LAGOS ADEUS
Como tive oportunidade de dizer num comentário no “Cavalinho Selvagem”, a cidade de Lagos é, em termos afectivos, a minha segunda cidade. Depois de Coimbra, Lagos tem um encanto especial. Cidade ampla, banhada pelo Atlântico, tem tido nas últimas décadas um acentuado crescimento.
Recordo-me da urbe ainda dentro das velhas muralhas, com as suas ruas estreitas e típicas. O Largo do Adro, onde passava as minhas férias de verão em casa de família, há cinquenta anos atrás, faz-me recordar amigos lacobrigenses daquele tempo, que não mais esquecerei: a Célia, a Amália, a Irene, a Eva, o Trajano, o Victor e o Jorge Marreiros Pacheco. De todos, em jeito de saudosa homenagem, gostaria de lembrar este último. Era pescador de profissão e conhecido na cidade por ser um homem destemido. No seu pequeno barco “Estrela de Lagos”, dobrava a barra com ondas alterosas, quando outros, atemorizados, ficavam em terra firme. Era também um nadador exímio, e, na Praia do “Pinhão”, lançava-se da arriba mais alta para o mar, perante o olhar abismado dos veraneantes. Morreu cedo. Não por uma qualquer aventura ou pagando o preço da sua audácia, mas por doença que o roubou ao nosso convívio com pouco mais de trinta anos de idade.
Tudo tem um princípio e um fim. E hoje, enquanto vou arrumando as minhas bagagens porque as férias estão a acabar, sinto um travo amargo na garganta. E por muito estranho que a alguns pareça, o que levo na bagagem não é o Sol, não são as praias, nem é o mar. O que levo na mala do meu carro é esta cidade da qual tenho memoráveis recordações de infância e juventude. Levo também a minha família aqui residente, que pelo ano fora me vão perguntando quando volto. Também no meu coração vão os meus familiares aqui sepultados. E levo os amigos. Irei despedir-me do Zé Manel, que, como sempre faz, me vai pôr a mão no ombro e dizer com um ar desconsolado: …já te vais embora, Quito?...
E os outros amigos que já mencionei. A alguns já perdi o rasto, neste grande carrocel da vida. Outros por aqui estão. Vou passar pelo Largo do Adro e ver a casa que me acolheu por tantos anos. Vou olhar contristado a humilde casa do Jorge Marreiros Pacheco que mantém a traça inicial. Porque o tempo não dilui a saudade. E vou lembrar aquele amigo, uma espécie de “herói” de infância e juventude, que cavalgava as ondas de um Atlântico em fúria, com coragem e bravura. Um dia, trocou a lotaria do mar pela vida de guarda - fiscal. Casado e com dois filhos pequeninos, vivia com muitas dificuldades. Relembro Eça: “… para alguns a fortuna começa no ventre maternal : a porta da vida abre-se – lhes a dois batentes (…) outros têm de arrombar com dor essa mesma porta, saindo para um destino escuro como uma estrada de inverno ...”. Até que uma mão amiga o auxiliou. Tomou conta do seu lugar em Vila do Bispo, mas ajuda foi efémera. Faleceu ainda não tinha dois anos de serviço. E lá está sepultado. Numa campa simples. Tão simples como foi a sua vida. Mas, na sua humilde condição, sempre generoso, amigo e leal. A saudosa memória do Jorge, todos anos vem comigo para a Beira Baixa.
Uma tarde, em Salgueiro do Campo, alguém me disse na esplanada do café “ Portas da Serra”:
- A vida entre os sessenta e setenta anos é perigosa. Nunca se sabe quando o destino nos reclama a existência…se passarmos essa margem, temos muitas hipóteses de uma vida duradoura…
E aquelas palavras, ficaram-me a bailar assustadoramente nos ouvidos, agora que me apresso a pisar a fasquia dos sessenta….
E quando já só vir Lagos pelo espelho retrovisor do meu carro, não deixarei de mentalmente me despedir da cidade e murmurar “entre dentes”, quase em jeito de oração:
Adeus Lagos. Até para o ano. Ou até sempre.
(este texto é-te dedicado Jorge. Estejas tu onde estiveres.)
Quito
Recordo-me da urbe ainda dentro das velhas muralhas, com as suas ruas estreitas e típicas. O Largo do Adro, onde passava as minhas férias de verão em casa de família, há cinquenta anos atrás, faz-me recordar amigos lacobrigenses daquele tempo, que não mais esquecerei: a Célia, a Amália, a Irene, a Eva, o Trajano, o Victor e o Jorge Marreiros Pacheco. De todos, em jeito de saudosa homenagem, gostaria de lembrar este último. Era pescador de profissão e conhecido na cidade por ser um homem destemido. No seu pequeno barco “Estrela de Lagos”, dobrava a barra com ondas alterosas, quando outros, atemorizados, ficavam em terra firme. Era também um nadador exímio, e, na Praia do “Pinhão”, lançava-se da arriba mais alta para o mar, perante o olhar abismado dos veraneantes. Morreu cedo. Não por uma qualquer aventura ou pagando o preço da sua audácia, mas por doença que o roubou ao nosso convívio com pouco mais de trinta anos de idade.Tudo tem um princípio e um fim. E hoje, enquanto vou arrumando as minhas bagagens porque as férias estão a acabar, sinto um travo amargo na garganta. E por muito estranho que a alguns pareça, o que levo na bagagem não é o Sol, não são as praias, nem é o mar. O que levo na mala do meu carro é esta cidade da qual tenho memoráveis recordações de infância e juventude. Levo também a minha família aqui residente, que pelo ano fora me vão perguntando quando volto. Também no meu coração vão os meus familiares aqui sepultados. E levo os amigos. Irei despedir-me do Zé Manel, que, como sempre faz, me vai pôr a mão no ombro e dizer com um ar desconsolado: …já te vais embora, Quito?...
