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terça-feira, 13 de abril de 2010

VITOR F. COSTA - Faz 64 ANOS



Vitor M. Fernandes Costa
( Vitinha )

13 de ABRIL






64 Anos.
O Blog do Cavalinho Selvagem,
deseja-lhe muitos parabéns,
muitas felicidades
e muitos anos de vida.

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sexta-feira, 3 de abril de 2009

Filosofando - Atributos do homem e da mulher:


Já ouvi dizer a alguém que nunca se arrependeu daquilo que fez, mas já que se arrependeu daquilo que não fez.
Quantas vezes somos impulsionados a determinados actos que racionalmente pensamos que estão errados.
Um dos mais importante atributos do homem, como ser moral, é a faculdade de autodomínio.
Mas… O coração tem razões que a própria razão desconhece, sobretudo quando estão em jogo as relações entre o homem e a mulher.
A propósito lembro-me um magnífico texto do século passado, sobre atributos do homem e da mulher:
O homem é a mais elevada das criaturas. A mulher, o mais sublime dos ideais.

Deus fez para o homem um trono; para a mulher fez um altar
O trono exalta e o altar santifica.

O homem é o cérebro; a mulher, o coração. O cérebro produz a luz; o coração produz amor. A luz fecunda; o amor ressuscita.
O homem é o génio; a mulher é o anjo. O génio é imensurável; o anjo é indefinível; O homem tem a supremacia; a mulher, a preferência. A supremacia significa a força; a preferência representa o direito.
O homem é forte pela razão; a mulher, invencível pelas lágrimas.
A razão convence e as lágrimas comovem.
O homem é capaz de todos os heroísmos; a mulher, de todos os martírios. O heroísmo enobrece e o martírio purifica.
O homem pensa e a mulher sonha. Pensar é ter uma larva no cérebro; sonhar é ter na fronte uma auréola.
O homem é a águia que voa; a mulher, o rouxinol que canta. Voar é dominar o espaço e cantar é conquistar a alma.
Enfim, o homem está colocado onde termina a terra; a mulher, onde começa o céu.

Vitor Costa

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Após 6 meses seguidos no mato

