MONSANTO - Aldeia Historica da Beira Baixa

Há meses atrás, falei-vos de uma atribulada viagem à Serra da Estrela, um dos cartazes turísticos mais recomendados e também mais visitados desta região da Beira Baixa.
Hoje vou recordar Monsanto, aldeia cuja origem remonta ao período paleolítico, escondida nas profundezas deste rincão beirão e que dista cerca de vinte e cinco quilómetros da povoação de Idanha-a-Nova.
A aldeia impressiona, qualquer viajante desprevenido, que, tal como eu, pela primeira vez visite o local vindo de Sul. O acesso faz-se por uma estrada relativamente estreita e de bom piso, e após vários quilómetros de planície, eis que um enorme morro granítico e escuro se ergue na paisagem agreste, e nada como recordar as palavras de Fernando Namora sobre Monsanto…
”de longe a vi e a temi, um dorso de monstro a crescer para nós até tomar conta de quase todo o céu”…e de facto , apenas os telhados de algum casario, nos faz perceber que chegámos ao nosso destino.Subo então por uma estrada sinuosa, até a um pequeno largo fronteiro à igreja paroquial, onde deixo o carro, pois o acesso ao centro da aldeia é feito a pé.
As ruas são estreitas e escuras e chegado ao coração da aldeia viro á esquerda, subindo em direcção ao Castelo de Monsanto. A subida é íngreme, primeiro com casas escavadas na rocha de um lado e de outro, contrastando as que melhor estão conservadas, com vasos e canteiros floridos que lhe alindam a fachada, com outras que se encontram em estado de abandono, algumas já parcialmente destelhadas. Após o último casario, entro agora por um caminho estreito, em terra batida, até que o Castelo, grande e bem conservado, se agiganta aos meus olhos. À esquerda deparo com a Capela de S. Lourenço, do século XII, em mau estado de conservação, bem como algumas sepulturas graníticas de um cemitério “paleo-cristão”.
Por uma porta larga entro no Castelo, e tenho acesso a um largo terreiro. Subo então às ameias, onde a paisagem é deslumbrante e a perder de vista, com arvoredo disperso e alguns lagos a que na região dão o nome de “charcas”.

O monumento é do tempo do Condado Portucalense, tendo sido erigido sob a orientação de Gualdim Pais e entregue posteriormente à Ordem dos Templários, com a missão de repovoar e defender toda a Zona de Idanha-a-Velha e Monsanto.
Após a visita, sento-me agora numa enorme fraga junto às muralhas, e dali, por momentos, contemplo as enormes rochas graníticas de forma arredondada, que em equilíbrio que me parece instável se encavalitam noutras rochas de forma bizarra, com a sua massa granítica de muitas toneladas, e dou por mim a pensar na tragédia de uma daquelas pedras rolar em direcção à aldeia indefesa. Rapidamente tento varrer da minha mente aquela visão apocalíptica, para os meus olhos se deterem agora na aldeia ali aninhada aos meus pés, naquele fim de tarde. Sinto-me longe do mundo e perto de Deus, e quase involuntariamente dou comigo a rezar uma pequena oração, por intenção daquele povo.
Corre agora uma pequena aragem que me afaga o rosto, e resolvo regressar ao centro da aldeia. O percurso faz-se agora com rapidez – para baixo todos os santos ajudam, como diz o ditado popular – e entro num pequeno comércio local, onde entre muitos artigos à venda destaco dois: as marafonas e os adufes. As marafonas são bonecas coloridas feitas de restos de tecido com armação em cruz e genuínas da aldeia, o adufe, de origem árabe, é uma pandeireta quadrangular bimenbranofone, exclusivamente tocada por mulheres.

São célebres as Adufeiras de Monsanto, que no dia 3 de Maio – dia da Festa de Santa Cruz – sobem ao Castelo, tocando com vigor e mestria os adufes, enquanto as suas vozes e cantares inigualáveis, do alto das muralhas ecoam e se perdem na planície sem fim, numa atmosfera que se afigura intemporal, quase de mistério.
Saio do pequeno comércio e passo junto à casa onde residiu Fernando Namora, que ali viveu e exerceu a sua actividade de médico-escritor. As suas experiências de Monsanto, estão relatadas nos livros “Retalhos da vida de um médico” e “A Nave de Pedra”…
Por uma azinhaga estreita encontro-me agora junto da Torre de Lucano, construída no século XIV sobre um enorme penedo e se de debruça sobre o abismo, qual sentinela avançada da aldeia a espiar os movimentos da campina. Detenho-me agora a olhar para o seu campanário e a réplica do galo de prata que foi conferido à aldeia em 1938, como a Aldeia Mais Portuguesa de Portugal, bem como o relógio da velha Torre, que de forma lenta e compassada, vai marcando o ritmo vagaroso de um tempo sem tempo.
Volto-me agora para regressar e um habitante da aldeia dirige-se a mim. Sem mais rodeios pergunta-me a proveniência, até que nos sentamos junto da Torre, onde com as mãos cruzadas sobre a bengala que lhe sustenta o peso de nove décadas de vida, me vai falando de um passado remoto, das privações e da fome dos anos 40, como que se justificando da sua dupla função de guarda republicano e de contrabandista nas horas vagas, para complementar o seu magro salário e poder alimentar o rancho de filhos que a mulher lhe ofereceu pela vontade de Deus, amparados com desvelo no regaço da curiosa em funções de parteira, uma espécie de comadre que Namora também recorda.

