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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

JÁ VIVI NESSE PAÍS E NÃO GOSTEI.

( Texto de Isabel do Carmo (médica).

"O primeiro-ministro anunciou que íamos empobrecer, com aquele desígnio de falar “verdade”, que consiste na banalização do mal, para que nos resignemos mais suavemente. Ao lado, uma espécie de contabilista a nível nacional diz-nos, como é hábito nos contabilistas, que as contas são difíceis de perceber, mas que os números são crus. Os agiotas batem à porta e eles afinal até são amigos dos agiotas. Que não tivéssemos caído na asneira de empenhar os brincos, os anéis e as pulseiras para comprar a máquina de lavar alemã. E agora as jóias não valem nada. Mas o vendedor prometeu-nos que… Não interessa.

Vamos empobrecer. Já vivi num país assim. Um país onde os “remediados” só compravam fruta para as crianças e os pomares estavam rodeados de muros encimados por vidros de garrafa partidos, onde as crianças mais pobres se espetavam, se tentassem ir às árvores. Um país onde se ia ao talho comprar um bife que se pedia “mais tenrinho” para os mais pequenos, onde convinha que o peixe não cheirasse “a fénico”. Não, não era a “alimentação mediterrânica”, nos meios industriais e no interior isolado, era a sobrevivência.

Na terra onde nasci, os operários corticeiros, quando adoeciam ou deixavam de trabalhar vinham para a rua pedir esmola (como é que vão fazer agora os desempregados de “longa” duração, ou seja, ao fim de um ano e meio?). Nessa mesma terra deambulavam também pela rua os operários e operárias que o sempre branqueado Alfredo da Silva e seus descendentes punham na rua nos “balões” (“Olha, hoje houve um ‘ balão’ na Cuf, coitados!”). Nesse país, os pobres espreitavam pelos portões da quinta dos Patiño e de outros, para ver “como é que elas iam vestidas”.

Nesse país morriam muitos recém-nascidos e muitas mães durante o parto e após o parto. Mas havia a “obra das Mães” e fazia-se anualmente “o berço” nos liceus femininos onde se colocavam camisinhas, casaquinhos e demais enxoval, com laçarotes, tules e rendas e o mais premiado e os outros eram entregues a famílias pobres bem- comportadas (o que incluía, é óbvio, casamento pela Igreja).

Na terra onde nasci e vivi, o hospital estava entregue à Misericórdia. Nesse, como em todos os das Misericórdias, o provedor decidia em absoluto os desígnios do hospital. Era um senhor rural e arcaico, vestido de samarra, evidentemente não médico, que escolhia no catálogo os aparelhos de fisioterapia, contratava as religiosas e os médicos, atendia os pedidos dos administrativos (“Ó senhor provedor, preciso de comprar sapatos para o meu filho”). As pessoas iam à “Caixa”, que dependia do regime de trabalho (ainda hoje quase 40 anos depois muitos pensam que é assim), iam aos hospitais e pagavam de acordo com o escalão. E tudo dependia da Assistência. O nome diz tudo. Andavam desdentadas, os abcessos dentários transformavam-se em grandes massas destinadas a operação e a serem focos de septicemia, as listas de cirurgia eram arbitrárias. As enfermarias dos hospitais estavam cheias de doentes com cirroses provocadas por muito vinho e pouca proteína. E generalizadamente o vinho era barato e uma “boa zurrapa”.

E todos por todo o lado pediam “um jeitinho”, “um empenhozinho”, “um padrinho”, “depois dou-lhe qualquer coisinha”, “olhe que no Natal não me esqueço de si” e procuravam “conhecer lá alguém”.

Na província, alguns, poucos, tinham acesso às primeiras letras (e últimas) através de regentes escolares, que elas próprias só tinham a quarta classe. Também na província não havia livrarias (abençoadas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian), nem teatro, nem cinema.

Aos meninos e meninas dos poucos liceus (aquilo é que eram elites!) era recomendado não se darem com os das escolas técnicas. E a uma rapariga do liceu caía muito mal namorar alguém dessa outra casta. Para tratar uma mulher havia um léxico hierárquico: você, ó; tiazinha; senhora (Maria); dona; senhora dona e… supremo desígnio – Madame.
Os funcionários públicos eram tratados depreciativamente por “mangas-de-alpaca” porque usavam duas meias mangas com elásticos no punho e no cotovelo a proteger as mangas do casaco.

Eu vivi nesse país e não gostei. E com tudo isto, só falei de pobreza, não falei de ditadura. É que uma casa bem com a outra. A pobreza generalizada e prolongada necessita de ditadura. Seja em África, seja na América Latina dos anos 60 e 70 do século XX, seja na China, seja na Birmânia, seja em Portugal."

6 Comentários:

Blogger RI-RI disse...

Eu também não...