Norte de Moçambique - 1969
Após 6 meses seguidos no mato a construir picadas, pontes e pistas para aviões, eis que chega o esperado mês de férias.
5 dias de coluna no “pica chouriço” (a pé com varas a picar o terreno por causa das minas) para fazer uns 150 km, dormindo debaixo dos camiões…pelo sim, pelo não, e depois de uma noite no quartel, segue-se mais uma viagem de umas 7 horas de camião, em coluna, até à cidade mais próxima, então chamada de Nova Freixo, distante mais 250 km.
Dormida no aquartelamento e no dia seguinte avião a hélice até Lourenço Marques. Noite no aeroporto e partida no dia seguinte no Boeing 707 para Lisboa. Pais à espera no aeroporto e partida para Coimbra.
Paragem a meio da viagem para comer qualquer coisa. Vem a comida e bebidas e eu pergunto: a água é boa para beber? Hábito de quem escolhia os melhores locais dos rios por onde se passava para encher os depósitos de água adicionando os respectivos comprimidos. O empregado responde-me incrédulo pela pergunta: claro que sim.
Toca a beber pela garrafa e a mãe: Oh Vítor, deita a água no copo. Distracção de quem há muito não usava copo. Pratos lavadinhos como devem ser, garfo e faca, um luxo. Tomo mais atenção e não dou mais barraca.
Após um mês de férias, o regresso.
Chegada à sede da companhia e, dia seguinte, mato outra vez… que estás fresquinho, diz o capitão.
6 horas da noite o jantar, talvez feijão com toucinho. Os mosquitos, alguns com centímetros de comprimento, caem continuamente na comida. O pessoal empurra-os para a beira do prato e continua a comer. Eu, tendo perdido o hábito, perco também o apetite.
Um mês depois.
5h30 da manhã. Levanto-me, saio do abrigo e começo a cismar: hoje é que vai ser. Bacalhau assado.
Efeito Pavlov, começo a salivar.
Tinha trazido comigo, no regresso de férias, uns 10 kg de bacalhau.
Chamo o soldado cozinheiro e digo-lhe: hoje vais assar o bacalhau que eu trouxe e fazes as batatas assadas com a pele.
A notícia espalha-se. Tiros são disparados para o ar em sinal de contentamento.
Durante toda a manhã não se falou noutra coisa, o almoço é bacalhau, do bom, não daquele bacalhau liofilizado que comíamos de vez em quando.
12h00, regresso do local da construção da ponte, distante uns 500 metros da zona de protecção e dos abrigos.
Cozinheiro, o bacalhau?
Meu alferes é só mais 5 minutos.
Acabamos de nos sentar e…pum, pum, pum.
Começa um ataque em grande escala: granadas de morteiro chovem por todo o lado, tiros de metralhadoras pesadas e de automáticas também. Felizmente o nosso perímetro de segurança é um quadrado com uns 100 metros de lado, protegido com barreiras de terra. Tiros directos não entravam e as granadas iam passando por cima.
O ataque durava há mais de uma hora. Cheiro a pólvora por todo o lado. Estamos a ficar sem munições.
Peço, via rádio, a ajuda da força aérea. Os caças chegam uma hora depois, mesmo quando o ataque terminava, e os atacantes fugiam.
Damos indicação aos caças, via rádio, para onde se tinham dirigido os atacantes. Ouvem-se disparos de roquetes. Tudo tinha passado e felizmente ninguém ficou ferido. Descansamos e regressa a calma.
Ouve-se então um grito de angústia…O BACALHAU?
Corremos para a grelha e… um monte de qualquer coisa preta.
Chora-se.
Vitor Costa

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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Mas que Pequeno Almoço

Ano de 1969, norte de Moçambique,
semanas depois da chegada do homem à Lua
Manhã cedo, 5h30, toca a levantar que o Sol também já se ergueu. Levanto-me e sacudo da camisa o pó que tinha caído durante a noite, por entre os troncos das árvores que cobriam o abrigo subterrâneo, onde dormíamos uns 5 ou 6, numa lona estendida sobre a terra.
O abrigo estava situado no alto de um monte a uns cem metros de um pequeno rio, seco nesta época do ano, onde trabalhávamos na construção de uma ponte, necessária para a quando chegasse a época de chuvas
Calço as botas, um bocejo seguido de uma espreguiçadela e esfregar de olhos.
Saio para o exterior. Já está calor, espreito o leito seco do rio e os pilares da ponte em construção.
Fome, nem por isso, porque a ementa é já conhecida e é a mesma de sempre: café com mistura de cevada e chicória (com a variante de só cevada ou só chicória), pão normalmente com 2 ou 3 dias de idade e um tubo de plástico contendo um doce para barrar o pão, do qual nunca me apercebi qual o fruto que lhe deu origem.
Dirijo-me para o local onde estão a distribuir o pequeno-almoço a pensar se não vou substitui-lo por uma cerveja e uma lata de chouriço em conserva para acompanhar o pão.
A uns 20/30 metros de mim está já constituída uma fila, junto à improvisada cozinha, todos de púcaro na mão para receberem o café.
De repente…pum, pum, pum.
Tiros ouvem-se por toda a parte a baterem e a passarem por entre as árvores e folhagens; caem algumas granadas fora da zona de protecção de um muro de terra, construído na noite anterior, a circundar os abrigos subterrâneos.
Reina e estabelece-se uma grande confusão. Vamos rapidamente buscar as armas, que estavam encostadas às árvores.
Meu alferes, não sei onde está o morteiro!
Alguém trás o morteiro, mas onde estão as granadas?! Ninguém sabe!
Escassos minutos depois (que pareceram horas) de ter começado o tiroteio, o silêncio. Quem atacou já tinha debandado. Aparecem as granadas.
Ouço alguém chamar-me com berros de aflição. Meu alferes estou ferido! Deita-se no chão a chorar e aponta para uma grande mancha escura na perna das calças, junto à virilha.
Grito: enfermeiro!
Peço ao soldado mais perto: dá cá a tua faca. Pego na faca, rasgo as calças e procuro o ferimento.
Não vejo nada. Rasgo mais as calças e…nada.
Perplexo e sem saber bem o que se está a passar olho para os bocados rasgados das calças e… café.
Na atrapalhação o soldado tinha entornado o púcaro com o café ainda quente e julgava que tinha sido ferido.
Vitor Costa

