Estórias de África - O "feijão-macaco" (*)
O “feijão-macaco” !!! África – Norte de Moçambique
Naquele "inferno" a G3 era a nossa amante...sempre coladinha a nós!
Sempre!!!
E por lembrar a G3...um dia, num fim de tarde com um belo por-do-sol que só África nos mostra...dois soldados num posto de vigia a recordarem as "coisas" da terra: as vindimas, as sementeiras, o regadio, a "safra" do azeite, a pastorícia, etc e às tantas um deles diz para o outro:
- Oh pá tenho uma comichão do caraças na ponto do dedo indicador.
- Olha que deve ser do sacana do "feijão macaco"!!!(*)
- Mas se quiseres tiras já a comichão!
-???
- Coloca aqui o dedo na ponta do tapa chamas da G3 e "coças"...vais ver que isso desaparece.
Só que a arma não estava na posição de "segurança"...e sem querer o outro carrega no gatilho!
Por sorte só a ponta do dedo desapareceu.
Mas foi remédio santo...a comichão acabou !!!
José Leitão
(*) Feijão-macaco é em tudo semelhante ao feijão de trepar, donde se colhem as vagens do feijão verde. As suas vagens são, no entanto, mais parecidas com as do feijão frade, compridas e esguias. Essas vagens são totalmente cobertas por uma camada de pequenos pêlos amarelados que se soltam com facilidade quando as vagens estão bem secas. Quando caminhávamos a corta-mato, abrindo caminho por entre a vegetação, não podíamos evitar abanar com os arbustos, em os feijoeiros se enrolavam. Caía então, sobre a nossa pele transpirada, uma nuvem daqueles minúsculos pêlos, que se espetavam nela e provocavam uma comichão indescritível.
Era uma “arma” usada pelo IN.


5 Comentários:
José Leitão,
Você conseguiu-me fazer reviver uma parte do meu passado, a sua descrição além de muito bem escrita , merece todo o meu Respeito, o meu Abraço e o meu Obrigada. Isso foi a Guerra Colonial que muitos dos jovens que cá viviam na "Metrópole", que ou por serem estudantes, estariam isentos até terminar os cursos, ou porque desertaram (atenção, não quero com isto criticar quem o fez, muito pelo contrário...e respeito vivamente as opções políticas de cada um). Não posso porém deixar de enaltecer e valorizar, todos aqueles que foram bater com os "costados" nessas terras longínquas, deixando para trás a família (mães, pais, irmãos, mulheres grávidas muitas, namoradas), para lutar por…queiramos ou não…uma terra que era nossa (???) defenderem as populações, não escolhendo a raça nem o credo, soube o que vocês sofreram, especialmente os que estiveram na frente, não tanto certas altas patentes … eram os milicianos que avançavam...carne para canhão...dizia-se...a vocês sim dou-vos o devido valor, o que não acontece aos que presentemente vão combater para terras que nada lhes dizem, tão só para vencerem bons ordenados...enfim, "mudam-se os tempos ...mudam-se as vontades"...
Lendo a aventura do feijão macaco, avalio o incomodo que causa… quando por infeliz acaso se cruza no nosso caminho, pior que sarna...eheheheh...
É por este blogue ter assuntos tão interessantes e variegados que aqui me traz...nem tudo pode ser chalaça, traumas de guerra tiveram-nas vocês directamente e quem lá viveu indirectamente, mas não nos esqueçamos que existiram...nem as calemos, tem que ser conhecidas pelos vindouros, para que saibam conhecer o verdadeiro significado da palavra"Guerra=Morte…Nunca Mais"...Estes seus textos, José Leitão, não são "secas"como alguém os classificou, secas, talvez, para quem não sabe respeitar o próximo, e não as queiramos igualar à vida que levamos, que embora difícil, Só para alguns que "talvez" sejam os que menos se devem queixar, abrange os outros, os realmente mais desfavorecidos.
Gostaria, no entanto, que até lá não nos privasse destes e de outros relatos.
Bem haja,
Mariazinha da Silveira
Vá Leitão. Força no gatilho.
Conta dessas que dão para desopilar e aliviar o streck...ehehehehe
Ao agradecer as amáveis palavras da Mariazinha da Silveira...as quais ficarão gravadas na minha memória.
