<

quinta-feira, 19 de março de 2009

TESTE

TESTE
A Zélia foi me apresentada, na Pastelaria Ceuta, pelo Zé Luis Português Borges da Silva naqueles bons tempos de solteiros que passámos em Lisboa.
..............
Era uma miúda algarvia, divorciada, de olhos e sorriso lindos!
Tivemos uma relação durante quase um ano. Mas como em tudo na vida, ultrapassada a euforia inicial, as rotinas instalam-se e o entusiasmo arrefece. Nunca nos zangámos, mas as dúvidas apareceram e questionei-a se valia a pena prosseguir...
Disse-lhe que achava que ela já não gostava de mim. Ela negou, insistiu que cada vez gostava mais e que as minhas dúvidas não tinham razão de ser...
Mas eu sentia que era diferente...Que a paixão do principio tinha esmorecido, senão mesmo desaparecido por completo. Ela prontificou-se a fazer tudo o que eu quisesse, como teste do seu amor. Eu só tinha que escolher...
Perguntei-lhe se ela por mim seria capaz, por exemplo, como prova do seu amor, de ir a um restaurante mexicano que havia em Lisboa e comer aqueles pratos exóticos que eles lá tinham, tipo formigas, baratas, lagartixas, etc... Claro que lhe disse isto a brincar mas ela levou-o completamente a sério e respondeu-me que podia ser já no dia seguinte. Iríamos jantar ao tal restaurante mexicano e eu escolheria o prato que ela comeria de bom grado para me provar o seu amor.
Embora eu insistisse que tudo não passava de uma brincadeira minha, que foi uma parvoíce que me veio à cabeça, ela fez questão de fazer esse teste.
Ou esse ou outro qualquer era para ela indiferente!
Mesmo achando eu, ser um teste estúpido, combinámos então ir ao tal restaurante.
Escolhi, para mim, um bife com ovo a cavalo. Para ela, um prato designado por “baratas negras fritas no próprio molho, à moda de Zapata”
Observei a Zélia a trincar as baratas, agoniei-me ao ver, de vez em quando, um liquido amarelado que por vezes lhe escorria da boca e que ela pressurosa, enxugava com o guardanapo. O estalar da cascas a partirem-se entre os seus dentes provocava um ruído inquietante...
Pareceu-me ver os restos das patas das baratas, presas nos interstícios dos dentes da Zélia...
Um verdadeiro nojo!
......................
No fim de comer, fitou-me e disse-me:
- Odiei comer esta porcaria. Queres melhor prova do que esta? Ainda duvidas do meu amor por ti?
Não tive outro remédio senão reconhecer que a Zélia tinha levado ao extremo o seu teste e disse-lhe:
- Admito que me enganei Zélia. Não duvidarei mais de ti...
Feliz, a Zélia aproximou os seus lábios dos meus e pediu-me um beijo. Como paga do seu esforço...
Recusei beijá-la com a desculpa de que estávamos em local publico...
Mas na realidade, o que eu não conseguia era esquecer aquelas patinhas de barata ainda entre os alvos dentes da Zélia.
Afinal era o meu amor por ela que já se tinha esvaído... Incapaz de resistir ao mais pequeno teste...
Rui Felício
18-03-2009

Etiquetas:

13 Comentários:

Blogger Quito disse...

RUI
Sou completamente franco e solidário contigo: Eu era incapaz de beijar uma mulher que eu visse comer uma barata!!!!
Uma vez no Algarve comi uma morcela com a guita e tudo..mas não foi por amor...foi simplesmente...GULA...
Um abraço
QUITO

10:26 a.m.  
Blogger Manuela Curado disse...

O AMOR FAZ MILAGRES
Se existisse... as baratinhas ter-se-íam transformado... em "lichias" perfumadas.

Beijinhos e um dia muito feliz

10:38 a.m.  
Blogger Rui Felicio disse...

1. - QUITO

Morcela com guita nunca comi Quito.
Tiveste sorte porque se fosse agora terias comido também o selo de chumbo que a ASAE parece que exige como garantia de origem.

Mas já mastiguei durante uns segundos uma sandes de minhoca. Na noite escura do Cabedelo, em noite de S. João do Porto.
Disseram-me que era uma sandes de fiambre...Ainda hoje se me revolta o estômago só de me lembrar...

2. - NELA

Não concordo Nela! Há limites para tudo. Para além de que "lichias" não são das coisas de que mais gosto.

Rui Felício

11:08 a.m.  
Blogger Quito disse...

RUI!
Não sendo própriamente a mesma coisa, posso gabar-me de ter comido "dobrada" na tropa, mal lavada e a nadar em feijão branco.

Foi na Carreira de Tiro da Tornada - Caldas da Raínha.

Acho que essa da minhoca ainda me consegue nausear mais que o repasto da barata...
QUITO

11:18 a.m.  
Blogger Isabel Melga disse...

