DURA LEX SED ... ALEX
Eu um dia jurei ser jogador de futebol. E fui! Que isto de promessas são para ser cumpridas. Hoje , passado todo este tempo,
(penso: só nos apercebemos da estrutura, dos elementos de um quadro neo-impressionista se o olharmos de muito longe. Com os factos da nossa vida, não é o espaço mas o afastamento no tempo que é importante para lhes dar sentido)
passado todo este tempo, dizia, quando olho para trás fica a convicção de ter passado ao lado de uma grande carreira. O problema está que naquele tempo, ao olhar para a frente, tive medo pois só vislumbrava um futuro de álcool, drogas e mulheres. E eu não gostava de todas essas coisas...
(penso: hoje, com a idade, daquelas três instituições abandonei uma delas: a mais cara!)
Ao contrário do que se pensa, esta coisa da memória é como a pintura: uma visão demasiado perto dos acontecimentos sai distorcida. Assim esperei até hoje para relatar o que a seguir se segue.
...
Esta prosa tem por herói único (num dos casos relatados sem o saber), um distinto keeper do nosso Bairro: o Alexandre Parente, ou Alex. O Alexandre era um guarda-redes super elegante, elástico, arrojado. Defendeu com saber, honra e glória as redes da Académica e do Norte e Soure (NeS).

(penso: também podia ser sobre o Justiniano, também ele guarda-redes, também ele jogador da Académica e do NeS, eterno concorrente do Alexandre. Mas o Justiniano não é do BMC. E dele a história dos guarda-redes apenas guardará o facto sui generis de ele antecipar que ia sofrer um golo ainda a bola estava bem longe da baliza: dava um ai-ai-ai! Exactamente como os bois antes de um tremor de terra.)
Eu um dia jurei ser jogador de futebol. Um dia acordei na cama. E depois?, já vos sinto a pensar. Realmente é normal acordarmos na cama.
(penso: bem, é normal e não é normal. Um dia o puto Novais, quis levar uma garrafa de vinho do Porto para a cama, tendo em vista umas brejeirices, mas esta fez-se cara e não aceitou o convite. Como resultado o Novais papou-a toda logo ali, na cozinha da casa dos pais, mas acabou a dormir na banheira, local onde a mãe o encontrou na manhã do dia seguinte envolto num cheiro pestilento.)
Mas acham normal acordar em cima da cama, todo vestido e pelas 3 da tarde? Acho que não, e vejo-vos finalmente a balançar a cabeça de cima para baixo, sinal que comigo concordam. Desci as escadas e disse: vamos almoçar? Olham todos para mim como se estivesse a chegar de Marte... e atrasado. Mas já almoçámos, e tu também já almoçaste, exclama a Lurdes!? Porquê esta dissonância, chamemos-lhe assim?
Arregaça. União - Académica em principiantes. À baliza da Académica o Alex. No meio campo do União, lado esquerdo, este vosso escriba. Chove a cântaros. A terra batida é só água. O Alex bate a bola e aí vem ela, parabolicamente pelo ar, molhada, cheia de areia, a pesar uma tonelada ... na minha direcção. Gaita: que fazer? Enquanto estou a deliberar, a bola aproxima-se a uma velocidade vertiginosa e eis-me de repente bloqueado pelo medo só com tempo para baixar ligeiramente a cabeça, vá lá saber-se porquê.
(penso: aquilo não era o cérebro a pensar. Pelo menos a massa cinzenta. Devia ser o complexo reptiliano.)
Resultado: a dita cuja abóbora ensopada bate-me na zona posterior da cabeça e ... acordei vestido na cama. Do resto não me lembro. O cérebro continuou sem funcionar. Mas reconstitui mais tarde, com a ajuda da mana Belinha e do Neca, que também tinha participado no jogo e era meu colega no D. João III. A mana, relatou que eu estava sempre a repetir a mesma pergunta: que horas são? Até me tinha esquecido do encontro aprazado com a minha namorada Cilinha, para irmos assistir a um festival de ginástica rítmica.
(penso: ginástica rítmica. Muito queria eu participar, em vez de assistir. Com a Cilinha claro!)