12:18 da tarde  
Blogger Manuela Curado disse...

Pois eu também já vivi nesse país e até...não achei tão mau comparando com o nos foi destinado após a implantação da tão propagandeada "democracia".

Comvém lembrar, para não escamotear a verdade, que os da nossa geração nasceram e conviveram com um perído pós-guerra.
A fartura era pouca, embora um pouco melhor do que na época da juventude de nossos pais que aguentaram firmemente o racionamento então exigido e gradualmente com muita poupança e perícia lá foram subindo na vida dando uma substancial melhoria aos filhos que tinham gerado.
Neta de avós abastados, mas filha de pais remediados aprendi muito cedo a conjugar o verbo economizar, o que hoje a maioria dos jovens oriundos dos que dominam por "classe operária", desconhecem.
Depois de anos e anos de consumismo absurdo, esperava-se o quê?
Para mim, era previsível, numa sociedades que se consome mais do que se produz.

Seria o ideal puder-se viver com pouco trabalho, muitos tempos livres, muitos almoços e jantataradas, partindo em aviões carregadinhos para férias paradisísiacas, embelezados por horas passadas em ginásios, tratando dos musculos, do cabelo e da pele, marterizando o corpo com mistelas e drogas nas milhentas discotecas distorsidas do nosso país, partindo esgotados e sonolentos para o trabalho diurno que "maldosamente" lhes é exigido e pensando já no sol que estão perdendo para se morenar...



Vivi num país em que os velhos eram acarinhados, acabando os seus dias no seio familiar.
Em que as crianças não eram despejadas por todo o dia num qualquer lugar.
Em que responsávelmente se constituia família para ter o seu companheiro e o seu cantinho.
Em que o necessitado era ajudado, (admito que não pelo governo) mas pelo próximo.
Em que se dava a mão.
Em que homens de modestas famílias começavam por mínimos cargos e com trabalho e intiligência, acabavam a gerir uma qualquer grande empresa, ou até em altos cargos do país.
Eu conheci alguns:

VINDOS DO CAMPO...VINDOS DO NADA!!!!

5:19 da tarde  
Blogger Manuela Curado disse...

Não me apelidem de fascista!

Desejei vida melhor para os mais necessitados.
Abracei os ideais da democracia...mas fui violentamente enganada pelos homens que tanto a embelezavam.


PS: Há para aí um errozitos que me escaparam na refrega da escrita entre o que seria simpático dizer... e a minha razão.

5:33 da tarde  
Anonymous Anónimo disse...

Bela tareia dada por ti!
Este País está tão mal, tão mal,que têm que denegrir o passado para que as pessoas pensem que antigamente ainda era pior que hoje. Mas isso já não pega.Para esse peditório os portugueses já deram!
Se o passado foi tão mau como é que num concurso televisivo sobre os grandes portugueses, em que as pessoas podiam votar livremente nas diferentes figuras históricas, Salazar ganhou?! Isto só prova que o regime não foi tão mau assim. E, se os portugueses viveram nele 48 anos sem nunca terem esboçado uma revolta, é porque entendiam que estavam bem. E, comparado com a 1ª República ( 1010-1926 ) estavam no paraíso. E para informação geral, a maior parte das pessoas que andavam metidas na politica de oposição ao regime de Salazar eram os filhos da burguesia e não precisavam de trabalhar, tinham tempo de ócio e muitas vezes nem eram contra o regime, mas contra o próprio País.
O País onde a D.Isabel do Carmo viveu, não foi certamente o mesmo onde eu vivi.O meu foi real, o dela pura ficção.
Tal como a Nela também abracei a democracia em 74, passados poucos mais de 10 anos estava desiludida! afinal isto era uma segunda edição da 1ª República ( para pior ).E
não é por acaso que ultimamente têm surgido muitos textos a zurzir no regime do Estado Novo.Eles andam aflitos... porque nos prometeram o paraíso e afinal deram-nos o inferno.
Tenham vergonha e metam "a viola no saco"!
António de Portugal ( sempre )

12:47 da manhã  
Anonymous Anónimo disse...

Escrevi um erro que venho corrigir.1ª República não 1010, mas sim 1910-1926.
António de Portugal (sempre )

4:59 da tarde  
Anonymous Manuel Cruz - Leiria disse...

Há dias fui chamado a discursar numa associação de reformados. O ambiente era, naturalmente, de contestação, a que acrescia uma certa frustação daqueles cidadãos que se achavam com fracas armas para fazer crescer o seu justo protesto.
"Nem pudemos fazer greve!" diziam.
Como dirigente da federação distrital dos reformados, chamei-os à atenção de que têm uma arma tão poderosa como a greve se a souberem utilizar: a MEMÓRIA.
Este texto veio reforçar a minha convicção.

7:42 da tarde  

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