
Subitamente, o corpo do Murta entrou em espasmos e algumas migalhas pegajosas do bolo empastado, saltavam-lhe pela boca, espirravam-lhe do próprio nariz...
Começámos a dar-lhe palmadas nas costas. Alguém lhe enfiou os dedos na boca, extraindo-lhe pedaços daquela massa pastosa. O Murta finalmente conseguiu respirar e recobrar o fôlego. Não pôde engolir o bolo. Além de que demorou nisto quase dois minutos. Perdeu a aposta...
Rui Felício
23-03-2009

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quinta-feira, 19 de março de 2009

TIME-SHARING

Estupendo dia de calor aquele de Abril, pela altura das férias da Páscoa. Com os meus quarenta anos de idade, tinha ido passar dois dias sozinho ao Algarve aproveitando o feriado de sexta-feira santa e a zanga que acabava de ter em casa.
No sábado de manhã saí do Hotel Jupiter onde me tinha hospedado, atravessei o alcatrão e calcorreei a areia da Praia da Rocha. Estendi a toalha e deitei-me de papo para o ar. A meu lado, na toalha, um maço de cigarros e o isqueiro, meus fieis companheiros...
Devo ter passado pelas brasas ao sol e quando acordei, nem queria acreditar na visão celestial que me tapava o sol. Era uma escultural miúda de reduzido bikini, corpo moreno do sol, que, de pé, me pedia desculpa pelo incómodo. Perguntava-me se tinha lume. Era claramente uma pergunta desnecessária. O isqueiro era tão visível em cima da toalha que só um cego não repararia nele.
A visão de uma mulher bonita, ainda por cima seminua, dá a volta à cabeça de qualquer homem, mas quando o ângulo de visão é de baixo para cima, em que os contornos e as curvas femininas ficam ainda mais pronunciadas, e à vista, os recônditos lugares habitualmente escondidos, é de se ficar sem fala...
Foi essa mudez da minha parte que a obrigou a repetir a pergunta. Pressuroso, peguei no isqueiro e estendi-lho...
Agachou-se ao meu lado, acendeu o isqueiro, chupou longamente o cigarro e expeliu uma azulada nuvem de fumo. Sorriu-me e pediu-me para se sentar um pouco.
Andava a estudar e nas férias procurava ganhar algum dinheiro vendendo a utilização de apartamentos turísticos em time-sharing. Eu nem a ouvia, só devorava aquele sorriso jovial, aqueles movimentos ondulantes do seu corpo...
Abriu uma pequena pasta de plástico que trazia consigo, explicou-me que os apartamentos eram de elevado nível, que ficavam ali perto, que o empreendimento se chamava RochaVaumar e que estavam a muito bom preço.
Sem me preocupar muito com os pormenores, perante a sua insistência em saber o que eu achava, lá lhe disse que poderia eventualmente encarar a hipótese de comprar as duas primeiras semanas de Setembro porque eram muito mais baratas que as de Agosto. No conjunto custavam 1.500 contos.
Pediu-me os meus elementos, preencheu a papelada mas eu não assinei. Não lhe disse, mas de facto não estava interessado. E nem queria comprar nada daquilo...Desculpei-me dizendo-lhe que só poderia assinar se tivesse comigo o respectivo meio de pagamento. Ora, como ela facilmente via eu só tinha o fato de banho, a toalha, os cigarros e o isqueiro. Menti-lhe, dizendo-lhe que estava à espera de uma pessoa, o que me impossibilitava de ir ao Hotel buscar o livro de cheques.
- Não faz mal! - disse ela, simpática...
- Se você quiser, combinamos encontrar-nos logo à noite na discoteca Sherazade em Portimão. E tratamos de tudo lá.... Conhece?
Não conhecia mas disse-lhe que sim. Eu já só “via” era uma noitada com aquele borracho...

E o convite dela para nos encontrarmos na “night”, claramente, não era só por causa do negócio, pensava eu ... Maldito defeito este dos homens se acharem uns engatatões..
À noite, meti o livro de cheques no bolso, fui à procura da Sherazade, encontrei facilmente a miúda ( aliás deve ter sido ela que me encontrou... ), e, em menos de um fósforo, fiquei com um contrato na mão e com um cheque a menos na carteira.
Engoliu rapidamente a bebida que eu lhe ofereci, disse-me que adorou ter-me conhecido, pediu muita desculpa por ter que me deixar, mas não podia ficar muito mais tempo que os pais eram muito exigentes quanto à sua entrada em casa à noite.
...................
EPILOGO
Nunca mais vi a miúda, como é óbvio. Passei duas semanas de férias na RochaVaumar ainda nesse ano, emprestei a amigos meus as minhas duas semanas nos dois anos seguintes e, entretanto, a firma dona do empreendimento faliu....
Ficou-me cara a presunção e o estúpido convencimento...

