<

segunda-feira, 26 de maio de 2008

A CABEÇA RAPADA DO FELÍCIO

JOSÉ MUÑOZ E ALVIM ...
Ou o culpado de eu ter sido rapado quando era caloiro... )

Histórias do Bairro
26-05-2008
1- OS DESIGNIOS DA TRUPE MONUMENTAL
Uma trupe de grande envergadura foi formada em inicio do ano lectivo de 1963/1964, com a quase exclusiva finalidade de demonstração de força no Bairro Marechal Carmona, porque os Apaches ( les enfants terribles do Calhabé, com o Alvaro, o Pombalinho, o Branquinho, o Beja, o Madeira, o Neto, o Palayo, o Tito Mackay e tantos outros à cabeça ) tinham declarado unilateralmente a independência do Bairro a seguir á linha do comboio, face á praxe que vigorava na cidade toda aquém Santa Clara.
O José Muñoz e Alvim era um dos poucos integrantes dessa trupe, recrutados entre a população estudantil do bairro por conhecerem o terreno e assim melhor saberem circular no seu emaranhado de ruas. A maioria porém eram tipos de outras zonas da cidade.
Por ali andaram a seguir ao jantar não tendo no entanto logrado capturar nenhum bicho ou caloiro, para além de se terem envolvido em variadas refregas com os “guerrilheiros” Apaches.
2. A RETIRADA ESTRATÉGICA
A ineficácia da sua acção levou-os a saírem do bairro cheios de desejos de vingança, procurando outros locais...
Resolveram deslocar-se ao Teatro Avenida, onde por volta da meia-noite acabaria a exibição do filme de Ingmar Bergman “Morangos Silvestres”.
Esperaram, pela saída dos espectadores e foram abordando aqueles que poderiam eventualmente serem bichos ou caloiros, fazendo a sacramental pergunta:
- Que é que você é pela praxe?
Claro que a invariável resposta que iam recebendo, era:
- Não sou nada pela praxe.
Ou
- Sou empregado comercial..
Ou
- Sou funcionário público...
Como os interlocutores se desconheciam mutuamente, o trupista inquiridor nada mais podia fazer senão aceitar a resposta como verdadeira e deixar a pessoa ir em paz.
No meio da multidão que ia saindo do cinema, calhou-me também a mim ser abordado por um dos membros da trupe que eu não conhecia nem ele a mim.
3. – A ABORDAGEM E O CASTIGO
Naturalmente que à costumada pergunta, retorqui com a óbvia resposta:
- Sou empregado do Jorge Mendes ( casa comercial bem conhecida da baixa coimbrã... )
Tal como com os outros que antes tinham sido abordados, mandou-me seguir e afastei-me descontraidamente com alívio.
Sucede que, do meio da multidão de embuçados que cercava o Teatro Avenida, se ouve uma voz de aviso para todos os outros:
- Eh pá esse gajo ( era eu, claro... ) é caloiro!.. Agarra-o!
Fui de imediato detido e levado para o jardim Sá da Bandeira enquanto o chefe de trupe se aprestava para decidir a pena.
O Muñoz, certamente já arrependido por me ter identificado como caloiro, intercedeu junto do Chefe de Trupe para que eu levasse a pena mínima.
O chefe condescendeu e foi me decretada uma tesourada ( apenas uma.. ) por cada um dos elementos da trupe.
Parecia o meu dia de sorte, mas não era.. A trupe tinha mais de duzentos elementos o que se traduziu em duzentas tesouradas no meu belo cabelo.
4. – EPILOGO
No dia seguinte fui ao barbeiro ( aliás cabeleireiro de homens como ele gostava de se intitular... ), com atelier na cave dum prédio da R. Pedro Álvares Cabral perto do GRECO e perguntei-lhe a medo:
- Sr. Silva, veja o que se pode fazer a isto, apontando para o cabelo completamente assassinado e às escadas...
O Sr. Silva, já com a máquina zero na mão, destruiu todas as minhas ténues esperanças:
- Meu amigo, esta máquina faz milagres. Vai ver que sai daqui com o cabelo todo certinho..

A juventude de hoje pode não entender o desgosto. Afinal nos tempos que correm é normal andar de cabeça rapada...
Mas no tempo dos Beatles isso era impensável, não concordam?
NOTA: o Muñoz foi sempre e continuou a ser,
um dos meus maiores amigos no Bairro ( amigo da onça dirão vocês... )

Texto de Rui Felício

Etiquetas: , ,

5 Comentários:

Blogger Alvaro Apache disse...

