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sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Fui Guarda-Redes de Hoquei em Patins?

Nunca consegui aprender a patinar, embora o tivesse tentado algumas vezes..
Em miudo, joguei hóquei muitas vezes no bairro, mas com troços de couve e com os bueiros a servirem de balizas.
Mas nessas partidas os jogadores não andavam de patins.
Anos mais tarde, em 1967, era eu, juntamente com o Alvaro, dirigente da Secção de Ténis de Mesa da Associação Académica, e por isso convivi bastante com a malta das outras secções desportivas, entre as quais a de Hoquei em Patins.
Havia um grupo muito ligado a essa modalidade na Rua do Brasil. Certo dia, combinaram ir assistir a um jogo que a Académica ia disputar fora, com o Minas da Panasqueira.
Só já me consigo lembrar do Chichorro que integrava esse grupo e que, tal como eu, tambem alinhou nessa viagem de apoio à Briosa.
Saíram de Coimbra uns seis carros, onde viajaram os jogadores, directores e acompanhantes, distribuídos aleatoriamente por cada um deles. Os primeiros dois carros a chegar, transportavam quatro dos jogadores da equipa, um director, os equipamentos e eu próprio.
Enquanto não chegavam os restantes carros, os jogadores foram-se equipando e a hora do jogo foi-se aproximando. O atraso na chegada dos outros quatro carros começou a tornar-se preocupante e com razão.
Naquele tempo não havia telemóveis para sabermos o que se passava. De facto, o jogo iria iniciar-se daí a uns dez minutos e era preciso a equipa apresentar-se com pelo menos cinco elementos.
Faltava um, portanto.
Seria uma vergonha a Académica entrar em campo desfalcada. Repentinamente, dei comigo a ser olhado insistentemente por todos os presentes no balneário.
- Amigo Felício, tens que jogar enquanto o resto da malta não aparece! - disse um
-
Eu nem sei andar de patins! esclareci eu abrindo os braços
- E tenho medo de levar alguma bolada! acrescentei temeroso...
Um a um todos me apresentaram argumentos para me convencerem a alinhar:
- Que para estar à baliza não é preciso saber patinar, que basta estar apoiado nas pontas das botas, que as caneleiras e a máscara me protegeriam das boladas, e, argumento decisivo face ao meu amor à Briosa, que eu certamente não quereria deixar a nossa Académica passar pela vergonha de entrar em campo só com quatro jogadores.
- Poderia até ser considerada uma ofensa ao Clube local e gerar algum incidente desagradável com o público!
Acedi, embora contrariado. O bom nome da minha Académica estava em primeiro lugar.
Entrei no ringue a abarrotar de público, de braço dado com dois dos hoquistas da Académica que, fingindo conversar comigo me iam disfarçadamente amparando, um de cada lado, para eu não me desiquilibrar.
Por ordem do juiz da partida as equipas alinharam no meio do ringue em frente à bancada central e quando o seu apito soou, automaticamente todos os jogadores se perfilaram com os braços estendidos ao longo do corpo, para saudarem a assistência.
Foi nesse exacto momento que, deixando de ter o amparo dos meus colegas, comecei lentamente a deslizar, e cambaleando, ganhei gradualmente maior velocidade em direcção à tabela do campo à minha frente.
Poucos segundos depois estatelei-me contra a vedação, saltando-me stick e caneleiras...
Ainda ouvi um espectador gargalhando, gritar:
- Eh pá os gajos nem sabem andar de patins!
Lá me levantaram e conduziram para a baliza, onde me agachei envergonhado e pedindo aos deuses para que o jogo terminasse depressa.
Joguei a primeira parte toda. Perto do intervalo tinham chegado os outros carros. A mudança de uma roda de um deles que tinha furado, fez atrasar a comitiva.
Sofri apenas cindo golos!
Não sofri mais porque nalguns remates não consegui desviar-me a tempo...
Rui Felicio
12-10-2008

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13 Comentários:

Blogger DOM RAFAEL O CASTELÃO disse...

