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sábado, 5 de julho de 2008

Figuras do Bairro - Albino Barbeiro

O Albino Barbeiro
Cíclicamente, deambulavam pelo nosso Bairro, algumas figuras muito conhecidas na cidade, aquilo a que na gíria apelidávamos de “típicas”.
Hoje venho aqui falar-vos de uma, por poucos conhecida, e que por este Bairro andou, calcorreando ruas e praças naquela que era a sua profissão: barbeiro. Não possuía estabelecimento que se lhe conhecesse nem emprego por conta de outrem. Era pura e simplesmente barbeiro ao domicílio. De mala na mão, lá ia de porta em porta visitando os clientes habituais, entre ao quais me incluía.
Os meus cortes de cabelo eram sempre momentos épicos. Criança que era, detestava aquele sacrifício supremo de me sentar num banco de cozinha, enquanto o Albino, para suavizar o meu choro convulsivo, ia relatando jogos de futebol dando uma entoação abrasileirada à voz , à mistura com o som do matraquear da tesoura e do pente castanho e gasto com que me alisava o cabelo. Gradualmente, o meu choro ia-se desvanecendo, à medida que me apercebia que o Albino barbeiro estava nos procedimentos finais, ou seja, quando de navalha de cabo preto bem apertada na mão e o dedo polegar em riste apontado ao céu, me acertava as patilhas. Acto contínuo, punha-se à minha frente, flectindo as pernas, ficando cara a cara comigo, balançando a cabeça de um lado para o outro como se fosse um pêndulo. Certificava-se se as patilhas estavam à mesma altura. Aquele momento ainda hoje me assusta, ao lembrar aquela cara magra e gasta de que se destacava por baixo de um nariz afilado um respeitável bigode, e ainda hoje, ao relembrar a sua figura frágil, mais tenho a convicção de que aquela magreza pouco tinha a ver com a sua matriz genética, mas com um rosário de dificuldades e limitações.
E o corte de cabelo terminava numa apoteose de pó de talco, derramado em quantidades generosas sobre o meu pescoço, e num enorme pincel com que o Albino barbeiro me limpava os olhos e orelhas em movimentos frenéticos.
Apesar disso, era um homem divertido e reinadio. Vivia numa rua estreita, numa casa humilde, junto à Sé Velha, mesmo em frente a uma agência funerária. Dizia por brincadeira que quando abria a janela do quarto, de manhã, e dava de caras com os caixões, ficava logo bem disposto…
Em determinada tarde domingueira, montou-se no Choupalinho um ringue de luta livre. O lutador, que se intitulava de nacionalidade grega, desafiava as cerca de cinco dezenas de basbaques que circundavam a arena, sem que alguém se atrevesse a defrontar tal figura. Atemorizados, todos olhavam com respeito aquela montanha de carne e músculos, até que, vinda de lá de trás, uma voz resoluta se perfilou: vou eu !!!
Com assombro, todos viram então o Albino barbeiro dar um salto felino para uma entrada no ringue em apoteose, colhendo as palmas e o respeito dos circunstantes . Teve azar. Conforme deu o salto, tropeçou numa corda que delimitava o ringue e desabou no recinto, batendo com a cabeça no chão e perdendo os sentidos, que o mesmo é dizer que o corajoso Albino, mesmo antes de começar o combate já estava KO. E assim se finou o seu momento de glória, tendo todos percebido sem grande esforço, que perante luta tão desigual, aquele incidente mais não era que a antecipação do que certamente iria acontecer. O Albino barbeiro a sair do ringue inanimado… e de charola.
De (Quito) -Rua D

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9 Comentários:

Anonymous mário pinheiro de almeida disse...

quantos cabelos me cortou....e aquele dedo todo aleijado que se espetava pela cabeça adentro...aquela maleta inseparável, que tb era o seu instrumento musical, enquanto catarolava já com os copos...sei que uma vez foi internado nos HUC e tiveram que lhe dar vinho, senão o homem passava-se....

1:04 da manhã  
Blogger Cavalo Selvagem disse...

O Albino antes de andar no corte ambulante tinha sido barbeiro efectivo numa barbearia que havia na estrada da Beira entre a Linha e o Recreativo do Calhabe.
Era onde eu ia ao castigo, antes do Simões abrir a Barbearia no Bairro.
Velho Apache

1:09 da manhã  
Anonymous Alvaro Apache disse...

BOA MALHA menino Quito.
Valeu a pena choramingar às mãos do Albino Barbeiro...ehehehe.
Deixa lá,aconteceu a muitos e a mim tambem me tocou

9:51 da manhã  
Anonymous Jó-Jó disse...

Nunca passei pelas mãos, tesouras, pentes e navalha do Albino barbeiro. Mas conhecia-lhe a estética que o Quito tão bem descreve.

Eu chorava à mãos e máquina zero do Senhor Simões pai do Freitas.

Quando enriqueci passei a ir ao Silva na R. Pedro Álvares Cabral. Muito aprendi da lógica anti-comunista naquelas longas tardes de corte de cabelo com o Silva e a Mulher sempre às cabeçadas um com o outro.

Continua Quito!

Jó-Jó

11:04 da manhã  
Anonymous Anónimo disse...

Lembro-me perfeitamente do Albino barbeiro!
Seu fato de riscas (anos 40)...seu bigode e magreza óssea (tipo Alfredo M.)...
Mas...quem na infância me cortava o cabelo...era o barbeiro (?) ao fundo das Alpenduradas e mais tarde o Silva da Pedro Álvares Cabral, com "diplomas" directamente vindos de Paris...e que...durante 2 a 3 anos...fui a "cobaia" do dito Sr Silva!!!???
Tesourada a mais...na pa de problem...o mestre das tesouras e corte à navalha, disfarçava com mais um "toque" ...e as "teorias politiqueiras da mulher"...que aparecia no Salão de tacho na mão! O ditio Salão era na residence do Sr. Silva!

Um "Beattle"

5:54 da tarde  
Blogger Rui Pato disse...

E não se deve esquecer que o Albino era um óptimo cantador de fado e tocava muito bem viola, embora tivesse um defeito num dos dedos da mão direita.
Aprendi bastante com ele.

1:45 da tarde  
Blogger Matebial disse...

E quando os cortes de cabelo do Albino eram ao ar livre, no quintal do cliente e o mestre desatava aos berros:"Vai faltar a áuuuuuugua!!!!"

Falta-vos lembrar outro barbeiro ao domicílio, talvez menos conhecido porque exercia a profissão na PSP: o sr.Pereira, que morava na rua da esquadra...algumas vezes me cortou o cabelo à Beatriz Costa, que acho bem que era o único corte que sabia fazer às meninas ;-(

2:40 da tarde  
Blogger Cavalo Selvagem disse...

O Pai do Políbio, pois claro! Comigo era com uma tigela na moina! 2$50!!!

Gim

6:49 da tarde  
Blogger Jorge Tito disse...

IMAGINAVA DESAFIOS DE FUTEBOOL OS QUAIS RELATAVA, NA PERFEIÇÃO, DURANTE AS "LONGAS" VIAGENS NOS ELÉCTRICOS ENTRE CALHABÉ/BAIXA/CALHABÉ. FAZIA-O ORA NO ELÉCTRICO, PROPRIAMENTE DITO E O CHORA.

"...HÁ UMA FLORESTA DE PERNAS E MILHARES DE CABEÇAS À BOLA... FALO-VOS DE MAIO NO ESTÁDIO 28 DE BRAGA.." - QUIÇÁ INSPIRADO EM MANUEL GASPAR, VÁ LÁ SABER-SE!

12:24 da tarde  

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