O Neca, diz-me que eu tinha sido substituído porque deixei de andar atrás da bola para passar a andar à roda enquanto apanhava água dos charcos e despejava na cabeça. Isso, quando contado em casa, assustou a Lurdes. Fui ao médico e fiquei a saber: traumatismo craniano, com amnésia temporária. E vim de lá com uns comprimidos de fósforo qualquer coisa. Fantástico! E deixei de querer saber as horas.
Eu um dia jurei ser jogador de cartas. Anos mais tarde. Era o tempo do Norte e Soure. Uma equipa de fábrica, com sede em Paleão, que um conjunto de homens dedicados quis transformar numa equipa de sucesso como tinha sido a CUF do Barreiro. Mas os jogadores eram quase todos do Bairro. Cansados de perder, um ano depois emigrámos para o Lousanense e fomos campeões!
(penso: hoje, acho que só houve um pequeno detalhe que impediu sermos um exemplo de sucesso: nenhum dos directores se chamava Mello!)
Aos nosso jogos assistiam os directores, claro, mais as filhas. Estas vinham para tentar dar (o) corpo ao secreto desejo dos pais de as ver partir nos braços de um daqueles jogadores, maus em Paleão, mas futuros doutores em Coimbra.
Dar o corpo ao manifesto... Era vê-las quando levávamos com uma bolada naquelas partes, sim nessas, nas partes ditas púbicas, a serem incentivadas pelos pais a irem dar uma olhada ao método de cura. E isto porquê? Porque no NeS o nossa massagista não usava aquela técnica de forçar a fazer flexões para a dor passar. Não senhor. Para ele, as partes passavam a públicas, a metodologia era outra: saídos do campo, arriavam-nos os calções e toca de regar aquilo com água. Fria. Para evitar o inchaço, embora fosse isso que as moças queriam ver: aquilo inchado!
Um dia, chegámos a uma situação classificativa em que se fizéssemos o pino íamos em primeiro lugar. Pior do que isso só o facto de o próximo jogo ser no terreno da equipa que estava nos antípodas da nossa: o Estrela de Portalegre. A equipa era liderada pelo velho Mário Coluna,
(penso: ex-glória benfiquista, ex-campeão europeu, ex-ludibriado pela mulher, e agora marcador oficial de livres, pois já não conseguia correr...)
mais uma palette de ex-júniores do Benfica. Perante uma mais que certa, mas honrosa, derrota, a direcção do NeS determinou que não íamos a jogo. Só que nós barafustámos e, com o apoio das filhas deles (ai pai que grande inchaço,...), conseguimos um passeio a Portalegre. E foi lindo o dito. Ficámos hospedados na mesma pensão onde pernoitavam os jovens ex-benfiquistas, agora portalegrenses. Depois do jantar, e para provar que o desporto ainda vive sob o espírito do Barão Pierre de Coubertin, fomos dialogar com os nossos adversários do dia seguinte. A amizade foi imediata, e por isso foi com naturalidade que acabámos o dia passando a noite em claro a fumar, beber e... fomos a jogo: à lerpa, mais precisamente. Diga-se que, para ex-vermelhos, os moços revelaram-se bastante verdes, no que ao jogo a dinheiro dizia respeito. A desforra ficou apalavrada para o jogo, o outro. Com bola. Mas antes, chegada a manhã sem ir à cama, toca de ir lavar a cara para aparecer ao pequeno-almoço com bom aspecto. Depois foi o habitual: um pequeno passeio pela cidade para oxigenar, um almoço à base de grelhados e material de combustão rápida e vamos a isto. Poupando os detalhes, adianto que o Alexandre fez um jogo memorável, defendia tudo. Tudo! Assim se explica que nós, perto do final do jogo estivéssemos a ganhar, sim a ganhar por 2-1! Defendia tudo, dizia, ou quase. É que... o Alex, sendo como nós um gajo simples, do Bairro, tinha aquele problema de lidar mal com a fama. E à força de ouvir tantas bocas da assistência, situada mesmo em cima dele, por detrás da baliza, e que insistia em não dar o devido valor à sua progenitura, vai de desatinar e começa a discutir com a assistência. Não reproduzo os diálogos pois podia ferir ouvidos mais sensíveis. Apenas digo que o Alex voltou literalmente costas ao jogo e dentro da baliza insultava por palavras e gestos os portalegrenses. E foi dentro da baliza que encontrou a bola que fez o 2-2 final. Diz ele já nos balneários com uma grande lata: não vi a bola partir. E em abono da verdade devo dizer que ... não mentiu. Nós é que vimos o prémio de jogo passar para 150$00, moeda antiga. Salvou-nos o saldo da lerpa.
