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quinta-feira, 19 de março de 2009

TIME-SHARING

Estupendo dia de calor aquele de Abril, pela altura das férias da Páscoa. Com os meus quarenta anos de idade, tinha ido passar dois dias sozinho ao Algarve aproveitando o feriado de sexta-feira santa e a zanga que acabava de ter em casa.
No sábado de manhã saí do Hotel Jupiter onde me tinha hospedado, atravessei o alcatrão e calcorreei a areia da Praia da Rocha. Estendi a toalha e deitei-me de papo para o ar. A meu lado, na toalha, um maço de cigarros e o isqueiro, meus fieis companheiros...
Devo ter passado pelas brasas ao sol e quando acordei, nem queria acreditar na visão celestial que me tapava o sol. Era uma escultural miúda de reduzido bikini, corpo moreno do sol, que, de pé, me pedia desculpa pelo incómodo. Perguntava-me se tinha lume. Era claramente uma pergunta desnecessária. O isqueiro era tão visível em cima da toalha que só um cego não repararia nele.
A visão de uma mulher bonita, ainda por cima seminua, dá a volta à cabeça de qualquer homem, mas quando o ângulo de visão é de baixo para cima, em que os contornos e as curvas femininas ficam ainda mais pronunciadas, e à vista, os recônditos lugares habitualmente escondidos, é de se ficar sem fala...
Foi essa mudez da minha parte que a obrigou a repetir a pergunta. Pressuroso, peguei no isqueiro e estendi-lho...
Agachou-se ao meu lado, acendeu o isqueiro, chupou longamente o cigarro e expeliu uma azulada nuvem de fumo. Sorriu-me e pediu-me para se sentar um pouco.
Andava a estudar e nas férias procurava ganhar algum dinheiro vendendo a utilização de apartamentos turísticos em time-sharing. Eu nem a ouvia, só devorava aquele sorriso jovial, aqueles movimentos ondulantes do seu corpo...
Abriu uma pequena pasta de plástico que trazia consigo, explicou-me que os apartamentos eram de elevado nível, que ficavam ali perto, que o empreendimento se chamava RochaVaumar e que estavam a muito bom preço.
Sem me preocupar muito com os pormenores, perante a sua insistência em saber o que eu achava, lá lhe disse que poderia eventualmente encarar a hipótese de comprar as duas primeiras semanas de Setembro porque eram muito mais baratas que as de Agosto. No conjunto custavam 1.500 contos.
Pediu-me os meus elementos, preencheu a papelada mas eu não assinei. Não lhe disse, mas de facto não estava interessado. E nem queria comprar nada daquilo...Desculpei-me dizendo-lhe que só poderia assinar se tivesse comigo o respectivo meio de pagamento. Ora, como ela facilmente via eu só tinha o fato de banho, a toalha, os cigarros e o isqueiro. Menti-lhe, dizendo-lhe que estava à espera de uma pessoa, o que me impossibilitava de ir ao Hotel buscar o livro de cheques.
- Não faz mal! - disse ela, simpática...
- Se você quiser, combinamos encontrar-nos logo à noite na discoteca Sherazade em Portimão. E tratamos de tudo lá.... Conhece?
Não conhecia mas disse-lhe que sim. Eu já só “via” era uma noitada com aquele borracho...

E o convite dela para nos encontrarmos na “night”, claramente, não era só por causa do negócio, pensava eu ... Maldito defeito este dos homens se acharem uns engatatões..
À noite, meti o livro de cheques no bolso, fui à procura da Sherazade, encontrei facilmente a miúda ( aliás deve ter sido ela que me encontrou... ), e, em menos de um fósforo, fiquei com um contrato na mão e com um cheque a menos na carteira.
Engoliu rapidamente a bebida que eu lhe ofereci, disse-me que adorou ter-me conhecido, pediu muita desculpa por ter que me deixar, mas não podia ficar muito mais tempo que os pais eram muito exigentes quanto à sua entrada em casa à noite.
...................
EPILOGO
Nunca mais vi a miúda, como é óbvio. Passei duas semanas de férias na RochaVaumar ainda nesse ano, emprestei a amigos meus as minhas duas semanas nos dois anos seguintes e, entretanto, a firma dona do empreendimento faliu....
Ficou-me cara a presunção e o estúpido convencimento...

Rui Felício
19-03-2009

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11 Comentários:

Blogger Manuela Curado disse...