Impecável esta descrição de um encontro pelos vistos já em “agonia”. Foste de uma transparência desconcertante trazeres a lume, sem preconceitos, uma fragilidade ou um sintoma dos mais gritantes da natureza humana: a rejeição ou o desgaste, neste caso entre dois namorados ou companheiros e os consequentes sinais através de pequenos nadas como estas nossas reacções!!! São Testes mais infalíveis do que os do “algodão”… não enganam mesmo!!! Essa relutância ao dentinho com folhinha de couve ou um resto de molho ao canto da boca, ou uma borbulha no nariz, a um perdigoto que dispara na nossa testa, uma festa feita com a mão suada ou mal cheirosa, são incidentes e acidentes fatais para quem já sente a relação tremida e em dúvida! Giríssimo como todos nós, Natureza humana, somos tão belos e feios, tão bons e terríveis, tão alegres e tristes, tenhamos a idade que tivermos ou maior ou menor cultura, somos tão parecidos! Quando chega a hora do click, a panorâmica é deslumbrante mesmo que tenhamos um "rochedo" à frente…Mas quando o flash se apaga…não vale a pena insistir em apelar à luz do lua cheia,ao cantar do grilinho ou ao perfume das alfazemas. Ou mesmo tentar saber quais são os culpados ou os inocentes… Apagou-se! Ponto final!Mas, como na Natureza nada se perde nada se ganha, mas tudo se transforma, volta a renascer de outra urze do monte, ou de uma beata esquecida num prato de um Café, novo olhar, novo palpitar. Vamos pedalando, respirando, olhando e ouvindo o chilrear da passarada, as risadas da criançada, os gritos dos velhotes surdos. Se entretanto tropeçarmos em alguém, talvez volte acontecer outro click, mas pode até ser um palavrão por nos terem pisado o calo de estimação! O importante é andarmos por cá. Isabel Melga

12:23 p.m.  
Blogger Tó Ferrão disse...

Rui

Ainda ontem jantei 12 baratas grelhadas e escaladas, regadas com molho de limão.

Acompanhei com batatas salteadas (batata sim, batata não) e uma salada fresca de tomate.

A única coisa que odeio nas baratas é comer as patas. Adoro chupar as cabeças. É um petisco fabuloso.

Se queres uma (mais uma) prova do meu amor por ti, convida-me para comer baratas à "la planche".

No fim, lavo discretamente os dentes, e dou-te um beijo terno na testa, em sinal de respeito.

Adoro-te meu querido.

Saudações académicas

Tó Ferrão

12:34 p.m.  
Blogger Rui Felicio disse...

Ora, ora Tó Ferrão.

Que grande avaria a tua. Baratas á la plancha qualquer um come.

Queria te ver era a comeres as baratas fritas no próprio molho à moda de Zapata. Mal passadas...

Esse petisco, apesar dos teus dotes gastronómicos, nunca a ti te passou pelos queixos...

Já agora, por falar em batatas ( não baratas... ) salteadas.
Uma vez na Rua dos Correeiros um dos galegos que servia á mesa disse-me, no seu sotaque arrevesado:
Hoje o prato do dia são "patatas guichadas".

Guisadas com quê? - perguntei-lhe...

"unas con las outras"! - respondeu ele...

Saudações Académicas também

Rui Felício

12:48 p.m.  
Blogger Manuela Curado disse...

Rui
Ficas mais "giro" romântico...

Até que não acredito nessa tua descrição tão "canibalesca".
Ou as baratas não estavam bem cozinhadas ou a miúda, nem sabia comer...

Na Amazónia foi-me dada a provar por um índio, uma linda lagartinha com propriedades especiais...
Meti-a na boca...cerrei os lábios... e saboriei lentamente com muito prazer.
Sabia a côco.

1:30 p.m.  
Blogger Manuela Curado disse...

Além de que, as "lichias" não eram para comer...eram para beijar.

1:44 p.m.  
Blogger Rui Felicio disse...

Oh Nela! Já comeste lagartixas?!!!
Registo...

3:06 p.m.  
Blogger Manuela Curado disse...

Antes isso que engolir sapos e desses nenhuns de nós escapou...Estou certa.

3:45 p.m.  
Blogger celeste maria disse...

Ó Rui

Se em vez da barata fosse uma cara tu beijá-la-ias!

Foi um jantar de bicharada.
Tu,ovo a cavalo,ela,baratas!!

7:25 p.m.  
Blogger olinda Rafael disse...

Acredite,se quiser!
( era o que devias ter acrescentado)

Alinhava com o Ferrão para comer as mesmas baratas que a Zélia manducou e que ele hoje também saboreou...

olinda

12:00 a.m.  

Enviar um comentário

Subscrever Enviar feedback [Atom]

<< Página inicial

Powered by Blogger

-->

Referer.org