Histórias Mínimas (II): o Azenha
Nestes tempos de Euro 2008 adoro ouvir aquelas frases feita de jogadores e treinadores tipo “tempos que pensar jogo a jogo” (felizmente, para os que gostam de futebol, ainda não foi preciso dizer “agora tempos que levantar a cabeça e pensar no próximo jogo!”). É curioso como certas frases ou expressões aparecem e muitas vezes se tornam sinónimos. Exemplo: “o gajo não bate bem da bola” e “o gajo não é bom da cabeça”. É estranho comparar uma bola a uma cabeça. É que no interior da bola temos ar enquanto que dentro de uma cabeça é suposto termos mais qualquer coisa (já sei que muitos estão a pensar em mais uma frase típica: “hoje sinto a cabeça oca”, que torna a semelhança mais plausível. Só que isso acontece normalmente em dia de ressaca. E assim não vale!).
Dei por mim a pensar então se não seriam igualmente verdadeiras outras combinatórias destas frases. Por exemplo: “o gajo bate bem na bola” e “o gajo é bom de cabeça” que é uma espécie de negação da anterior.
E aí entra o Azenha que vivia na rua de Marracuene, ensanduichado entre o Couceiro e o Ni Bomba, em frente da Ana Roque.
Mas antes...
No Bairro, à época da geração XS, não havia muitos desportos radicais. Tirando jogar hóquei nos bueiros, claro. Ou ficar horas sentado no Abrigo ou no café do Sr. Silva a mandar bocas às miúdas, enquanto o Pombalinho não mandava um gajo qualquer para dentro da montra de uns dos cafés (neste particular não éramos esquisitos: qualquer um dos cafés servia!).
Mas havia outra alternativa para a afirmação da radicalidade. Senão vejamos. Alguém já referiu (Elói) que o Bairro estava afinal dividido em duas metades quase iguais (como diria o Massas Específica saudoso professor de Física do D.João III) sendo a Rua F a fronteira. No meu tempo a radicalidade alternativa significava fazer parte do grupo do Azenha e andar à pancadaria com os yé-yés e aparentados. Há uma cena curiosa quando em pleno campo de batalha (Praça dos Baloiços) o inimigo acertou uma fisgada no Azenha. O Azenha carregou com o pedaço de mangueira que trazia na mão e foi vê-lo a fazer recuar os yés-yés até às trincheiras de suas casas. Acho que o Adão foi quem mais gemeu.
Dei por mim a pensar então se não seriam igualmente verdadeiras outras combinatórias destas frases. Por exemplo: “o gajo bate bem na bola” e “o gajo é bom de cabeça” que é uma espécie de negação da anterior.
E aí entra o Azenha que vivia na rua de Marracuene, ensanduichado entre o Couceiro e o Ni Bomba, em frente da Ana Roque.
Mas antes...
No Bairro, à época da geração XS, não havia muitos desportos radicais. Tirando jogar hóquei nos bueiros, claro. Ou ficar horas sentado no Abrigo ou no café do Sr. Silva a mandar bocas às miúdas, enquanto o Pombalinho não mandava um gajo qualquer para dentro da montra de uns dos cafés (neste particular não éramos esquisitos: qualquer um dos cafés servia!).
Mas havia outra alternativa para a afirmação da radicalidade. Senão vejamos. Alguém já referiu (Elói) que o Bairro estava afinal dividido em duas metades quase iguais (como diria o Massas Específica saudoso professor de Física do D.João III) sendo a Rua F a fronteira. No meu tempo a radicalidade alternativa significava fazer parte do grupo do Azenha e andar à pancadaria com os yé-yés e aparentados. Há uma cena curiosa quando em pleno campo de batalha (Praça dos Baloiços) o inimigo acertou uma fisgada no Azenha. O Azenha carregou com o pedaço de mangueira que trazia na mão e foi vê-lo a fazer recuar os yés-yés até às trincheiras de suas casas. Acho que o Adão foi quem mais gemeu.
Regressemos às questões de antropologia cultural...
De onde vinha esta capacidade guerreira do Azenha? Da educação esmerada que teve. Creio que esse é um dos grandes problemas das gerações mais recentes: falta-lhes educação cuidada!
O pai do Azenha era sub-chefe da polícia. Não era único: também o pai da Jú e da Titá o era. E mandava lá no bairro. Pelo aspecto das moças o progenitor não as educou como devia ser! Se não vejam. O sub-chefe Azenha era uma pessoa de trato fino, e por isso educou o filho partindo-lhe vassouras nas costas ou amasiando-lhe as ditas a vergastadas com o cinto ou a mangueira. Mas o Azenha não tugia nem mugia. Aliás o Azenha tinha uma arte muito especial. Retirava as maçaneta das portas de casa, cerrava a parte de encaixe, limava e as ditas ficavam prontas pensam vocês para o hóquei. Errado! Isso era para o comum dos mortais. Para ele era para jogar basket. Como? Bem lembram-se daquelas cenas por cima das portas de entrada? Uma armação de cimento formando um rectângulo cuja utilidade sempre me escapou. Vejam foto anexa que ilustra melhor do que mil palavras o referido objecto.

