REVISITAÇÕES
Senti um desejo irresistível de voltar a ver-te tantos anos
(quantos?)
depois.
Não a entidade dos sonhos, mitológica ou
(hoje)
a do ciber espaço. A física. Essa mesmo. A única incarnação que não permite ilusões. Não queria afinal retornar ao passado
(ninguém volta ao que acabou)
queria apenas sentir se ainda era reconhecido e se conseguia
(sem me perder)
caminhar de olhos fechados por dentro de ti.
Foi um regresso tímido, impreciso, cauteloso, que o coração e a vista não me dão alternativa. Como outrora, busquei auxílio em duas lindas mulheres, habitantes daquele lugar que conheces bem, para que me levassem de novo até ti
(este é o Jó-Jó, dizem por hábito, lembras-te dele?)
e sorriste para mim estranhamente. Fazes-te acompanhar de gatos. Apenas isso: gatos, lentos gatos! Em ti não há pessoas. Minto. Havia duas. Sós como tu, refugiadas na rotina do vazio. Trocamos olhares. Só isso. Minto. Ali uma palavra, quase envergonhada. Por onde andarão as outras? As que
(me)
ainda falam?
Somos agora dois
(há coisas que só podem ser vividas assim)
eu a tentar lembrar-me dos códigos que permitiam que nos fundíssemos num entrelaçado de gestos, risos e choros. Ainda saberás tu como eu era?
Há algum embaraço
(outra vez o tempo)
entre nós. Todo o começo é difícil, dizem. E o recomeço?
Olho. Tento ver as mudanças do tempo. Perdeste um pouco da harmonia de outrora. As formas ligeiramente menos regulares, justapostas como num puzzle estragado. Com novas roupagens
(na aparência?)
rejuvenesceste, mas o padrão perdeu-se.
Estendo os braços em direcção ao exterior visível de ti. Sinto. Marcas
(algumas fundas!)
que procuras disfarçar com novas colorações fortes e que esperas que desapareçam. Pausadamente retiro o que me separa da totalidade de ti. Cheiro. O perfume é outro. Já não vem das árvores, das flores, dos frutos. É denso agora, diria indistinto, sinal quem sabe de
(muitas?)
coabitações. Foste feliz nesses passados todos? Toco-te agora em total liberdade. Ouço. A tua voz quase desapareceu
(para onde foi a sua força?)
reduzida ao seu próprio eco silencioso. Lentamente progrido na exploração interior. Saboreio. É
(sempre!)
o mesmo. Intensos sabores! Vêm de dentro de ti, do lugar onde verdadeiramente habitamos.
Olho. Sinto. Cheiro. Ouço. Saboreio. Eu e tu. Um só corpo.
São breves os momentos de felicidade. Penso. Senti-te só
(quase? muito?)
no regresso ao presente, depois de mais um abandono. Tentas apenas
(como eu)
sobreviver?
Um dia prometo que vou regressar. Nessa altura veste a tua mais bela roupa
(eu sei que não te tinha avisado desta visita)
coloca os mais brilhantes adornos, mas por favor não te maquilhes
(as marcas do tempo devem ser visíveis)
porque quero (re)conhecer-te igual.
Deixa então que os nossos eus se envolvam, que os teus braços se apropriem da minha cabeça
(por trás)
e pressiona-a para ti suavemente. Aproxima a tua boca do meu ouvido e sussurra o meu nome longamente como só tu sabes. Não Jó-Jó
(já não sou criança sabes, entre mim e a morte já nada existe)
mas Jorge, o meu nome de amante. Prometo-te que ouvirás renovados os cheiros e sabores do passado.
Fica marcado para Outubro. Dia 18.
Jó-Jó
Etiquetas: Bairro


12 Comentários:
Jójó? Mio Dios! Qta angustia!!! Pareceu-me, poderá ñ ser! Queria ñ fosse...Jójó? És tao bonito , tao puro , tao real!!! Gostava de te entender, mas é difícil...acabei de te conhecer! Fala, fala com quem te entenda!Se essa pessoa ñ o entende, explica-te com uma Amiga verdadeira! A sério, lindo, estou "down" por te ler assim! Bjs. Até amanha? Espero, tá? Nada tem a ver, né? Beijinhos. Vou esperar ansiosamente para ver esse lindo momento, no 18/10. Vou adorar ve-te feliz-mereces- és um queridao! Juju.