Pois o Felicio merece que os Apaches ainda lhe dêem apoio moral pelo rapanço que teve.
Os Apaches como lidimos representantes de uma juventude do bairro, consideravam ser necessario uma autodeterminação em relação a um colonialismo que se estava a querer instalar no Bairro.
Os Apaches decretaram então que só aceitavam trupes a passar a linha, desde que chefiadas por Doutores cá do Bairro. Estavam neste caso, o Serginho, o Estrela, o Muñoz e o Ze Alberto.
Varias escaramuças decorreram junto ao urinol do sinaleiro e tambem na casa da linha ao apiadeiro correndo as trupes à pedrada.
Esta nossa posição levou à elaboração de um Decreto para uma Trupe Monumental com o Dux Cynirus Alfonsus a comandar a dita.
Os guerrilheiros Apaches prepararam-se para o confronto porque sabiam da investida. Tivemos como aliados outros indios que na altura viviam no Bairro. Era o pessoal das obras das casas da Previdência que na altura andava em construção.
Como Grande Chefe Apache, dispus os homens da seguinte maneira. Bichos e caloiros onde eu já o era...no meio da estrada em frente ao Centro e ao Abrigo. A trupe aparece vinda da Rua F, vira para a Rua A e investe em duas filas, uma de cada lado nos passeios. Os Apaches não arredaram pé do meio da Rua e a trupe sobe ate à Daniel de Matos, dá meia volta, passa outra vez por nós e foi embora então.
A nossa guarda de honra que os recebeu, estava disposta em losango nos passeios envolventes ao Centro,ao Abrigo, ao Samambaia e num monte de terra que la havia. Os nossos guardadores, era o pessoal das obras, com barrotes, tabuas,ferros e todo um arsenal que ate metia medo.
E assim uma das maiores trupes monumentais de Coimbra, entrou com garras de leão e saiu com fraldas de sendeiro....eheheheh
Esse acto deu uma força aos Apaches com reconhecimento et urbi et orbi.
Eu que era o unico caloiro dos Apaches.....não me tocaram, olhavam de lado e mobilizavam-me com deferencia para as Republicas. Fiz a Boa-Bay-Ela e o Ras-Te-Parta e acabei por ser Republico nos Galifões( mas por outras razões...ehehehe...que eu depois conto).
Um abraço ao Felicio e ao Benjamim a quem rapei. O To Ferrão escapou por pouco porque era bom rapaz. Ao Carlitos Freire, ajudei o irmão Fernando Freire,o Tomané e o Felicio a andar atras dele para o rapar...eheheh

10:46 da tarde  
Blogger Cavalo Selvagem disse...

Tanta gente a espreitar o Blog...e ninguem manda bocas e estas historietas?
Força no dedo, pois ja vejo que nem na lingua ha força.
Não tenham medo.
Cheguem-lhe com força.

12:02 da manhã  
Blogger Alvaro Apache disse...

Ali o malandreco do Jojó quer que eu conte uma daquelas historias dos Apaches, numa incursão à Baixa, em que foram feitas cenas do West Side Story.
Como ja la vão mais de 40 anos, penso que ja prescreveu tudo. Tenho que perguntar aí aos nossos dignos juristas e magistrados, se poderei já confessar os crimes cometidos nesse Bairro em prole da liberdade de expressão e dos ventos do Maio de 68 e de Abril de 69.
A contestação á familia, á igreja, ás autoridades policiais, aos costumes, ao ensino, aos professores e á boa imagem, era ja uma constante nos Apaches.
A seriedade do namoro já era contestada. Não entrava nos Apaches quem tivesse namorada....eheheheh
Penso assim que a geração seguinte, composta pelo JoJo, To Ferrão, Jorge do Cafe, Leitão, Alexandre, to Alvaro e o Carlos Dias ainda foram mais refinados do que os Apaches. Foram estes os seguidores dos Apaches com todas as maluqueiras que depois daí advieram.
Prometo que contarei muitas historietas e que irei puxar a rapaziada dos Apaches aqui para o barulho.

12:23 da manhã  
Blogger ... disse...

O Felicio ficou tão corado quando foi rapado....eheheheh...ate aquelas rosaceas que tinha na cara e que as meninas apreciavam...ficavam vermelhinhas....eheheh
Abraço
Alvaro

1:31 da tarde  
Blogger Fernando Beja disse...

Olá Álvaro
E quando o Pombalinho, para o raparem, o puxaram do vão da porta da rua em que se acoitava? Lembras-te do que ele fez a quem o rapou? (Já me não lembro quem era, mas era alguém do Bairro). Levou um murro, que entrou a voar pela montra do talho ao lado do Vasco da Gama...
Claro que foi para a esquadra e lá veio o pai (era inspector da instrução primária, uma pessoa importante naquele tempo, se bem me lembro)a vir tirá-lo.
O Pombalinho tinha uma força danada!

12:00 da manhã  

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

<< Página inicial

Powered by Blogger

-->

Referer.org