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terça-feira, 26 de maio de 2009

RELAÇÕES DE VIZINHANÇA DE HOJE, COMPARATIVAMENTE A OUTROS TEMPOS….

Não podia ficar indiferente ao desafio proposto pela Olinda, linda e vou alinhavar umas linhas, sem receio de ser acusado de plágio, seja lá por quem for.

Estou vivendo num concelho eminentemente rural, no distrito de Viseu e na província da Beira Alta; um concelho, com, segundo o último censo, 8.942 habitantes e numa freguesia com 1.060 habitantes, agora 1.061, pois eu não contava no último censo. O concelho é Oliveira de Frades e a freguesia Pinheiro de Lafões, onde vinha passar férias desde que me lembro de ser gente e que partilhei com alguns cavalinhos: o famelga foguete e o tozé fiscal….

Férias em casa dos meus bisavós e avós e que agora revejo com outro olhar….sempre tivemos um estatuto privilegiado: era o neto do sr dr Álvaro, um natural da terra que chegou a desembargador da relação de Lisboa; um desembargador a sério, nada comparado com estes de aviário, sem ofensa para os mesmos….neto do sr dr e descendente da benquista casa do Ribeiro….na altura nem sabia o que era isto, mas nada disto me impediu, e aos meu irmãos, de andarmos descalços o dia inteiro, comer com os criados da lavoura, em vez de irmos para a mesa com os Avós, Pais e Tios, regar o milho, conduzir carros de bois, fazer fogo de dinamite nas obras do alambique, limpar os currais da cabana, amarela ou castanha, os “cavalos” do dito carro de bois….a nossa relação era tão cordial, que nos ensinaram a fumar barbas de milho e dos nos emprestarem as bicicletas…também éramos travessos como quaisquer rapazes da nossa idade, e roubávamos chocolates do café, aqueles que era para sair nos furos com as bolinhas às cores….

Lembro-me dos passeios com o meu Avô e do respeito que a gente da terra tinha e que continua a ter pela sua memória….quantos empregos não arranjou ele na Carris a quem ia para Lisboa, em demanda de nova vida….guarda freios eram mais que muitos, os que saíram desta terra, na altura sem saneamento básico, luz ou água corrente e o pessoal maioritariamente vestido de preto, as mulheres com grandes xailes e sem acesso à capela mor da igreja nas missas de domingo; era um lugar reservado aos homens….tudo nos era permitido, mas lembro-me de nunca termos abusado de nada e de ninguém….trabalhávamos ao lado deles; nas tais obras do alambique, uma vez o Avô chegou lá e disse: meninos o que andam aqui a fazer??? Só atrapalham!!!! E o Manuel Cavaco, tira o chapéu e diz: sr doutor, o trabalho dos meninos é pouco, mas quem o despreza é louco…..e assim tivemos autorização para continuar nas obras, intervalando com o pisar das uvas no lagar, o apanhar do milho, o carregar o carro de bois até à eira, o desfolhar o mesmo e o malhar das maçarocas e do feijão, e o peneirar do mesmo….e como trabalhávamos com eles, tínhamos lugar na mesa para comer com eles: se nós éramos para trabalhar, também éramos para comer da grande malga no meio da mesa e donde picávamos, à roda, com um garfo de ferro de 3 dente, cada um para seu lado…

Isto tudo há mais de 50 anos….para além de hoje termos saneamento básico, água corrente e electricidade em vez do gasómetro ou da vela que tínhamos de levar para o quarto, o que mais me impressionou de há uns anos a esta parte foi a maneira de vestir, sinceramente. Ainda bem para todos que, salvo algumas raras excepções, já não se vêm aquelas cores escuras….Todos alinham pelas cores, pelo vestuário moderno comprado na feira quinzenal de oliveiras de frades, ou nas lojas de pronto a vestir….acompanharam o progresso. Ainda no domingo à tarde sentei-me na esplanada do café com o antigo presidente da Junta e dois ou três antigos trabalhadores (criados como eram conhecidos) da casa do Ribeiro e foi um desfiar de recordações de todo aquele tempo; malta um pouco mais velha que eu mas que se lembra bem desses tempos…..ainda hoje da varanda do meu quarto vejo duas casas velhas de quase 100 anos, sem condições nenhumas e onde vivia gente….e ainda há pouco tempo o Diamantino veio ter comigo e disse-me: Márinho, foi ali que passei a minha noite de núpcias; e podem crer que foi mesmo a noite de núpcias; não havia ainda as modernices de hoje.