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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Os CUCOS....

Como se devem lembrar chamava-se, quando éramos miúdos, (não sei se se continua a chamar), “cucos” aos polícias.
Houve uma época que nos deu na cabeça de gozar os polícias do nosso bairro. A rua onde se localizava a esquadrada era conhecida, naturalmente, pela rua da polícia
Assim, durante uns 3 ou 4 dias seguidos, à noite, para não sermos facilmente identificados, juntámos a maralha e dividíamo-nos em dois grupos.
Um dos grupos ía para a rua de Macau.
O outro grupo colocava-se estrategicamente no lado oposto do bairro, ou seja na rua da Guiné
Avistado o polícia à saída da rua da polícia, um dos grupos gritava bem alto cuco, cuco…cuco
Claro que o polícia, chateado, dirigia-se na direcção da gritaria. A meio da caminhada do polícia, o grupo calava-se, e começava a dispersar. Quando o polícia chegava ao local claro que não encontrava ninguém.
Começava então o outro grupo a gritar cuco, cuco…cuco.
O polícia pensava que era a mesma rapaziada que entretanto se teria deslocado para lá, dava meia volta e dirigia-se agora no sentido oposto.
A meio do percurso repetia-se a cena, isto é, o 2º grupo dispersava e começava o 1º grupo a chamar de novo, cuco, cuco…cuco.
Após várias repetições é que o polícia, cinco pontos abaixo de caloiro, compreendeu que afinal eram dois grupos que o estavam a gozar.
Ao 3º ou 4ºdia de gozo continuado a polícia montou uma armadilha: 
enquanto o polícia de giro se dirigia para a gritaria, como habitualmente, um carro patrulha, que estava escondido numa rua interior, apareceu na rua do 2º grupo
Felizmente que alguém deu pelo carro patrulha a tempo, deu o alarme e…a correr pelos quintais foi um salve-se quem puder. 
Não apanharam ninguém, mas o susto foi grande e o gozo acabou.
Vitor Costa
 

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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Trupes

Rui Felício à frente, seguido pelo Chaves, Fernando Freire, Zé Bento, Feliciano, o Je e outros, lá íamos a pé, capa traçada, depois das 6 da tarde, até à Porta Férrea.Feliciano – recordam-se dele? Obrigou-me a fazer um discurso quando eu era caloiro sobre o tema “incarrapascível”. Não sei o que isso é nem me lembro do que disseSolenemente o Felício, como o chefe da trupe, e como bom estudante de direito era dado a latim macarrónico, proferia as palavras da praxe, em simultâneo com as três pancadinhas na porta, com a moca:
IN NOMEN SOLENISSIMA PRAXIS TRUPE FORMATA EST.
E lá regressávamos ao bairro para ver se apanhávamos um caloiro, animal que, por definição, é sete pontos abaixo de cão e cinco acima de polícia.
Agachados atrás dos arbustos dos quintais das casas, lá esperávamos por algum bicho ou caloiro.
Fizemos uma espera ao, se estou certo, Vítor Soares e agarra que é caloiro (ou será que era bicho?); o Rui Felício, que já vi que tem boa memória, pode confirmar ou não. O que é que és pela praxe? Pergunta (desnecessária) o Rui.
Caloiro, responde o Soares. Então o caloiro não sabe que não pode andar na rua, depois das 6? E, o caloiro é sancionado com o “rapançus”: IN NOMEN SOLENISSIMA PRAXIS RAPANÇUS AD LIBITUM, diz o Rui (era assim?) ao mesmo tempo que puxa pela tesoura e começa a cortar no cabelo do Soares. Seguem-se os outros e, quando chegou a minha vez, já não havia mais cabelo para cortar.
Vitor Costa