Eu um dia jurei deixar de beber. Noutra altura, descemos um pouco mais no país, mas sempre Alentejo: Elvas. E quem diz Elvas, diz ... Badajoz. Lá está! Eram tempos em que o indivíduo pouco contava, imolado na chama dos ideais de Deus, Pátria e Autoridade, de beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses, se soubesses quanto custa mandar preferias obedecer toda a vida, de ... e por isso ninguém tinha passaporte. E a Espanha ali tão perto. Mas depois de algum esforço (cunhas? suborno?) foi possível uma autorização colectiva para uma tarde em Badajoz. Passada a fronteira, diz o Alex: Ò Jó-Jó. Já viste? Vi o quê? As vacas! As vacas? E depois, o que é que têm: são pretas e brancas! É pá. Mas são espanholas!!! Vê-se logo que nunca vieste ao estrangeiro!
Mas tivemos que regressar: no dia seguinte o jogo com o Elvas foi memorável. Aos dois minutos eu já estava fora de campo com o joelho arrumado fruto de um bico no dito dado por um indígena da terra. Mas os problemas começaram mesmo antes do jogo: o Alex teimava em não parar de vomitar, não dizia coisa com coisa e tinha um olhar ... baço. Como as vacas espanholas. A malta só se ria e dizia que tinha sido o Marquês de Cáceres, e o Alex, qual Marquês qual carapuça, eu não conheço ninguém da monarquia. A má disposição era, dizia ele, por causa dos caramelos Logrono, aqueles que se colam à placa, que misturou com uma gasosa de litro e meio La Casera, e aquilo caíu-lhe mal. E eu a insistir: O Alex quis dar de comer não a um milhão de portugueses mas a Portugal inteiro! No meio de tudo isto , o nosso treinador, o Nuno [C]ampos, que não pronunciava os [C], [C]arago, [C]orre [C]osta, olhava alternadamente para o guarda-redes suplente, o Justiniano ai-ai-ai, e para o amarelo Alex, lembra-se que é ele a Autoridade, e sabendo que da sua decisão depende o salvamento da Pátria, decide transformar uma ameaça numa oportunidade. Como fazem os gestores modernos. E jogou o Alex. Mas esqueceu-se de invocar Deus, para que este pusesse o Alex a pensar direito por andares tortos. E com este esquecimento, nem a gestão moderna nos podia salvar. É que, enquanto o Alex foi vomitando durante o jogo os do Elvas não se aproximavam da nossa baliza, tal era o cheiro e o medo de levarem com a carga ao mar. O problema foi quando aquilo acalmou e ele passou a querer defender. Perdemos. Era o nosso Fado. Fiz a viagem de regresso no meio da dor do joelho e do riso: é que o Alex teimava em afirmar que era bom em matemática e transformou o 2-1 num 4-2.
Eu um dia jurei nunca mais ser jogador de futebol. Cumpri! Que isto de promessas são para ser cumpridas. Hoje , passado todo este tempo,...
Jó-Jó
Pub.19.4.09
(penso: só nos apercebemos da estrutura, dos elementos de um quadro neo-impressionista se o olharmos de muito longe. Com os factos da nossa vida, não é o espaço mas o afastamento no tempo que é importante para lhes dar sentido)
passado todo este tempo, dizia, quando olho para trás fica a convicção de ter passado ao lado de uma grande carreira. O problema está que naquele tempo, ao olhar para a frente, tive medo pois só vislumbrava um futuro de álcool, drogas e mulheres. E eu não gostava de todas essas coisas...
(penso: hoje, com a idade, daquelas três instituições abandonei uma delas: a mais cara!)
Ao contrário do que se pensa, esta coisa da memória é como a pintura: uma visão demasiado perto dos acontecimentos sai distorcida. Assim esperei até hoje para relatar o que a seguir se segue.
...
Esta prosa tem por herói único (num dos casos relatados sem o saber), um distinto keeper do nosso Bairro: o Alexandre Parente, ou Alex. O Alexandre era um guarda-redes super elegante, elástico, arrojado. Defendeu com saber, honra e glória as redes da Académica e do Norte e Soure (NeS).

