REGRESSO ÀS ORIGENS - 2 (mpa)

São todos esse cheiros que agora, e cada vez mais aprecio, neste retiro de paz e sossego, rodeado de pinhais, eucaliptais, castanheiros e carvalhas....tenho saudades das bostas das vacas, substituidas pelos escapes dos tractores, com vantagem para o serviço, mas com prejuízo para o ambiente...saudades do comboio a vapor, de bitola reduzida, da linha do Vale do Vouga, onde Pinheiro de Lafões era estação importante, pois aqui os comboios cruzavam-se (a linha era de via única) e onde as locomotivas metiam água....a estação desapareceu;

Restam as memórias e as fotos, felizmente bastantes, para nos recordar esses tempos...e o comboio das dez, conhecido pelo correio, pois trazia o dito que depois era distribuido na merceria e os jornais que era lidos no café...a nossa ligação ao mundo começava só às dez da manhã.
Até lá só estávamos pendentes do gasómetro, do lume de chão e da falta de águas correntes e saneamento...lembro-me da automotora da noite que trazia o Diário do Norte e que o motorista atirava para o chão quando passava ao pé da guarda da passagem de nível....lembro-me dos banhos tomados de um alguidar com um crivo de regador, cheio de água quente e içado para o tecto por uma roldana, e nós numa tina enorme de latão a deliciarmo-nos com aquela água enquanto quente; quando arrefecia, toca de arriar o balde, voltar a por água quente, aquecida na lareira numa imensa panela de tripé e que estava sempre cheia de água...era o nosso esquentador...água para os banhos e para fazer a comida para os porcos...farinha, abóbora, couves e já nem sei que mais...depois toca a levar nuns baldes de madeira até às pias cavadas em blocos de granito....por sorte, recuperámos uma que está na eira...mais tarde tudo se tornou diferente com a invasão dos aviários, coisa que ainda existe muito por cá e de que o concelho de Oliveira de Frades é grande produtor, e de marcas conceituadas...basta ver nos super mercados...Obrigado mana por este regresso às origens....agora já não tenho de ir para a cama com o gasómetro ou com a vela acesa...nem tenho de lavar os pés à noite e tirar os picos, pois andava todo o dia descalço, fosse a regar o milho ou no curral a fazer a cama das vacas ou a dar-lhes a ração de canas de milho, depois de as ir levar a beber ao chafariz ao pé de casa, onde tambem era o tanque para lavar a roupa...tudo isto ainda existe, mas sem utilização...até abomba de gasolina ainda existe mas sem o movimento de antigamente, quando não existia o IP5 e posteriormente a A25...de Aveiro a Viseu tudo passava aqui à porta pela E.N. nacional 16, onde, ao quilómetro 53 estou a morar e a recordar todos estes tempos de fumar barbas de milho ou comer sandes de paio e Frisumo de ananás, para não falar do Sumol de limão e depois ir roubar os chocolates que era os prémios dos cartões com bolinhas....ainda há pouco tempo o empregado do café nessa altura recordava o pavor que tinha quando vinhamos de férias...tinha de improvisar os prémios dos cartões, pois nunca havia as tabeletes para a bolinha azul, branca ou verde...os netos do sr dr juiz já se tinham encarregue de lhes dar destino....mas compensávamos o dito empregado aviando a gasolina aos carros, que era bastantes e dando à manivela das bombas, pois não havia energia; ela vinha de um gerador que só funcionava em pleno quando o Pai cá estava e que o dono do Café das Bombas pedia ao sr engenheiro para ir ver do motor/gerador...nem televisão...só relatos de Hóquei pelo Artur Agostinho, ou o Nuno Brás ou o Amadeu José de Freitas directamente de Montreux, aquele famoso torneio de hóquei sur roullettes....De vez em quando, já nem sei como, o Pai projectava uns filmes num lençol esticado na varanda do industrial e comerciante cá do sítio, em autênticas sessões ao ar livre...a máquina devia ser da Casa do Povo, que veio a ser inaugurada pelo Alm Américo Tomás...sim Pinheiro de Lafões na altura estava no mapa...
Santantoninho
Etiquetas: Mario P.Almeida


15 Comentários:
Mário
Deliciosas recordações estas que nos trazes.
Eu Mário, como sabes, sei o que é uma eira, uma lareira a crepitar,os terrenos de cultivo, a água que não era canalizada, o candeeiro a petróleo... já lá vão quase 60 anos.
