A Rua D e a Praça dos Baloiços
Para todos aqueles que como eu, deram os primeiros passos no Bairro, cada rua e cada praça têm uma história, e o Bairro é, em certa medida, para todos os que lá vivemos, o somatório de todas essas recordações, umas boas, outras nem tanto. Para todos aqueles que como eu, deram os primeiros passos no Bairro, cada rua e cada praça têm uma história, e o Bairro é, em certa medida, para todos os que lá vivemos, o somatório de todas essas recordações, umas boas, outras nem tanto.
-A minha história de infância está ligada à Rua Bartolomeu Dias ( Rua D ) e à Praça da Índia Portuguesa, a famosa Praça dos Baloiços,, onde fiz muitas das amizades que perduram até hoje. Entre outros aqui recordo o Zé Alves, os irmãos Pinto Marques, o Zé Morgado e o Carlos Morgado, o Mário Reis, o Zéze, a Mimi, a Lena Garcia e o Fernando Mota, que propositadamente guardei para o fim, pois já não está entre nós. Foi um grande amigo de infância e aqui fica o registo do meu tributo à sua memória. Ainda neste capítulo e recuando aos já distantes anos 70 aqui recordo o Costa, que foi morador na Rua Aniceto do Rosário nº 7 e que na Guiné perdeu o bem mais precioso que tinha- a vida. Julgo mesmo, que dessa época tão cinzenta da nossa história colectiva, foi o único do nosso Bairro que faleceu na guerra e volvidos todos estes anos é o momento oportuno de o lembrar.
-Feitas estas considerações, falemos então da nossa Praça dos Baloiços. Ali nos juntávamos em renhidas partidas de futebol, para além de outras manifestações desportivas, como o lançamento do peso, já aqui recordado pelo amigo Ernesto Costa, ao que parece com desastrosas consequências. Mas não deixo de lembrar uma outra manifestação desportiva em voga, aproveitando a caixa de areia que havia no meio da praça. Falo das corridas com as tampas de lata das garrafas de cerveja (caricas). Mas para preparar a pista era preciso alisar a areia. Nada mais simples. Um voluntário sentava-se no chão enquanto os outros o puxavam pelas pernas, deixando atrás de si um rasto de areia bem plana, dando azo á formação de uma pista magnífica onde deslizavam as latinhas, com evidente prejuízo do fundo das calças do nosso voluntário como facilmente se apercebe, puídas pela fricção das ditas no grosso areão.
-No futebol a coisa piava mais fino. Era desporto de alto risco. Nada a ver com lesões. Apenas e só com um polícia, um simples polícia, que pura e simplesmente nos vedada a possibilidade de manifestarmos os nossos dotes futebolísticos que, diga-se em abono da verdade, não eram muitos, excepção feita ao Costa, por todos conhecido por “faz tudo”, um talento na arte do pontapé na bola.
- Mas, aproveitando a ausência do referido agente da autoridade, que não podia estar ao mesmo tempo em todo o lado, organizávamos então renhidas partidas de futebol, sempre com o olho no burro e outro no cigano que o mesmo é dizer, um olho na bola e outro na esquina da Rua Bartolomeu Dias não fosse aparecer o diabo fardado.
- Por vezes o nosso homem lá aparecia, e nós, já avisados por um qualquer olheiro, fugíamos em debandada pela Rua Aniceto do Rosário, gorando a expectativa do polícia em nos filar.
- Depois, atravessando quintais, lá rumávamos a porto seguro, ou seja, a casa, onde a minha mãe, ao ver-me todo transpirado e com a ponta das botas esfoladas e a pedir socorro, benzia-se lentamente com a mão esquerda, não por qualquer convicção religiosa, mas como acto que sempre reputei de intimidatório, enquanto me ia avisando: quando o teu pai chegar…
- Ainda voltando àquela figura sinistra do polícia. Um dia ia tendo o seu momento de glória. No calor do jogo não reparámos na sua presença. Apareceu de supetão vindo da Rua de Moçambique e nós, naquela emergência, não tivemos outra alternativa que não fosse activar o plano B, ou seja, entrar de enxurrada pelo quintal da Dona Felisbela e do Sr. Pereira, exactamente os pais dos irmãos Morgado, que, acrescente-se, também tinham sido convocados para mais uma gloriosa tarde de futebol.
- Foi tal a aflição que só nos detivemos no fundo do quintal, barricados atrás de um muro só com os olhos de fora, enquanto o polícia se quedava junto ao portão por largo tempo, na esperança de nos ver içar a bandeira branca da capitulação absoluta. Enganou-se. Resistimos como resistem todos os bravos. E o homem lá se foi embora, com as mãos atrás das costas em direcção ao posto da PSP do bairro.
-Na verdade, o dito agente exorbitava nas suas funções, ao invés de outros que, mais compreensivos, apenas se limitavam de longe a acenar com a cabeça, como que lembrando que nos era vedado jogar à bola na nossa praça.