Como o Azenha não tinha metafísicas -- produto de educação pragmática, desafiava mesmo as leis do bom senso: à cabeçada na ex-maçaneta transformada em bola luzidia mostrava que era possível fazê-la passar pelo buraco da dita armação.
E lá está a prova: o Azenha era bom com a bola e tinha uma grande cabeça! Depois teve uma meningite. Das complicadas. Mas que era isso comparado com as meiguices do pai? Nada. Por isso sobreviveu sem problemas. Era um grande amigo e safou-me de muitas situações embaraçosas. Não sei dele mas aqui o recordo.
De onde vinha esta capacidade guerreira do Azenha? Da educação esmerada que teve. Creio que esse é um dos grandes problemas das gerações mais recentes: falta-lhes educação cuidada!
O pai do Azenha era sub-chefe da polícia. Não era único: também o pai da Jú e da Titá o era. E mandava lá no bairro. Pelo aspecto das moças o progenitor não as educou como devia ser! Se não vejam. O sub-chefe Azenha era uma pessoa de trato fino, e por isso educou o filho partindo-lhe vassouras nas costas ou amasiando-lhe as ditas a vergastadas com o cinto ou a mangueira. Mas o Azenha não tugia nem mugia. Aliás o Azenha tinha uma arte muito especial. Retirava as maçaneta das portas de casa, cerrava a parte de encaixe, limava e as ditas ficavam prontas pensam vocês para o hóquei. Errado! Isso era para o comum dos mortais. Para ele era para jogar basket. Como? Bem lembram-se daquelas cenas por cima das portas de entrada? Uma armação de cimento formando um rectângulo cuja utilidade sempre me escapou. Vejam foto anexa que ilustra melhor do que mil palavras o referido objecto.

E lá está a prova: o Azenha era bom com a bola e tinha uma grande cabeça! Depois teve uma meningite. Das complicadas. Mas que era isso comparado com as meiguices do pai? Nada. Por isso sobreviveu sem problemas. Era um grande amigo e safou-me de muitas situações embaraçosas. Não sei dele mas aqui o recordo.
Texto do Jó-Jó
Etiquetas: Azenha, Historias Minimas


8 Comentários:
A tua escrita é sempre um manancial de surpresas...
Consegue prender-me do principio ao fim...
Gostei especialmente quando dizes que nunca percebeste a utilidade daquelas armações de cimento por cima das portas de entrada das casas do bairro.
Também eu sofro desde sempre com essa dúvida existencial.
Porém,tenho uma teoria, não comprovada, mas plausivel:
- Aquelas armações ( uma por casa ) a multiplicar pelo numero de casas do bairro, a multiplicar pelo preço do ferro, do cimento e da mão de obra nelas incorporadas, terá dado uma bela maquia ao empreiteiro.
Podes encarregar-te de fazer uma investigação sobre esta tese?
Para finalmente eu poder dormir descansado sem esta duvida atroz
Creio que os Azenhas ainda vivem na mesma casa.
Serão os Azenhas Pais, porque os filhos sairam quando formaram a respectivas famílias,quando ia a Coimbra na altura em que a minha mãe era viva,e isto já lá vão uns oito anos, ainda os via para irem visitar os Pais.
Quanto ao Azenha filho tenho a mesma poinião do Jó Jó, da forma como ele abordava qualquer situação, pedradas e pauladas eram os seus oblectos prediletos, quem não tinha medo do Fernando Azenha, eu pelo menos tinha.
Pois fiquem sabendo que ele tinha medo de mim. Cheguei a dar-lhe umas boas cacetadas no tempo em que andámos na escola.
Também o grilo tem catarro...
Ponho muitas dúvidas Oh Grilo!
E, se calhar as vassouras eram marca solnado, pai do actor Raul Solnado, que as fabricava...quanto à dúvida atroz do felício sobre as armações da casa, não teria havido algum ministro que comeu alguma coisa - o Duarte Pacheco, p.e...,
ou algum engenheiro - o Costa Alemão...deixem, estou a divagar; no nosso tempo não havia disto; luvas eram só no inverno...
Quem é o GRILO FALANTE? Gostava de conhecer o valente!!!... mais não seja para repor a verdade se é que não a tens...
Um abraço para todos
O meu pai não me dava vassouradas quem me dava era a minha mãe que me partiu uma grande que havia tipo piaçava na cabeça e que a mãe do couceiro que estava assistir ficou branca como a minha e fiquei na mesma. O mei pai se vinha com tempo ia buscar o cavalo-marinho(1,20cm c/osso forrado a cabedal) senão era com o da polícia e com a parte de metal. Educações mas não sendo masoquista preferia tê-lo com vida ainda.
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