(penso: também podia ser sobre o Justiniano, também ele guarda-redes, também ele jogador da Académica e do NeS, eterno concorrente do Alexandre. Mas o Justiniano não é do BMC. E dele a história dos guarda-redes apenas guardará o facto sui generis de ele antecipar que ia sofrer um golo ainda a bola estava bem longe da baliza: dava um ai-ai-ai! Exactamente como os bois antes de um tremor de terra.)
Eu um dia jurei ser jogador de futebol. Um dia acordei na cama. E depois?, já vos sinto a pensar. Realmente é normal acordarmos na cama.
(penso: bem, é normal e não é normal. Um dia o puto Novais, quis levar uma garrafa de vinho do Porto para a cama, tendo em vista umas brejeirices, mas esta fez-se cara e não aceitou o convite. Como resultado o Novais papou-a toda logo ali, na cozinha da casa dos pais, mas acabou a dormir na banheira, local onde a mãe o encontrou na manhã do dia seguinte envolto num cheiro pestilento.)
Mas acham normal acordar em cima da cama, todo vestido e pelas 3 da tarde? Acho que não, e vejo-vos finalmente a balançar a cabeça de cima para baixo, sinal que comigo concordam. Desci as escadas e disse: vamos almoçar? Olham todos para mim como se estivesse a chegar de Marte... e atrasado. Mas já almoçámos, e tu também já almoçaste, exclama a Lurdes!? Porquê esta dissonância, chamemos-lhe assim?
Arregaça. União - Académica em principiantes. À baliza da Académica o Alex. No meio campo do União, lado esquerdo, este vosso escriba. Chove a cântaros. A terra batida é só água. O Alex bate a bola e aí vem ela, parabolicamente pelo ar, molhada, cheia de areia, a pesar uma tonelada ... na minha direcção. Gaita: que fazer? Enquanto estou a deliberar, a bola aproxima-se a uma velocidade vertiginosa e eis-me de repente bloqueado pelo medo só com tempo para baixar ligeiramente a cabeça, vá lá saber-se porquê.
(penso: aquilo não era o cérebro a pensar. Pelo menos a massa cinzenta. Devia ser o complexo reptiliano.)
Resultado: a dita cuja abóbora ensopada bate-me na zona posterior da cabeça e ... acordei vestido na cama. Do resto não me lembro. O cérebro continuou sem funcionar. Mas reconstitui mais tarde, com a ajuda da mana Belinha e do Neca, que também tinha participado no jogo e era meu colega no D. João III. A mana, relatou que eu estava sempre a repetir a mesma pergunta: que horas são? Até me tinha esquecido do encontro aprazado com a minha namorada Cilinha, para irmos assistir a um festival de ginástica rítmica.
(penso: ginástica rítmica. Muito queria eu participar, em vez de assistir. Com a Cilinha claro!)
O Neca, diz-me que eu tinha sido substituído porque deixei de andar atrás da bola para passar a andar à roda enquanto apanhava água dos charcos e despejava na cabeça. Isso, quando contado em casa, assustou a Lurdes. Fui ao médico e fiquei a saber: traumatismo craniano, com amnésia temporária. E vim de lá com uns comprimidos de fósforo qualquer coisa. Fantástico! E deixei de querer saber as horas.
Eu um dia jurei ser jogador de cartas. Anos mais tarde. Era o tempo do Norte e Soure. Uma equipa de fábrica, com sede em Paleão, que um conjunto de homens dedicados quis transformar numa equipa de sucesso como tinha sido a CUF do Barreiro. Mas os jogadores eram quase todos do Bairro. Cansados de perder, um ano depois emigrámos para o Lousanense e fomos campeões!
(penso: hoje, acho que só houve um pequeno detalhe que impediu sermos um exemplo de sucesso: nenhum dos directores se chamava Mello!)
Aos nosso jogos assistiam os directores, claro, mais as filhas. Estas vinham para tentar dar (o) corpo ao secreto desejo dos pais de as ver partir nos braços de um daqueles jogadores, maus em Paleão, mas futuros doutores em Coimbra.
