Acompanhando a catarse colectiva que o
Cavalinho Selvagem parece estar a suscitar, gostaria de relatar um episódio que contextualiza aqueles tempos e que convém não esquecer, até para que os nossos filhos e netos possam ter uma noção do que era o país em que vivíamos.
Na base da pirâmide dos mandantes do país, haviam uns
rapazinhos da Bufa, mais uns tantos da
Pide e da Legião, uns Padres Eugénios, uns sacristães pedófilos, uns senhores da guerra, uns compadres e comadres, uns comendadores, uns lambe botas e outros que tais, tudo gente às direitas, que ia mantendo de pé o edifício do fascismo.
Era este o tipo de gente que íamos encontrando no dia a dia, confrontando-nos com as instituições do sistema, mesmo sem sabermos ainda muito bem como, nem porquê.
E foi contra este tipo de gente que fomos fazendo a nossa aprendizagem cívica e política, escolhendo o lado da barricada que achávamos certo, mesmo se com feitos nem sempre muito ou nada avisados mas, rebeldes, sem dúvida.
Andava nessa altura
no 2º A do D. João III (1960/61). Eram desta turma o
Fernando Branquinho, o Rogério Teixeira, o Fernando Quaresma, entre alguns do Bairro de que me lembro, além de outros como o
José Miguel Júdice, por exemplo.
Durante
as férias da Páscoa fomos acampar com a
Mocidade Portuguesa para a Praia de Mira.
Lembro-me que era
Chefe de Quina, divisa "conquistada" num curso efectuado na Páscoa anterior na Gala,
e partilhava uma canadiana branca com mais cinco miúdos, entre eles, o Fernando Branquinho.Com a excitação da viagem fomo-nos enfiar na tenda depois do jantar, a contar anedotas em surdina. Chovia a cântaros. Sempre pronto para a cowboyada, o
Branquinho lembrou-se de me desafiar para irmos "assaltar" a tenda dos mantimentos à cata dumas conservas, chouriços e outras iguarias, a pensar numa patuscada. E lá fomos, de gatas, debaixo de chuva, com todo o cuidado para não fazermos barulho. Chegámos à tenda e deitámos a mão ao que pudemos regressando à base mais apressados, com a ansiedade. Pelo
caminho tropecei nos esticadores de uma tenda que caiu. E, aflitos, corremos a enfiar-nos na nossa, caladinhos, a ver o que ia suceder.
Sai da tenda tombada um figurão, a rogar pragas e a repor, apressado e encharcado, a tenda em pé.
Era o capelão.Fartámo-nos de rir, baixinho como convinha, e porque tínhamos achado o episódio muito engraçado
resolvemos repetir a graça pouco depois.
Vou eu por um lado e o Branquinho pelo outro e arrancámos os esticadores todos, arrastando a tenda pelo chão.Desventrada a tenda,
fica a descoberto um capelão, deitado num divã com colchão de arame, único a gozar de tal privilégio.
Levanta-se irado e acodem-lhe os grandes do acampamento que o ajudaram a pôr a tenda outra vez em pé enquanto se questionavam sobre quem seriam os responsáveis pelo desaforo.
Quanto a nós, gozámos o prato à grande e lá adormecemos, mergulhando num sono angélico, ao fim de mais algumas anedotas.
No dia seguinte,
uma quarta-feira, toca a alvorada e convocam-nos a todos para a formatura, com cara de poucos amigos.
Um dos nossos colegas de tenda tinha-nos denunciado.A coisa ficou feia.
Isto seria garotice para se resolver com serviço à faxina ou a descascar batatas durante um tempo, ou com um bom par de estalos (naquele tempo ninguém se importava e costumava ser remédio santo) mas, não senhor. A rapaziada do sistema, que chefiava o acampamento, resolveu puxar dos galões e decretar uma punição exemplar.
