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domingo, 16 de novembro de 2008

Carlos Viana recorda Alvaro Rodrigues

Carlos Viana , portista ferrenho, veio para Coimbra estudar e acabou por casar no Bairro com a Olga Rodrigues, filha do arbitro internacional Alvaro Rodrigues.

Conheci vários dos seus auxiliares sendo que o Rosa e o Teixeira eram os que mais o acompanhavam mas recordo-me bem do Petiscalho e do Veiga. Recordo-me bem do Veiga (penso que era carteiro de profissão) porque era a vitima favorita das brincadeiras do Alvaro bem acolitado por qualquer um dos outros. Nessa altura, falamos dos finais dos anos 60, eu acompanhava o "trio" para aproveitar a boleia e visitar os meus Pais que viviam no Porto. Assim, sempre que os jogos eram no Porto ou a norte do Porto, lá ia eu, contente pela visita familiar mas contente também porque sabia que me ia divertir.Naquela altura a nomeação dos àrbitros era feita com todo o secretismo. Só na hora do jogo se sabia quem era o escolhido. O próprio árbitro tinha conhecimento da sua nomeação na tarde da 5ª-Fª anterior ao jogo e era este que, telefónicamente, comunicava aos seus auxiliares.Num belo domingo - sim, porque os jogos eram sempre ao domingo - lá arrancamos no "Cortina" do Alvaro, rumo a norte. O Alvaro tinha-me dito que ia apitar a Braga e portanto ... havia boleia. Acompanhantes o Rosa e o Veiga.Ainda não tinhamos saído de Coimbra, mais ao menos pela Pedrulha, o Veiga sobressaltado pergunta: - Para onde vamos?Pachorrentamente, Alvaro responde:
- Para Braga. Porque perguntas ?
- Essa está boa ! Então não vamos arbitrar o Setúbal-Farense ? Foi isso que me disseste ao telefone.
- Estás doido, percebeste mal ...E logo o Rosa, com seu ar sisudo:
- Olha lá, Alvaro, tu a mim também me disseste que iamos a Setúbal.Não haverá confusão?
Não fosse a piscadela de olho que o Rosa me deu e eu próprio teria ficado na dúvida se iamos bem para norte ou se o rumo deveria ser para sul.
Em Grijó, paragem para almoço. Como sempre, cozido à portuguesa, num pequeno restaurante de seu nome "O Cantinho". Durante o almoço o Veiga bem tentava conversar sobre o destino da viagem, muito preocupado! O Alvaro e o Rosa falavam da qualidade do almoço, do tempo que ameaçava chuva...Pobre Veiga! No regresso ainda vinha casmurro com a brincadeira. Chegou mesmo a queixar-se que foi para o jogo carregadinho de nervos e que isso não era bom e que ... tal e coisas. O Alvaro, sem dó nem piedade, atirou-lhe:
-Cala-te lá, pá! Se eu te tivesse dito na 5ª.Fª que iamos a Braga, tinhas-te borrado todo!
Vim a saber que o Veiga tinha péssimas recordações do último jogo que o "trio" tinha ajuizado na terra dos Bispos.
Ainda do árbitro e esta vai directinha para o grande amigo Tó Ferrão:
Lembro-me bem de uma expulsão do menino bonito do Porto, o tal Djalma. Foi uma escandaleira pois ninguém percebeu o porquê da coisa. Não houve qualquer contacto fisico com o adversário... etc. etc.Eu próprio, com as minha costela azul e branca, estava sem perceber. Atrevi-me a perguntar-lhe do porquê da coisa. O Alvaro nunca falava de futebol a não ser do seu União! Não pelo laço familiar mas penso que pela amizade que tinha por mim, explicou:
- É mais grave escarrar na cara do adversário do que lhe dar um murro!Foi por isso que o seu Djalma foi para a rua.Entendido ! O "meu" Djalma foi para a rua, melhor para o balneário, porque, como diz o Tó, era um corrécio e não esperava encontrar um árbitro que não se intimidasse com o grande tribunal das Antas.
ALVARO - o homem
Não é possivel trazer aqui cerca de 40 anos de vida. Sobre o homem, vou escolher o tema que mais foi focado pelos amigos que aqui entraram para o comentar.
O Bairro Marechal Carmona era, nos anos 60, muito provavelmente o espaço do território nacional com mais pides e bufos por m2.
Em cada rua do Bairro havia um, se não dois. Ora, a Rua J (actual Mousinho de Albuquerque) não era excepção.
E se a sul tinha boa vizinhança - O Sr.João da Cunha e a sua D. Isabel, pais da Belinha e Susanita - a norte era uma desgraça, um bufo!
O Alvaro, conhecendo a minha postura anti-regime, passava a vida a avisar:"cuidado com as conversas, ouve-se tudo, no quintal mais cuidado ainda!" Confesso que achava cuidados exagerados e, cá com os meus botões, pensava que havia ali defensismo a mais.Numa noite de verão ( 67 ou 68 ? ) no Café Beirão, ouviamos o telejornal. Na mesa à nossa frente, quem estava? Exactamente o dito bufo, o Rodrigues Calceteiro, seu vizinho de parede com parede.Na TV, imagens do Tomás e do Rui Patricio, ambos de capacete na cabeça, visitando obra importante. O Alvaro, alto e bom som, comentava:
- Olha para eles! São operários de primeira! Ou serão bombeiros ?
O bufo, olhou para ele, torceu-se todo mas nada disse. E foi o Alvaro que lançou mais um desafio:
- Vou ali beber um copo, com o meu genro. A si não lhe ofereço.
E lá fomos, beber o tal copo.
Uns dias depois, forcei a conversa no sentido de saber o porquê de tantos cuidados recomendados e depois...A resposta veio curta e rápida:
"Os cuidados são para si e para a malta nova. Eu sou velho, já ninguém me toca."
Acresce lembrar que, nessa altura, o Alvaro teria 50 anos.
Carlos Viana

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2 Comentários:

Anonymous Anónimo disse...

...também conhecido por calceteito marítimo.

9:14 p.m.  
Blogger Rui Pato disse...

Magnífico Carlos Viana. Gostei de lês e de recordar tanto a figura do Sr. Álvaro, como a do Sr. Rosa e ainda da seita de bufos do nosso bairro! Lembro-me bem de alguns!

3:24 p.m.  

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