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segunda-feira, 23 de junho de 2008

Histórias do Bairro - FÉRIAS NA NAZARÉ

FÉRIAS NA NAZARÉ
Histórias do Bairro
23-06-2008
Com uma tenda mais suja que branca, que já nos tinha servido no ano anterior, numas férias em Mira, fomos de comboio e à boleia até à Nazaré.
Em vez de ficarmos no parque de campismo, que ficava longe da praia, à entrada da vila, resolvemos acampar no areal junto à foz do rio perto do hotel D. Fuas Roupinho.
Lembro-me que o grupo era constituído pelo Quim Reis, pelo Lau, pelo Branquinho e por mim. Não sei se algum outro também terá ido. Já não me lembro...
Como habitualmente íamos abastecidos de viveres comprados para “apontar” na mercearia do Sr. Nunes. Enquanto durassem, haveria férias.
Dinheiro, muito pouco, como de costume.
Levámos também uma câmara de ar de uma roda de avião que, depois de cheia tinha um diâmetro de cerca de 2 metros.
De manhã cedo levantávamo-nos, comíamos qualquer coisa e lá íamos nós pelo alcatrão da marginal fora a empurrar a câmara de ar até à praia do centro da vila. Iamos vestidos com o que calhasse, alguns de pijama de flanela às riscas...
Como é natural, atraiamos todos os olhares ao longo do percurso. Alguns sorriam, mas a maioria chamava-nos “palecos” que é o piropo com que ainda hoje os nazarenos mimoseiam os forasteiros de quem não gostam.
Já na praia atirávamos a enorme bóia para a água e, empoleirados nela, vagueávamos, horas esquecidas, no sobe e desce das ondas.
Estava em voga na altura o conjunto “Os sheiks” com os quais orgulhosamente éramos confundidos pelas meninas que se desfaziam em sorrisos connosco.
Se nos ouvissem cantar perceberiam que os sheiks eram outros, mas claro que nunca lhes demos essa oportunidade.
À noite íamos para a discoteca que existia no “Sitio”. Ao fim de alguns dias já todos andávamos atrelados cada um a sua francesa que passavam férias na Nazaré.
E aí começaram os problemas...
Os mantimentos e o dinheiro esgotaram-se, mas não queríamos regressar a Coimbra enquanto as nossas francesinhas por ali se mantivessem.
A fome começou a apertar. Algumas vezes íamos à descarga do peixe, feita na areia, depois de lançadas as redes pelos pescadores durante a noite. Sempre conseguíamos que nos dessem uma dúzia de sardinhas ou de carapau enquanto durava a lota.
Mas o Quim Reis e o Lau eram gente de muito alimento e sentiam-se fracos com a falta de carne.
Resolvemos ir ao Hotel Turismo da Nazaré pedir que nos deixassem lavar pratos na cozinha a troco de almoço e jantar, e se possível, algum dinheiro para gastos.
O gerente do Hotel, ao saber que éramos estudantes de Coimbra, foi peremptório:
- Eu também estudei em Coimbra, meus amigos!
- Quanto a lavarem pratos para comerem, nem pensar!
- Estudantes de Coimbra não foram feitos para trabalhar. Podem vir aqui à cozinha todos os dias enquanto por cá estiverem, que o cozinheiro arranja-lhes comida.
E dou-vos um livre trânsito a cada um para entrarem e fazerem o consumo mínimo na discoteca do “Sitio” que é gerida também pelo hotel.
O Quim Reis logo nesse dia comeu um bife que devia andar próximo de um quilo. De tarde deitou-se na praia ao sol, como um lagarto empanturrado, indiferente aos avanços da sua francesa que, ao seu lado, bem procurava alguma atenção da sua parte.
As férias duraram mais uns quinze dias...
E nunca esqueci que os estudantes de Coimbra não foram feitos para trabalhar. Passados todos estes anos e olhando para o percurso de muitos, concluo que o homem lá tinha as suas razões...
Texto de Rui Felício

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9 Comentários:

Blogger Jotta Leitao disse...

Meu caro Rui Felício!
Que maravilha de "prosa"!!!

Esta faz-me lembrar num célebre Braga-Académica...com o Jorge (irmão do Elói)...de capa e batina à boleia.
Domingo de manhã...lá estamos à saída da Estação Velha de dedo em riste para a boleia da "praxe"!
1ª etapa - Mealhada!
2ª etapa - Àgueda!
hum! as horas passam...e o jogo começa às 3 da tarde!
Não desanimamos...a próxima há-de ser até Braga!?
- Vou para os Carvalhos (?)..serve?
Um pouco baralhados, pois nao sabíamos onde fica "Carvalhos"...mas lá entramos na carrinha!
- Porto à vista! As coisas melhoram...mas a fome começa a apertar!
Próxima boleia - Um camionista que ia mesmo para Braga! Hip Hip hurra!
Depois de termos ajudado o motorista a mudar uma roda (furo) mesmo à entrada de Braga...lá chegamos à terra dos 3 pês!!!

Falta mais de meia hora para o começo, ou seja são 2 e picos da tarde: Fome...muita fome e calor! A minha batina, herdada do irmão mais velho, começa a dar de si nos suvacos...
A caminho do Estádio...avistamos uma Pensão Universal(?) - Comidas e Dormidas!
- Tinhamos estudado bem a lição.
Somos estudantes de Coimbra, bla bla bla...
- Só estava na Sala de Repasto...o dono da dita, sujeito bem anafado, bigode e pailto na boca!
- À primeira investida...- Somos estudantes de Coimbra, sai um arroto que nos ia "matando" tal era o bafo a alho!!!
- O Jorge, mais tímido...pensa em sair...mas depois de mais uma insistência, o "javardo"...virando-se para trás, indica-nos a porta da cozinha e vai dizendo!
Bem , bem, vão lá e digam à minha "patroa" se ainda há alguns restos de comida!!!

