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quarta-feira, 16 de julho de 2008

RECORDAÇÕES DO VELHO CENTRO (PART TWO)

First floor
Subamos a escada e passemos ao andar superior. Aparentemente nada a contar. Tinha uma sala ampla (?), ou seja, o somatório do andar superior das duas casas. Ali íamos encontrar três ou quatro dezenas de cadeiras de madeira, dispostas em fiada e orientadas no sentido Norte/Sul, ou seja, de frente para uma armação em metal presa à parede , onde se encontrava fixada aquela que era uma das maravilhas da tecnologia àquela época: uma televisão.
Não poderei afirmar se teria sido a primeira televisão do nosso bairro, mas que foi das primeiras não tenho dúvida (uma das primeiras foi também em casa das manas Curado, lá na rua de Moçambique - nota do editor). Como não tenho dúvida que foi um deslumbramento. À noite, os sócios afadigavam-se na procura de um bilhete para ter acesso ao “ecran” mágico. Era como se lhes abrisse as portas do mundo…
Cada bilhete custava cinco tostões e se todas as noites a sala estava sempre bem composta, na quarta–feira “rebentava pelas costuras”. Era a “Noite de Teatro”. Nessa altura, o elemento feminino comparecia em peso e o ambiente era de silêncio total, para não se perder pitada do enredo.
Foi de tal forma, que a Direcção do Centro, responsávelmente, mandou fazer uma peritagem à sala, não fosse um dia o chão ir abaixo.
O aparelho de televisão, tal como era, despertava a curiosidade de uns tantos, isto pelo simples facto de ter dois botões. Um para “contrastar”, ou seja, mais claro ou mais escuro, e outro, naturalmente, para o volume. Era um vício. Todos queriam de vez em quando experimentar a sua aptidão na espinhosa tarefa, rodando os ditos botões… enquanto na vasta plateia uns gritavam… “mais claro”… outros clamavam …“mais escuro” .
No volume, os que tinham “ouvido absoluto” de músico diziam… mais baixo, outros cujo o ouvido 24 horas por dia era o silêncio de uma tumba, gritavam … mais alto
Em determinado dia, a RTP transmitiu um jogo de futebol para a Taça dos Campeões Europeus. Jogava o Benfica com um clube qualquer, sendo o Benfica a equipa forasteira. Bem, a sala encheu… encheu… foi ficando “à cunha”. A Direcção do Centro, diligentemente, foi colocando fiadas de cadeiras até que, em desespero, providenciou alguns bancos de cozinha… já que só havia lugar por baixo do suporte metálico onde estava colocada a televisão, que o mesmo é dizer que os retardatários que ali se sentaram, ficaram deitados de costas nas pernas do parceiro de trás, para terem acesso ao “ maravilhoso aparelho”…

Quito – Rua D - (continua)

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