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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A POUPAR DESDE OS SETE ANOS


José Redondo defende que o hábito de poupar deve começar logo na família e lamenta que a palavra poupança nunca tenha feito parte do vocabulário de muitos empresários.

Quando tinha 7 anos tive uma experiência com o meu Pai - que acompanhei diariamente ao longo de mais de 50 anos - e marcou-me para sempre. Falávamos de poupar dinheiro e do que isso era importante na vida.  Disse-me que era preciso poupar sempre. E vai daí, passou  imediatamente da teoria à prática. Recordo-me, como se fosse hoje, que me levou a uma agência de um Banco na Lousã, que tinha na altura dois funcionários.
Quando lá chegámos, abriu uma conta em meu nome com a quantia de 57$50 escudos. Estávamos a 29 de agosto de em 1950. Em outubro depositei mais 50$00. Esse dinheiro foi vencendo juros a uma média de 2$20 por ano - não havia inflação - até que, a 17 de abril de 1957, já tinha 121$30. Levantei esse dinheiro para, a 24 de abril, fazer um depósito de 485$00. Nessa altura, os juros já eram maiores e rondavam os 32$00 por ano.
Muito jovem já acompanhava o meu Pai nos meus tempos livres. Ele dava-me sempre as mais variadas tarefas. Para isso, ia-me “pagando” esses trabalhos, tal como eu hoje faço com os meus netos, e eu sentia um orgulho enorme em entrar no Banco e dirigir-me ao balcão para depositar, quantias de 7$50, 8$00, e até registar depósitos de 2$50. Para os mais jovens que me leem, 2$50 é o equivalente a um cêntimo e meio de euro!!!
Ainda me lembro quando um dos funcionários escreveu à mão os juros vencidos naquele primeiro ano. Sentir que tinha conseguido  aquele dinheiro “sem trabalho”  foi qualquer coisa de extraordinário para mim. Mais tarde, quando tinha 14 anos, como tínhamos a agência de jornais do Primeiro de Janeiro, o meu Pai propôs-me ser agente do Diário do Norte, um vespertino que se publicou durante alguns anos no Porto. Chegava à Lousã por volta das 21 horas e eu, pasme-se, ainda o ia distribuir pelos assinantes. O lucro da distribuição do jornal depositava-o sempre no Banco.
Conclusão: Ao fim de alguns anos já tinha algum fundo de maneio na conta bancária. Assim, cheguei a dezembro de 1963 e tinha à ordem 820$20 que levantei nessa data. Não me recordo em que investi esse dinheiro, mas como andava na faculdade, em Coimbra, depreendo que não terá sido o melhor investimento…
É natural que toda a minha vida tivesse sido pautada por uma dose elevada de poupança, uma vez que fui educado numa perspetiva de aforro. As diversas empresas ligadas a setores tão diversos como publicidade, sinalização rodoviária, serigrafia, fibra de vidro e o próprio Licor Beirão, comportaram-se sempre na ideia de que se houvesse poupança e dinheiro em caixa, facilmente se fariam bons negócios. Sempre e sempre a pensar que só uma boa compra permitiria uma boa venda.
A chegada do 25 de abril e a perda daquela identidade salazarista de produzir e poupar foi substituída por produzir e investir. Se se investisse o ganho da produção eu até estaria de acordo. No entanto, e infelizmente, vários empresários não souberam perceber que muitos investimentos que faziam não eram reprodutivos mas para consumo próprio. A palavra poupança nunca fez parte do vocabulário de muitos empresários, de muitas famílias, de muitas pessoas…
Na minha opinião, as poupanças têm de começar logo no nosso agregado familiar. Conseguir que todos os meses os vencimentos “estiquem” um pouco que seja é uma condição essencial para obstar a percalços que, por mais pequenos que sejam, levam muitas vezes a atitudes irremediáveis.
Muita gente honesta foi apanhada neste turbilhão de crise social e verifica-se que aqueles que conseguiram ultrapassar o drama por que passaram já conseguem criar pequenas poupanças e reservar o mínimo para poderem ocorrer a qualquer nova situação imponderável e resolvê-la, com o apoio da banca. É isso que justifica que, num período tão difícil da nossa vida, o nível de poupança das famílias esteja a aumentar.

José Redondo, Presidente da Licor Beirão
(site do Montepio)

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