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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Ferias dos Cavalinhos

As férias destes cavalinhos não eram tão cor-de-rosa como as da Nela Curado.
Estes rapazes tinham de trabalhar, para além de trabalhar para o bronze e para conquistar as miúdas, tinham de fazer a comidinha, lavar a louça e arrumar a tenda ou a casa.
Imaginam como estava tudo arrumadinho ao fim de 15 dias!

1ª Mira 1963Jorge Lopes, Zé Bento, Vítor Costa, Néné
Combinado cada semana e à vez dois faziam a comida e dois lavavam a loiça e arrumavam.
Ao fim de alguns dias, como a rapaziada saía tarde da praia, por volta das 14 horas, cada um integrado em seu grupo, cheiinhos de fome e sem almoço feito, nova combinação:
Quem chegasse primeiro começava logo a fazer a comida.
Resultado: Começamos todos a chegar a partir das 15 horas, cada um à espera de ter a comidinha feita pelos outros!

2ª Figueira da Foz 1962

Vítor Costa, Eloi, Jorge Lopes e Arnaldo
Alugamos a casa por um mês, que dava para os quatro.
Ao fim de semana, vindos à boleia, chegavam a lá dormir uns doze. Como? Uns no quarto, outros na cozinha, outros na casa de banho (que cheirinho!) e outros no corredor. Mas cabíamos todos nem que fossem 20, embora a confusão fosse mais que muita.
A rapaziada era solidária.
Cada um trouxe umas coisas de mercearia de casa: arroz, batata, conserva, etc.
Um dia alguém se lembra de fazer grão-de-bico. Logo outro disse: não pode ser hoje porque o grão tem de ficar de molho.
Acordado por todos, pusemos o grão de molho a um canto na cozinha.
No dia e nos dias seguintes, com os afazeres da praia, ninguém mais se lembrou do grão.
Ao fim de umas duas semanas alguém reparou que estavam umas belas plantas na cozinha!
Vitor Costa

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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O Canto Académico De Coimbra (Curta Resenha Histórica)

Duma maneira geral, quando se faz referência ao "chamado Fado de Coimbra", o estudante de Medicina Augusto Hilário (1864-1896), surge- nos como a figura central do seu aparecimento. Afirma-se até, que a Serenata Coimbrã terá surgido com ele, no início dos anos 90 do século XIX. Todavia, a Serenata já existia em Coimbra, muito antes do Fado- Serenata de Augusto Hilário, e muito antes do Fado ter chegado a Portugal. Sabe-se que, pelo menos, desde o século XVI, era hábito os estudantes de Coimbra cantarem noite dentro pelas ruas da cidade. Se seria um Canto Serenil, não o podemos, seguramente, afirmar, mas que era um canto de rua, disso temos pouca dúvidas. O que sabemos, também, é que a Serenata sofreu um forte impulso, nos anos 50 do século XIX, graças a dois estudantes: João de Deus (1830-1896) e José Dória (1824-1869).
João de Deus, estudante irregular de Direito, entre 1849/59, cantava temas de sua autoria e canções populares, em serenatas, fazendo-se acompanhar à viola de arame.
José Dória, estudante de Medicina, foi um exímio executante de viola toeira (instrumento popular de Coimbra), acabando por dar à estampa baladas, barcarolas e nocturnos, cantando canções populares da própria cidade e executando, também, música para as fogueiras.

