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sábado, 27 de junho de 2009

DA CAPA E BATINA AO JEANS


Está agora a chegar uma data que, se pode parecer irrelevante, tem significado para mim. Os meus primeiros jeans! Sim foi no início de verão de 1968, que eu tive uns jeans legítimos, vindos directamente do “mundo novo”. Já se vendiam por cá umas imitações, muito fracas, de ganga azul, que nós , na tentativa de lhes dar o ar “surrado” nos torturava-mos no tanque , esfregando com pedras e areia! mas ter uns verdadeiros jeans, só mesmo quem os comprasse fora. E assim foi:
Há 41 anos! uns jeans Wrangler que vieram do Canadá, encomenda que fiz a uma “cavalinha” que tinha parentes nesse país e que foi lá passar uma temporada. Ela questionou-me: o que queres que eu te traga de lá? Uns jeans! Respondi. E assim foi. No verão de 68 eu exibi, pela primeira vez, cheio de orgulho, um par dos míticos jeans! Começou aí, para mim e para muitos , a verdadeira alternativa à capa e batina.
Já agora e a propósito disso, já que a nossa geração foi , acompanhando a tendência generalizada agora à Europa, a iniciadora no uso dessa peça de vestuário feito numa sarja elaborada com uma mistura de algodão com linho ou com lã, adaptado das sarjas de algodão puro usadas por prisioneiros e mineiros norte americanos no sec XIX, de longa durabilidade e a que os primitivos fabricantes deram a cor azul, como calça de trabalho.
No século XIX, o francês Levi Strauss emigrou com destino a Califórnia, na costa oeste americana, e começou a criar calças de lona de barraca em tons azul índigo para serem usadas pelos trabalhadores e, portanto muito resistentes. Para esse efeito começou a utilizar rebites e a reforçar as costuras, transformando as calças em autênticas armaduras que logo foram adoptadas pelos cowboys do velho oeste americano já na década de 30. Posteriormente foram os mineiros, os rurais e os operários de trabalhos pesados da época que adoptaram essas calças devido à sua resistência.
Após a segunda guerra mundial, nasce uma juventude rebelde que muda radicalmente os seus hábitos e, por conseguinte o seu vestuário. James Deen, Marlon Brando e outros artistas famosos, trazem para o cinema esta calça e, o jeans começa a ser moda! Marylin Monroe e Elvis Presley aparecem, logo depois, também com seus jeans.
A década de 60 foi a consagração do jeans. Com a explosão de cores da época, passaram a ser tingidos e representava uma moda “anti-moda”. Nessa época, Janis Joplin e Jimmy Hendrix pontificavam em Woodstock calçando invariavelmente uns jeans! O jeans estava popularizado e era para todos. Era a sua total democratização aliado a um certo conceito de “proletarização”, contestado embora pela ortodoxia de alguma esquerda da altura! Para estes, os jeans eram as calças do capitalismo!
No final dos anos 70, os estilistas passaram a usar o tecido do jeans nas suas colecções e com as suas etiquetas bem à mostra.
Hoje em dia ele faz parte tanto das luxuosas grifes como das feiras em humildes bancas de ciganos.
Por cá, após a verdadeira revolução nos costumes e mentalidades do Abril de 69, começámos a substituir a capa e batina pelos jeans. Houve até um intelectual conhecido da nossa Coimbra que ainda esboçou uma letra para um fado “Coimbra de jeans”. Não vingou… era afrontoso (??).
Fomos nós, da nossa geração os primeiros a sentir essa ganga dura, esses bolsos presos com rebites, esse ar roçado e com bainhas desfiadas.
Talvez os nossos filhos, que só vestem jeans, não saibam como tudo isso começou e a dificuldade que tivemos em encontrar os nossos primeiros jeans legítimos. Foi este o motivo que me levou a fazer aqui este texto, que pode não ter qualquer sentido, pode não ter qualquer relevâncias, mas que me assaltou com nostalgia ao fazer com facilidade uma compra de uns, entre centenas de exemplares de todas as cores e feitios, uns feitos na Coreia, outros na Espanha, mas nenhum no Canadá. Serve ainda, não só para comemorar os 41 anos da minha estreia de jeans, como para aproveitar agradecendo à minha amiga “cavalinha”, respeitável senhora do nosso bairro, que me trouxe os meus primeiros jeans , um dos meus mais desejados sonhos da altura…

Rui Pato

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10 Comentários:

Blogger Unknown disse...