- Mas aquele guarda, decididamente, não gostava nada de nós, e nós, naturalmente, também não gostávamos nada dele.
- Numa nota final, apenas recordá-lo como uma figura alta e esguia, de farda cinzenta e nariz adunco. Talvez por isso o tratávamos carinhosamente por carapau de corrida.
Texto de (Quito) – Rua D
Já pub.emJul08
-A minha história de infância está ligada à Rua Bartolomeu Dias ( Rua D ) e à Praça da Índia Portuguesa, a famosa Praça dos Baloiços,, onde fiz muitas das amizades que perduram até hoje. Entre outros aqui recordo o Zé Alves, os irmãos Pinto Marques, o Zé Morgado e o Carlos Morgado, o Mário Reis, o Zéze, a Mimi, a Lena Garcia e o Fernando Mota, que propositadamente guardei para o fim, pois já não está entre nós. Foi um grande amigo de infância e aqui fica o registo do meu tributo à sua memória. Ainda neste capítulo e recuando aos já distantes anos 70 aqui recordo o Costa, que foi morador na Rua Aniceto do Rosário nº 7 e que na Guiné perdeu o bem mais precioso que tinha- a vida. Julgo mesmo, que dessa época tão cinzenta da nossa história colectiva, foi o único do nosso Bairro que faleceu na guerra e volvidos todos estes anos é o momento oportuno de o lembrar.
-Feitas estas considerações, falemos então da nossa Praça dos Baloiços. Ali nos juntávamos em renhidas partidas de futebol, para além de outras manifestações desportivas, como o lançamento do peso, já aqui recordado pelo amigo Ernesto Costa, ao que parece com desastrosas consequências. Mas não deixo de lembrar uma outra manifestação desportiva em voga, aproveitando a caixa de areia que havia no meio da praça. Falo das corridas com as tampas de lata das garrafas de cerveja (caricas). Mas para preparar a pista era preciso alisar a areia. Nada mais simples. Um voluntário sentava-se no chão enquanto os outros o puxavam pelas pernas, deixando atrás de si um rasto de areia bem plana, dando azo á formação de uma pista magnífica onde deslizavam as latinhas, com evidente prejuízo do fundo das calças do nosso voluntário como facilmente se apercebe, puídas pela fricção das ditas no grosso areão.
-No futebol a coisa piava mais fino. Era desporto de alto risco. Nada a ver com lesões. Apenas e só com um polícia, um simples polícia, que pura e simplesmente nos vedada a possibilidade de manifestarmos os nossos dotes futebolísticos que, diga-se em abono da verdade, não eram muitos, excepção feita ao Costa, por todos conhecido por “faz tudo”, um talento na arte do pontapé na bola.
- Mas, aproveitando a ausência do referido agente da autoridade, que não podia estar ao mesmo tempo em todo o lado, organizávamos então renhidas partidas de futebol, sempre com o olho no burro e outro no cigano que o mesmo é dizer, um olho na bola e outro na esquina da Rua Bartolomeu Dias não fosse aparecer o diabo fardado.
- Por vezes o nosso homem lá aparecia, e nós, já avisados por um qualquer olheiro, fugíamos em debandada pela Rua Aniceto do Rosário, gorando a expectativa do polícia em nos filar.
- Depois, atravessando quintais, lá rumávamos a porto seguro, ou seja, a casa, onde a minha mãe, ao ver-me todo transpirado e com a ponta das botas esfoladas e a pedir socorro, benzia-se lentamente com a mão esquerda, não por qualquer convicção religiosa, mas como acto que sempre reputei de intimidatório, enquanto me ia avisando: quando o teu pai chegar…
- Ainda voltando àquela figura sinistra do polícia. Um dia ia tendo o seu momento de glória. No calor do jogo não reparámos na sua presença. Apareceu de supetão vindo da Rua de Moçambique e nós, naquela emergência, não tivemos outra alternativa que não fosse activar o plano B, ou seja, entrar de enxurrada pelo quintal da Dona Felisbela e do Sr. Pereira, exactamente os pais dos irmãos Morgado, que, acrescente-se, também tinham sido convocados para mais uma gloriosa tarde de futebol.
- Foi tal a aflição que só nos detivemos no fundo do quintal, barricados atrás de um muro só com os olhos de fora, enquanto o polícia se quedava junto ao portão por largo tempo, na esperança de nos ver içar a bandeira branca da capitulação absoluta. Enganou-se. Resistimos como resistem todos os bravos. E o homem lá se foi embora, com as mãos atrás das costas em direcção ao posto da PSP do bairro.
-Na verdade, o dito agente exorbitava nas suas funções, ao invés de outros que, mais compreensivos, apenas se limitavam de longe a acenar com a cabeça, como que lembrando que nos era vedado jogar à bola na nossa praça.
- Mas aquele guarda, decididamente, não gostava nada de nós, e nós, naturalmente, também não gostávamos nada dele.
