A Música de Zeca Afonso não é de esquerda nem de direita
Alguma dela pode ser considerada de intervenção política como, por exemplo, os "Vampiros " e " Bairro Negro ".
Porém,a sua música é genuinamente portuguesa com uma matriz do fado e da balada de Coimbra.Talvez Zeca Afonso não teria sido o que foi se não tivesse passado por esta cidade. Aqui, ele obteve a sonorização que necessitava para a sua inspirada música.
Ao escutarmos as suas obras,sem dúvida que há sempre um sabor a Coimbra.
Considero o album " Cantigas de Maio ", o melhor conjunto de composições que se fez em Portugal.
Mas, a raiz Coimbrã de Zeca Afonso é por vezes negada, catalogando-a num âmbito mais genérico de "música popular portuguesa".
Não concordo.Isto é mais uma vez a macrocefalia lisboeta,que quando o artista não é de Lisboa,ou não se inspira no fado de Lisboa,sistematicamente é negada outra origem geografico-musical, porque não é da capital e assim generaliza-se... de resto, os cartazes que anunciavam os espectáculos a partir de dado momento, deixaram de ser do Dr. José Afonso,para serem espectáculos do Zeca Afonso. Mudança esta que não tem o objectivo de popularizar ou proletarizar José Afonso, mas sim negar a sua essência Coimbrã. Isto que escrevo até se pode verificar na toponimia, onde na Figueira da Foz temos a Praça Dr. José Afonso (na marginal, junto à Torre do Relógio ) e à volta de Lisboa, não sei se em Oeiras,Almada ou Amadora há uma Rua ou Praça com o nome de Zeca Afonso.
Há aqui como que uma apropriação da capital e da esquerda política.
Mas José Afonso,está acima de tudo isso.Conheço pessoas de direita conservadora que o admiram profundamente e conheço outros de esquerda a quem a Música de José Afonso é indiferente.
Eu, colocaria José Afonso no OLIMPO dos DEUSES. Seria o DEUS da Música.
Nela Dias
Etiquetas: Nela Dias, Zeca Afonso


12 Comentários:
Nela
Apenas quero citar Zeca Afonso para complemento do teu texto.
"(...)só gosto de falar de mim enquanto me envolvo em acontecimentos e evoco pessoas(...)"
"Às vezes pergunto o que me ficou de todas essas passagens por África e por Coimbra e por outros lados.
Sou,no fundo,fruto de muitas gentes,de muitos lugares,de muitos dissabores".
"Não me arrependo de nada do que fiz.Mais:eu sou aquilo que fiz.Embora com reservas acreditava o suficiente no que estava a fazer,e isso é o que fica.
Quando as pessoas param há como que um pacto implícito com o inimigo,tanto no campo político como no campo estético e cultural.
E, por vezes,o inimigo somos nós próprios,a nossa própria consciência e os alibis de que nos servimos para justificar a modorra e o abandono dos campos de luta".
em
Exposição José Afonso
andarilho,poeta e cantor
Lisboa 94,capital europeia da cultura
Maria
Nela Dias
Foi sempre assim que ouvi as musicas de Zeca Afonso.Quem não se lembra no teatro Avenida ,nunca se sabia se o Zeca conseguiria cantar por causa da malfadada Pide,acabava sempre por cantar.
Nela gostei muito do teu artigo.
Um xi do
Carlos
Este comentário foi removido pelo autor.
Pois é verdade.
Faço minhas as suas palavras.
Para os meus amigos e inimigos.
"Não me arrependo de nada que fiz. Mais, eu sou aquilo que fiz. Embora com reservas, acreditava o suficiente no que estava a fazer, isso é o que fica".
Sempre em prol da amizade
NelaCurado
Parabéns Nelinha!
Gostei mesmo do teu texto, pla forma explícita da escrita. Se é, ou foi assim ou não, não comento, por não ter bases para tal.
Beijinho grande.
Juju.
Mana
Sempre em prol da amizade, mesmo contra ventos e marés....
Não foi em vão que andámos 50 anos à procura da amizade interrompida; não a deixaremos perder agora; já não há mais 50 anos para a recuperar; vamos aproveitá-la nos anos que nos faltam.....
Que importa perder a vida
na luta contra a traição
se a razão mesmo vencida
não deixa de ser razão.
De: António Aleixo
Mariazinha da Silveira
Não vou dizer nada sobre o Zeca; acho que já tudo foi dito...
Venho apenas dizer que a Nela dá qualidade, dá diferença, dá dignidade a este espaço.
Obrigado Nela.
Também eu já nada mais poderei acrescentar a tanto dizer.
Só tenho que dar um xi à Nelinha de agradecimento pelo seu lindo texto.
Todos os anos, numa reunião em Carvalhelhos, um numeroso grupo de amigos no qual me incluo, presta homenagem a Zeca Afonso, cantando as suas canções de intervenção.
Zeca atravessará gerações e é sempre com prazer que o recordamos...
Não tenho dúvidas em afirmar que um si bemol não é de esquerda do mesmo modo que um lá sustenido não é de direita.
Mas... e uma sequência de notas? Ainda me recordo de uma noite em Luanda, no final de um jantar, me terem proposto ouvir o Zeca Afonso (chamar-lhe Dr. José Afonso estabelece uma diferença ...) e eu ter aceite, mesmo sabendo que já não me safava de arriscar sair sem salvo conduto num território de recolher obrigatório. Emoções, afectos, sentimentos.
E se à música juntarmos palavras, a letra? Lá vamos cantando e rindo, levados levados sim... É neutra? Una mattina Mi son’ alzato O bella ciao, bella ciao Bella ciao, ciao, ciao ... é neutra?
A música, em abstracto não é realmente, nem de esquerda nem de direita. Mas a música não existe isoladamente, fora de um contexto.
E essa música situada, a única que existe, pois nada existe no vazio, divide-nos ...
Jó-Jó
Era um poeta com mensagem Não era um versejador panfletário. Um trovador anti-fascista, de esquerda e revolucionário.O Zeca para o povo, porque era do povo. As sonoridades, de Coimbra,do nosso folclore, africanas, eram música do Zeca. Música de intervenção.
Mas é verdade que o seu portuguesismo político, poético e musical era abrangente e tocava muita gente de direita e de esquerda e até gente que não se incomodava muito com o fascismo.
Era uma vantagem do Zeca.
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