Rui Felício
19-03-2009

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TRAGÉDIA EM COIMBRA

Dia gelado de inverno. A água que escorria de patamar em patamar na velha fonte do Jardim da Sereia, tinha solidificado em pontiagudos fusos que lhe davam uma inusitada e fantasmagórica aparência.
Desde o Liceu D. João III, ao longo da mata do jardim, eu e mais uma dúzia de miúdos fomos recolhendo pequenos paus secos com a ideia de fazermos na Praça da República uma fogueira para nos aquecermos. E, principalmente, para nos divertirmos...
Chegados à Praça empilhámos os paus recolhidos e preparámo-nos para acender o monte de lenha.
Chegou-se ao pé de nós um homem de certa idade e aconselhou-nos a não o fazermos. Um de nós ainda lhe disse, com a esperteza saloia dos 15 anos de idade, que ele não era polícia para nos tentar proibir.
- Não é nada disso! – retorquiu o homem!
- Se me ouvirem, perceberão porque é que vos peço para não acenderem o lume!
............................
E contou-nos o que mais de vinte anos antes se tinha passado naquele mesmo local onde nos aprestávamos para fazer a fogueira:
O programa das Festas da Rainha Santa de 1938 integrava um simulacro de incêndio. Para o efeito foi construído no meio da Praça da República um “prédio” de 7 andares em madeira. Distribuídos pelos andares do “prédio”, colocaram 13 figurantes.
Pelas 21,30 horas do dia aprazado, a base do edifício foi regada abundantemente com gasolina, a que, acto continuo, alguém chegou o fogo. O “alarme” foi dado para que os bombeiros acorressem ao local e extinguissem o incêndio. Tal como previsto...
Sucedeu, porém, que as chamas irromperam com uma enorme velocidade e violência, mais do que os promotores do espectáculo tinham calculado.
O edifício foi devorado pelas chamas em poucos minutos. Quando os bombeiros chegaram já alguns dos figurantes tinham morrido carbonizados, enquanto outros se começaram a lançar, com o corpo em chamas, estatelando-se no chão da praça.
Os bombeiros ainda estenderam uma lona na tentativa de atenuarem a queda dos últimos que se atiraram, mas o dispositivo não era suficientemente forte e os corpos que nela embateram acabaram por sucumbir.
Dos 13 figurantes só houve um sobrevivente!
...........................
Um dos mortos era meu irmão – finalizou o homem...

Rui Felício
19-03-2009

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DISCUSSÕES NO TRÂNSITO

O Alfredo Moreirinhas em comentário aqui no blog referiu que, com o meu tamanho, eu devia ter dificuldade em guiar o meu Mini, naquele distante ano de 1970.
E com isso fez-me lembrar duma cena de trânsito que se passou comigo...
De facto, o banco, quase ao nível do chão, andava todo puxado atrás, os joelhos dobrados subiam ao nível do volante, os braços esticados à Fangio... Mas era giro andar no Mini...
Uma noite, subia eu a Av. da República em direcção ao Saldanha. Já desde o Campo Grande que vinha à disputa com um Volvo 444, em acelerações, guinadas, buzinadelas e travagens constantes. De vez em quando, uns gestos impróprios trocados entre mim e o condutor do Volvo marreco, revelavam, para quem nos tivesse vindo a apreciar, que as coisas tinham azedado, já nem eu sei bem porquê. Coisas do trânsito...
Subitamente, cai um sinal vermelho a meio da Avenida. Ficamos lado a lado. O dono do Volvo, lá do alto, abre a janela e começa a discutir comigo. E eu com ele, claro...Talvez pela minha carinha de menino, acocorado quase junto ao chão dentro do meu carrito, invectivou-me e proferiu a frase que despoletou a minha intempestiva reacção:
- Eh pá não me chateies! Cresce e aparece!
Como uma mola, abri a porta do Mini, lancei uma perna para a rua, depois a outra e lentamente comecei a desenrolar o corpo que não parava de crescer. A quem me visse, pareceria impossível que de dentro de uma caixita daquelas pudesse sair uma “minhoca” tão comprida!
O dono do Volvo durante este tempo fizera a mesma coisa. Também ele saiu do seu carro.
Mas ele era curto...Não devia medir mais do que 1 metro e meio...
Quando ficámos face a face, sei lá se para levarmos a vias de facto a discussão que se arrastava há mais de dois quilómetros, o homem ainda incrédulo com a minha estatura de 1,85 m, começou por sorrir e já às gargalhadas disse-me:
- Desculpe lá aquela do “cresce e aparece”... Não pensei que você tão rapidamente levasse à letra o que eu lhe disse. Mas lá do alto do meu carro pareceu-me que você era tão pequenino encafuado naquela caixa de fósforos...
Respondi-lhe, já com um sorriso:
- Pois é, as aparências iludem. Também eu não imaginei que você fosse tão baixote, empoleirado nesse carrão...
Acabou tudo em bem, felizmente...