Tive pena de se destruírem as coelheiras para dar lugar à casa da caldeira, mas são os sinais dos tempos….tempos que hoje vou vivendo rodeado destas recordações, quer físicas quer memoriais e que vou estabelecendo o paralelismo entre esse tempo e o de hoje…. É claro que tudo vai mudando com o tempo….só não muda o cheiro a terra lavada depois de uma chuvada, e se tem chuvido últimamente….acreditem que ontem mandei fazer um pão como aquele que comia há mais de 50 anos no café…o pão de primeira, como era conhecido…e o padeiro ainda é o mesmo; as farinhas é que não….Faltam 8 minutos para o dia dos vizinhos….eu nem sabia que havia um dia destes, mas ainda bem que ele existe; recordo aqui também os meus vizinhos do Bairro, o prof Marques, o sr Nunes, a Mila Barreiros, o Manito o Rui Piçarra e os outros que me desculpem estar no colectivo, pois estes era os mais chegados…não esqueço as manas curado, a nela dias, as manas parreirais, a Fernanda Rebelo e inclino-me perante a memória dos que já partiram, e especial dos mais próximos: o Sérgio e o Diamantino….

O texto vai longo, mas quanto mais longo, menos espaço para os anónimos…..

Um abraço aos vizinhos, sejam eles de Pinheiro de Lafões, da rua A, da rua X, da rua I,de toda e qualquer rua do bairro e da Maia aqui tão perto…

Já é dia 26!!!!!


Mário Pinheiro de Almeida

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23 Comentários:

Blogger celeste maria disse...

Mário
Para ti vai o meu primeiro abraço de boa vizinhança.

Que belo desafio te fez a Olinda!
Uma delícia a tua descrição onde focas tão bem as tuas memórias e os factos,alguns já vistos com um certo distanciamento,que lhes confere maior realidade dos teus sentimentos.
A educação inalterável,a humildade prevalece,o sentido de humor característico evidente...

Bons momentos de leitura que irão motivar bons momentos de conversa.

Ontem como hoje cultivemos o espírito de boa vizinhança.

No nosso Bairro a festa será na Praça de Cabo Verde.
Comeres,beberes,música,bailarico!

1:46 p.m.  
Blogger quito disse...

Mário
Durante muito tempo estiveste calado.
Agora apareces a escrever e eu quero saudar-te por isso.
Alguns de nós, os que uma vez por outra damos a cara escrevendo, sujeitando-nos a critícas e má consciência de alguns, estamos perplexos com os últimos acontecimentos, e realmente escrever de alma lavada começa, ao que parece,a ser um acto de coragem.
Um abraço,saúde,e neste rincão rural de Salgueiro do Campo sabes que tens um amigo.

2:00 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Celeste
Podes crer que estou com lágrimas nos olhos.....lágrimas de um misto de alegria e saudade; alegria por poder escrever o que escrevi, sem ser acusado de plágio e de alegria por ver que ainda há vizinhos que, apesar da distância e do tempo nos mantêm como Amigos....é isso a minha bengala para estar aqui perdido no meio da serra, paredes meias com o rio vouga, a serra do caramulo, a da freita, arada e montemuro, sem falar na casa do ribeiro do meu avô paterno, ou do ral, da minha Avó materna; ainda ontem lá fui a uma missa que acabou por ser por um tio meu, e no fim vieram ter comigo, perguntando se eu era daquela casa grande....; isto bate muito e muito forte...tudo por aqui é boa vizinhança, acrescida daquela que, diáriamente, entra pelo éter....
Cabo Verde...só tenha pena do meu contencioso com o eduardo cegonha....acho que é nessa que ela morava últimamente e onde mora agora a irmã....como a minha mana nela, eu já lhe perdoei a ofensa....

2:03 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Quito
Estive calado porque senti, e sinto, na pele as ofensas que o meu irmão luis foi alvo....mas tudo tem de ter um fim, até a própria vida, e temos de olhar em frente de alma lavada como dizes..., eu sei que tenho aí um Amigo, mais do que isso, um camarada de Armas Pesadas; se lidámos com morteiros, canhões sem recuo, porque não havemos de saber lidar com quem nos quer mal...espero ter tb uma amiga por esses lados....