Caro idólatra,
Estou com dificuldade em acompanhar o ritmo do blogue. No domingo à noite deu-me o sono e só tive tempo para algumas tiradas. Não disse quase nada do que queria dizer. E faltou-me dizer muita coisa sobre muitos convivas. Agora, ainda mal conseguimos começar a digerir os ditos afectos daquele fabuloso convívio e já tu estás numa de "imersão" transcendental.
Não importa, companheiro. Soube com muito agrado o muito que já fizeste e que tens muito para fazer e para viver. Sempre um dia de cada vez. O depois de amanhã logo se vê. Força. Estamos contigo.
Um teu "ídolo" da juventude,
O Pombalinho
PS: a propósito da conversa que não chegámos a acabar, sobre o teu agnosticismo (sim, porque naquela festa, e isto para quem nos está a ler, deu para tudo, para comer beber, cantar, filosofar... vomitar, deu para tudo),o livro que te queria aconselhar - se calhar já conheces - dum teu colega cientista,Richard Dawkins, intitula-se The God Delusion. É este o conselho dum velho ateu mililtante. Prefere a edição original. Na edição portuguesa traduzem delusion por desilução e outras parvoíces frequentes em edições portuguesas.
Por favor não ponham o Jó-Jó a escrever só 5 linhas.
É um encanto saborear este texto!
E tu, JuJu, não deixas escapar uma... Registei com o maior agrado que na geração do logo a seguir, os X não sei quantos na escala do Elói, apareceram mulheres como tu: com tanta garra, frontalidade, ciosas do que querem e nas tintas para as más línguas... Porque é que não nascestes uns anitos antes?
Gostei muito de te conhecer. Ainda mais prima do nosso amigo Carlos Alberto, que não vejo há tantos anos.
Tudo de bom para ti.
Pombalinho
Concordo com a Celeste. O JoJO, com textos como este e outros que escreveu anteriormente, por mim, fica liberto de quaisquer limitações.
Dêem-lhe asas que o JoJo merece e nós precisamos.
E eu faço minhas as palavras dos demais.
Não me surpreende a escrita do Jójo.
Como já disse, surpreende-me "o sentir", os afectos, a ternura. Isto é que eu não sabia que ele tinha e que Bom ter ficado a saber. Um beijo, Jójó
Jójó, tornei a ler tudo.
Que diga.....não tenho palavras
Acho que estás completamente aprovado nesta fase de teste de estilo literário. És mesmo bom nos vários modelos que ensaiaste.
Passa rapidamente ao prelo, pá!
Óh Jó-JÓ e agora o que hei-de dizer?
Vai um golinho de Jack Daniels com acompanhamento de Tom Waits?
Continua a sonhar que nós gostamos.
Um abraço.
Li
Reli
Treli
És um criativo com uma imaginação incomensuravel e com aquela capacidade rara de manipular as palavras numa mão cheia de ideias e sentidos que até podem parecer não o ter.
Pouco interesse terá a angustia incerta do àmanhã se o momento é feito de passado.
Não pares de escrever mesmo que sejam aqueles lençois...
É uma exigência.
Que o desencontro seja encontro ainda antes de dezoito de Outubro,para lermos em breve outro texto muito belo.
Li,reli,interiorizei.Obrigada por partilhar com todos nós,um momento perfeito.
Nela Dias
Olá Pombalinho! Já ontem tinha escrito, mas a net foi abaixo( estava fora de casa), e zás foi um ar q lhe deu, antes de carregar ,para publicação. Agradecia as palavras simpáticas, q até já me são familiares, de uma pessoa tão doce como és, mas dizia tb q se tivesse nascido uns anitos antes, se calhar nem me terias ligado um conho, não? Bom e como o prometido, para mim é devido, mandei logo um mail, ao meu primão Carlos Alberto q é outro doce ao q ele resp. com muitas beijocas para mim, q vos abraçasse a todos e q qd cá voltar q é em breve- QUERO VER A MINHA MALTA!- SIC. Bjs. Juju.
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