O INATO E O ADQUIRIDO
Finais de Agosto. Tempo quente. Parado, tipo livro do Garcia Márquez. A modorra no corpo derivada ao cansaço de nada fazer. Esplanada do Abrigo. Regularmente levantamos um olho. Passa uma gaja boa de hot pants.
Um de nós assobia: fui- fuiu! Olho e exclamo indignado “P**** é a minha irmã!!!”: Alguém responde: “E depois? Ontem à noite também não foste às laranjas do Couceiro?”
Boquiaberto primeiro, sem perceber a ligação entre as duas coisas, calo-me depois e volto a fechar os sonolentos olhos. Penso: “chegando a casa tenho que dizer à minha irmã que aquilo não são modos de andar na rua...”.
Mas....
De repente chega o Tó Ferrão. Tinha ido a férias para a longínqua praia da Figueira da Foz. Nós à espera de histórias malucas e ele dispara:
“O Ferrão que vocês estão aqui a ver, já não é o mesmo!”. Silêncio. Perplexidade.
O que terá passado pelas nossas assombradas cabeças ao sol do verão não me lembro. O TF acrescenta: “Sou uma pessoa séria ... e comprometida.”. Mistério resolvido: tinha namorada! Para mim, que era muito puto, aquilo metia confusão.
O que era isso de namorar? Servia para quê? (Lembrem-se que na altura ainda não havia nem a FHM nem a Maxmen. Isto para não falar da Playboy. Que aí, sim senhor, nessas revistas hedonistas, encontramos razões para querer namorar... e muito mais. Ou ser jogador de futebol!) Assim tudo o que metia miúdas me era um pouco estranho. Ele também não explicou. Passámos então às coisas importantes, nomeadamente aos refrigerantes à base de malte. Fomos depois a casa para os pais nos verem vivos e regressámos mais tarde, já noite, ao convívio restrito com o TF.
Desta vez estava o nosso mentor, o Dias e eu. A noite avança e então o TF tem a conhecida angústia do namorado solitário quando a noite chega e o desejo aperta.
E diz o TF: “Tenho que ir ver a Elsa”. E ficámos a saber o nome. E lá fomos.
A casa da dita moça ficava ao fundo da Verde Pinho já a meio caminho da Arregaça. Chegados a bom porto toca de dar sinal. E começamos a berrar eu e o Dias: “Ó Elsaaaaa está aqui o Ferrãoooo!”. E népias. Nada. Nem uma luzinha a acender. Será que era tudo galga e não havia namorada nenhuma e o TF passou as férias mas foi a lamber pausinhos de gelado????
Mas o Tó tomou logo a iniciativa de melhorar a técnica de chamar a atenção: calhaus para cima das janelas. Enquanto a saraivada de pedras voava em direcção às ditas com precisão matemática, nós tratáva-mos do complemento continuando a gritar “Ó Elsaaaa, está aqui o Ferrãoooo.” Do outro lado da trincheira manteve-se o silêncio total. Frustados viemos embora. E eu fiz a dedução brilhante que a haver namorada ela era surda.
Tal facto deu-me uma sensação de alívio e de confiança no mundo: para namorar com o TF só alguém a quem faltaria pelo menos um dos sentidos. Tudo batia certo de novo!
(aviso: isto não se aplica ao casamento que como todos sabemos de experiências várias é muito diferente. No casamento mais vale ter também um sexto sentido! A Talinha mulher do TF que o diga!)
E assim ficaria a coisa, caso não tivesse havido um baile no Centro. Aí, uma amiga da Elsa (cujo nome não recordo mas está na foto da ginástica trazida pela Ana Roque) veio ter com o dizendo que aTó Elsa estava muito magoada.