Dar o corpo ao manifesto... Era vê-las quando levávamos com uma bolada naquelas partes, sim nessas, nas partes ditas púbicas, a serem incentivadas pelos pais a irem dar uma olhada ao método de cura. E isto porquê? Porque no NeS o nossa massagista não usava aquela técnica de forçar a fazer flexões para a dor passar. Não senhor. Para ele, as partes passavam a públicas, a metodologia era outra: saídos do campo, arriavam-nos os calções e toca de regar aquilo com água. Fria. Para evitar o inchaço, embora fosse isso que as moças queriam ver: aquilo inchado!
Um dia, chegámos a uma situação classificativa em que se fizéssemos o pino íamos em primeiro lugar. Pior do que isso só o facto de o próximo jogo ser no terreno da equipa que estava nos antípodas da nossa: o Estrela de Portalegre. A equipa era liderada pelo velho Mário Coluna,
(penso: ex-glória benfiquista, ex-campeão europeu, ex-ludibriado pela mulher, e agora marcador oficial de livres, pois já não conseguia correr...)
mais uma palette de ex-júniores do Benfica. Perante uma mais que certa, mas honrosa, derrota, a direcção do NeS determinou que não íamos a jogo. Só que nós barafustámos e, com o apoio das filhas deles (ai pai que grande inchaço,...), conseguimos um passeio a Portalegre. E foi lindo o dito. Ficámos hospedados na mesma pensão onde pernoitavam os jovens ex-benfiquistas, agora portalegrenses. Depois do jantar, e para provar que o desporto ainda vive sob o espírito do Barão Pierre de Coubertin, fomos dialogar com os nossos adversários do dia seguinte. A amizade foi imediata, e por isso foi com naturalidade que acabámos o dia passando a noite em claro a fumar, beber e... fomos a jogo: à lerpa, mais precisamente. Diga-se que, para ex-vermelhos, os moços revelaram-se bastante verdes, no que ao jogo a dinheiro dizia respeito. A desforra ficou apalavrada para o jogo, o outro. Com bola. Mas antes, chegada a manhã sem ir à cama, toca de ir lavar a cara para aparecer ao pequeno-almoço com bom aspecto. Depois foi o habitual: um pequeno passeio pela cidade para oxigenar, um almoço à base de grelhados e material de combustão rápida e vamos a isto. Poupando os detalhes, adianto que o Alexandre fez um jogo memorável, defendia tudo. Tudo! Assim se explica que nós, perto do final do jogo estivéssemos a ganhar, sim a ganhar por 2-1! Defendia tudo, dizia, ou quase. É que... o Alex, sendo como nós um gajo simples, do Bairro, tinha aquele problema de lidar mal com a fama. E à força de ouvir tantas bocas da assistência, situada mesmo em cima dele, por detrás da baliza, e que insistia em não dar o devido valor à sua progenitura, vai de desatinar e começa a discutir com a assistência. Não reproduzo os diálogos pois podia ferir ouvidos mais sensíveis. Apenas digo que o Alex voltou literalmente costas ao jogo e dentro da baliza insultava por palavras e gestos os portalegrenses. E foi dentro da baliza que encontrou a bola que fez o 2-2 final. Diz ele já nos balneários com uma grande lata: não vi a bola partir. E em abono da verdade devo dizer que ... não mentiu. Nós é que vimos o prémio de jogo passar para 150$00, moeda antiga. Salvou-nos o saldo da lerpa.
Eu um dia jurei deixar de beber. Noutra altura, descemos um pouco mais no país, mas sempre Alentejo: Elvas. E quem diz Elvas, diz ... Badajoz. Lá está! Eram tempos em que o indivíduo pouco contava, imolado na chama dos ideais de Deus, Pátria e Autoridade, de beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses, se soubesses quanto custa mandar preferias obedecer toda a vida, de ... e por isso ninguém tinha passaporte. E a Espanha ali tão perto. Mas depois de algum esforço (cunhas? suborno?) foi possível uma autorização colectiva para uma tarde em Badajoz. Passada a fronteira, diz o Alex: Ò Jó-Jó. Já viste? Vi o quê? As vacas! As vacas? E depois, o que é que têm: são pretas e brancas! É pá. Mas são espanholas!!! Vê-se logo que nunca vieste ao estrangeiro!
(penso: é verdade. A primeira vez que fui verdadeiramente ao estrangeiro foi com a Ana Cristina, O Couceiro e a Olinda. E que estória isso daria...)
