O MALAQUIAS
(O percurso de vida de um gato que era a vergonha do dono)
O Malaquias não era um gato. Era um terror.
Conimbricense de naturalidade, nasceu no Bairro Marechal Carmona, numa tarde fria de Janeiro. Foi um dos quatro irmãos que vieram à luz do dia debaixo de um banco de cozinha, na Rua Bartolomeu Dias nº 16.Os donos, esses, ficaram apreensivos com a vasta prole de gatos com que foram contemplados pela Taisi – realmente nome estranho para uma gata.
E agora? ...diziam os meus progenitores inquietos e temendo que a casa se transformasse num jardim zoológico, pois já lá habitavam um canário e um simpático lagarto amestrado e que teve um triste fim: atropelado pelo táxi do Senhor Pimentel…
E eu, ajoelhado no chão da cozinha, em calções, repliquei para o meu pai: e agora?! …agora ficam cá todos!!!. E ficaram.
Com a atenção dos donos e os desvelos da mãe-gata, rápido deitaram corpo. As quatro bolinhas de pêlo eram o encanto dos vizinhos que ficaram com três. Restou o Malaquias.
Pois, como vos disse, restou o Malaquias. A fava do bolo-rei.
Cedo se revelou destemido na arte da patifaria. Para além de conceitos de moralidade bem discutíveis, o Malaquias devia pouco à beleza. Era cinzento - escuro, tinha umas malhas pretas longitudinais ao corpo que lhe davam um ar ainda mais esguio, e um nariz afilado onde pontificavam uns enormes bigodes sem ponta de vergonha.
A sua presença na nossa casa, quase se tornou um pesadelo. Qualquer porta ou janela entreaberta de um vizinho era uma imprudência. Ainda hoje tenho nos meus ouvidos, as exclamações aflitivas da Dona Maria Luísa, da Dona Maria José, da Dona Paula Reis, da Dona Lurdes Mota, da Dona Joana Couto, da Dona Rosa Duarte, da Dona Albertina Santos, um batalhão de vitimas do Malaquias, que desgraçadamente gostava de tudo… pasteis de bacalhau, pasteis sem bacalhau, carapaus fritos e por fritar, costeletas grelhadas e por grelhar, bifes da vazia e de barriga cheia, mesmo que tivesse atolado em comida até às orelhas.
Em casa também roubava tudo o que fosse comestível. Subia para cima da banca da cozinha e atirava com os tachos ao chão. Depois banqueteava-se com o à vontade de quem estava a jantar na esplanada de um restaurante, num calmo fim de tarde.
Corria como um gamo, com o produto do roubo na ponta do focinho, e a sua anatomia filiforme de competição, faz-me agora recordar que ele mais parecia a fuselagem do CONCORDE sem asas. Voava nas asas do vento.
Um dia, já velho, morreu com um derrame cerebral. Foi numa noite em que havia arraial ao fundo das escadas da Rua Pedro Alvares Cabral. Apesar de todos os esforços, o Malaquias finou-se.
Chorei que me matei. Era um patifório, mas era o meu gato. Dava-me marradinhas nas pernas e era carinhoso comigo de vez em quando.
Gostava dele, mas se fosse humano, não tenho dúvidas que teria ido a correr pôr um anúncio num jornal, a não me responsabilizar pelas dívidas dele.
Mas recordo com saudade o Malaquias. Era um simpático malandro.
Quito
Etiquetas: Historias do Bairro, Quito


10 Comentários:
Eu que não conheci o Malaquias fiquei a "conhecê-lo"com esta tua narrativa ... mas também deu para conhecer o menino Quito como criança, "amiguinho" dos animais!(mas como educador...ai,ai...)
Agora ter um lagarto em casa??? Isso é que não...pobre bichinho!
Brilhante história Quito!
Parabéns!
Jose Leitao
Que pena que o Quito tem
De não fazer tão bem,
As belas patifarias
Que fazia o Malaquias!
Queremos mais!
Sôbre racionais, ou irracionais...
Ó Quito mas que texto fenomenal.
Estás mesmo de parabéns.
Simples, elucidativo, gracioso, e de pormenores refinados.
Adorei.
Animou a minha tarde, fez-me recordar algumas dessa senhoras e os bons velhos tempos que até para o teu "larápio", eram bem entusiasmantes.
Também conheci alguns exemplares com a mesma lábia e sem vergonha.
Por cá passaram algumas gatas que me faziam andar sempre de olho na bancada da cozinha, não fosse desaparecer o almoço ou o jantar...
Mas, mesmo assim, quando me recordo dos animais que deram colorido à infância dos meus filhos não consigo deixar de sorrir e de sentir saudade.
Boa Quito!
São contribuições destas que todos estamos a precisar aqui no blog!
Destas e doutras que quem tem arte e e engenho na escrita nos possam brindar com têxtos de qualidade e histórias simples, de que este que escreveste é um bom exemplo!
Quito
Lembrei-me de ti,ao passar na rua Vasco da Gama,agora mesmo,e vi uma ninhada de gatinhos no jardim abandonado da Cristininha Veloso...
por causa da história do Malaquias.
Maria
O jardim tem de facto um ar de abandono.
Espero que o mesmo não aconteça aos gatitos.
Mesmo sem dono,há sempre gente amiga que os vai alimentando, salvo raras e lamenáveis excepções.
Os animais têm os seus direitos...
Um texto inspirado em La Fontaine!
Animal que,embora irrequieto,nos leva a simpatizar com ele,tal como à tua descrição.
Ainda hoje andam pelo meu quintal uns tataranetos do Malaquias, que roubam na cozinha,rasgam os cortinados, fazem xixi nos tapetes...
Não evoluiram na educação,mas mantêm a graça!
Quito és tu com o teu Malaquias. e eu com o meu Fadista.
Ainda bem que não somos perfeitos.
Enterro com as honras devidas a um GRILO que tive durante 2 anos, quem
o fez,EU.
Direito a cruz com fósforos grandes,e caixão da caixa dos ditos.
Coisas antigas que recordo com saudade.
Um abraço.
Tonito.
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