Interessante este tema, buscando os entusiasmos da nossa juventude.
Tambem eu, já em 1964 fervilhava para obter umas "calças americanas.
Valeu-me um primo que tinha emigrado para Peabody -Mass nos States. Por curiosidade, este primo foi colega de tropa em Angola com o Marques que veio do Ginasio de Alcobaça,depois a jogar na Academica. Escrevi-lhe uma cartita, cravando-o para me mandar um par de calças daquele tipo. Julgo que na altura ainda não lhes chamavamos jeans , mas calças americanas.
As que por cá havia e bem conceituadas eram as da marca Levi's.
Um belo dia fui levantar nos correios junto ao Aquario uma encomenda com umas belas Wangler americanas.
Eram mais grossas e duras do que as Levi's existentes e de que o Fernando Beja tinha uns belos pares.
Muito tive que as coçar no tanque para que tivessem um ar coçado e para que o pano "amolecesse".
Alvaro Apache

9:58 a.m.  
Blogger Tó Ferrão disse...

Tinha dezoito anos quando garbosamente entrei no "El Dorado" na Rua Adelino Veiga e comprei os meus primeiros Jeans a sério, (a imbecilidade jornalística lisboeta e não só, diz "à séria")umas calças Lee.

Dizia o "revolucionário" patrão da loja, que eram autênticas, originais e inimitáveis.

Aos quinze anos, já eu me deslocava ao Porto à boleia, para comprar o possível numa das mais míticas, emblemáticas e carismáticas lojas da minha geração: os "Porfírios".

Blusões tipo plástico, amarelos com botões pretos, sapatilhas garridas com o logotipo no peito do pé, t-shirts "soberbas", camisas de encantar "serpentes", eu sei lá.

Ainda hoje quando percorro Santa Catarina e me sento no lindo e secular "Majestic" a tomar o meu chá com leite e a comer os melhores queques do Porto, olho pelo canto do olho, na saudosa sensação de ver os Porfírios, e o encanto que era olhar para a sua montra.

Excelente texto do Rui Pato, ao qual podiamos juntar os primeiros sapatos "à beatle" com os elásticos de lado. As calças à boca de sino,(quanto mais largas melhor)os casacos de bombazina com uma racha ao meio e um botão de cada lado.

Bons e saudosos tempos, em que eu e a trupe Dias e companhia, invádiamos o camiseiro Pedrosa na baixa, e faziamos por encomenda as camisas mais isotéricas que havia, para "brilhar" nos bailes do Centro.

Grande bairro. Grandes amigos. Grandes cavalinhos(as).

Saudações académicas

Tó Ferrão

11:40 a.m.  
Blogger olinda Rafael disse...

Memórias bem engraçadas para recordar!

Eu só comecei a usar pela 1ª vez calças Lois,de
de bombazine, em 69...bem tarde,atendendo à minha idade...Também compradas no El Dorado.As de ganga foram bem mais tarde...

A ida às comptras aos Porfírios Porto era "algo com muito deslumbramento" para nós...era como
se fossemos aos States...

O percurso do uso das jeans pelas raparigas não sei fazê-lo...mas penso que foi mais lento que nos rapazes???

Olinda

3:46 p.m.  
Blogger Maria Julia disse...

Olá Tó: Do que me vieste relembrar..."os Porfírios".
Ah ganda cabeça a tua...Nem me já passava esse nome, pla minha!!!
Que boa era, essa casa...
Quantas delícias nos trazia!!!
Beijos.

Juju.

4:09 p.m.  
Blogger quito disse...

Rui
Isto não é um texto sobre Jeans, é uma lição de cátedra. Muito interessante e bem, mesmo muito bem, documentada.
O hábito do Jeans generalizou-se até hoje.
Ainda ontem trouxe uns, mas desconfio que não tive a tua sorte de teres uns jenuínos vindos do Canadá.
Os meus têm um ar muito "soft", e pela textura do tecido, desconfio que a São os comprou na Feira de Alpedrinha!

8:44 p.m.  
Blogger RI-RI disse...