Apesar das limitações foram bons tempos, que não esquecem.
Fico-te muito grato por este texto.
Tenho esperança que continues a partilhar connosco as tuas memórias...
Um abraço
Mário estou a ver que um destes sábados te vou chatear para te visitar. Pela foto que enviaste, há por aí muito motivo para fotografar com interesse. Uma das minhas paixões é andar de máquina em riste.
E então imagens misturadas com cheiros e sabores, eheeh
Não sabia que Pinheiro de Lafões era uma terra tão bonita. Ou a fotografia está bem tirada?
Mas as recordações de que falas também as partilho, os aromas, os sabores e os ruídos estão bem presentes na minha memória dos Verões passados na aldeia do meu Pai, perto de Condeixa. As desfolhadas, em Setembro, com um calor escaldante e o cheiro do da palha do milho, quando deixava a descoberto a espiga.E o silêncio à hora da sesta?!Nada disso se vê agora mas nada disso se apagará em nós.
Vale do Vouga, S.Pedro do Sul, Viseu, Mangualde, ai que saudades Deus meu. Que boas recordações me vêem à memória quando miúda passava um mês de férias com a minha avó nas Termas.
O Rio e as praias fluviais, o denso arvoredo, o sossego de quando em vez interrompido pelo gorgear da passarada, dos cheiros a terra e a plantas e… as vindimas??? Uff como o tempo passa… !!!
Mariazinha da Silveira
Um beijinho.
Já tinha lido o comentário e pensei em com ele era digno de ser postado.
Passeei pelo teu passado.
Só não acerto no Euromilhões.
Enfim... Infeliz ao jogo, feliz aos amores.
Mário
É só qualidade de vida nesse ambiente acolhedor,puro,com comidinha caseirinha e baratinha,com boas recordações à mistura,e,e,e,...sei lá que mais!
Maria
Santantoninho te abençoou e te inspirou mais uma vez para a escrita.
Tanto a fotografia como a descrição nos transportam às memórias que referes.
Continua,feliz nas tuas redescobertas!
Obrigado, mas um obrigado bem comovido, a quem postou um simples comentário; não sei onde foram fuscar o logotipo nem a foto, mas palavra que estou bastante comovido co tudo isto...prometo não roubar mais chocolates no café das bombas; teno saudades é das sande gigantescas de paio de lombro com o dito frisumo ou o sumol de limão de deve ter desaparecido...tinha uma crica amarela....Pedro, não estás assim tão longe que não venhas fotografar paisagens lindas...um dos meus ditos ao meus amigos que dizem que vão de férias para as caraíbas ou qualquer outra parte do mundo, eu pergunto-lhes: sabes onde fica o rio teixeira??? e eles ficam a olhar para mim...tens torres nedirvais: vilharigues, cambra, alcofra, tens solares, tens casas nodernas, tens o maior painel solar do mundo (na sede de Martifer) tens uma manhã de nevoeiro sobre o rio vouga, tens um bacalhau à lagareiro e a melhor vitela do mundo (sem ofensa para o Machado)os pastéis de vouzela e os vouguinhas, as termas ond o D Afonso henriques vinha descansar e que um hotel rural das termas vai fazer uma festa, acho que em julho, dos seus 900 anos...as margens do vouga e dos alfusqueiro e as sua prais fluvias, sem falar na corga que passa aqui na quinta...para quem não sabe, corga é um pequeno regato...e o sino da igreja a dar (e repetir) as horas das 7 às 22....a senhora do castelo em vouzela, de onde se avista o serpentear prateado do vouga...
Ló
Pinheiro de Lafões é mesmo lindo e
uma quietude que só faz bem à alma...e é´tão conhecio do mundo que há anos (muitos) eu recebi aqui uma carta de uma correspondente filandesa que vinha assim:
Mário Pinheiro de Lafões
Pinheiro de Almeida (Vale do Vouga)
Portugal
Juro que é mesmo verdade...naquele tempo não havia códigos postais; era apenas o profissionalismo dos carteiros que levavam as cartas a bo porto...