Mas tivemos que regressar: no dia seguinte o jogo com o Elvas foi memorável. Aos dois minutos eu já estava fora de campo com o joelho arrumado fruto de um bico no dito dado por um indígena da terra. Mas os problemas começaram mesmo antes do jogo: o Alex teimava em não parar de vomitar, não dizia coisa com coisa e tinha um olhar ... baço. Como as vacas espanholas. A malta só se ria e dizia que tinha sido o Marquês de Cáceres, e o Alex, qual Marquês qual carapuça, eu não conheço ninguém da monarquia. A má disposição era, dizia ele, por causa dos caramelos Logrono, aqueles que se colam à placa, que misturou com uma gasosa de litro e meio La Casera, e aquilo caíu-lhe mal. E eu a insistir: O Alex quis dar de comer não a um milhão de portugueses mas a Portugal inteiro! No meio de tudo isto , o nosso treinador, o Nuno [C]ampos, que não pronunciava os [C], [C]arago, [C]orre [C]osta, olhava alternadamente para o guarda-redes suplente, o Justiniano ai-ai-ai, e para o amarelo Alex, lembra-se que é ele a Autoridade, e sabendo que da sua decisão depende o salvamento da Pátria, decide transformar uma ameaça numa oportunidade. Como fazem os gestores modernos. E jogou o Alex. Mas esqueceu-se de invocar Deus, para que este pusesse o Alex a pensar direito por andares tortos. E com este esquecimento, nem a gestão moderna nos podia salvar. É que, enquanto o Alex foi vomitando durante o jogo os do Elvas não se aproximavam da nossa baliza, tal era o cheiro e o medo de levarem com a carga ao mar. O problema foi quando aquilo acalmou e ele passou a querer defender. Perdemos. Era o nosso Fado. Fiz a viagem de regresso no meio da dor do joelho e do riso: é que o Alex teimava em afirmar que era bom em matemática e transformou o 2-1 num 4-2.
Eu um dia jurei nunca mais ser jogador de futebol. Cumpri! Que isto de promessas são para ser cumpridas. Hoje , passado todo este tempo,...
Jó-Jó
Pub.19.4.09
Etiquetas: Alexandre Parente, JoJo


8 Comentários:
O culto da amizade e companheirismo dos futebois ainda perdura na memoria da juventude.
Tambem em fases dessas tive-as com o Branquinho na baliza quando no Campo de Santa Cruz se punha a fumar o seu cigarrito encostado ao poste.
Havia sempre a conivência de alguem que do lado do campo de basquete lhe acendia o cigarrito.
Alvaro Apache
Belos tempos que já não voltam.
Eu era mais comes e bebes.
Um Abraço.
Bom ano.
Tonito
Fico, já agora, à espera que contes a tal primeira ida ao estrangeiro" com a Isabel Cristina, etc, etc.
Tenho a certeza de que deve dar uma croniqueta tão interessante como esta.
Eu espero que , no teu CV, tu nunca tenhas esquecido de mencionar estas tuas outras actividades!
JoJo!
Muito bem...
Tens de recordar os famosos jogos do Lousanense...com o Jaime Soares, To Ferrao, Carlos Dias e C.a
Um abraco
J.Leitao
Sempre curiosa a forma como lidas com as tuas causas falhadas.
És um grande ILUSIONISTA...Reconheço o estilo
Diverti-me imenso ao lê-lo.
Momentos que me serviram de lenitivo para algumas agruras.
Muito grata, Jó-Jó.
Jó Jó
Este texto é um hino às tuas recordações futebolisticas.
Achei graça ao facto de vocês "esfolarem" os benfiquitas à lerpa e o episódio das vacas espanholas para além do olhar baço do Alex.
Fica por contas a aventura espanhola com o Couceiro e a Isabel Cristina. Ficamos a aguardar expectantes. Agora não me digas que vocês os três "limparam" à lerpa os tipos do Barcelona...
Boa tarde,
Vim parar este blog atraves da palavra "Norte e Soure", acho que deve dar uma vista de olhos nesta pagina que lhe vou indicar:
www.paleao.net
Um texto excelente.
Não fossem estas formas teimosas de lembrar o passado, com uma memória ao mesmo tempo rigorosa, ágil e divertida, perdia-se o melhor do nosso património.
Enviar um comentário
Subscrever Enviar feedback [Atom]
<< Página inicial