Figuras de COIMBRA - Prof. Joaquim Feio
O professor Joaquim Feio era um dos mais temidos professores da Faculdade. Na minha modesta opinião, acho que era dos melhores professores que lá havia, e até dava uma cadeira que eu considero muito importante – História do Pensamento Económico – e que me fez passar a ter uma outra visão sobre o curso de Economia e a gostar muito mais do curso que estava a tirar, facilitando-me até a compreensão de outras cadeiras que fiz posteriormente, mas era um professor que, para muitos, tinha o coração ao pé da boca, embora, para mim, eu continue a achar que ele cultivava essa imagem de “mauzão”, sendo até um professor bastante porreiro (não estou a dar graxa, pois já acabei o curso e não preciso dele para nada); mas como ele chamava burros, ignorantes, sem cultura nenhuma, etc., a todos, quase ninguém se inscrevia nas cadeiras opcionais que fossem dadas por ele. No fundo, acho que ninguém gostava dele porque o que ele dizia acerca da nossa ignorância e falta de cultura, por ser verdade, nos doía mais ; e o que ele dizia acerca de ninguém sair dali com conhecimentos a sério, apenas decorando umas coisas para despejar no dia do exame e esquecer depois, também era verdade; e a sua famosa frase de que a FEUC (mas aqui eu englobo todas as outras – ou quase – universidades do país) era um “hipermercado de licenciaturas”, também era verdade (agora é-o ainda mais, mas de mestrados); e o que ele dizia acerca de os estudantes não saberem pensar, também era verdade; ou tudo o resto que ele dizia, com maus modos, eram verdades; daí, ninguém (ou quase ninguém) gostar dele.
Mas acabou por ser o professor de que eu me recordo de mais histórias engraçadas. Só não concordava com ele quando ele começava a dizer-me que a Praxe era anacrónica, que tudo aquilo que eu vivia e em que acreditava era anacrónico…
Lembro-me de uma vez estar numa aula dele e alguém chegar atrasado e entrar de mansinho; ele parou de falar e ficou a olhar para a criatura, com ar de nojo, até que se saiu, uns segundos depois, à bruta, com um “onde é que você vai?”; a rapariga, muito atrapalhada, respondeu que queria assistir à aula, ao que ele respondeu que era uma vergonha chegar atrasada, a perturbar a aula, e nem sequer bater à porta e pedir licença; a rapariga pediu desculpa, mas ele mandou-a sair, bater à porta, e pedir licença para entrar; assistimos todos (éramos muitos, pois a sala estava completamente cheia – todos sabiam que quem não fosse às aulas dele muito dificilmente passaria) ao espectáculo de ver a rapariga sair, bater à porta e pedir licença para entrar, ao que ele, sempre com maus modos, respondeu: “Pode, pode entrar e sentar-se aí onde quiser, pelo meio do chão!”.
Noutra aula, estava ele a falar de autarcia, ou seja, um país tentar ser auto-suficiente em tudo, de forma a ter a sua economia completamente fechada ao mundo e não precisar de importar ou exportar nada; no decorrer deste assunto, perguntou à turma (fazer perguntas que ninguém sabia era sempre um pretexto para chamar ignorantes a todos, por isso ele não perdia uma) se alguém sabia qual era o país que, à época, ainda tentava praticar a autarcia; levantei o braço e respondi: “A Albânia”; ora ele não estava à espera que alguém soubesse, por isso saiu logo com uma contra pergunta, para me poder chamar ignorante: “E onde fica a Albânia?”; “Entre a Grécia e a Jugoslávia.”; “A norte ou a sul da Grécia?”; “A norte.”; “A norte ou a sul da Jugoslávia?”; “A sul.”; “Muito bem”, disse ele rindo-se, vencido, “Você agora até sabe umas coisas! Antes só sabia de Praxe e…” levantou a perna e fez o gesto de quem está a enfiar o saca-rolhas numa garrafa de vinho, a rodar a mão, e depois a sacar a rolha com um gesto brusco!