2:07 p.m.  
Blogger Isabel Melga disse...

Nunca foi preciso haver um dia do Vizinho! Mas concordo que hoje com o novo ritmo de vida e até pelo esquema dos prédios que habitamos, se tenha de activar o espírito dessa grande família que são os vizinhos...Nós desde crianças que convivemos e mantivemos umas relações de respeito mútuo, de solidariedade e em muitos casos de afecto com a vizinhança. Quantas e quantas vezes não foram eles que nos apoiaram em momentos de crise, quem é que nos empresta algo que nos falta à última da hora, quem até já não nos levou ao hospital numa aflição? Ou até que nos ficou com o cão ou os regou as plantas quando vamos a um passeio??? Ou deu uma receita de doçaria para os anos do filho??
Os vizinhos são um tipo de Família especial que merece todo o carinho e respeito. Como digo, nunca precisei de invocar um dia do vizinho, mas agora é pertinente e aplaudo esta iniciativa e sabem porquê? Para além das razões supracitadas há uma muito delicada mas real: desculpem-me a franqueza, mas é um facto: hoje em dia as pessoas (não TODAS),não possuam aquele sentimento de gratidão e de inter-ajuda de então! É verdade! Parecem-me mais distraídas ou altaneiras e porque não dizer arrogantes e ingratas? Tenho provas disso acreditem. Viva o dia do Vizinho! Isabel Melga

2:08 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Melga
Não tens um raminho de salsa ou um rennie????

2:18 p.m.  
Blogger quito disse...

Mário
..e uma amiga também, claro...
Pois Mário,tens razão, nós somos de Armas Pesadas, eu lido é mal com o pessoal de Minas e Armadilhas....

2:23 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Completamnete de acordo...fora com estes Sapadores de meia tigela....

2:26 p.m.  
Blogger Rui Pato disse...

Vizinho Mário:
A vizinhança não é um conceito físico, geográfico. A vizinhança constrói-se com tijolos feitos de afecto. Eu sinto-me muito mais TEU vizinho do que relativamente a alguns que vivem a poucos metros de mim.

3:12 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Obrigado Rui!!! apesar de i luis me ter partido a cabeça quando o fui chamar à tua praça para vir comer, interrompendo a vosssa bricadeira.....brincadeira de vizinhos

3:27 p.m.  
Blogger olinda Rafael disse...

Mário

Hoje és o meu vizinho previligiado!

Como gostei do teu testemunho,do antes e do agora,vivenciado dum modo tão afectivo e de grande aproximidade com os teus vizinhos e amigos de Pinheiro de Lafões.

Continua a oferecer-nos uma escrita transparente e doce!

Beijinhos

Olinda

5:10 p.m.  
Anonymous Bernardo disse...

Bela referência dos tempos passados no campo.
No blogue, somos todos vizinhos!
Abraços,

6:28 p.m.  
Blogger Manuela Curado disse...

Oh Marito, hoje vingaste-te.
Promessa feita... promessa cumprida.
Que lindo desfiar de recordacções...
No final veio a tal nostalgia, pela certa, mas lembra-te sempre.... está cá a tua amiga...
pronta para te abraçar sempre que precisares.
Beijinhos

6:59 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Olinda, linda
vou tentar continuar a escrever, eu, que até sou um homem de números....mas recordações vividas ao vivo e em directo e tempo é o que eu tenho de sobra...fiquei contente por ver a eira da casa do ribeiro cheia de feno; ténue sinal de vida, mas mesmo assim um sinal devida; estou a ganhar coragem para ir visitar a tia-avó que ainda lá mora....
para além de agradecer os comentários aqui escritos, não posso, não quero, nem devo olvidar os que me foram transmitidos por telefone...., hoje que cumpri a 200% o dia da vizinhança, levando a minha tia que vive em oliveira aos super mercados...e já ficou agendada uma viagem a viseu para ir às compras....já estou como diz amelga: nem é preciso dia de vizinhos....

8:54 p.m.  
Blogger Chico Torreira disse...