De novo voltei às minhas interrogações: afinal não era surda e tinha sentimentos! O TF ia argumentando como é seu hábito dizendo que não tinha sido ele mas sim “uns garotos”, ou seja eu e o Dias. O que não era mentira no meu caso, dada a minha idade à época. Quando a amiga já começava a dar sinais de fraquejar, lágrima correndo pela face e tudo caminhava para um final tipo telenovela mexicana, o TF com toda a calma do mundo, vai de elevar a garrafa de cerveja que tem na mão à altura da cabeça da amiga da Elsa e, ao mesmo tempo que vai argumentando, vai despejando a cerveja por cima da dita cabeça.
Um de nós assobia: fui- fuiu! Olho e exclamo indignado “P**** é a minha irmã!!!”: Alguém responde: “E depois? Ontem à noite também não foste às laranjas do Couceiro?”
Boquiaberto primeiro, sem perceber a ligação entre as duas coisas, calo-me depois e volto a fechar os sonolentos olhos. Penso: “chegando a casa tenho que dizer à minha irmã que aquilo não são modos de andar na rua...”.
Mas....
De repente chega o Tó Ferrão. Tinha ido a férias para a longínqua praia da Figueira da Foz. Nós à espera de histórias malucas e ele dispara:
“O Ferrão que vocês estão aqui a ver, já não é o mesmo!”. Silêncio. Perplexidade.
O que terá passado pelas nossas assombradas cabeças ao sol do verão não me lembro. O TF acrescenta: “Sou uma pessoa séria ... e comprometida.”. Mistério resolvido: tinha namorada! Para mim, que era muito puto, aquilo metia confusão.
O que era isso de namorar? Servia para quê? (Lembrem-se que na altura ainda não havia nem a FHM nem a Maxmen. Isto para não falar da Playboy. Que aí, sim senhor, nessas revistas hedonistas, encontramos razões para querer namorar... e muito mais. Ou ser jogador de futebol!) Assim tudo o que metia miúdas me era um pouco estranho. Ele também não explicou. Passámos então às coisas importantes, nomeadamente aos refrigerantes à base de malte. Fomos depois a casa para os pais nos verem vivos e regressámos mais tarde, já noite, ao convívio restrito com o TF.
Desta vez estava o nosso mentor, o Dias e eu. A noite avança e então o TF tem a conhecida angústia do namorado solitário quando a noite chega e o desejo aperta.
E diz o TF: “Tenho que ir ver a Elsa”. E ficámos a saber o nome. E lá fomos.
A casa da dita moça ficava ao fundo da Verde Pinho já a meio caminho da Arregaça. Chegados a bom porto toca de dar sinal. E começamos a berrar eu e o Dias: “Ó Elsaaaaa está aqui o Ferrãoooo!”. E népias. Nada. Nem uma luzinha a acender. Será que era tudo galga e não havia namorada nenhuma e o TF passou as férias mas foi a lamber pausinhos de gelado????
Mas o Tó tomou logo a iniciativa de melhorar a técnica de chamar a atenção: calhaus para cima das janelas. Enquanto a saraivada de pedras voava em direcção às ditas com precisão matemática, nós tratáva-mos do complemento continuando a gritar “Ó Elsaaaa, está aqui o Ferrãoooo.” Do outro lado da trincheira manteve-se o silêncio total. Frustados viemos embora. E eu fiz a dedução brilhante que a haver namorada ela era surda.
Tal facto deu-me uma sensação de alívio e de confiança no mundo: para namorar com o TF só alguém a quem faltaria pelo menos um dos sentidos. Tudo batia certo de novo!
(aviso: isto não se aplica ao casamento que como todos sabemos de experiências várias é muito diferente. No casamento mais vale ter também um sexto sentido! A Talinha mulher do TF que o diga!)
E assim ficaria a coisa, caso não tivesse havido um baile no Centro. Aí, uma amiga da Elsa (cujo nome não recordo mas está na foto da ginástica trazida pela Ana Roque) veio ter com o dizendo que aTó Elsa estava muito magoada.
