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terça-feira, 7 de abril de 2009

INJUSTIÇAS

O Carlos era um bom homem. Respeitador da lei e das obrigações sociais e conjugais. Mas a sua ingenuidade e credulidade eram muitas vezes motivo de chacota por parte de quem o conhecia bem...
Por isso interrogava-se, e da mesma forma o faziam os seus amigos, por que razão um dia a Fernanda, sua mulher, sem mais nem menos, o acusou de adultério exigindo-lhe o divórcio. A ele, que nunca conhecera sexualmente nenhuma outra mulher para além da Fernanda!
aEstarrecido, e desta vez incrédulo, assistiu no tribunal ao modo como o Juiz permitiu, magnânimo, ao advogado da sua mulher interrogar, alegar, argumentar, ao mesmo tempo que, com ar intimidatório, lá do alto da sua cátedra, impedia o inexperiente e jovem advogado oficioso que tinha sido nomeado para o defender, de desempenhar o seu papel, interrompendo-o a cada palavra sua, desfazendo-lhe todas as tentativas de promover a sua defesa.
A Fernanda enunciou, perante o ar benevolente do Juiz, com inteira liberdade, uma por uma, as acusações de adultério que lhe fizera e quando ele procurou negá-las o Juiz mandou-o calar, dizendo-lhe que já estava suficientemente esclarecido...
O Juiz decretou o divórcio! E por efeito dele, a divisão dos bens do casal, como é de lei. Ainda por cima, todos esses bens tinham sido adquiridos com o seu exclusivo trabalho...
Felizmente não havia filhos, o que evitou a discussão sobre a quem caberia a sua guarda...
Passado algum tempo, o Carlos descobriu que o Juiz que o condenara era, desde há muito, amante da Fernanda e entendeu então a razão da sua rápida condenação sem provas, sem direito a defesa, a partilha dos bens...
Revoltado, congeminou a vingança e certa noite invadiu a casa do Juiz e matou-os aos dois enquanto dormiam. Entregou-se à polícia, confessou o duplo homicídio e voltou a ser julgado no mesmo Tribunal onde antes tinha sido injustiçado, dizendo para os seus botões: - Ao menos agora serei condenado com justiça!
O ingénuo Carlos enganou-se de novo. O Tribunal absolveu-o por considerar que o que ele fez foi para lavar a sua honra e para reparar a injustiça de que tinha sido vítima.
Vá-se lá entender a Justiça!

Rui Felício
07-04-2009

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12 Comentários:

Blogger Alfredo Moreirinhas disse...

Mais uma deliciosa história com um final que ninguém esperaria!

9:00 p.m.  
Blogger Manuela Curado disse...

Não sei se esta descrição corresponde à realidade... mas não me espantaria que assim fosse.
Caso idêntico observei eu.
Neste caso a mulher malévola era representada pela Sónia, então "oficiosa", e graças a esta, saiu beneficiada da contenda deixando o homem de rastos e a jovem advogada desiludida... com a injustiça.

Beijinho. É sempre muito bom ler os teus textos, neste cantinho de encontro.

9:26 p.m.  
Blogger olinda Rafael disse...

Para já, sejamos justos para com o
F.C.do Porto!Bom jogo!

Quanto a INJUSTIÇAS,meu amigo, estas
"autópsias" do crime deixam-nos baralhadas e,ainda mais baralhadas com as
setenças de "morte", quer no contexto por ti descrito quer nos contextos da prática actual da JUSTIÇA!
Na verdade,ela resvala quase todos os dias para o precipício...

Boas amendoas justiçadas!

Maria

10:20 p.m.  
Blogger Maria Julia disse...

Ainda bem que houve por fim a
Justiça! E que o Carlos ainda
venha a estar de Bem com a
Vida!
Quase sempre a verdade vem ao
cimo e pena é quando não vem...
Há que descobrir os meandros!!!
Estou contente!
Juju.

11:32 p.m.  
Blogger Lekas Soares disse...