Bem haja!
E aqui fica o testemunho de um "companheiro de armas" gravemente ferido em combate lá no Planalto dos Macondes.
"Tão Tarde pela Madrugada"
Quando os homens são maiores que o chão que pisam não há limites para a ambição.
Chegara pois o tempo do Infante que via sempre um pouco mais para além do horizonte; um homem que não cabia no chão que lhe deram.
Foi por isso que Portugal ficou maior que Portugal.
Portugal do tamanho da visão de um homem.
Portugal hiperbólico, ubíquo, global.
O Infante ia à frente da História e levava consigo a nação inteira, e a História teve que seguir atrás de Portugal.
Ainda a Europa toda pensava que o mar acabava onde começava o medo e o Infante inventou o mar para além do medo e deu-lhe Portugal como dono.
E Portugal cresceu até onde existia mundo; porém nenhuma pátria é suficientemente grande se não deixar crescer os homens dentro de si,
E também nenhum despotismo é suficientemente eficaz para evitar que um dia os negreiros se transformem em escravos.
E assim chegara o tempo do segundo Infante, o descobridor de Portugal para aquém do medo, o navegador às arrecuas, o anti-Infante.
Já a Europa toda sabia que a Liberdade era a maior dimensão humana e Portugal ainda cultivava a pequenez do medo.
Portugal implodido, paroquial, microcéfalo, autofágico.
Que imperialista pode ser tão tacanho que a sua ambição ocupe apenas o espaço dentro das próprias botas?
Em Portugal, homens livres, só os que estavam na prisão.
Os jovens combatiam em distantes paragens enquanto os seus pais se sentiam cativos em casa.
Os camponeses abandonavam a terra solteira, partindo como fazem as andorinhas quando já não acreditam na Primavera.
E quando os filhos da pátria regressavam finalmente a casa; a juventude amortalhada de silêncio, o último grito congelado no rosto; traziam no sítio destinado à alma, o relento pútrido da guerra longínqua.
Um manto de viuvez cobria as aldeias e os campos e uma dor calada asfixiava a esperança no peito.
Portugal estendido pelo mundo inteiro e os portugueses dentro de casa com falta de ar.
Mas nenhum tirano pode mobilizar a coragem do seu povo para defender um império distante e impor que viva cobardemente na sua pátria.
Por isso não faltaram vozes ocultas a traficarem a esperança nas esquinas cúmplices da noite.
Há sempre quem mantenha o lume aceso, mesmo quando ele esmorece na alma dos homens.
Há sempre quem sopre, sopre de mansinho, como quem passa a palavra, para que no âmago do carvão mais escuro se mantenha uma, ainda que ténue, brasa de esperança.
Que longa que foi a noite. Como tardava a amanhecer. Como é sempre mais difícil dobrar o insignificante Cabo Bojador, dentro de nós.
Porém finalmente os portugueses descobriram Portugal, acordando nele.
Nunca as armas foram empunhadas tão rente à poesia.
Nunca antes os soldados combateram dançando com o povo.
Nunca o ar da madrugara tão leve.
E o Adamastor façanhudo que nos asfixiava transformou-se num rato, temendo a vingança daqueles que anoiteceram oprimidos e amanheceram livres.
Os tiranos tremeram.
Os esbirros assanharam-se inutilmente de pavor.
E os muito, muito estúpidos ainda continuam a perguntar-se porque vieram de repente todos os portugueses para a rua.
Os portugueses apenas navegaram mais uma vez para além do medo.
Os portugueses vieram para a rua só para respirar."
Manuel Bastos
Nota: Ao recordar agora que são passados mais de 37 anos...daquele "pesadelo", pretendo homenagear todos os que infelizmente já não regressaram.
Quanto aos "traumas", não queremos ouvir -..."coitadinhos!"
QUEREMOS RESPEITO!!!!
José Leitão
Quero agradecer as amáveis palavras da Mariazinha da Silveira...as quais ficarão gravadas na minha memória.
Bem haja!
E aqui fica mais um testemunho de um "companheiro de armas" gravemente ferido em combate lá no Planalto dos Macondes.
"Tão Tarde pela Madrugada"
Quando os homens são maiores que o chão que pisam não há limites para a ambição.