Esta faz-me lembrar, quando tinha talvez 16/17 anos, quando no auge dos campeonatos mundiais de Hóquei em Patins e qundo Portugal tudo ganhava:Emidio Pinto, Raio, Edgar(olivério Serpa), Jesus Correia e Correia dos Santos, ou ainda Sidónio Serpa, ainda Cipriano-guarda redes.
O Zé Brás,Mais tarde oficial do exército e comamdante da PSP em Coimbra(já falecido), morava ao pé do Rui Piçarra, abria a janela da sala e punha o Artur Agostinho ou Amadeu José de Freitas a relatar os jogos em altos berros para toda a gente ouvir!
Como marcavam muitos golos era uma festa, dávamos saltos, abraçavamo-nos.Era uma festa!
Pois bem nessa altura o entusiasmo pelo Hóquei em patins era de tal ordem, que "determinei" que deviamos formar uma equipa de hóquei no Bairro!
Mas numa coisa estávamos de acordo:
niguém sabia patinar!
Mas dizia eu, temos que começar por algum lado!
Temos que comprar patins!
Alguém disse: o melhor é comprar o equipqmento completo, começando por pedir orçamentos ás casas da especialidade!
Assim foi: Casa Peiroteu e Casa Senna!
E o que é mais curioso é que os orçamentos vieram!
É pá, isto é muita massa, ainda sendo nós uns "tesos"que tinhamos que andar sempre a pé para o liceu, que nem para o eléctrico tinhamos dinheiro!Então eu...!
Mas que importa...eram sonhos de adolescentes....irrealizáveis...mas eramos felizes!
Assim continuamos a ouvir os relatos!!!!

6:30 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Grande Rui Felicio

Já conhecia esta deliciosa e caricata história, mas estava longe de imaginar que tinhas sido o protagonista principal.

Chorei a rir. Posso garantir-te, que na minha 1ª Direcção da Académica com o saudoso Dr. Mendes Silva, esta jornada heróica foi contada numa reunião, mas como tendo sido o guarda redes, um açoreano de nome Charrua.

Ainda subiste mais na minha consideração!

Isto sim, é ser da BRIOSA.

Um abraço

saudações académicas

Tó Ferrão

6:31 p.m.  
Blogger Rui Felicio disse...

Gostava era de saber que é feito do Chichorro.
Esse teve a sorte de não ser o escolhido para guarda-redes porque vinha num dos carros que se atrasaram. Mas se fosse ele o resultado teria sido semelhante porque as suas habilitações patinisticas eram idênticas às minhas.

Tó Ferrão:

O meu academismo é forte e, mesmo à distância da Lusa Atenas, mantém-se vivo.

Mas encontra-se a anos-luz do teu ,que sei que irá contigo para o Além ( lagarto, lagarto, Deus queira que faltem muitos anos!... )

6:44 p.m.  
Blogger Rui Felicio disse...

Advirto que a história não se repetirá...
Como é que nos dias de hoje eu aguentaria estar mais de 20 minutos agachado?

6:48 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Rui Felício,
Dá-me algum tempo que eu digo-te o que é feito do Chichorro. Grande Chichorro, com um senso de humor fabuloso. Tenho uma caricatura feita por ele, quando eu tinha os meus 18/19 anos. Fez um 2º casamento com uma velha paixão e grande amiga minha, mas já se divirciaram!
Também me lembro dessa história, mas não sabia que tinha sido contigo.
O Guarda-Redes que foste substituir, era o Sarmento, que também, ainda vive em Coimbra.
Aguarda que eu vou tentar saber deles.

6:57 p.m.  
Blogger Rui Felicio disse...

Isso mesmo! Agora recordo-me também do Sarmento!

És um gajo completo Alfredo! A Daisy teve sorte.
Mas mesmo assim acho que tu ainda tiveste mais.. Não me esqueço, desde Mira, que a Daisy, Lisboeta de origem, ficou apaixonada por Coimbra mesmo antes de conhecer a nossa cidade.

7:01 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Lembro-me bem dessa história que uma vez me contaste, uns anos depois de ter acontecido, numa viagem que fizémos para a Fig.da Foz.
Nunca a esqueci e já a tenho contado quando se fala de ti.

7:11 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Felicio és o máximo!...
Tens a forma mais divertida para nos fazeres viver as situções,que temos mesmo de rir....
Nela Diasd

1:36 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

E esta fez-me lembrar a terrível derrota dos juniores de andebol de sete da académica por 22-0 frente ao beira mar; não, eu não era guardaredes, mas jogava na equipa com o Lau....

8:54 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Mas eu sabia patinar, e por causa de um jogo entre bueiros na minha praça e na Gil Eanes, ainda parti o rádio do braço esquerdo, que nunca mais ficou direito; e sabem porquê??? porque era o esquerdo....

8:57 p.m.  
Blogger Rui Felicio disse...

O pior foi que deixaste de ouvir música.. Com o rádio partido...

7:21 a.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Não, Felício!
O rádio dele é feito de "Lage"...

4:57 p.m.  
Blogger nelson disse...

Seria giro partilhar estas histórias na net... A Académica tem tido dificuldades, mas mantém vivo o hóquei em patins, ao contrário do que sucede em Minas da Panasqueira :/

Nos primeiros dias de Julho, a Académica vai ter mais um torneio... apareçam por lá para conviver!

5:51 p.m.  

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