Rui Felício
18-03-2009

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TESTE

TESTE
A Zélia foi me apresentada, na Pastelaria Ceuta, pelo Zé Luis Português Borges da Silva naqueles bons tempos de solteiros que passámos em Lisboa.
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Era uma miúda algarvia, divorciada, de olhos e sorriso lindos!
Tivemos uma relação durante quase um ano. Mas como em tudo na vida, ultrapassada a euforia inicial, as rotinas instalam-se e o entusiasmo arrefece. Nunca nos zangámos, mas as dúvidas apareceram e questionei-a se valia a pena prosseguir...
Disse-lhe que achava que ela já não gostava de mim. Ela negou, insistiu que cada vez gostava mais e que as minhas dúvidas não tinham razão de ser...
Mas eu sentia que era diferente...Que a paixão do principio tinha esmorecido, senão mesmo desaparecido por completo. Ela prontificou-se a fazer tudo o que eu quisesse, como teste do seu amor. Eu só tinha que escolher...
Perguntei-lhe se ela por mim seria capaz, por exemplo, como prova do seu amor, de ir a um restaurante mexicano que havia em Lisboa e comer aqueles pratos exóticos que eles lá tinham, tipo formigas, baratas, lagartixas, etc... Claro que lhe disse isto a brincar mas ela levou-o completamente a sério e respondeu-me que podia ser já no dia seguinte. Iríamos jantar ao tal restaurante mexicano e eu escolheria o prato que ela comeria de bom grado para me provar o seu amor.
Embora eu insistisse que tudo não passava de uma brincadeira minha, que foi uma parvoíce que me veio à cabeça, ela fez questão de fazer esse teste.
Ou esse ou outro qualquer era para ela indiferente!
Mesmo achando eu, ser um teste estúpido, combinámos então ir ao tal restaurante.
Escolhi, para mim, um bife com ovo a cavalo. Para ela, um prato designado por “baratas negras fritas no próprio molho, à moda de Zapata”
Observei a Zélia a trincar as baratas, agoniei-me ao ver, de vez em quando, um liquido amarelado que por vezes lhe escorria da boca e que ela pressurosa, enxugava com o guardanapo. O estalar da cascas a partirem-se entre os seus dentes provocava um ruído inquietante...
Pareceu-me ver os restos das patas das baratas, presas nos interstícios dos dentes da Zélia...
Um verdadeiro nojo!
......................
No fim de comer, fitou-me e disse-me:
- Odiei comer esta porcaria. Queres melhor prova do que esta? Ainda duvidas do meu amor por ti?
Não tive outro remédio senão reconhecer que a Zélia tinha levado ao extremo o seu teste e disse-lhe:
- Admito que me enganei Zélia. Não duvidarei mais de ti...
Feliz, a Zélia aproximou os seus lábios dos meus e pediu-me um beijo. Como paga do seu esforço...
Recusei beijá-la com a desculpa de que estávamos em local publico...
Mas na realidade, o que eu não conseguia era esquecer aquelas patinhas de barata ainda entre os alvos dentes da Zélia.
Afinal era o meu amor por ela que já se tinha esvaído... Incapaz de resistir ao mais pequeno teste...
Rui Felício
18-03-2009

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quarta-feira, 18 de março de 2009