Nessa cadeira sabia umas coisas e o exame correu-me muito bem, mas o homem quis-me levar à oral, para me poder torturar um bocado (como certos gatos gostam de fazer com os ratos: brincar, brincar e depois deixar ir embora). Lá fui eu, muito nervoso, e lá estava ele, com o seu ar sádico, a rir-se para mim; o Mário Neto também lá estava, mas quem mandava, quem punha e dispunha era ele, quem fazia as perguntas era ele. Ora, passou o tempo todo da oral sem me fazer uma única pergunta relacionada com aquela cadeira, pelo que lá fui eu fazendo triste figura. A certa altura, pergunta-me a que davam origem desequilíbrios na balança de pagamentos ou outra balança qualquer, já não tenho a certeza; como não sabia, respondi: “Défices ou superavites!”; “Ora muito obrigado! Mas um défice na balança de pagamentos dá origem a quê?”; sem saber a resposta (que não fazia parte da matéria), lá fui inventando: “Desemprego, problemas sociais…”; “E terramotos! E maremotos!”, ironizou ele; “Desculpe, professor”, interrompi, “mas terramotos e maremotos não têm muito a ver com défices na balança de pagamentos…”; “Então pronto: droga, prostituição, criminalidade!”, gozou ele comigo, coisa, aliás, de que constou toda a oral: gozar comigo. No fim, sem eu ter respondido a uma única pergunta bem, vira-se para mim, ante o olhar estupefacto do Mário Neto, e diz-me: “Você vai passar porque isto não é o Titanic, para andar aqui encalhado. Eu sei que os seus pais já lhe cortaram a colecta, que anda no bar com o pãozinho e a latinha das salsichas, a pedir a maionese ao Sr. Carlos (o Sr. que explora o bar da FEUC). Mas você não é parvo nenhum, não estuda é nada! Vá-se lá embora e veja lá se começa mas é a estudar alguma coisa!”. E deu-me o 10!
Já mais para a frente no meu curso – e eu era dos poucos alunos com quem ele falava – certo dia veio-me perguntar quanto é que os meus pais me davam de mesada; eu era dos estudantes que ali andavam com menos mesada, e disse-lhe quanto era, ao que me respondeu: “Ah! É mais ou menos o que dou à minha filha…”. Ou seja, estava a ver se andava a dar muito ou pouco dinheiro à filha!
Quando fui tentar fazer História do Pensamento Económico em Junho, chumbei. Foi injusto, e sei que chumbei por ser eu, mas acredito que, no fundo, o homem gostava de mim, reconhecia-me potencial e queria-me obrigar a estudar, pois sabia bem que eu não estudava quase nada. Em Setembro já não brinquei e li os livros todos que ele mandou, desde Adam Smith, a David Ricardo, a livros de história do pensamento económico que encontrei, mas havia uma pergunta que ele fazia muitas vezes nos testes que eu não encontrava nada sobre aquilo, por isso, um dia que o encontrei na FEUC (por acaso eu até estava um bocado – bastante – tocado!), perguntei-lhe onde haveria de encontrar algo sobre a “entrepeneur economy e a co-operative economy”; ele não achou que eu tivesse pronunciado bem o “co-operative”, por isso emendou: “co-operative!”; não achei diferença entre o que eu e o que ele disséramos, por isso repeti: “co-operative”; emendou ele: “co-operative!”; respondi-lhe: “co-operative”; “Não! Co-operative!”; já morto de vontade de rir, respondi mais uma vez: “co-operative”; ele lá deve ter achado que eu disse bem, ou achou que não valia a pena perder mais tempo, pois eu não iria lá, portanto passou à fase B, em que começou a dizer mal de mim e de todos os estudantes, que queríamos sempre a papinha toda feita e todo um imenso conjunto de impropérios contra a ignorância e “infantilização dos estudantes do ensino superior”, e terminou a dizer para ir procurar à biblioteca, pois “pode ser que até lá encontre alguma coisa sobre isso, escrito por mim!”. Foi o que quis ouvir, fui lá mais tarde e lá encontrei essa matéria. Uns dias depois fui ao exame e tirei a melhor nota da cadeira, naquela época: 13! Uns dias depois, passou por mim e riu-se todo, a dizer: “Você estudou! Desta vez você estudou! E quando estuda até sabe umas coisas!”.
