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quinta-feira, 19 de março de 2009

TRAGÉDIA EM COIMBRA

Dia gelado de inverno. A água que escorria de patamar em patamar na velha fonte do Jardim da Sereia, tinha solidificado em pontiagudos fusos que lhe davam uma inusitada e fantasmagórica aparência.
Desde o Liceu D. João III, ao longo da mata do jardim, eu e mais uma dúzia de miúdos fomos recolhendo pequenos paus secos com a ideia de fazermos na Praça da República uma fogueira para nos aquecermos. E, principalmente, para nos divertirmos...
Chegados à Praça empilhámos os paus recolhidos e preparámo-nos para acender o monte de lenha.
Chegou-se ao pé de nós um homem de certa idade e aconselhou-nos a não o fazermos. Um de nós ainda lhe disse, com a esperteza saloia dos 15 anos de idade, que ele não era polícia para nos tentar proibir.
- Não é nada disso! – retorquiu o homem!
- Se me ouvirem, perceberão porque é que vos peço para não acenderem o lume!
............................
E contou-nos o que mais de vinte anos antes se tinha passado naquele mesmo local onde nos aprestávamos para fazer a fogueira:
O programa das Festas da Rainha Santa de 1938 integrava um simulacro de incêndio. Para o efeito foi construído no meio da Praça da República um “prédio” de 7 andares em madeira. Distribuídos pelos andares do “prédio”, colocaram 13 figurantes.
Pelas 21,30 horas do dia aprazado, a base do edifício foi regada abundantemente com gasolina, a que, acto continuo, alguém chegou o fogo. O “alarme” foi dado para que os bombeiros acorressem ao local e extinguissem o incêndio. Tal como previsto...
Sucedeu, porém, que as chamas irromperam com uma enorme velocidade e violência, mais do que os promotores do espectáculo tinham calculado.
O edifício foi devorado pelas chamas em poucos minutos. Quando os bombeiros chegaram já alguns dos figurantes tinham morrido carbonizados, enquanto outros se começaram a lançar, com o corpo em chamas, estatelando-se no chão da praça.
Os bombeiros ainda estenderam uma lona na tentativa de atenuarem a queda dos últimos que se atiraram, mas o dispositivo não era suficientemente forte e os corpos que nela embateram acabaram por sucumbir.
Dos 13 figurantes só houve um sobrevivente!
...........................
Um dos mortos era meu irmão – finalizou o homem...

Rui Felício
19-03-2009

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15 Comentários:

Blogger Quito disse...

Rui
Este terrivel acontecimento deu brado em todo o País. O exercicio correu mal e foi uma tragédia.
Muitos anos depois apresentaram-se em Coimbra um grupo de destemidos malabaristas. Montaram na Praça da Republica uma torre com 50 metros de altura. De cada um dos vértices da Praça saía um cabo de aço que atingia metade da Torre. Com 4 motos com rodas de aço que corriam sobre espias tipo "calha" eles subiam e desciam a velocidades vertiginosas. No fim do espectaculo, um subia à Torre e punha-se em pé num pequeno prato para depois enfiar um pé num gancho outro no poste ficava na perpendicular do poste e desfraldava a bandeira portuguesa. Era um exercicio de uma enorma coragem. Correu bem em Coimbra. Na semana seguinte, em Aveiro o pé escorregou do gancho e percebes o que aconteceu perante milhares de pessoas que assistiam. Chamavam-se ARANIS.
QUITO

3:26 p.m.  
Blogger Rui Felicio disse...

Lembro bem de ter assistido ao espectaculo na Praça da Republica.
Já não me lembrava que em Aveiro as coisas correram mal.

3:31 p.m.  
Blogger Manuela Curado disse...

Nem sei que comentar...hoje é dia do pai... não pode ser tão aziago.
Já me estão a pôr de baixo astral...
Tentei telefonar a minha mãe para me pôr a par desse terrível acontecimento, mas fui despachada.
É segredo, mas eu sei...que para me fazer surpresa anda a fazer uma obra no quintal.. o quê... não sei.
Com 89 anos... sempre a fazer projectos para o futuro. LINDO

3:37 p.m.  
Blogger ... disse...