De novo voltei às minhas interrogações: afinal não era surda e tinha sentimentos! O TF ia argumentando como é seu hábito dizendo que não tinha sido ele mas sim “uns garotos”, ou seja eu e o Dias. O que não era mentira no meu caso, dada a minha idade à época. Quando a amiga já começava a dar sinais de fraquejar, lágrima correndo pela face e tudo caminhava para um final tipo telenovela mexicana, o TF com toda a calma do mundo, vai de elevar a garrafa de cerveja que tem na mão à altura da cabeça da amiga da Elsa e, ao mesmo tempo que vai argumentando, vai despejando a cerveja por cima da dita cabeça.
E assim acabou o namoro do TF. Que noite memorável essa. Resolvi nesse momento o grande dilema filosófico sobre o inato e o adquirido!
Obrigado Tó Ferrão!!
Obrigado Tó Ferrão!!
Texto do Jó-Jó


2 Comentários:
Oh Jojo olha que essa do To Ferrão é parecida com uma do Branquinho com uma pequena no Cidra-Loios, uns anitos antes.
Mas aí foi orquestardo por um Sr. Mario da Rua de Angola onde o Palaio esteve hospedado.
A seita dos Apaches foi ate ao Cidra-Loios assistir aquele namoro no meio das silvas.
Namorava-se como os cagados chocam os ovos. So com o olhar.
O Branquinho zangou-se com os amigos todos e pediu excusa de sr apache e durante 2 meses foi frequentador do Greco.
Arrependeu-se e voltou.
O Pombalinho será o escriba recomendado para contar tal fatalidade.
Já que insistes e embora não me lembre do principal - a conversa do senhor Mário ao telefone - lá vai:
Um dia o Branquinho perdeu-se de amores por uma mocinha que morava no Cidra-Lóios, num casarão a meio caminho entre o Cidral e os Lóios. Era uma daquelas paixões assolapadas de trocas de olhares para baixo e para cima, antes e depois das aulas.
Não me lembro bem como, lá conseguiu arranjar o número de telefone da miúda e lembrou-se de pedir ao Sr. Mário para lhe telefonar, em nome dele, a convencê-la a marcar um encontro. O Sr. Mário era um exímio engatatão do "sopeiral" (perdoem-me o termo, politicamente incorrecto, mas era o que se usava na altura), um homem com uma lábia que só visto. E lá fomos todos, a seita do costume,com o Palaio à frente, convencer o sr. Mário a colaborar na coisa. Só que ele já estava avisado e, fazedo-se desentendido, marca o número e estabelece a ligação com a rapariga. A conversa em si, durante mais de uma hora, de que infelizmente já me esqueci de todo, constituía uma pequena obra de arte, com deixas para as respostas e tudo. Perfeito. No final, depois de ter seduzido a rapariga com grande pinta, marcou o encontro aonde e à hora que Branquinho queria. E lá foi o Branquinho todo contente para casa, sonhar com a amada, antecipando a grande felicidade do encontro amoroso que perspectivava para o dia seguinte.
À hora marcada lá estava o Branquinho, todo bem posto, cabelo desfrizado de véspera com o ferro de engomar,à espera da rapariga.
Quanto ao pessoal estava todo escondido atrás dumas silvas a gozar o prato.
O Branquinho esperou, esperou e nada. Até que a rapaziada resolveu aparecer e desmanchar tudo: Eh, o palerma caíu e tal, entre outras coisas que a miudagem costumava dizer em ocasiões destas.
Acontece que o telefonema nunca tinha existido e tinha sido tão bem simulado que o Branquinho de nada se tinha apercebido.
Lembro-me que se foi embora cabisbaixo, sem dizer uma palavra, e que andou acho que bastante mais do que dois meses sem falar com nenhum de nós, atravessando uma crise existencial profunda. O que para ele era sério, para nós era mais uma brincadeira para a rapaziada se divertir. Só que desta vez a coisa terá ido longe de mais.
Desculpa, Branquinho, esta "ficámos-ta" a dever.
Pombalinho
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