Olinda, linda
tu não sabes que mais e eu tb não, pois todos dias descubro uma coisa nova; agora até descobri um restaurante de bacalhau com sala para 100 pessoas, nas margens do vouga (qualquer dia alagadas pela barragem de ribeiradio...)e descobrir que o castanheiro, que passou o inverno nu, se começa agora a cobrir da folhagem verde, tal qual o carvalho plantado aquando do baptizado do meu neto domingos galopim de carvalho (daí a árvore) e como está grande o pinheiro plantado há 5 anos por ocasião do casamento da minha sobriha Joana, do João...e as batatas, as cebolas, as couves e os kiwis plantadospela caseira e marido...
Mário
Belas recordações de infancia, pedaços da nossa meninice!
Vivências, cuja trama, é a vida do "povo", marcadas com o timbre da autenticidade.
Venham mais historias deliciosas que povoam o teu baú de recordações... antes que fiquem perdidas na memória do tempo.
Saudações fraternas.
O baú estava fechado, mas com o viver perto das recordações de há 55 anos, saltou-lhe a tampa; o industrial de panificação cá da freguesia abriu um novo café e as filhas colocaram uma grande foto do pai, tirada há mais de 50 anos em que ele está na bicicleta, com aquelas duas grandes cestas de verga, onde entragava o pão, que por cá se chamava trigo para se distinguir da broa...iamos à loja comprar um trigo! ainda em conversa com ele recordei aquele pão grande onde faziamos as sandes de paio de lombo; ele diz que já não consegue fazer igual, por culpa das farinhas; são bem diferente daquilo que eram...dfiferentes andam tb as pesoas; lembro-me que na aldeia andava quase toda a gente descalça, vestida de preto e com um grande xaile a envolver a cabeça e a parte de cima do corpo...agora, ténis, roupas de marca ou de clonagens das feiras quinzenais; sinais dos tempos...as mulheres iam às compras à loja de cima e traziam-nas embrulhadas do xaile...pareciam ter vergonha de mostrar o que levavam...mas quando passavam pelo meu Avô e por mim, naquelas passeatas de fim de tarde, todas se desfaziam em cumprimentos...ainda hoje sou conhecido pelo neto do dr álvaro, ou pelo menino da casa do ribeiro ou do outeiro....coisas que alimentam o nosso ego e que nos obrigam a pagar um copo (ou uma cerveja) quando nos encontramos no café...hoje, por acaso, foi a bica ao padre jorge, um jovem que tem feito muito pela freguesia, apesar de ter 5 paróquias a seu cargo....ainda hoje quando fui ao restaurante do bacalhau tive de trazer um recado para ele, pois a dona quer mandar rezar uma missa segunda feira e ele nem atende o telemóvel...por sorte vi-o na igreja e dei-lhe o recado de viva voz.... claro que tb subi uns pontosna consideração da dona do restaurante...já lá tenho uns créditos....nem paguei a água das pedras...
Mário,
Vê-se que estás feliz com todo esse manancial de recordações da tua infância.
É gratificante ver como este espaço de troca de memórias consegue trazer de volta um tempo tão bonito e tão carregado de boas recordações.
Um abraço e não pares de nos levar a viajar contigo no tempo
Cavalinhos, aqueles que são mesmo cavalinhos
De certeza que, nem o Saramago quando recebeu o Nobel, se sentiu tão elogiado e emocionado quanto eu...sinto que hoje recebi um nobel dado por esta excelente academia eu, que até sou um homem de números...mas tb podem crer que viver paredes meias com as recordações de há mais de 50 anos, aguça o engenho, já que a arte não é muita....todos os dias vejo a casa dos meus avós e bisavós, onde passei muitas férias até 1960 e onde muitas coisas hoje relatadas foram passadas....e é com um sentimento de tristeza que por lá passo, ao ver o estado em que a casa está e onde ainda vive uma tia avó com 87 anos...palavra que há anos que lá não entro...fico-me pelo quintal ou pela eira a falar com a tia...tenho medo do que irei enconrar lá dentro; de certeza que já não vou encontrar O Comércio do Porto a fazer de papel higiénico, nem o lume de chão com os potes tripés com a água quente ou a fumegar do caldo de cebola.. a nra do poço já foi substituida or uma bomba sumersível, o alambique, com aquelas enormes cubas de metal já não trabalha, o chão térreo da adega já não deve ter o cheiro a vino americano e as pipas devem estar vazias...todos estes conteúdos passram para as nossas memórias e quero deixá-los estar onde estão; não os quero acordar com visitas aos sítios reais...a benquista casa do ribeiro parou no tempo e prepara-se para encerrar um ciclo, cujo destino se desconhece...aquilo que foi uma grande casa de lavoura está adormecida; na eira já não se desfolha o milho, não aparece o milho rei, já não se malha o feijão,nem se peneira o mesmo já não nada de nada...o forno apagou-se, tal qual nós nos apagaremos um dia