Chegara pois o tempo do Infante que via sempre um pouco mais para além do horizonte; um homem que não cabia no chão que lhe deram.
Foi por isso que Portugal ficou maior que Portugal.
Portugal do tamanho da visão de um homem.
Portugal hiperbólico, ubíquo, global.
O Infante ia à frente da História e levava consigo a nação inteira, e a História teve que seguir atrás de Portugal.
Ainda a Europa toda pensava que o mar acabava onde começava o medo e o Infante inventou o mar para além do medo e deu-lhe Portugal como dono.
E Portugal cresceu até onde existia mundo; porém nenhuma pátria é suficientemente grande se não deixar crescer os homens dentro de si,
E também nenhum despotismo é suficientemente eficaz para evitar que um dia os negreiros se transformem em escravos.
E assim chegara o tempo do segundo Infante, o descobridor de Portugal para aquém do medo, o navegador às arrecuas, o anti-Infante.
Já a Europa toda sabia que a Liberdade era a maior dimensão humana e Portugal ainda cultivava a pequenez do medo.
Portugal implodido, paroquial, microcéfalo, autofágico.
Que imperialista pode ser tão tacanho que a sua ambição ocupe apenas o espaço dentro das próprias botas?
Em Portugal, homens livres, só os que estavam na prisão.
Os jovens combatiam em distantes paragens enquanto os seus pais se sentiam cativos em casa.
Os camponeses abandonavam a terra solteira, partindo como fazem as andorinhas quando já não acreditam na Primavera.
E quando os filhos da pátria regressavam finalmente a casa; a juventude amortalhada de silêncio, o último grito congelado no rosto; traziam no sítio destinado à alma, o relento pútrido da guerra longínqua.
Um manto de viuvez cobria as aldeias e os campos e uma dor calada asfixiava a esperança no peito.
Portugal estendido pelo mundo inteiro e os portugueses dentro de casa com falta de ar.
Mas nenhum tirano pode mobilizar a coragem do seu povo para defender um império distante e impor que viva cobardemente na sua pátria.
Por isso não faltaram vozes ocultas a traficarem a esperança nas esquinas cúmplices da noite.
Há sempre quem mantenha o lume aceso, mesmo quando ele esmorece na alma dos homens.
Há sempre quem sopre, sopre de mansinho, como quem passa a palavra, para que no âmago do carvão mais escuro se mantenha uma, ainda que ténue, brasa de esperança.
Que longa que foi a noite. Como tardava a amanhecer. Como é sempre mais difícil dobrar o insignificante Cabo Bojador, dentro de nós.
Porém finalmente os portugueses descobriram Portugal, acordando nele.
Nunca as armas foram empunhadas tão rente à poesia.
Nunca antes os soldados combateram dançando com o povo.
Nunca o ar da madrugara tão leve.
E o Adamastor façanhudo que nos asfixiava transformou-se num rato, temendo a vingança daqueles que anoiteceram oprimidos e amanheceram livres.
Os tiranos tremeram.
Os esbirros assanharam-se inutilmente de pavor.
E os muito, muito estúpidos ainda continuam a perguntar-se porque vieram de repente todos os portugueses para a rua.
Os portugueses apenas navegaram mais uma vez para além do medo.
Os portugueses vieram para a rua só para respirar."
Manuel Bastos
Nota: Ao recordar agora que são passados mais de 37 anos...daquele "pesadelo", pretendo homenagear todos os que infelizmente já não regressaram.
Quanto aos "traumas", não queremos ouvir -..."coitadinhos!"
- QUEREMOS RESPEITO!!!!
José Leitão
Gostei dos seus versos, gosto de poesia, especialmente porque é vivida com sangue, suor e lágrimas por todos aqueles, que embora destacados para a frente de batalha zelaram por outros tantos que pacatamente aguardavam notícias pela rádio e televisão (as emissões que eram permitidas ver em Portugal e que eram sujeitas a censura). Vocês, não são, nem nunca serão "Coitadinhos" vocês são "Heróis" são Filhos desta Pátria que vos deveria respeitar e zelar pelos vossos interesses e das vossas famílias, já que Lhe puseram à disposição incondicionalmente o mais importante que têm... "As vossas Vidas".
Continuá-lo-ei a lêr com muito gosto.
Fique bem :-))
Mariazinha da Silveira
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