O TESOURO

O Brito morava na última Praça do Bairro, perto do Leite Braga. Frequentava, como todos nós, a Escola do bairro.
Rapaz alto, cabelo alourado às ondas, usava muitas vezes um casaco creme tipo africanista, com cinto e cheio de bolsos, impecavelmente engomado, o que o distinguia de todos nós que nos vestíamos com humildes camisolitas de malha e invariáveis bonés na cabeça.
Quase sempre trazia consigo uma grande quantidade de moedas de 2$50 e de 5$00 que nos faziam luzir os olhos de inveja. De facto, não era habitual a criançada do bairro possuir tanto dinheiro. Nem em dias de festa!
Ou porque suspeitava da sua eventual origem ilícita ou porque não queria que os outros miúdos se sentissem inferiorizados, o Professor um dia proibiu o Brito de vir para a Escola com tanto dinheiro.
Certa vez, no recreio, eu e o Zé Bento decidimos jogar ao berlinde. O Zé Bento afundou um dos buracos já abertos de dias anteriores no pátio de terra da escola, para que iniciássemos o nosso jogo.
De repente, à medida que escavava mais fundo, o Zé Bento ia encontrando, primeiro uma, depois outra e mais outra, reluzentes moedas prateadas. Ajudei-o na tarefa e, ofegantes de emoção, sôfregos, íamos encontrando cada vez mais moedas até que reunimos aquilo que para nós era uma pequena fortuna.
A algazarra da miudagem que se apercebeu do achado, atraiu o Brito que, afastando o círculo que se tinha formado à nossa volta, sentenciou:
- Esse dinheiro é meu! Escondi-o aí porque o Sr. Professor não quer que eu ande com ele nos bolsos!
Ninguém estava à espera do ar decidido e definitivo com que o Zé Bento, rapaz pacato e calmo, lhe respondeu sem lhe deixar margem para réplicas:
- Este dinheiro é um tesouro do tempo dos romanos. Quem acha é o dono. Vou dividi-lo com o Felício! Se quiseres vai fazer queixa ao Sr. Professor!
Durante uns dias, ele, eu e muitos dos nossos amigos da escola tirámos a barriga de misérias de rebuçados, gelados, pevides, amendoins, bolos...
Rui Felício
17-03-2009

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sexta-feira, 13 de março de 2009

NO REINO DE POSEIDON

O dia mal amanhecia e o Sol, quase sem se anunciar, invadiu o meu quarto, inundando-o de um calor tépido e de uma luz brilhante e amarelada. Virei-me na cama e escondi os olhos debaixo do lençol. Não queria acordar ainda...
Ouvi uma voz pausada, mas forte, incitando-me a escutá-la. Precisava de me dar um recado!
Olhei em volta. Não vi ninguém... Que voz era aquela?
O Sol percebeu a minha estranheza e esclareceu que era ele próprio que falava comigo.
Ainda devia estar a sonhar, mas, tartamudeando, sempre lhe perguntei de quem era o recado. Respondeu-me que era do Mar, que queria falar comigo. Só para me livrar dele e poder voltar a adormecer, respondi-lhe , resignado e incrédulo, que iria mais logo falar então com o mar.
O sol, cumprida a sua missão, foi-se afastando lentamente por trás de uma nuvem...
Numa leve modorra, aconcheguei-me sob a manta da cama preparando-me para voltar a dormir mais um pouco...
Levantou-se então uma inesperada ventania que abriu de par em par a janela que eu tinha deixado mal fechada...
Irritado e a contragosto, levantei-me e dirigi-me à janela para a fechar. O Vento silvou mais forte e vociferou que tinha um importante recado para me dar. Disse-lhe que já sabia o que era. Que o mar queria falar comigo...
Lacónico, o Vento, admirado com a minha perspicácia, confirmou que realmente era isso que tinha para me dizer... Acalmou e desapareceu...
Preocupado com a minha sanidade mental já não voltei para a cama, ainda sem perceber bem o que se tinha passado...
Vesti-me e resolvi ir até à praia que fica perto da minha casa. Caminhei pela areia e observei o oceano, de um azul esverdeado que sempre me encantou. Não acreditava que o mar falasse comigo. Tudo aquilo que se tinha passado momentos antes em minha casa não podia ser mais do que imaginação...Ainda bem. Afinal eu não estava maluco...
Rodei na areia com a intenção de regressar, ainda absorto nestes pensamentos, quando por entre o marulhar das ondas ouço o Mar dizer-me que precisava de desabafar comigo.
Virei a cabeça e juro que me pareceu ver a sua boca abrir-se entre a rebentação de duas ondas, enquanto prosseguia a sua conversa.