A partir da década de 60 de novecentos, a Serenata estava muito vulgarizada em Coimbra, e por volta de 1880, ela estava verdadeiramente enraizada num duplo filão: o popular e o académico.
- O Popular, cuja serenata estava circunscrita à parte baixa da cidade, geograficamente limitada pela Couraça de Lisboa, Porta de Almedina e Igreja de Santa Cruz.
- O Académico, cuja Serenata se reservava ao território da Alta - espaço físico por excelência da Academia - onde se situava a Universidade.
No entanto, quer estudantes, quer populares, levavam a efeito serenatas fluviais - em ocasiões especiais de eventos a comemorar - no rio Mondego, transportando-se em barcas serranas.

É por finais da década de 90 do século XIX, que surgem alguns "fados" da autoria de Cândido Viterbo (que em 1901 frequentava a Faculdade de Direito), e que estudantes-poetas (como Augusto Gil, António Nobre, Afonso Lopes Vieira e Fausto Guedes Teixeira) dão à estampa quadras que ficaram conhecidos por fados - mas que mais não eram do que cantigas populares - e que tanto os estudantes, como os futricas (povo de Coimbra) e as tricanas (mulheres do povo de Coimbra e arredores), cantavam, no intervalo das danças e das marchas em tempo de fogueiras.

Depois de Augusto Hilário, e já nos princípios do século XX, destaque para Vicente Arnoso (1880-1925) e Alexandre Torres (1886- 1969), seguindo-se-lhe, Manassés de Lacerda (1885-1962) e Alexandre Resende (1886-1953).

Por volta de 1915, António Menano (1895-1969) chega a Coimbra para cursar Medicina, e no seu tempo de estudante, tanto canta autênticos fados de Lisboa, como canções e cançonetas, populares ou eruditas, acompanhadas ao piano, para além de outros temas de autoria, por exemplo, de seu irmão Francisco - que era guitarrista. Nessa altura a Canção de Coimbra encontrava-se numa encruzilhada e Menano era o seu mais fiel representante.

O Canto sofrera, então, um desvio da sua matriz serenil de meados do século XIX para uma forma de cantar ultra-romântica, que fez desaparecer o estilo operático (muito mais consentâneo com a sua génese).
Cantava-se, agora, de uma maneira dolente, arrastada, onde os pianos de voz e o prolongamento do canto surgiram como forma de satisfação do próprio ego do cantor, alimentando-se, assim, o saudosismo e a nostalgia de quem escutava. Estava-se, pois, na presença de um cantar lamejas, doentio, piegas, que dominava o ambiente musical académico de primórdios do século XX.

No início da década de 20, assistiu-se à debandada de Coimbra de cantores como Agostinho Fontes, Roseiro Boavida e Manassés de Lacerda, para além do próprio António Menano (em 1923). Saídas que seriam colmatadas com a chegada daqueles que - juntamente com Menano - iriam constituir a chamada "Geração de Oiro" da Canção Coimbrã, nomeadamente: Lucas Junot (1902-1968, que vem cursar Ciências em 1922), Paradela de Oliveira (1904-1970, que vem para Direito, 1924), Armando Goes (1906-1967, que vem para Medicina, 1924), entre outros. E é nesta geração, e nesta década, que vai pontificar o cantor e poeta do movimento da Presença, Edmundo de Bettencourt (1899-1973). Quando chega a Coimbra, em 1923, para se matricular em Direito, é Artur Paredes (1899-1980) - grande revolucionário da guitarra de Coimbra - que o vai acompanhar, encetando ambos, uma autêntica sapatada naquele cantar sofrido, magoado e triste. E se os acompanhamentos de Artur Paredes são fortes, vigorosos, cortantes, de puxadas rápidas na guitarra, com Bettencourt o canto é muito mais arejado, viril, gritado! Tematicamente vai buscar canções populares dos Açores, do Alentejo e da Beira Baixa, cantando-as - não como o seriam, tal e qual, por um grupo de cantares da região em questão - mas à maneira de Coimbra, recuperando uma forma de cantar que prova a existência nesta cidade de uma toada musical muito própria, regional e local, popular, moldada por um filão académico, que de maneira nenhuma se confunde com qualquer outro género musical - e que nada tinha a ver com o Fado. Com esta sua atitude, Bettencourt consegue personalizar a Canção de raiz coimbrã, ao dar-lhe autonomia e ao reforçar- lhe as diferenças face ao Fado de Lisboa, colocando tudo no seu devido lugar: Fado é Fado - o de Lisboa! Em Coimbra o Canto é outro!