Em Lisboa também havia POR-FI-RI-OS, (sei que tinha hifens mas não sei se era assim), se não me engano na R. de Santa Justa, que eram uma tentativa de imitar as lojas de Carnaby Street.
As minhas primeiras "Lee" vieram de Paris.

9:20 p.m.  
Blogger Pedro Sarmento disse...

Tal como o Tó Ferrão, foi também no eldorado que tive as minhas primeiras levistrauss, não de ganga mas de Bombazine. ganhei-as ao dispensar de exames no meu 2º ano do ciclo, um luxo naquela altura

9:29 p.m.  
Blogger Manuela Dias disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

11:32 a.m.  
Anonymous CHICO disse...

o guitarrista foi ao baú:))

2:27 p.m.  
Blogger Pedro Sarmento disse...

COMENTÁRIO ENVIADO PELA NELA DIAS VIA EMAIL:

Coimbra in "blue jeans"
Ao ler o texto do Rui Pato vieram as memórias de um tempo antigo que tinha tanto de simples como de fantástico.
Mal sabia o criador das calças de ganga no sec.XIX,destinadas aos mineiros americanos e mais tarde usadas pelos rancheiros,que estas se viriam a transformar num autêntico ícone da segunda metade do séc.XX.Vários artistas do cinema e da música as começaram a exibir a partir da década de cinquenta,como Jeames Dean ou Elvis Presley. Pelo que José cid na canção Eu nasci para a Música diz: "...de blue jeans igual a Jeams Dean...". De facto nos anos sessenta não se dizia calças de ganga ,mas sim blue jeans e as brancas com o mesmo corte designavam-se white jeans.
Relativamente a Coimbra "in blue Jeans" recordo que as primeiras calças se vendiam no último andar de um prédio em frente à Câmara Municipal ,cuja entrada era pela Tabacaria do Sr.Roxo.Estas calças vinham dos States,mas já eram usadas e novas ainda não havia nas lojas. O proprietário dessa casa era o Sr.Sergio ,chefe da Venatória,que as conseguia receber da América (1964-1966 ).
O certo é que a malta nova , as comprava já desbotadas que ficavam a matar com botas à Beatle. E para informação ao consumidor de hoje, séc.XXI : estas botas custavam entre duzentos a duzentos e cinquenta escudos,equivalente a um euro a euro e cinquenta cêntimos.Mas note-se que uns sapatos já bons,nesse tempo custavam cento e vinte escudos,e assim vejam quanto nos chorávamos aos pais...mather,father,please,please...( não confundir com a canção dos Beatles Please Please Me ).
Mas voltando às jeans usadas,essas custavam duzentos escudos.Eu,conheço uma pessoa que se dirigiu ao local para comprar umas,mas desistiu,quando se começou a lembrar em que rabo capitalista e imperialista elas já teriam andado...
Só em 1966 é que as gangas (importadas ) chegaram a Coimbra pela mão do Eldorado,loja que abriu com muito sucesso na Rua dos Sapateiros,ao lado do Carlos Camiseiro.Era a grande loja da juventude dos anos sessenta.
As primeiras calças que comercializaram era da marca Lee e custavam quatrocentos escudos.
A seguir vieram as superstar das calças de ganga, as famosas Levis Strauss a que se seguiram as Lois,estas últimas de fabrico espanhol.
As primeiras Levis Strauss que foram vendidas no ELdorado eram fabricadas na Belgica.( Os americanos não inventaram as multinacionais,foram eles que as espalharam no mundo,mas a primeira multinacional foi a Singer e era alemã .)
Mas as memórias são muitas... engraçadas ,como era por exemplo ver os jovens embarcarem no comboio rumo à Figueira da Foz,para mergulhar no mar com as calças vestidas,saírem da água esfregarem areia,voltarem a mergulhar e fazendo isto "n" vezes e por fim expunham-se ao sol até secarem no corpo,e tomarem o desbotado que pretendiam.Qual reumático,qual quê?!...
Eis como um produto destinado ao trabalho se transformou em menos de um século numa peça de vestuário inter-classicista,pois tanto é usada por um grande capitalista como pelo humilde assalariado.
É sem dúvida uma história deveras curiosa....

Nela Dias

6:03 p.m.  

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