........

- Obrigado por teres vindo - agradeceu o Oceano Atlântico.
- Eu sou, como sabes, o segundo maior e mais importante dos oceanos, logo a seguir ao Pacífico. Banho centenas de ilhas, formo um sem número de Baías, Golfos e Enseadas. As minhas águas alimentam inúmeros seres vivos que delas dependem. Nunca nenhum desses seres me fez mal, sempre me trataram bem...
Mas hoje eu enfrento o mais temível, letal, ardiloso, cruel, insano e destrutivo de todos os meus inimigos desde o início dos tempos: o homem.
Ele arrasa e queima as florestas, derruba as matas, assoreia, obstrui, represa, seca e por fim mata as minhas artérias e veias, que são os rios.
Polui a atmosfera, destrói a camada de ozono, derrete a calota polar, fazendo subir o nível das minhas águas e as dos outros oceanos.
Despeja nas minhas margens os seus restos e os seus dejectos.
Vai-me matando aos poucos...A mim e aos seres que eu acolho no meu seio...
Podia, se quisesse, enfurecer-me e destruir o homem antes que ele me destrua a mim, como tu sabes.
Mas não quero! Prefiro ainda acreditar que podemos ambos viver em harmonia...
.......
E dito isto, o oceano, numa atitude de grandeza, apascentou as suas ondas e a mais doce das suas marés veio até onde eu estava e lambeu-me os pés nus com infinita ternura. Mostrando-me como ele pode ser doce e meigo apesar da vastidão do seu tamanho e da força invencível das suas águas...
- Que posso eu fazer? - perguntei-lhe...
- Conta o que te disse! Não te omitas! Esta destruição incontrolável da natureza tem que acabar!
- Denuncia! Se apenas um dos teus amigos ler esta conversa, terá valido a pena. Cada amigo teu deve ter outro amigo...
Olhei-o fixamente e depois de alguns segundos disse-lhe:
- Muito bem, convenceste-me. Vou contar esta inacreditável conversa.
A grande maioria vai achar que enlouqueci de vez... Mas haverá alguns, mesmo que sejam poucos, que acreditarão...
Rui Felício
13-03-2009

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quinta-feira, 12 de março de 2009

AMORES DE INFÂNCIA

Tinha uns nove anos de idade...
Ela, mais nova, tinha uns olhos vivos que me miravam cúmplices sempre que, pela manhã, eu saía de casa e imediatamente a procurava.
Corria na minha direcção roçando o corpo no meu. As minhas mãos acariciavam-na e sentia que ela gostava.
A boca fina, os pés descalços, o corpo aveludado, tornavam-na a minha grande amiga, confidente dos meus sonhos de criança.
A Maria ouvia, em silêncio atento, tudo o que eu lhe confessava.
Partilhava com ela os meus anseios, as fantasias das minhas brincadeiras.
Entre nós, de há muito, se estabelecera uma relação que mantínhamos em segredo.
Que se fortalecia a cada dia que passava...
Dava-lhe guloseimas que ela saboreava, suavizando o olhar que tanto me enternecia, forma de me mostrar o seu agradecimento.
Entre muitas outras, fora aquela que eu escolhera.
Não porque fosse especialmente bonita. Mas porque o seu olhar era diferente do das outras, porque faiscava quando se cruzava com o meu.
Ela abandonava as brincadeiras com as amigas, correndo para mim logo que me via...

Numa segunda-feira, quando eu regressava da escola para almoçar, estranhei não a ter visto.
A minha mãe chamou-me para almoçar. Entrei em casa, sentei-me à mesa já posta e o meu coração acelerou loucamente.
Ali estava a Maria, nua, o lindo corpo dourado, fumegante, deitada em cima da mesa.
A minha mãe tinha decidido assar no forno a minha galinha de estimação.
Não consegui almoçar...

Rui Felício
12-03-2009

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quarta-feira, 11 de março de 2009

HORRORES

A Santa Inquisição que durante séculos assolou com os seus horrores os povos que de alguma forma estavam sob a jurisdição, não pode ser esquecida. Porque crimes deste quilate não podem ser apagados da memória da Humanidade. Por muitos séculos que advenham.

Vem isto na sequência do que em tempos escrevi neste blog acerca de Galileu Galilei.