Lembro-me dos Aranis darem esse espetaculo na Praça da Republica.
isso levou a que alguns dos Cavalinhos tentassem ser artistas-equilibristas.
Corridas nos carris da linha de comboio desde o Casal da Eira ate ao Urinol do Sinaleiro. Subida e corrida nos Arcos da Ponte da Portela e por fim percorrer os resguardos do Predio Amarikano.
Este era o mais arriscado.
E não é que havia quem fizesse tudo isso com uma perna às costas???
Eu cumpri e o Rogerito Teixeira tambem.
Alvaro Apache

3:37 p.m.  
Blogger Quito disse...

RUI
Só não me lembro da nacionalidade deles, lembras-te?
O que também me marcou foi depois daqueles exercicios tão perigosos, eles virem pedir dinheiro e as pessoas virararem costas e nada darem. Fiquei tão "chocado" que ainda hoje me lembro deste pormenor...
Quito

3:38 p.m.  
Blogger Rui Felicio disse...

Nela,

A tua mãe lembra-se desta tragédia do incêndio com toda a certeza. Quando falei aos meus pais na história que este homem nos tinha contado, ela foi de imediato confirmada...

Quito,

Não sei qual era a nacionalidade dos artistas...

3:42 p.m.  
Blogger Manuela Curado disse...

Claro que se lembra!
Anda é numa azáfama e não estava para me aturar.
Logo, perguntarei.

3:56 p.m.  
Blogger Quito disse...

Rui
Essa triste história do incêndio foi-me contada pelo meu pai, que sabe todos os pormenores de como as coisas se passaram...
Quito

3:58 p.m.  
Blogger Teresa B disse...

O Quito não disse, mas parte dos rapazes, eram filhos dos bombeiros que iriam participar no exercício.
Há, no cemitério da Conchada, um pequeno leirão só das vítimas dessa tragédia.
Mais uma curiosidade: nesse ano, a Rainha Santa veio de luto, uma imagem antiga que está na sacristia do convento e, creio que foi a partir daí que a procissão passou a ser de dois em dois anos.

5:17 p.m.  
Blogger Rui Felicio disse...

Fui à procura do Diário de Coimbra que à época deu a noticia. É o DC de 8 de Julho de 1938. É curioso que o acidente se deu no dia 6 e só 2 dias depois a noticia é publicada. Não vejo explicação para essa demora, mas os tempos eram outros...

Lá se diz que nesse ano a Câmara decidiu interromper as Festas da Rainha Santa. Era o minimo que podia fazer.

Mas a Teresa diz que a procissão se fez, embora com a imagem da Rainha Santa de luto.

Com todo o respeito que, apesar de tudo, tenho pelo calino, inclino-me mais para o que a Teresa afirma. Que aliás condiz com aquilo que julgo lembrar-me de os meus pais me terem dito.

Rui Felício

6:20 p.m.  
Blogger celeste maria disse...

Muitas vezes ouvi os meus pais falarem deta tragédia!

Da tragédia que refere o Quito lembro-me como foi chocante.

7:05 p.m.  
Blogger olinda Rafael disse...

No cemitério da Conchada, na zona
onde foram sepultados os mortos desta tragédia,estão sinalizadas as 12 pequenas sepulturas com uma lápide,referindo o acontecimento.

No aniversário é habitual prestar-lhes homenagem.

olinda

11:47 p.m.  
Blogger Lekas Soares disse...

A esse horrivel momento também minha Mãe assitiu. Falava bastantes vezes nisso porque estava presente. Nunca mais se esqueceu e, principalmente, recordava o odor pois de imediato o meu Avó a retirou de lá.
Um horror

1:42 a.m.  
Blogger Isabel Melga disse...

A Minha Mãe e meu Pai tinham desde essa altura uma autêntica paranoia pelos incêndios, o mínimo cheiro a fumo, os prédios altos, nem pensar arrendá-los!!! E explicavam que assistiram e ficaram horrorizados e para sempre com medo de incêndios e de espectáculos dessa natureza. Várias vezes meu Pai ia à loja de noite confirmar se as luzes estavam fechadas se alguma pirisca estava acesa, era uma preocupação doentia. Teresa, também já visitei no cemitério essa homenagem.Isabel Melga

1:52 a.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Olá Rui.
Conheço bem essa história do incendio da Praça da República. O meu Saudoso Pai tb contava que foi uma grande tragédia q abalou a cidade inteira como é óbvio.
Sabes quem foi o homem c/ quem falaste?. Foi o Quim Oliveira, irmão do Sr. Alvaro Oliveira e pai do Cá-ló aí do bairro. Um abraço Mário Rebôlo Morato Closta e até à sardinhada

11:22 p.m.  

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