- Restos??? penso eu...

O Jorge começa com o tique do queixo (julgo que ainda o mantém)!!!

Aqui...nem sei como me contive! Mas a fome...era a fome que nos preocupava!!!

Mas...pensando melhor, disse: esperem aqui que eu vou lá!

Na mesa ainda estava uma taça de fruta (2 bananas e algumas maçãs) e um prato onde estava um belo queijo (seria da Serra!?) pois tinha uma ligadura de pano à volta e uma "palhinhas" de 2 litros e picos...mas vazio!

Troca de olhares e num ápice...lá vem a fruteira, queijo prato e tudo debaixo da minha capa!!!
Em segundos já estávamos a dobrar a esquina da rua!!!

Moral da história!

Não conseguimos ver a 1ª parte do jogo, pois comer queijo à dentada e a fruta toda, como famintos, lá íamos, dando uma olhadela de vez em quando para o jogo...e não parávamos de rir a imaginar a cara do "patrão", quando chegou à sala e não nos viu!!!
Só nao trouxemos a toalha porque tinha uma "medalha" de vinho, bem grande!!!

Nota: O queijo era bem bom..e era da Serra (bons tempos)!

Epoca 1965/66 (?) ou antes..já nao sei bem!!!

VIVA A ACADÉMICA!

José Leitão

7:47 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Velho Felício,

A tua prosa são os meus melhores momentos de luxúria. Não usarei o lugar comum de dizer que tu és como o vinho do Porto. Direi apenas que as tuas crónicas me fazem muito bem ao corpo (fígado) e ao espírito (aqui não identifico nenhuma das suas componentes pois não saberia a qual me referir).

Todos passámos por essa experiência de sermos estudantes de Coimbra que "não foram feitos para trabalhar". Há 32 anos que verifico isso mesmo invariavelmente com os meus queridos alunos da velha Universidade da Lusa a Penas.

Tinha eu os meus 18 anos e fui para o Algarve à boleia com o meu amigo Paulo Oliveira (paulito) que morava ao fundo da rua da Guiné, à esquerda no prédio do Pato (não do Rui, o prédio tem mesmo no jardim um pato).

Apanhámos boleia facilmente num bom carro com um casal já velhote (para aí da minha idade...). Mete conversa e ao saber que éramos estudantes de Coimbra foi ver as simpatias. O homem era alto responsável dos vinhos Borges e foi uma delícia. Almocinho pago em Canal Caveira e no final o homem vai à mala e pergunta: "vocês bebem?". Olho para o Paulito, em buca de ajuda e ... minto: "às vezes!". Aquilo foi uma caixa de rosé, mais outra de tinto. Durou uma noite. Já lá tínhamos à nossa espera o resto do pessoal.

Ainda hoje me interrogo o que teria acontecido se tivesse respondido: "muito!!"


Jó-Jó

7:48 p.m.  
Blogger Jotta Leitao disse...

Oh Rui Felicio! Passa lá o teu comentário para depois da minha "prosa" corrigida! É que no português sou muito rigoroso comigo mesmo e, haviam umas "gralhas".

Um abraço

José Leitão

7:49 p.m.  
Blogger Rui Felicio disse...

Oh Zé, isso é que eu não sei fazer...
É areia demais para a m,inha camioneta

Rui Felício

7:55 p.m.  
Blogger Rui Felicio disse...

Olá miúdo! ( Jó_Jó )

Tivesses tu a experiência aqui do velhote ou do teu irmão Afonso e jamais terias cometido o grave erro de não teres dado a resposta que se impunha:

MUITO!

Quanto ao vinho do Porto, já antes aqui tive ocasião de dizer que a colheita de 44 é um vintage digno de se quedar nas bafientas prateleiras de um museu vinicola.

O Mário Pinheiro de Almeida,faz parte dessa memorável colheita.

Finalmente, advirto-te que a luxuria é um pecado mortal.

Também eu o cometo quando te leio.

Rui Felicio

8:02 p.m.  
Blogger Jotta Leitao disse...

ok Rui!
Fazes um Copy Paste...depois eliminas o texto (ver balde do lixo) no rodapé.

Depois deixas novo comentário!!!
Simples?

Um abraço

José Leitão

Nota: O JoJo (que ate ja foi Reitor da UBI) é que é craque nisto!!!???
Ele pode dar tb uma ajuda1!!

8:07 p.m.  
Blogger Rui Felicio disse...

Meu Caro Zé

Ainda há dias em conversa com o Alvaro, lhe disse que conheci Portugal quase todo á boleia.. Até um mapa de estradas tinha onde anotava cada uma das viagens..

As vezes em pleno Agosto de capa e batina, recomendável para obter boleias com mais facilidade.

8:11 p.m.  
Blogger Rui Felicio disse...

Eh pá, o que voces aprendem nos States!

Fiz tudo como disseste, mesmo sem a ajuda do Jo_Jo

8:12 p.m.  
Blogger Jotta Leitao disse...

OK RUI!
Os BONS alunos, aprendem, ou melhor, assimilam depressa!
Parabéns!
ehehe

Um abraço

José Leitão

Nota: Os mentores deste "Best Seller" andam muito calados...não escrevem nada!
Vamos lá..nem que sejam 16 folhas de 35 linhas!!!???

8:17 p.m.  

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