Adorei a tua história que realmente teve um fim inesperado. No entanto será que valeu a pena o Carlos ter amofinado o resto de sua vida com as 2 mortes daquela gente? Efectivamente foi absolvido mas ficará para sempre com um sabor a sangue na sua consciência. Ainda há uns dias atrás eu dizia à minha filha, que está com problemas graves por causa do ex, que não vale a pena alimentar ódios.Ao alimentarmos os nossos ódios esquecemo-nos de nós próprios e das coisas maravilhosas que a vida tem.

12:01 a.m.  
Blogger Isabel Parreiral disse...

Quem espera justiça de uma justiça feita por homens e para servir os interesses dos homens?
Há casos verdadeiramente aberrantes, que fogem de toda a lógica e nos levam a questionar todo o sistema jurídico, fazendo-nos sentir que o castigo ou a impunidade repousa apenas no poder pagar um bom, entenda-se hábil a manejar as leis, advogado.
Isabel Parreiral

12:21 a.m.  
Blogger Maria Julia disse...

Lekas dou-te razão, mas o Carlos foi muitíssimo injustiçado, à primeira...
Beijitos para ti.
Juju.

12:23 a.m.  
Blogger Carlos Viana disse...

Felicio,

Não me parece que o Carlos fosse tão ingénuo quanto isso.
Quando se entregou à justiça, sabia que seria absolvido pois confiava na injustiça da justiça...
Haja justiça ! O homem não era burro de todo.

Abraço e obrigado pelo texto. A brincar, colocas uma questão muito séria. De facto, há imensas situações cujas sentenças o comum mortal não consegue entender.
Mas quem nos manda ser comuns mortais ?
Um abraço,
Carlos Viana

2:37 a.m.  
Blogger Rui Felicio disse...

Compreendo a desilusão da tua filha Sónia, Nela, se compreendo...
A sua patrocinada ganhou a acção mas isso nem sempre é uma vitória moral para o mandatário que a representa, eu sei.

Mas devemos ter sempre presente que a quem cabe "fazer justiça" é ao juiz e não aos advogados...

Rui Felício

7:18 a.m.  
Blogger Manuela Curado disse...

Boa retórica e bom discernimento, foram insuficientes para superar a ingenuidade quebrada, de uma mulher nos seus "verdes" anos.
Virou-se para outra forma de Direito, menos cáustica e mais elementar.
Quebrara-se o sonho de "causídico de barra"

8:46 a.m.  
Anonymous QUITO disse...

Mais uma história bem contada com um fim que não se esperaria.
Ainda bem que já não andas atarefado, pelo que já podes voltar ao convívio dos amigos através da escrita.

8:58 a.m.  
Blogger Chico Torreira disse...

Gosto muito de ler os artigos do Rui Felício pois tem um dedo especial para expôr mas muito especialmente a meu gosto quando nos apresenta assuntos da sua profissão. Infelizmente ainda hoje por todo o mundo acontecem problemas na justiça, se bem que alguns estejam técnicamente correctos e nos fassam pensar que Sociedade estamos a construir. Neste Natal, uma menina de doze anos, de uma família separada, deixou-se filmar nua pela webcam pois os depradadores sexuais não têm limites nas suas técnicas de seduzir e as crianças acabam por entrar no jogo. Depois as suas fotos aparecem nas distribuções para pédofilos que navegam na net.

O pai achou por bem castigar a menina: não a deixou sair no Natal e anulou-lhe uma ida ao estrangeiro a seguir ao Ano Novo. Como a mãe achou que era um castigo excessivo e a menor tem direito a tribunal gratuitamente, levou a que a filha metesse o Pai em tribubal. O juíz achou que a mãe tinha razão e a menina lá partiu para a sua viagem. O pai recorreu ao supremo tribunal do Canada pois achava que lhe estavam a tirar a autoridade paternal, uma vez que naquele momento a menor estava sobre sua responsabilidade. Teve ontem a excelente notícia que o tribunal de primeira instância tinha razão. Técnicamente, correcto. Sociedade, que futuro? Bem, boa Páscoa a todos.

Chico Torreira

1:38 p.m.  

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