A última história engraçada dele de que me lembro agora, foi passada numa assembleia de representantes da FEUC, e deu-se com o Branquinho. Na altura discutia-se a época de exames de Maio (no meu tempo, a segunda época de exames das cadeiras do primeiro semestre, era em Maio), pois os professores queriam acabar com ela e os estudantes não queriam. Estavam nisto, quando ele disse que, na altura em que os professores implementaram isso, os estudantes não queriam; o Branquinho respondeu-lhe que os estudantes de agora (de então) não eram reencarnações dos estudantes que não quiseram a época de Maio; resposta pronta: “Você é a reencarnação da alma penada de um estudante do século XIX!”.
Batinas do TTIS
Mas acabou por ser o professor de que eu me recordo de mais histórias engraçadas. Só não concordava com ele quando ele começava a dizer-me que a Praxe era anacrónica, que tudo aquilo que eu vivia e em que acreditava era anacrónico…
Lembro-me de uma vez estar numa aula dele e alguém chegar atrasado e entrar de mansinho; ele parou de falar e ficou a olhar para a criatura, com ar de nojo, até que se saiu, uns segundos depois, à bruta, com um “onde é que você vai?”; a rapariga, muito atrapalhada, respondeu que queria assistir à aula, ao que ele respondeu que era uma vergonha chegar atrasada, a perturbar a aula, e nem sequer bater à porta e pedir licença; a rapariga pediu desculpa, mas ele mandou-a sair, bater à porta, e pedir licença para entrar; assistimos todos (éramos muitos, pois a sala estava completamente cheia – todos sabiam que quem não fosse às aulas dele muito dificilmente passaria) ao espectáculo de ver a rapariga sair, bater à porta e pedir licença para entrar, ao que ele, sempre com maus modos, respondeu: “Pode, pode entrar e sentar-se aí onde quiser, pelo meio do chão!”.
Noutra aula, estava ele a falar de autarcia, ou seja, um país tentar ser auto-suficiente em tudo, de forma a ter a sua economia completamente fechada ao mundo e não precisar de importar ou exportar nada; no decorrer deste assunto, perguntou à turma (fazer perguntas que ninguém sabia era sempre um pretexto para chamar ignorantes a todos, por isso ele não perdia uma) se alguém sabia qual era o país que, à época, ainda tentava praticar a autarcia; levantei o braço e respondi: “A Albânia”; ora ele não estava à espera que alguém soubesse, por isso saiu logo com uma contra pergunta, para me poder chamar ignorante: “E onde fica a Albânia?”; “Entre a Grécia e a Jugoslávia.”; “A norte ou a sul da Grécia?”; “A norte.”; “A norte ou a sul da Jugoslávia?”; “A sul.”; “Muito bem”, disse ele rindo-se, vencido, “Você agora até sabe umas coisas! Antes só sabia de Praxe e…” levantou a perna e fez o gesto de quem está a enfiar o saca-rolhas numa garrafa de vinho, a rodar a mão, e depois a sacar a rolha com um gesto brusco!
Nessa cadeira sabia umas coisas e o exame correu-me muito bem, mas o homem quis-me levar à oral, para me poder torturar um bocado (como certos gatos gostam de fazer com os ratos: brincar, brincar e depois deixar ir embora). Lá fui eu, muito nervoso, e lá estava ele, com o seu ar sádico, a rir-se para mim; o Mário Neto também lá estava, mas quem mandava, quem punha e dispunha era ele, quem fazia as perguntas era ele. Ora, passou o tempo todo da oral sem me fazer uma única pergunta relacionada com aquela cadeira, pelo que lá fui eu fazendo triste figura. A certa altura, pergunta-me a que davam origem desequilíbrios na balança de pagamentos ou outra balança qualquer, já não tenho a certeza; como não sabia, respondi: “Défices ou superavites!”; “Ora muito obrigado! Mas um défice na balança de pagamentos dá origem a quê?”; sem saber a resposta (que não fazia parte da matéria), lá fui inventando: “Desemprego, problemas sociais…”; “E terramotos! E maremotos!”, ironizou ele; “Desculpe, professor”, interrompi, “mas terramotos e maremotos não têm muito a ver com défices na balança de pagamentos…”; “Então pronto: droga, prostituição, criminalidade!”, gozou ele comigo, coisa, aliás, de que constou toda a oral: gozar comigo. No fim, sem eu ter respondido a uma única pergunta bem, vira-se para mim, ante o olhar estupefacto do Mário Neto, e diz-me: “Você vai passar porque isto não é o Titanic, para andar aqui encalhado. Eu sei que os seus pais já lhe cortaram a colecta, que anda no bar com o pãozinho e a latinha das salsichas, a pedir a maionese ao Sr. Carlos (o Sr. que explora o bar da FEUC). Mas você não é parvo nenhum, não estuda é nada! Vá-se lá embora e veja lá se começa mas é a estudar alguma coisa!”. E deu-me o 10!