Chegara, assim, a Escola Modernista à Canção Coimbrã!

Quem faz a ponte para os anos 40 são cantores como Lucena Sampaio (que se licenciou em Medicina, em 1932), Manuel Julião, Lacerda e Megre (1909-1992, que estudou Direito entre 1927 e 1932), Serrano Baptista (que estudou em Coimbra entre 1925 e 1932), Artur Mota (n. 1922), que viveu em Coimbra entre 1935 e 1940, e Jorge Gouveia (que frequentou a Universidade de Coimbra entre 1938 e 1942), entre outros.

Na década de 40, embora tenham surgido cantores como Alexandre Herculano (n. 1927), Anarolino Femandes (n. 1926), Alcides Santos (que estudou Ciências entre 1945 e 1948), Napoleão Amorim (n. 1924) ou Augusto Camacho (n. 1924), não foram suficientes para darem um firme seguimento à mensagem poética e estético-musical de Edmundo de Bettencourt! Foi preciso esperar o advento da geração de 50, para que se vivesse um forte ressurgimento desta Canção. Homens como Fernando Machado Soares (n. 1930), Femando Rolim (n. 1931), José Afonso (1929- 1987) e Luiz Goes (n. 1933), são hoje considerados os dignos cantores da 2ª geração de oiro do Canto Coimbrão Académico.

Nos finais dos anos 50, este filão académico sente duas fortes influências: por um lado, a sensibilidade de Machado Soares (que buscava o reencontro com o melhor de Bettencourt/Paredes), e por outro, a de José Afonso (que procurando libertar-se da guitarra como acompanhamento, recupera a viola para essa função, na esteira do que já havia sido feito, nos anos 20, com Armando Goes)! Resultou daqui, o emergir de dois movimentos na década de 60. José Afonso acaba por influenciar toda uma linha progressista - 1º movimento - que tem como bandeira na Academia, Adriano Correia de Oliveira (1942-1982) - que havia chegado a Coimbra em 1959, e que depois de uma fase tradicional, inicia um canto de intervenção político-social. Mas, a geração de 60, não era só uma importante referência no âmbito da contestação académica ao Estado Novo - com homens como António Bernardino (1941-1996), António Portugal (1931-1994) na guitarra, a poesia de Manuel Alegre, e o próprio Adriano, mas também, uma consciência viva quanto à necessidade de renovação da linha tradicional da sua canção - 2° movimento. Esta "urgência" teria eco nos anos 60, com o guitarrista, autor, compositor e poeta Nuno Guimarães (1942-1973), desenvolvendo uma temática musical e poética que se iria reflectir no canto de José Manuel dos Santos (1943-1989) e, também, do próprio António Bernardino, bem como, outros testemunhos vocais para essa renovação da linha mais tradicional: José Miguel Baptista (n. 1942), António Sousa Pereira (n. 1938), Fernando Gomes Alves (n. 1941) e Armando Marta (n. 1940).

Todavia, é nos finais desta década que reaparece Luiz Goes, assumindo com o guitarrista e ideólogo João Bagão, um Novo Canto. Ele foi dos poucos cultores, posteriores a Edmundo de Bettencourt, que melhor soube assimilar a importância da Geração da Presença na redefinição da Canção de Coimbra. Foi ele que, na esteira de Bettencourt, conseguiu revolucionar esta Canção, inovando sem ser ortodoxo, passando a ser, a partir de então, o "farol" depositário de um novo discurso temático- musical.
Surgia, assim, a Escola Neo-Modernista da Canção Coimbrã!

