FACETA HUMANA
Vivia-se tranquilamente naquela pacata aldeia do interior. Desde sempre, as mesmas famílias, os mesmos costumes, as mesmas zangas e os mesmos afectos. Ao Domingo repicava o sino na alva torre da Igreja. Fraternamente, todos se dirigiam para lá e de mãos dadas na mesma ânsia, pediam sorte e saúde para os seus, para os vizinhos e para os ausentes que de muito longe davam novas do seu bom ou mau estar. Dedicavam-se à agricultura e ao pastorício. Quando o sol ía alto ou o cansaço os apartava da terra, os homens reuniam-se na taberna do TI ZÉ. Homem bondoso, pachorrento, alegre e bom ouvinte, passava os dias servindo copinhos de vinho e alguns petiscos, aos seus confrades.. Já o pai, exercia este mesmo mister. Certo dia, inusitada alegria transborda na pequena aldeia. Fora anunciado o regresso do fillho do João, que Deus tenha em descanso... dizia-se à boca fechada. Pequeno matreiro e espertalhão, mal chegara a puberdade, debandara em procura de melhor vida. Todos esperavam ansiosos, a chegada do filho pródigo. O roncar de um motor aproxima-se. Todos correm para o adro da Igreja. Saindo de um enorme carro, um indivíduo alto, sorrindo desbragadamente , dente de ouro, reluzindo ao sol. Abraços, lágrimas e gritos de alegria... tudo à mistura. Foi recebido em apoteose. Passados dias, para espanto dos aldeões, caminheta e homens desconhecidos, irrompem pela pequena mas principal azinhaga da aldeia. A novidade atordoou os ouvintes. Francisco... assim o seu nome, iria ser proprietário de um belo café e para maior espanto, ainda,paredes meias à tasca do TI ZÉ.. Após alguns dias abrem-se as portas. Azulejos brilhantes, mesas de tripé, balcão inox.. Aos poucos, ofuscados e iludidos com tanto brilho, todos vão abandonando a velha tasca do amigo. Ávido de progresso financeiro, o proprietário do novo café, fomenta jogos de azar e as discórdias e richas, são constantes. Numa pardacenta manhã, Ti ZÉ, de ombros caídos e olhar baço, despede-se do espaço onde ele e tantos amigos foram felizes. A chave roda soturna e em passos lentos...um homem triste afasta-se perseguido pelo sorriso indecoroso de um grosseiro dente dourado.

Nela Curado
Etiquetas: Escritos, Nela Curado


4 Comentários:
Por acaso, aqui na aldeia e recentemente abriu um novo café, sem os atropelos que tu contaste....só que ninguém entende o porquê de tantos cafés e similares (já conto 4, pelo menos, fora os da vila a 4 kms...)...já se comenta que "isto" não é Lisboa....jogos por aqui não há....só me lembro do poker do meu tio vasco com o dr figueirinhas, o ernesto do couço, o calisto e o toninho falcão....mas todos amigos e jogavam ora no café das bombas ora no consultório do dr figueirinhas na casa do povo, quando havia poucos doentes....outros tempos....
Tudo muda e...o progresso(?) avança!
Mas é uma "faceta humana" bem observada!
Muito bem Nela!!! Um dos melhores textos que escreveste...
Era uma vez uma aldeia do interior, onde anos a fio o merceeiro "fiava" o que vendia, pois os seus conterrâneos, com muitas dificuldades, pagavam quando podiam...
Agora correm para os grandes hipermercados, onde o que trazem pagam a pronto...e esquecem-se muitas vezes do pobre merceeiro que lhes deu a mão em tempo de penúria. Ingratidão é a palavra que me ocorre...
São assim as novelas da vda real. Desprezo pelo que se amealhou é ao que assistimos aqui no blog,amigos se eram,passaram a guerreiros em confronto.Todos temos imperfeições e guardar mágoas é perigoso,adoece nelas.
A amizade se é verdadeira,sincera, é um tesouro nesta vida efémera,pois só sabemos que temos o aqui e agora.O amanhã é o insondável,já que o cenário pode mudar a cada instante.
Nela Dias
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