Despedimo-nos então com um longo aperto de mão, olhando-nos nos olhos e percebendo intimamente cada um de nós, que aquele é um adeus definitivo, pois nunca mais nos voltaremos a ver.
Regresso agora , sem que a São, que se “assustou” com a subida ao castelo e ficou na aldeia, entre na pequena farmácia e cumprimente a jovem farmacêutica residente.
Metemo-nos no carro e serpenteamos agora monte abaixo, entre aquele pesadelo de fragas, de novo citando Namora, para o automóvel progredir agora ágil e solto pela planície, com Monsanto a ficar para trás, plantada no meio da campina. Não resisto e paro de novo. Saio cá fora e fico por momentos apreciando aquela simbiose perfeita da natureza com o casario, e pela última vez olho a Torre de Lucano, negra e altiva, guardiã da aldeia e desafiando os séculos, como que despedindo-se de mim e agradecendo a visita, e não posso de deixar de sentir um enorme respeito por aqueles meus irmãos, que vivem naquele Portugal profundo, portugueses como eu, um povo heróico…
Quito
Etiquetas: Aldeias Historicas, Monsanto, Quito


15 Comentários:
Pela sua privilegiada localização, pela sua história e pela paisagem de largos horizontes que do seu castelo se alcança, a aldeia de Monsanto é uma terra de caracteristicas únicas do nosso país.
Visitei-a mais que uma vez há muitos anos quando estive a prestar serviço militar no quartel de Penamacor que agora já não existe e que á data era para onde iam refractários e opositores ao regime.
Ficou-me gravada para sempre na memória uma casa inteiramente edificada debaixo de um enorme penedo, que tinha uma única telha a servir de beirar por cima da porta de entrada.
Suponho que seja essa a casa onde viveu Fernando Namora, mas disso já não estou certo.
Obrigado Quito por nos trazeres de forma tão bucólica e romântica as belezas da nossa terra.
ERRATA:
beirar=beiral
Bom relato, Quito.
Acrescento, ainda que em tempos, na festa, as marafonas eram atiradas com flores pelo penhasco abaixo acompanhadas pelo cântico das mulheres. Ouvi dizer…
Monsanto tem tradições etnográficas ímpares. Havia um grupo de musica e cantares que era dos melhores do país e que se distinguia pelos seus bombos e adufes. Já agora, dizem que o melhor adufe é feito com ilhargas em madeira de tangerineira! È a minha permanente obsessão com os instrumentos musicais e o seu fabrico!
Rui Pato
Para que o texto não ficasse mais longo não contei a lenda dos sitiados.
O que são deitados das ameias do castelo são cântaros com trigo dentro e que se desfazem contra as rochas.
Conta a lenda que os castelhanos cercaram o castelo 7 anos.
Os sitiados alimentaram então um vitelo que atiraram do castelo abaixo, fazendo crer que tinham muita comida e que nunca se renderiam pela fome.Os espanhois levantaram então o cerco, desmorlizados, e foram embora.
Rui Felicio
A casa de Namora estava bem conservada quando lá fui e tinha uma placa alusiva à sua permanência naquela casa, que era o seu consultório.
Bonita exposição, sim Quito!
Ainda estou é para saber, qual a aldeia mais típica de Portugal? Se Monsanto, se o Piódão! Por uns lados, descreve-se o Piódão, por outros Monsanto!...
Parabéns. Beijos.
Juju.
Eu conheço Monsanto, embora não com estes detalhes que tão bem nos descreves.
Quem ainda não a visitou,após esta leitura,por certo o irá fazer.
Rui Pato
O adufe, até parece aparentemente fácil de tocar, mas não é, pelo menos com a intensidade com que as adufeiras o tocam. O som e o ritmo imprimido que elas tiram é diferente.
Já vi tocar adufe, sem ser pelas adufeiras de Monsanto e não é a mesma coisa. A própria forma de segurar o adufe e o manejar dos dedos tem ciência..
Fantástica descrição , Quito.
Por duas vezes fui a Monsanto, a última não há muito tempo. Hoje regressei de novo e contigo subi ao castelo e desfrutei daquela paisagem magnífica.
Gratificante foi ler este texto e descobrir que há gente que olha e sente a beleza do nosso país.
O panorâma que se desfruta do alto de Monsanto é de ficar sem respiração.
Para completar esta bela descrição de Monsanto mandei um mail com fotos para completar o que aqui foi dito.
Abílio
QUITO,
Como tu escreves bem!
Tenho vontade de voltar a Monsanto, depois de ler este belíssimo texto.
Se já o disse, repito: O que escreves, mostra-nos seres um observador de uma sensibilidade extraordinária.
Obrigado,
Alfredo
E assim o nosso ilustre guia no faz conhecer ou reavivar as belezas
deste Portugal!
Aguça o apetite para fazer cada vez mais turismo cá dentro.
Olinda
Nao me lembro de ter visitado Monsanto, mas depois da tua bela narrativa vou la brevemente
Maravilhoso tema,maravilhosa narrativa...como tu sabes descrever tão bem paisagens e lugares.
Nós vamos percorrendo tudo...porque as tuas palavras são feitas com a emoção que te vai na alma.
Obrigada Quito.
Nela Dias
Monsanto é um dos locais que visitei, prometendo a mim mesmo que lá teria que voltar. Ainda não consegui cumprir essa promessa, feita a mim mesmo. Vamos ver se no meu futuro, que não conheço, ainda terei oportunidade de percorrer esse caminho.
Por isso, estou grato ao Quito. Conseguiu trazer à minha memória, com mestria de pintor sublime, em traços firmes e coloridos, a paisagem que tenho na recordação.
Quito, parabéns e obrigado. Se o tal futuro que desconheço não me permitir voltar àquele local mágico, ficarei com este teu quadro na minha memória.
Um abraço amigo.
muito bonito seu blog meus parabens
visite meu blog ele é novo e diferente
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