- Numa nota final, apenas recordá-lo como uma figura alta e esguia, de farda cinzenta e nariz adunco. Talvez por isso o tratávamos carinhosamente por carapau de corrida.
Texto de (Quito) – Rua D
Já pub.emJul08
Etiquetas: Historias do Bairro, Praça Baloiços, Quito


10 Comentários:
O que o Quito nos veio lembrar. Latichas, arquitectura de pistas, jogos de futebol, o "sr. polícia" daquele tempo e que ficaram para sempre a serem figuras típicas do bairro enquanto que instituição, os saltas quintais. Rejuvenesci.
Chico
Tambem tu Quito me fizeste lembrar os bons momentos da nossa meninice e da saudosa Praça dos Baloiços e tambem dos amigos que já não se encontram entre nós.Como sempre os teus textos são lindos.
Beijinhos para ti e para a São
Nela Sarmento
Meu caro Quito
aqui de Trondheim na Noruéga dei este texto a ler há momentos ao Nuno para ele sentir como foi a infancia dos pais e dos amigos.
A nossa infancia era realmente de uma imaginação forte.Eu nas "caricas" não era lá grande coisa o Quito nisso era o expert.
Falando um bocado Tronheim é uma cidade muito gira muito perto de alguns fiordes,amanhã vou até Oslo.
Abraços a todos
Ana Carlos eNuno
Quito
Amigo e camarada de AP (para quem não saiba AP é a sigla da tropa para Armas Pesadas...)
Desculpa, vais-me desculpar, mas Praça dos Baloiços, a primeira foi a minha, a Praça P, depois Açores e agora do Encontro de Gerações...
Abraço o alcance do morteiro 10,6, se ainda me lembro...
arlos
Fizeste bem trocar Tronheim por Pinheiro de Lafões...sempre estás melhor e ainda por cima com o Nuno por perto...bos estada e um beijo à Ana...ela que não se esqueça de um Muralhas para o cabrito...sabe bem com todos os pratos....
Quito! Mais um texto espectacular!
Uma pequena correcçao: o nosso amigo Costa faleceu em Angola, na cidade onde eu estava instalado.
Como sabes, também fiz 2 anos de serviço militar no leste de Angola mas, por enquanto prefiro calar-me!O Estado Português deveria têr vergonha dessa guerra, que tanta mocidade matou e tanto sofrimento causou!!Hoje, o povo Angolano continua a ser pobre e a élite governamental nunca se sentiu tao poderosa como hoje. Sabiam que a Embaixada de Angola em Paris està situada na Avenida mais chique e mais cara da capital francesa?Avenue Foch!!!
Os diamantes e o petroleo continuam a ser explorados pelos tais paises super-desenvolvidos, cuja preocupaçao é de manter o poder local actual!!!
Um abraço para os Noruegueses!Na Noruega jà so hà bacalhau de viveiro!!!
Trondheim faz-me lembrar as aventuras do Luso-Britânico Major Cook e Alvega!
Quanto a corridas de caricas,tínhamos as provas fora de estrada(areia ou terra) e as de estrada, nas bordas dos passeios em que contavam os traços que se ultrapassava antes de saír para o passeio ou para a rua.
As caricas também eram normalmente mais ou menos cheias com areia, conforme o parecer (ciência?) de cada um, e com as côres dos equipamentos ou os nomes dos ciclistas mais conhecidos da altura.
A construção das pistas na areia era o que mais gôzo me dava!
As rampas, os relevés das curvas...
Pois...
A seguir...
O mesmo, mas com " Dinky Toys"...
Meu caro BobbyZé
Será que estamos a falar do mesmo Costa?
Eu ía jurar que o Costa da Rua Canto Resende faleceu na Guiné! Fica a dúvida.
Carlos
Boa estadia na Noruega. Para além das paisagens, estás com a Ana junto do teu filhóte (para nós, pais,os filhos são sempre os nossos meninos).
Já agora apenas lembrar que este texto é de 2008. Já tem barbas...
Um abraço a todos
Quito! Talvez nao!Referia-me ao irmao do Cola. Era um amigo muito porreiro. Andei meses e meses bastante triste quando soube dessa triste noticia!
Um abraço matinal!
Bobbyzé
Estamos de facto a falar do mesmo amigo que faleceu.
Talvez tenhas razão. Se calhar foi em Angola. Mas quem sabe de certeza é a Nela Dias, que era vizinha dele.
Abraço
Bom texto para matar saudades. Eu enchia as caricas com casca de laranja para serem mais pesadas e não "furar" com força de impulsão a mais. Quanto aos jogos, as balizas tinham de ter algo para juntar á oliveira e á outra árvore em frente á casa da Ju e da Titá( nas férias era de manhã á noite. Dos colegas que entraram nos vomentários existe o RI-RI que não sei quem é?
Um abraços para todos e boas férias
Azenha
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