Foi nessa altura que em conversa com o Pombalinho este me deu conta da sua estupefacção pelo facto de se ter apercebido da ignorância da juventude acerca desta tenebrosa organização eclesiástica, que aterrorizou os povos com o beneplácito e com a colaboração do poder temporal.

Dá volta ao estômago recordar alguns dos métodos de tortura utilizados e quase não queremos acreditar que a maldade humana possa ter chegado a tais extremos. De facto, como então escrevi, o Homem, na sua desmedida arrogância e sede de poder, auto intitula-se como o ser dominador de toda a vida na Terra, esquecendo-se que, em toda a Natureza, não há um só animal, dito irracional, que alguma vez tenha feito algo tão horrendo contra os seus semelhantes.

Veja-se o requinte de que a mente humana é capaz, quando se trata de inventar os instrumentos e as técnicas para fazer mal:

Pera - Instrumento metálico em formato semelhante à da fruta. O instrumento era introduzido na boca, ânus ou vagina da vítima e expandia-se gradativamente. Era usado para punir, principalmente, os condenados por adultério, homossexualismo, incesto ou "relação sexual com Satã".

Cadeira - Uma cadeira coberta por pregos na qual a vítima era obrigada a sentar-se despida. Além do próprio peso do corpo, cintos de couro pressionavam a vítima contra os pregos intensificando o sofrimento. Noutras versões, a cadeira possuía uma bandeja na parte inferior, onde se depositavam brasas. Assim, além da perfuração pelos pregos, a vítima também sofria com as dolorosas queimaduras provocadas pelo calor das brasas.

Esmaga cabeças - Como um capacete, a parte superior deste mecanismo pressionava, através de uma rosca accionada pelo executor, a cabeça da vítima, de encontro a uma base na qual se encaixava o maxilar. Apesar de ser um instrumento de tortura, há registos de vítimas fatais que tiveram os crânios, literalmente esmagados por este processo. Neste caso, o maxilar, por ser menos resistente, é destruído primeiro; logo após, o crânio rompe-se deixando fluir a massa cerebral.

Mesa de evisceração - O condenado era preso sobre a mesa de modo que mãos e pés ficassem imobilizados. O carrasco, manualmente, produzia um corte sobre o abdómen da vítima. Através desta incisão, era inserido um pequeno gancho, preso a uma corrente no eixo. O gancho, como um anzol, extraía aos poucos os órgãos internos da vítima à medida que o carrasco girava o eixo.

Potro - Uma espécie de mesa com orifícios laterais. A vítima era deitada sobre a mesa e os seus membros, presos por cordas através dos orifícios. As cordas eram giradas com uma manivela, produzindo um efeito de torniquete, esticando progressivamente os membros do condenado.

Submersão - A submersão podia ser usada como uma técnica de interrogatório, tortura ou execução. Neste método, a vítima era amarrada pelos braços e suspensa por uma roldana sobre um caldeirão que continha água ou óleo a ferver. O executor soltava a corda gradativamente e a vítima ia submergindo no líquido fervente.

Empalação - A empalação consistia em inserir uma estaca no ânus, umbigo ou vagina da vítima, a golpes de marreta. Neste método, a vítima podia ser posta "sentada" sobre a estaca ou com a cabeça para baixo, de modo que a estaca penetrasse nas suas entranhas e, com o peso do próprio corpo, fosse lentamente perfurando os órgãos internos

Cremação - Este é um dos métodos de execução mais conhecidos e utilizados durante a inquisição. Os condenados por bruxaria ou afronta à igreja católica eram amarrados a um tronco e queimados vivos. Para garantir que morresse queimada e não asfixiada pela fumaça, a vítima era vestida com uma camisola embebida em enxofre.

Estiramento - a vítima era posicionada na mesa horizontal e os seus membros presos às correntes que se fixavam num eixo. À medida que o eixo era girado, a corrente esticava os membros e os ossos e músculos do condenado desprendiam-se.

Estas são apenas algumas da enorme plêiade de atrocidades que jamais podem ser esquecidas.

Numa altura em que no Brasil a igreja católica excomungou, com o argumento de defesa da vida (!!!), aqueles que realizaram um aborto a uma criança de 9 anos que engravidou de dois gémeos.

Sem uma única palavra de condenação para o autor das repetidas violações dessa criança...

Rui Felício
11-03-2009

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