Gostei imenso deste texto do MP Almeida que vem recordar o tempo da juventude espelhado no presente. De formas diferentes, penso que ao ler o texto cada um vai-se lembrando de uma passagem ou outra que viveu na sua mocidade. O dia do vizinho, penso que é mais necessário nas grandes cidades aonde não se conhece o vizinho que vive mesmo ao lado. Nos casos como aí o do bairro, todos os dias eram também dias do visinho. Era uma família, uma riqueza que nem se notava. Quanto às pessoas vestidas de outra maneira nos dias de hoje, foi qualquer coisa que me saltou aos olhos quando resgressei de Moçambique em 1976. Adorei. Pessoalmente atribuí ao efeito posisito da televisão, neste caso. Como do Diamantino sabia que já nos tinha deixado, do Sérgio é que fui apanhado de surpresa. Passei bons tempos com Ele em vários lados e no Cavalo Selvagem de que hoje tanto nos orgulhamos. Enfim, um bom texto e como este venham muitos.

Um abraço,

Chico Torreira

9:25 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Tem piada Chico; ainda hoje com a minha Tia em Oliveira, falávamos na alteração dos hábitos de vetir e ela teve a mesma reação; a culpa é da televisão....atá a mãe da minha caseira anda de calças, uma coisa inpensável por estas zonas há uns anos atrás....
Pois o sérgi lá foi...o meu vizinho do nr 1 da praça P, depois Açores e, a partir de domingo, parque do encontro de gerações...mas, para mim, será sempre a praça P do bairro marechal carmona....

10:36 p.m.  
Blogger celeste maria disse...

Já quase acabou a festa do vizinho.

Festejou-se na Paça de S. Tomé e Príncipe,onde outrora foi a sede do Centro.

Começou cerca das 18 horas com febras,sardinhas,morcela,tudo grelhado no terraço de um habitante.Lá estava o Pestana Lopes de volta do grelhador!

Dois grupos folclóricos animaram os participantes dançando e convidando a dançar.

A conversa continuou...

11:29 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

aiaiaiaiaia, a praça de s tomé, para onde fuciamos deps de roubar os fusíveis do centro, deixando os jogadores de cartas às escuros....tanto fusíveis roubamos que eles optaram por um fio a ligar os dois polos...melhor para nós; era só dar um piparote no fio e ele saltava logo...manito, rui piçarra,quim, lau, eduardo teem de dizer presente!!!! só não falo do sérgio e do diamantin por razões mais que óbvias, mas tb alinhavam na construção da escuridão do club....bem pragujavam o leite braga, o sr cunha e outros distintos jogadores....

11:38 p.m.  
Blogger Pedro Sarmento disse...

A Praça de S. Tomé e Príncipe, a do meu colégio, onde o Professor Ilharco nos obrigava ao sábado de manhã a fazer a continência e a cantar o hino da Mocidade Portuguesa.
Dali a minha casa na RUA_C era um saltinho, velhos tempos.

11:41 p.m.  
Anonymous Manuela Dias disse...

Mário
Foi com muito agrado que acompanhei a viagem ao interior das tuas memórias.
O bem-estar é um estado íntimo que tu sabes alimentar mantendo aceso o entusiasmo por tudo o que te rodeia,pelas coisas e pelas pessoas.
As tuas palavras são o reflexo de que vives entre boa vizinhança, e é uns com os outros que vamos aprendendo sempre mais.
Para mim todos os dias são Dia dos Vizinhos,e hoje...passei a tarde a fazer companhia a uma vizinha que me causou grande susto,porque não se estava a sentir nada bem e o importante é a ajuda certa na hora certa.
Beijinhos
Nela Dias

12:31 a.m.  
Blogger Isabel Parreiral disse...

Olá vizinho!!!
Não se trata de uma vizinhança física, mas sim de uma saborosa e divertida vizinhança "mailística", que nos leva a, quase todos os dias, darmos dois dedos de conversa, tal como as comadres lá da terra.
Um abraço e parabéns pelo teu texto.

12:51 a.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Obrigado isabel, mas deixa que te diga que a vizinha anda muito arredia....

7:16 a.m.  
Blogger Isabel Parreiral disse...

Já te expliquei que o inverno não tarda aí e as camisolas dos miúdos não se compadecem com conversa de comadres.

3:07 p.m.  

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