Além do capelão e de alguns subalternos, estava à frente da parada
um sujeito macambúzio, cujo nome não recordo e que era Comandante de Falange (um dos dois ou três que havia em Portugal). Pois esse sujeito, um calmeirão com uns grandes calçõezorros e pose mussuliniana, pôs-se a arengar à miudagem, num discurso inflamado,
contra os energúmenos que já não respeitavam nada nem ninguém, contra os agentes subversivos, contra os vende-pátrias e contra o demais de que não me lembro mas que era muito feio e mau.E num ápice,
arranca-me as divisas e proscreve-me solenemente a vociferar uma conversa esquisita, como se via nos filmes de legionários. Assim
foi decretada a nossa expulsão daquele acampamento da
"Bufa".
De notar que
eu, naquela altura, teria uns doze anos e o Branquinho catorze.Aquelas bestas, agarraram em dois miúdos, cuja guarda os pais lhes tinham confiado, e recambiaram-nos para
Coimbra, sem se darem ao trabalho de avisar ninguém. E nós lá fomos na carreira do
José Maria dos Santos,
meio assustados, meio divertidos com a palhaçada que nos tinham proporcionado, sem compreendermos muito bem o que nos estava a acontecer. A nossa grande preocupação residia no que dizer aos nossos pais para justificarmos o súbito regresso a casa um dia depois de termos arrancado para o acampamento.
Resolvemos então não voltar para casa. De passagem pela
Pena, aldeia natal do meu primo Elias (já evocado no Blog a propósito da Escola do Professor Franco), resolvemos sair da carreira. Era nossa ideia ficar por ali uns dias, a fazer tempo e regressar na data prevista, como se nada se tivesse passado.
Dirigimo-nos para um pinhal ermo e, de caminho, passámos por uma mercearia aonde
comprámos ovos, batatas, azeite, pão e conservas. Com o prato de alumínio entre duas pedras, com duas ou três pinhas a arder, estivemos uma tarde inteira para fritar meia dúzia de batatas e ovos estrelados. Mas lá fomos conseguindo enganar a fome até que o
meu primo Elias, alertado pelo alvoroço suscitado na aldeia com a visita de tais estranhos forasteiros, veio ter connosco.
Depressa nos integrámos no ambiente jovem da terra, com alguns colegas nossos de Coimbra em férias, passando
uns dias divertidos em alegres patuscadas de adega em adega.No
domingo seguinte já fazíamos parte da equipa de futebol da aldeia, o
Branquinho a guarda-redes e
eu a avançado centro, num jogo contra uma povoação vizinha.
Durante o intervalo do jogo, vem alguém dizer-nos
que o meu pai e a irmã mais velha do Branquinho, com o marido (ou ainda namorado), estavam no campo da bola, à nossa procura. Tinham
ido a Mira visitar-nos, como faziam muitos pais ao Domingo à tarde, tendo sido confrontados com o nosso desaparecimento. Escusado será dizer que o anormal
Comandante da Falange ouviu das boas.Para o meu pai não tinha sido difícil adivinhar aonde poderíamos estar. E, mais contentes por nos terem encontrado do que zangados com a tropelia, lá nos deram um sermão, como se impunha, mas a coisa ficaria por aí.
Semanas depois,
informaram-nos no Liceu que tínhamos sido expulsos da Mocidade Portuguesa. Isto para nós significava que poderíamos ficar a jogar à bola às quartas e sábados à tarde, livrando-nos da seca que era andar a marchar e a fazer outras palhaçadas fardadas no recreio do Liceu. Ficámos por isso muito contentes e agradecidos à rapaziada do sistema.
O mais engraçado disto tudo é que
a PIDE resolveu dar uma importância inusitada ao acontecimento.
Da minha ficha na velha senhora, consta, à cabeça, a propensão desde muito jovem, para actividades subversivas…graças a este episódio.
Éramos de facto muito instruídos. Então a subversão era tu-cá-tu-lá.
D'O Capital já íamos no Livro IV, sob orientação do
Professor Domingos Bintura. E o meu livro de cabeceira já era o " Materialismo ou Empiriocriticismo" (vulgo:
Porrada no Mach…ismo) do nosso amigo
Vladimiro.Uns pândegos, esta rapaziada da PIDE…sinistros, mas pândegos.Texto de Jorge Rocha (Pombalinho).
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