E os outros amigos que já mencionei. A alguns já perdi o rasto, neste grande carrocel da vida. Outros por aqui estão. Vou passar pelo Largo do Adro e ver a casa que me acolheu por tantos anos. Vou olhar contristado a humilde casa do Jorge Marreiros Pacheco que mantém a traça inicial. Porque o tempo não dilui a saudade. E vou lembrar aquele amigo, uma espécie de “herói” de infância e juventude, que cavalgava as ondas de um Atlântico em fúria, com coragem e bravura. Um dia, trocou a lotaria do mar pela vida de guarda - fiscal. Casado e com dois filhos pequeninos, vivia com muitas dificuldades. Relembro Eça: “… para alguns a fortuna começa no ventre maternal : a porta da vida abre-se – lhes a dois batentes (…) outros têm de arrombar com dor essa mesma porta, saindo para um destino escuro como uma estrada de inverno ...”. Até que uma mão amiga o auxiliou. Tomou conta do seu lugar em Vila do Bispo, mas ajuda foi efémera. Faleceu ainda não tinha dois anos de serviço. E lá está sepultado. Numa campa simples. Tão simples como foi a sua vida. Mas, na sua humilde condição, sempre generoso, amigo e leal. A saudosa memória do Jorge, todos anos vem comigo para a Beira Baixa.
Uma tarde, em Salgueiro do Campo, alguém me disse na esplanada do café “ Portas da Serra”:
- A vida entre os sessenta e setenta anos é perigosa. Nunca se sabe quando o destino nos reclama a existência…se passarmos essa margem, temos muitas hipóteses de uma vida duradoura…
E aquelas palavras, ficaram-me a bailar assustadoramente nos ouvidos, agora que me apresso a pisar a fasquia dos sessenta….
E quando já só vir Lagos pelo espelho retrovisor do meu carro, não deixarei de mentalmente me despedir da cidade e murmurar “entre dentes”, quase em jeito de oração:
Adeus Lagos. Até para o ano. Ou até sempre.
(este texto é-te dedicado Jorge. Estejas tu onde estiveres.)
Quito


9 Comentários:
Grande Quito
Percebo perfeitamente esta tua intervenção e quero-te dizer que todos nós temos qualquer coisa que nos faz lembrar com saudades o local onde passamos férias tantos anos.
Praia Maria Luisa(balaia)foram 20 anos de recordações não só porque os pais tambem adoraram como algumas situações com os filhos que não esqueço.
O que me me fez mal as 5 mortes ,e ver que por acaso tinha lá estado no fim de julho a passear com a Ana naquele sitio,enfim....Abraços
Carlos
Peço desculpa pelo ínicio do texto que não ficou correcto.
Talvez a foto seja demasiado grande e não consegui resolver.
Talvez os Adms possam compor.
Um abraço para vós Carlos e Ana.Espero que estejam bem na companhia do vosso filho.
Abraço
Quito obrigado
Vamos ver parte do jogo na inter da tvi aqui no hotel até dar a fome.FORÇA PORTUGAL
Este comentário foi removido pelo autor.
Adeus e até ao meu regresso.
Será assim ou não QUITO?
Um Abraço.
Tonito
Dá para perceber neste belo texto que escreves, que para além de ires de férias para uma praia no Algarve, o maior prazer, aquele que te dá maior gozo é essas férias serem passadas em Lagos.
É uma espécie de "dois em um"!
Já deu também para perceber que te afeiçoas de uma maneira muito forte a locais, a pessoas e..vê lá tu que já me apercebi disso há muito(relativamente, claro), quando
um domingo fomos á Mealhada almoçar leitão!
O restaurante onde fomos(seria o Pedro dos Leitões?), notei a forma de tratamente familiar com o pessoal,nos cumprimentos e na facilidade de ràpidamente arranjar mesa!
Sem que te perguntasse logo me esclaresseste: já venho aqui há mais de 50 anos( se não foi 50, foi por aí perto!)
Estou mesmo convencido que na Mealhada nunca foste a outro restaurante!
É realmente uma particularidade muito especial da tua maneira de ser! Crias amizades, afeiçoas-te a lugares, pessoas e coisas carregadas de afectos e saudades que vão perdurando através dos anos!
A ti e á São um bom regresso de férias!
Meu caro Rafael
Obrigado pelas tuas simpáticas palavras.
Na realidade estimo muito a minha familia. Mas também gosto muito dos meus amigos.
Com o GEG, que tiveste a coragem de organizar,reencontrei uns e descobri outros que não conhecia. A ti e à Celeste Maria o devo.
Há dois dias atrás, jantei com a São no restaurante italiano de Lagos com uma nova amiga que conhecemos em casa do Ferrão. A Teresita, filha do nosso amigo Tonito. Veio de Faro de propósito só para jantar connosco.Foi muito gratificante para nós a a atitude dela. É uma boa pessoa. Sai ao pai.
Um abraço para ti e Celeste Maria.
Até breve
Quitoooooo!
Sãoooooooo!
Chamei por vós,hoje,no Sammambaia,e não apareceram!
Convenci-me que vos iria reencontrar,tal como aconteceu com o Tó e a Talinha,todos morenaços.
Lá vai engrossando o grupo.
Vasco(mais três donzelas),Herculana,Mela e Nela;
Ló e Lili;Rui Pato, Tonito,Jú e Morais lopes;Jorge Luís,Isabel(?)e ainda todos os que foram falados...e foram tantos!!
Apareçam.Os cabritos estão a engordar!
Quito que saudades tenho de te ver, espero que te encontre no "Cabrito de Sicó".
Um abraço
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