Já mais para a frente no meu curso – e eu era dos poucos alunos com quem ele falava – certo dia veio-me perguntar quanto é que os meus pais me davam de mesada; eu era dos estudantes que ali andavam com menos mesada, e disse-lhe quanto era, ao que me respondeu: “Ah! É mais ou menos o que dou à minha filha…”. Ou seja, estava a ver se andava a dar muito ou pouco dinheiro à filha!
Quando fui tentar fazer História do Pensamento Económico em Junho, chumbei. Foi injusto, e sei que chumbei por ser eu, mas acredito que, no fundo, o homem gostava de mim, reconhecia-me potencial e queria-me obrigar a estudar, pois sabia bem que eu não estudava quase nada. Em Setembro já não brinquei e li os livros todos que ele mandou, desde Adam Smith, a David Ricardo, a livros de história do pensamento económico que encontrei, mas havia uma pergunta que ele fazia muitas vezes nos testes que eu não encontrava nada sobre aquilo, por isso, um dia que o encontrei na FEUC (por acaso eu até estava um bocado – bastante – tocado!), perguntei-lhe onde haveria de encontrar algo sobre a “entrepeneur economy e a co-operative economy”; ele não achou que eu tivesse pronunciado bem o “co-operative”, por isso emendou: “co-operative!”; não achei diferença entre o que eu e o que ele disséramos, por isso repeti: “co-operative”; emendou ele: “co-operative!”; respondi-lhe: “co-operative”; “Não! Co-operative!”; já morto de vontade de rir, respondi mais uma vez: “co-operative”; ele lá deve ter achado que eu disse bem, ou achou que não valia a pena perder mais tempo, pois eu não iria lá, portanto passou à fase B, em que começou a dizer mal de mim e de todos os estudantes, que queríamos sempre a papinha toda feita e todo um imenso conjunto de impropérios contra a ignorância e “infantilização dos estudantes do ensino superior”, e terminou a dizer para ir procurar à biblioteca, pois “pode ser que até lá encontre alguma coisa sobre isso, escrito por mim!”. Foi o que quis ouvir, fui lá mais tarde e lá encontrei essa matéria. Uns dias depois fui ao exame e tirei a melhor nota da cadeira, naquela época: 13! Uns dias depois, passou por mim e riu-se todo, a dizer: “Você estudou! Desta vez você estudou! E quando estuda até sabe umas coisas!”.
A última história engraçada dele de que me lembro agora, foi passada numa assembleia de representantes da FEUC, e deu-se com o Branquinho. Na altura discutia-se a época de exames de Maio (no meu tempo, a segunda época de exames das cadeiras do primeiro semestre, era em Maio), pois os professores queriam acabar com ela e os estudantes não queriam. Estavam nisto, quando ele disse que, na altura em que os professores implementaram isso, os estudantes não queriam; o Branquinho respondeu-lhe que os estudantes de agora (de então) não eram reencarnações dos estudantes que não quiseram a época de Maio; resposta pronta: “Você é a reencarnação da alma penada de um estudante do século XIX!”.
Batinas do TTIS
Etiquetas: Batinas, Figuras de Coimbra, Vida Academica


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