SUFOCO
( As loucuras das noites do bairro... )
Desde há uns dias que o entretenimento preferido nas noites do Café do Sr. Silva era o da aposta do bolo de arroz. O bolo de arroz , de formato cilíndrico e aspecto fálico possuía uma consistência densa. Feito de uma mistura de farinha, margarina, açúcar e fermento, tornava-se num pasta consistente e encorpada, quando em contacto com a saliva ou com qualquer tipo de bebida que se lhe adicionasse . A mastigação tornava-se difícil, penosa e demorada. Devia comer-se em pequenos pedaços, sob pena de se transformar numa massa semelhante à do cimento , de difícil ou mesmo impossível deglutição. As apostas que há várias noites se vinham repetindo no Café, consistiam em cronometrar o tempo que cada candidato demorava para ingerir completamente um bolo de arroz. Logo que completamente engolido, o apostador teria que abrir a boca e mostrar que nela já não existia nenhum vestígio do bolo de arroz. Parando-se então a cronometragem...( As loucuras das noites do bairro... )
Existia um registo dos tempos gastos em cada aposta. O recorde cifrava-se em 50 segundos e pensava-se que seria muito difícil bate-lo. Mas certa noite, o Murta apresentou-se no Café do Silva pronto a bater o recorde, por margem concludente. Dizia ele, graças a uma técnica infalível que idealizara. Precisaria apenas de meio minuto para engolir um bolo de arroz. As apostas choveram. Ninguém acreditava que o Murta conseguisse cumprir o que prometia. Em vez de ir metendo pequenos pedaços do bolo na boca, meteu-o todo inteiro, de uma só vez. Acto continuo, emborcou um grande copo de água que previamente tinha posto em cima do balcão. Com as bochechas quase a rebentar, ajudava a mastigação com os dedos por fora da cara a pressionarem a massa que se formara dentro da boca.
Os segundos iam passando. ..Os olhos do Murta esbugalhavam-se mais e mais, raiando-se de vermelho.
A pele arroxeava-se, os dedos enclavinhavam-se e o Murta, já em grande aflição procurava ingerir mais água, na tentativa de fazer descer aquela pasta que se lhe bloqueara na garganta. Subitamente, o corpo do Murta entrou em espasmos e algumas migalhas pegajosas do bolo empastado, saltavam-lhe pela boca, espirravam-lhe do próprio nariz...
Começámos a dar-lhe palmadas nas costas. Alguém lhe enfiou os dedos na boca, extraindo-lhe pedaços daquela massa pastosa. O Murta finalmente conseguiu respirar e recobrar o fôlego. Não pôde engolir o bolo. Além de que demorou nisto quase dois minutos. Perdeu a aposta...
Rui Felício
23-03-2009
Etiquetas: Murta, Rui Felicio


17 Comentários:
Coitado do Murta... ele a finar-se e eu a rir com esta louca historia.
Vocês, também... faziam cada palermice!... e concerteza já eram crescidinhos...
Bora lá dizer a idade...
E obrigada por este bom bocadinho.
Estava triste e alegrei.
Ri a valer.
Só tu para me fazeres rir assim num dia tão triste.
Lembro-me bem do Murta e estou a imaginar a cena
Não percebo como o comentario está anónimo
É meu
LÓ GASPAR
Lembro-me desta modalidade desportiva em voga naépoca! Vi, na Brasleira, alguns "profissionais" do bolo de arroz!
Não sei se os jovens de agora apreciam este desporto; se o fizerem, certamente que será com BigMacs
Pois é Rui Pato.
Os bolos de arroz de agora são mais leves, mais balofos.
A aposta não teria a mesma dificuldade.
De facto, só se a converterem em aposta do Big Mac...
Rui Felício
Estas é das tais apostas "sádicas"
que nos davam um gozo enorme...
Rir com as malvadezas é de todos os
tempos!
Mas há malvadezas e malvadezas...
Cuidado,aí!
olinda
Bem o bolo de arros também já não é o que era...é mais tipo Mac-plastificado!
DR.HONORUS MOURINHO!
Verdadeiro ou plastificado?
Bolo de arroz à antiga? ou actual?
Aceitam-se palpites.
olinda
Nela,
O Murta já devia ter uns 22 anos. Nós andávamos talvez pelos 19...
Umas crianças, como se vê...
Mas isto era desporto!
O meu desporto era mais "Soft".
Suspiros(docinhos).Às dúzias...
Saboreados e deglutidos, com um belo cházinho.
Rui,
Também me lembro destes "campeonatos", não era só no Silva, também no Aquário e na Vitrice se fazia o mesmo! Como diz o Rui, também na Brasileira, pelos vistos a imaginação era pouca e faziam o mesmo em todos os cafés!
Esta do Murta é demais!
Eu a pensar que eram "ganapos"e já matulões!...
Que raio de brincadeira e pelo que leio disseminada por toda a cidade,
Há cada uma!!!!
Consta que o fabricante dos bolos de arroz incentivava subrepticiamente estes campeonatos.
Também consta que morreu sufocado. Mas rico...
RUI
O que eu me ri...
Lembro-me perfeitamente do Murta e estou a imaginar a cena...
Realmente só tu para nos contares estas cenas delirantes do Bairro...
Acredita Rui que também me ri.E aquela final do comprador que morreu sufocado está o máximo.
Garantidamente agora não se distrairiamm assim e mesmo que o quisessem não conseguiriam a rpetição desta graça noutros cafés pois nem todos são tão inocentes.
Vocês faziam isso só por graça. Agora já não é assim, senão veja-se o que se passa com as praxes actuais.
Rui,
Já alguma vez pensaste em coligir todos os engraçados epísódios com que nos tens deliciado e organizar um livro?
O manancial de recordações a que consegues acrescentar uma graça inconfundível, é um dos motivos que tem alimentado o nosso vício de vir visitar o blog.
Os teus textos têm sido um dos testemunhos mais vivos e mais fiéis de como naquela época os jovens se divertiam.
Um abraço da Isabel Parreiral
"O bolo de arroz, de formato cilíndrico e aspecto fálico ... "
Bastava este pormenor para que este texto merecesse um ... BRAVO !
Abraço.
Perdeu a aposta mas ganhou a vida...
Felicio, as coisas que nos contas!e quantas mais ainda tens para recordar?!É sempre com gosto que leio os teus textos,que nos trazem à memória,os factos e as pessoas,que como neste caso conheciamos bem.
Nela Dias
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