Estupendo dia de calor aquele de Abril, pela altura das férias da Páscoa. Com os meus quarenta anos de idade, tinha ido passar dois dias sozinho ao Algarve aproveitando o feriado de sexta-feira santa e a zanga que acabava de ter em casa. No sábado de manhã saí do
Hotel Jupiter onde me tinha hospedado, atravessei o alcatrão e calcorreei a areia da
Praia da Rocha. Estendi a toalha e deitei-me de papo para o ar. A meu lado, na toalha, um maço de cigarros e o isqueiro, meus fieis companheiros...
Devo ter passado pelas brasas ao sol e quando acordei, nem queria acreditar na visão celestial que me tapava o sol.
Era uma escultural miúda de reduzido bikini, corpo moreno do sol, que, de pé, me pedia desculpa pelo incómodo. Perguntava-me se tinha lume. Era claramente uma pergunta desnecessária.
O isqueiro era tão visível em cima da toalha que só um cego não repararia nele. A visão de uma mulher bonita, ainda por cima seminua,
dá a volta à cabeça de qualquer homem, mas quando o ângulo de visão é de baixo para cima, em que os contornos e as curvas femininas ficam ainda mais pronunciadas, e à vista, os recônditos lugares habitualmente escondidos, é de se ficar sem fala...
Foi essa mudez da minha parte que a obrigou a repetir a pergunta.
Pressuroso, peguei no isqueiro e estendi-lho... Agachou-se ao meu lado, acendeu o isqueiro, chupou longamente o cigarro e expeliu uma azulada nuvem de fumo.
Sorriu-me e pediu-me para se sentar um pouco. Andava a estudar e nas férias procurava ganhar algum dinheiro vendendo a utilização de apartamentos turísticos em time-sharing.
Eu nem a ouvia, só devorava aquele sorriso jovial, aqueles movimentos ondulantes do seu corpo... Abriu uma pequena pasta de plástico que trazia consigo, explicou-me que os apartamentos eram de elevado nível, que ficavam ali perto, que o
empreendimento se chamava RochaVaumar e que estavam a muito bom preço.
Sem me preocupar muito com os pormenores, perante a sua insistência em saber o que eu achava, lá lhe disse que poderia eventualmente encarar a hipótese
de comprar as duas primeiras semanas de Setembro porque eram muito mais baratas que as de Agosto. No conjunto custavam 1.500 contos. Pediu-me os meus elementos, preencheu a papelada mas eu não assinei. Não lhe disse, mas de facto não estava interessado. E nem queria comprar nada daquilo...
Desculpei-me dizendo-lhe que só poderia assinar se tivesse comigo o respectivo meio de pagamento. Ora, como ela facilmente via eu só tinha o fato de banho, a toalha, os cigarros e o isqueiro. Menti-lhe, dizendo-lhe que estava à espera de uma pessoa, o que me impossibilitava de ir ao Hotel buscar o livro de cheques.
- Não faz mal! - disse ela, simpática... - Se você quiser, combinamos encontrar-nos logo à noite na discoteca Sherazade em Portimão. E tratamos de tudo lá.... Conhece? Não conhecia mas disse-lhe que sim. Eu já só “via” era uma noitada com aquele borracho... E o convite dela para nos encontrarmos na “night”, claramente, não era só por causa do negócio, pensava eu ... Maldito defeito este dos homens se acharem uns engatatões.. À noite, meti o livro de cheques no bolso,
fui à procura da Sherazade, encontrei facilmente a miúda ( aliás deve ter sido ela que me encontrou... ), e, em menos de um fósforo, fiquei com um contrato na mão e com um cheque a menos na carteira. Engoliu rapidamente a bebida que eu lhe ofereci, disse-me que adorou ter-me conhecido, pediu muita desculpa por ter que me deixar, mas não podia ficar muito mais tempo que os pais eram muito exigentes quanto à sua entrada em casa à noite. ...................
EPILOGONunca mais vi a miúda, como é óbvio. Passei duas semanas de férias na RochaVaumar ainda nesse ano, emprestei a amigos meus as minhas duas semanas nos dois anos seguintes e, entretanto, a firma dona do empreendimento faliu....Ficou-me cara a presunção e o estúpido convencimento... Rui Felício
19-03-2009Etiquetas: Rui Felicio