Mas eu apagarme-ei contente por ter tido um dia como o de hoje; nem foi preciso ir a estocolmo receber o Nobel...ele veio direitinho até pinheiro de lafões (Vale do Vouga) por obra e graça de uns cavalinhos a quem renovo o agradecimento por este destaque...só lamento que os cavalinhos tresmalhados não voltem ao curral...por mim, fiz tudo...teem uma cama com fetos verdinhos, a mangedoura com canas de milho acabadas de colher,e em especial as bandeiras do mesmo, que são as hastes que aparecem antes da espiga....também os posso levar a beber ao chafariz e passar-lhes água pelo pelo sedoso; prometo não os picar com a aguilhada, pois isso outros já o fizeram e os espantaram...a hora é de recolher o gado, e deixar os bezerros um pouco à solta cá fora, enquanto meu tio, Avô e eu assistiamos da varanda às cabriolices das vitelinhas, sob o olhar atento da amarela, da castanha, da cabana, todas elas mães a pensar no dia em as vitelhinhas iriam ser trocadas por notas na feira de oliveira de frades....e para tal, ainda teriam de andar 4 quilómetros até emcontrarem alguém que estivesse disposto a largar 10 ou 15notas (já não me recordo das quantias exactas)para o bolso dos criados de lavoura que as acompanhavam....ainda por aqui vejo o Diamantino, aquele com quem eu regava o milho e que me iniciou nas fumaças das barbas do mesmo, escondidos no meio do milheiral e protegidos pelo mesmo,não fossem os avós ou pais darem por nós naquelas andanças.Tb sei que o Serafim Dogo, o que nos emprestava a bicicleta para as nossas voltas; a filha, a Graça, é empregada na farmácia que, por sinal, vai mudar para oliveira, pois encerraram aqui o posto de saúde...bom, tenho a cama aqui ao lado...não preciso de ir coredor fora com o gasómetro ou com a vela...tem piada, dei um olhar ao comentário do quito, e não me lembro de ver por aqui o candeeiro de petróleo...das velas e do gasómetro passámos logo ao petromax, se bem me lembro, que dava uma luz muito especial através de uma camisa que encandesia...candeeiro a petróleolembro-me de ver na quinta dos meus outros avós, aopé de torres vedras e de ir a casa da professora primária e vê-la a aquecer o leite do lanche num púcaro em cima da chaminé do dito candeeiro; claro que o púcaro metia nojo, tal não eram as carradas de negro de fumo que se lhe aderiam no cimo da chaminé do candeeiro...mas estas são contas de outro rosário....
Obrigado a todos e a todas por este dia que me proporcionaram, aqui entalado entre as serras do caramulo, montemuro, gralheira e freita e quase a molhar os pés no vouga...
Mário,como me fazes recordar as belas férias que eu passava em Vouzela... também tenho recordações que nunca vou esquecer.
Nela Dias
Quando o nosso recordarfaz com que o recordar de outras pessoas se active, sentimo-nos reompensados...e é isso que me sinto hoje...deixa estar, cadavez que passar por vouzela, ainda me vou recordar mais de ti...e ainda temos o "corredor" pendente...amanhã faço mais uma f~diligência...
Beijinho
Mário
Bonito! Muito bonito este teu texto relembrando o passado. Assim me recordei também das minhas férias na aldeia "Sarnadela" terra de meu Avô.
Também eu tinha banho de "taça" e chuveiro de alguidar, andava descalça, não tinha comboio mas havia camioneta à quinta feira. Para se ter jornal diário o meu Pai ou outro primo ou prima deslocavam-se de carro a Arganil.
E a roupa? A roupa era lavada no tanque com água do poço e onde eu delirava tomar banhocas para desatino da paciente criada Emilia.
Depois, já adolescente, eram os bailaricos, os amores de Verão, as idas para o rio, os passeios à noite pela estrada fora onde se podiam contar as estrelas e sentir o luar de Agosto, o tal que diz o povo "lhe dá no rosto"...
Que saudade! Que carinho e ao mesmo tempo alegria e tristeza me fizeste sentir.
Obridada MPA. Foi por causa deste teu feitio tão sensivel e generoso que te adoptei como filho.
Um beijo grande.
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