Ora aí está uma estória de que muito gostei e que me muito me fez rir.
"Com papas e bolos se enganam os tolos".
Desculpa Rui, grande Mulher e tolo pacóvio...
Será que te serviu de emenda?
Ai!!! Ai!!!... não me parece.
Mas deixa lá... não és o único.

9:21 p.m.  
Blogger Alfredo Moreirinhas disse...

Ó Rui,
Não viste logo que a queca ficava cara?
Que desespero!!!

9:31 p.m.  
Blogger Romicas disse...

Bom, já me acostumei a que as estórias do Rui tenham sempre uma figura feminina pelo meio e vou compreendendo as frases ditas na Rota da lampreia, sobre o seu jeito engatatão e fama entre as meninas...
Tal como a Nela Curado, rio-me que me farto a imaginar as cenas. Um beijinho, Rui

Romicas

10:36 p.m.  
Blogger olinda Rafael disse...

O velho truque do isqueiro...lixou-te!

E quantas vezes "arriscáste e não
petiscaste?" E quantas "petiscaste"?

Imagino!!!D.Juan Felício!

olinda

10:59 p.m.  
Blogger Lekas Soares disse...

Deixa lá Rui. Como disse a Nela não foste o último. Sabes bem que as mulheres, quando querem alguma coisa, são muito sabidas mesmo as "mais virgens cujos pais são muito exigentes".
O pior é quando somos enganados por um gajo GORDO e PRAZENTEIRO e que foge com o dinheiro que pagámos. Isso é que é triste. Nem paisagem tivemos. Pois, pois... eu e o meu Manel(e mais alguns) enganados assim. Mas conseguimos recuperar ao fim de algum tempo porque o "senhor muito respeitável" foi apanhado.
Azar o dele.

12:42 a.m.  
Blogger Isabel Melga disse...

Eu ainda não percebi e já tenho alguns anitos, a razão do homem (seja velho ou novo), pensar que a mulher foi um produto fabricado ou inventado, só para adornar o homem ou o apaparicar!!!E que certamente não terá mais nada para fazer neste Mundo quando cá chegou!!! Nós sabemos fazer companhia, ser brincalhonas, dar uma gargalhada, assumimos o que fazemos somos mais autênticas e adultas. Mas não cultivamos aquela obsessão pelo "bicho homem". Vocês são mais inibidos, complexados com a imagem, mais preconceituosos e lixam-se!!! Não aprendem mesmo!!!Isabel Melga

12:49 a.m.  
Blogger Rui Felicio disse...

Concordo comquase tudo o que diz a Melga.
Quase...
Pela parte que a mim diz respeito, não considero as mulheres como "bibelots" ou "feitas" para apaparicar o homem.
Já aqui o disse várias vezes que as mulheres têm as mesmas qualidades que os homens. Há as boas e as más, em qualquer área profissional, intelectual, politica ou cientifica onde se insiram.
E têm algumas caracteristicas genéticas que em muito suplantam as dos homens. Falo da sensibilidade artistica, preocupação social, desejo de igualdade e liberdade.
Como em tudo e em todos e todas, há as regras e as excepções.

Finalmente quanto ao defeito do homem de se deixar atrair pela sua beleza, é coisa que reconheço. No próprio texto o digo...

E quem confessa não merece castigo. Ou, pelo menos, não merece castigo muito pesado...

Rui Felício

7:07 a.m.  
Blogger Rui Felicio disse...

Alfredo, nestas coisas as contas, infelizmente, fazem-se a posteriori.

Se fossem feitas antes não aconteceriam situações de que depois nos arrependemos...

Felizmente que, a avaliar pelos comentarios, outros cairam na mesma esparrela. E se calhar por muito menos. Não foi Lekas?

E ainda há aqueles que estão caladinhos mas que se revêm na história que eu contei...

7:13 a.m.  
Blogger Quito disse...

RUI
Este exemplo que contaste acontece todos os dias.
Ninguém se arme em santo,dou-e os parabéns pela forma como assumiste um logro em que caíste.
Falsos sonsos é o que mais há por aí, armados em espertos...
QUITO

12:16 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

A tua fama já vem de longe mas umas vezes com proveito, outras com barrete.
Foi azar!!!

3:02 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Ora cá está mais um episódio típico do Felício... E a verdade é que quem se mostra assim de peito aberto não merece mesmo castigo. Mas, não sei porquê, não consigo afastar a dúvida que me fica sempre quanto à veracidade dos acontecimentos.De qualquer modo vai-me divertindo.

4:45 p.m.  

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