Na década de 70, desde logo uma data nos surge, faseando atitudes, práticas e mentalidades: o 25 de Abril de 74! Se antes da Revolução, ao longo dos anos 60, o canto era predominantemente contestatário (quase não havendo lugar à linha mais tradicional), e o imaginário estudantil abarcava e reflectia-se nas várias crises académicas que caracterizaram esse período, depois de Abril, a contestação académica, ao ressurgimento do "chamado Fado de Coimbra" era nota dominante - o epíteto de "reaccionarismo" adjectivava toda a tentativa de recuperação do Canto Académico! Porém, em 1978, realiza-se o 1º Seminário do Fado de Coimbra, sob a tutela da Comissão Municipal de Turismo da Câmara Municipal, e em 1979 a "Semana Académica" ensaia o regresso da Queima da das Fitas (1980).

O ressurgimento das tradições e do Canto Académico tornou-se inevitável!

Por volta de 1980, existiam em Coimbra duas escolas de aprendizagem do Canto e da Guitarra: a Secção de Fado da AAC, que então nascia (25/6/80), e dava os primeiros passos, e a Escola do Chiado, ligada à Câmara Municipal - que dava assim continuidade a um trabalho de ensino da guitarra encetado por Jorge Gomes (n. 1941), no ACM, a partir de 1974.
Novos cultores surgiram então, que se constituíram em quatro grupos representativos da Geração de 80: o Grupo de Fados e Guitarras de Coimbra (com os cantores Luís Cartario, António Nogueira e Vítor Silva), o Grupo Académico de Fados e Canções de Coimbra (com os cantores António Pimentel e Jorge Cravo), o Grupo Praxis Nova (com os cantores Luís Alcoforado e Rui Moreira), e o Grupo Toada Coimbrã (com os cantores Alcides Esteves e Rui Lucas), entre outros cantores episódicos.

Na História mais recente - Geração de 90 do século XX - importa referir o Grupo Capas Negras (com Luís Alvelos e Eduardo Filipe), o Grupo Alta Medina (com Henrique Garcia), o Grupo Alma Matter (com Carlos Pedro e Nuno Correia), Quinteto de Coimbra (com António Ataíde e Patrício Mendes), o Grupo Verdes Anos (com António Dinis, Rui Seone e Gonçalo Mendes), os Grupos de Fados da Tuna Académica (com José Manuel Beato, Rui Ferreira, Jorge Machado e Rui Pimenta), o Grupo Saudades de Coimbra (com João Barreiros e Henrique Guerra) e o Grupo Coimbra de Sempre (com João Pinto e Nino Pereira), entre outros.Desta forma se pode constatar que esta tradição musical de raiz coimbrã está viva e recomenda-se, continuando geracionalmente a ser renovada por novas vozes e instrumentistas.
Jorge Cravo

Vitor Costa


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quarta-feira, 5 de novembro de 2008

La Tasqué Silva


O Café Silva ( também chamado carinhosamente de Tasqué Silva) era uma parte do agora Café Vasco da Gama.
Lembrar-se-ão alguns dos jogos de poker de dados e dos jogos das damas, de pau, .... porque das outras nem vê-las, (de tão recatadas andavam nessa altura as cavalinhas).
O Sr. Silva, dono do café, (Patrão Silva, como lhe chamávamos), era um dos principais jogadores, estava sempre no vício.
Se entrava algum de nós, clientes de copos de água e de vez em quando uma bica ou um pastelinho, sim! éramos uns tesos,
pedíamos:- Oh Sr. Silva, uma bica
Sr. Silva – Vá tirá-la
Assim se fazia Marketing naquela altura, ....directo ao cliente
Vítor Costa

Nota: Foto do Vitor na idade do copo de agua...ehehehe

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O ANTES E AGORA - VITOR F. COSTA


O Vitor num Baile do Greco em 1966 e agora no baile do GEG (18out08)

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