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sábado, 16 de janeiro de 2010

Só o sexo atenta contra o nosso pudor. Triste país.

"Até chamei a minha mulher para ver e da janela da minha casa assistia-se a tudo". O tudo a que se assistia era um casal de jovens dentro de um carro namorando com muita intensidade. "Eles não se largavam. A rapariga estava sem camisola e o rapaz estava com as calças para baixo. Eu e outras pessoas passámos junto ao carro, mas eles não se importavam com ninguém", explica o mesmo mirador, definido pelo "Diário de Notícias" do passado dia 10 de Dezembro como morador. Não foi por falta de esforço deste voyeur convicto que os namorados se mantiveram embrenhados um no outro, fora do mundo: o homem viu da janela, chamou a sua Maria para que partilhasse a entusiasmante visão - na esperança de que ela aprendesse alguma coisa? - , depois desceu à rua, rondou o carro, e nada. "Quem foi passando na rua ficou 'escandalizado' com o que viu, sobretudo por ser ainda de manhã, e chamaram a Polícia Municipal. A patrulha chegou ao local ainda a tempo de apanhar os jovens em flagrante delito", conclui o "DN". A notícia tem por título 'Casal apanhado a fazer sexo oral', e surge devidamente ilustrada com a fotografia de uma rua desabrida e a legenda "Foi neste local de Paredes que os jovens se entregaram ao sexo". Lembrei-me de um poema de Daniel Filipe que lia, relia e sublinhava nos meus tempos de liceu, sobre um homem e uma mulher que "inventaram o amor com carácter de urgência" e foram perseguidos por isso mesmo. Estes jovens vão responder em tribunal pelo crime de atentado ao pudor. Sobretudo por "ser ainda de manhã"? Se tivessem guardado os seus ardores para o cair da noite, seria o 'atentado' menos grave?

A expressão "moradores escandalizados" é várias vezes repetida ao longo da notícia. A mim, escandaliza-me a existência da notícia. Ou melhor: escandaliza-me que o centro da notícia seja o 'escândalo' declarado pelos moradores e não o 'escândalo' da condenação judicial dos jovens. Quantas pessoas fazem sexo dentro de automóveis - por não poderem fazê-lo em casa dos pais, por não terem dinheiro ou coragem para alugar um quarto de hotel ou porque, simplesmente, começam a beijar-se e não conseguem parar de se entregar um ao outro? Que mal vem daí ao mundo? O desejo, os beijos, os abraços, fazem mal a quem? Os 'moradores escandalizados' reagiriam do mesmo modo se vissem, dentro ou fora de um carro, um adulto espancar uma criança, um homem espancar uma mulher (ou vice-versa, mas é menos frequente) ou um grupo de jovens humilhar outro? Estas coisas acontecem diariamente e não vêm nos jornais, nem são alvo de processo judicial. Imagino a reacção dos pais da rapariga, lá em Paredes, a este processo. Imagino os castigos a que será submetida, já fora da alçada do flagrante delito.

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3 Comentários:

Blogger Isabel Melga disse...

Amor? Assédio?Violência?Falso Moralismo?“Miopia”ou Recalcamentos?

Sobre este incidente e respectiva reportagem que nos foi enviada e que apenas li agora no Blog, eu colocaria algumas observações. E porquê? As coisas que nos passam à frente no dia-a-dia, não são só a branco e preto! Errado quem pensa assim, digo eu! Tenho conhecimento de incidentes de alguma gravidade e algo tristes sobre episódios ocorridos dentro de veículos. Converso com muita gente, ouvimos histórias, umas de ficção, outras não…E conheço pessoal ligado mesmo aos Serviços Sociais que lidam com todo o tipo de ocorrências deste género!A saber em primeiro lugar, ainda relacionada com esta notícia, o casal eram pessoas de que idade? Depois, o amor é quanto mais autêntico quanto mais recatado e íntimo, mas isso é com cada um, não interessa para este caso. Gostoso sim, é um beijito roubado à queima-roupa por alguém que nos atrai o que não significa algo pecaminoso!
Relatos de cenas em automóveis são frequentemente fruto de álcool, de droga, de roubo, acontecem em zonas desta Coimbra e em muitas outras cidades onde há lugares propícios, onde existem camadas jovens entregues a si próprios que se deslocam do seio familiar para virem estudar ou trabalhar. Alguns aguentam-se no “balanço” levam um ritmo normal, discreto devido à sua maturidade e formação intelectual e familiar. Outras/os, rendem-se ao imaturo deslumbramento de uma liberdade mal assumida e pior ainda, muito pouco “digerida”. Essa “camada” sim, é muito vulnerável a deixar-se levar por uma onda descontrolada de exibicionismo, ingenuidade. Acontece cometerem excessos em alturas festivas ou serem aliciados por oportunistas e como não estão habituados a ficarem entregues a si próprios, com o “sangue na guelra” a fervilhar de curiosidade de emoções fortes, correm muitas das vezes o risco de se deixarem apanhar desprevenidos pela “Onda” e a caírem num grande pântano… Aí inicia-se a tal existência conturbada, um processo de pesadelo, são marginalizados pelos colegas, a família entretanto ignora e leva demasiado tempo a ter notícias, nem percebo bem porquê, e os Serviços Sociais não chegam para as solicitações! A “viagem” desta maltita torna-se muito morosa turbulenta e derretem somas de dinheiro ingloriamente à família, queimam a sua juventude e nem saboreiam o que é na verdade a alegria de viver e o que é o amor e a amizade entre colegas! Esses nunca ou quase nunca terão histórias giras, lindas, ternurentas de convívios alegres, outras de inter-ajuda, porque isto tudo é natural, é normal na sua idade. Ter objectivos, preocupações e ambições semelhantes! Mas os “enfants terribles” afastam-se dessa realidade porque se isolam ou ficam pelo caminho! Só nesta zona em cerca de um mês tivemos conhecimento de 4 casos com desfecho trágico!
Por isso e sem falsos moralismos nem precipitações ou generalizações, há que dizer, ViVa o Amor! Abaixo a hipocrisia, mas também, abaixo o exibicionismo, a vulgarização de fazer sexo e cuidado com as provocações; nem todos temos a mesma formação, há que salvaguardar a sensibilidade dos mais novos e dos mais velhos. Há que respeitar a Sociedade em que vivemos e acima de tudo, respeitarmo-nos a nós próprios!
E sobre a VIOLÊNCIA venha ela de familiares, ou de forças estranhas, seja camuflada sob o “pano” do ASSÉDIO, quer seja infligida a crianças ou a adultos, deverá ser sempre repudiada e punida vivamente!
Desculpem se falei muito era para ir adiando os outros afazeres que me esperam... Obrigada pela vossa paciência. Isabel Melga

2:41 p.m.  
Blogger Pedro Sarmento disse...

Enfim, há tanta coisa importante para ser noticia que valha-me Deus.

4:05 p.m.  
Blogger Manuela Curado disse...

Pois após a explanação da nossa Isabelita pouco ou mesmo nada tenho a acrecentar.
"UM POUCO DE RECATO NÃO FAZ MAL A NINGUÉM".
Como diz Pedro Sarmento, lamento que Inês Pedrosa considerasse este ...tema de notícia.

7:02 p.m.  

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