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sábado, 5 de setembro de 2009

LAGOS ADEUS

Como tive oportunidade de dizer num comentário no “Cavalinho Selvagem”, a cidade de Lagos é, em termos afectivos, a minha segunda cidade. Depois de Coimbra, Lagos tem um encanto especial. Cidade ampla, banhada pelo Atlântico, tem tido nas últimas décadas um acentuado crescimento. Recordo-me da urbe ainda dentro das velhas muralhas, com as suas ruas estreitas e típicas. O Largo do Adro, onde passava as minhas férias de verão em casa de família, há cinquenta anos atrás, faz-me recordar amigos lacobrigenses daquele tempo, que não mais esquecerei: a Célia, a Amália, a Irene, a Eva, o Trajano, o Victor e o Jorge Marreiros Pacheco. De todos, em jeito de saudosa homenagem, gostaria de lembrar este último. Era pescador de profissão e conhecido na cidade por ser um homem destemido. No seu pequeno barco “Estrela de Lagos”, dobrava a barra com ondas alterosas, quando outros, atemorizados, ficavam em terra firme. Era também um nadador exímio, e, na Praia do “Pinhão”, lançava-se da arriba mais alta para o mar, perante o olhar abismado dos veraneantes. Morreu cedo. Não por uma qualquer aventura ou pagando o preço da sua audácia, mas por doença que o roubou ao nosso convívio com pouco mais de trinta anos de idade.
Tudo tem um princípio e um fim. E hoje, enquanto vou arrumando as minhas bagagens porque as férias estão a acabar, sinto um travo amargo na garganta. E por muito estranho que a alguns pareça, o que levo na bagagem não é o Sol, não são as praias, nem é o mar. O que levo na mala do meu carro é esta cidade da qual tenho memoráveis recordações de infância e juventude. Levo também a minha família aqui residente, que pelo ano fora me vão perguntando quando volto. Também no meu coração vão os meus familiares aqui sepultados. E levo os amigos. Irei despedir-me do Zé Manel, que, como sempre faz, me vai pôr a mão no ombro e dizer com um ar desconsolado: …já te vais embora, Quito?...
E os outros amigos que já mencionei. A alguns já perdi o rasto, neste grande carrocel da vida. Outros por aqui estão. Vou passar pelo Largo do Adro e ver a casa que me acolheu por tantos anos. Vou olhar contristado a humilde casa do Jorge Marreiros Pacheco que mantém a traça inicial. Porque o tempo não dilui a saudade. E vou lembrar aquele amigo, uma espécie de “herói” de infância e juventude, que cavalgava as ondas de um Atlântico em fúria, com coragem e bravura. Um dia, trocou a lotaria do mar pela vida de guarda - fiscal. Casado e com dois filhos pequeninos, vivia com muitas dificuldades. Relembro Eça: “… para alguns a fortuna começa no ventre maternal : a porta da vida abre-se – lhes a dois batentes (…) outros têm de arrombar com dor essa mesma porta, saindo para um destino escuro como uma estrada de inverno ...”. Até que uma mão amiga o auxiliou. Tomou conta do seu lugar em Vila do Bispo, mas ajuda foi efémera. Faleceu ainda não tinha dois anos de serviço. E lá está sepultado. Numa campa simples. Tão simples como foi a sua vida. Mas, na sua humilde condição, sempre generoso, amigo e leal. A saudosa memória do Jorge, todos anos vem comigo para a Beira Baixa.
Uma tarde, em Salgueiro do Campo, alguém me disse na esplanada do café “ Portas da Serra”:
- A vida entre os sessenta e setenta anos é perigosa. Nunca se sabe quando o destino nos reclama a existência…se passarmos essa margem, temos muitas hipóteses de uma vida duradoura…
E aquelas palavras, ficaram-me a bailar assustadoramente nos ouvidos, agora que me apresso a pisar a fasquia dos sessenta….
E quando já só vir Lagos pelo espelho retrovisor do meu carro, não deixarei de mentalmente me despedir da cidade e murmurar “entre dentes”, quase em jeito de oração:
Adeus Lagos. Até para o ano. Ou até sempre.

(este texto é-te dedicado Jorge. Estejas tu onde estiveres.)
Quito

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9 Comentários:

Blogger carlos costa freire disse...

Grande Quito
Percebo perfeitamente esta tua intervenção e quero-te dizer que todos nós temos qualquer coisa que nos faz lembrar com saudades o local onde passamos férias tantos anos.
Praia Maria Luisa(balaia)foram 20 anos de recordações não só porque os pais tambem adoraram como algumas situações com os filhos que não esqueço.
O que me me fez mal as 5 mortes ,e ver que por acaso tinha lá estado no fim de julho a passear com a Ana naquele sitio,enfim....Abraços
Carlos

6:21 da tarde  
Blogger quito disse...

Peço desculpa pelo ínicio do texto que não ficou correcto.
Talvez a foto seja demasiado grande e não consegui resolver.
Talvez os Adms possam compor.
Um abraço para vós Carlos e Ana.Espero que estejam bem na companhia do vosso filho.
Abraço

6:29 da tarde  
Blogger carlos costa freire disse...

Quito obrigado
Vamos ver parte do jogo na inter da tvi aqui no hotel até dar a fome.FORÇA PORTUGAL

6:47 da tarde  
Blogger carlos costa freire disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

6:48 da tarde  
Blogger cota13 disse...

Adeus e até ao meu regresso.
Será assim ou não QUITO?
Um Abraço.
Tonito

11:18 da tarde  
Blogger Fernando Rafael disse...

Dá para perceber neste belo texto que escreves, que para além de ires de férias para uma praia no Algarve, o maior prazer, aquele que te dá maior gozo é essas férias serem passadas em Lagos.
É uma espécie de "dois em um"!
Já deu também para perceber que te afeiçoas de uma maneira muito forte a locais, a pessoas e..vê lá tu que já me apercebi disso há muito(relativamente, claro), quando
um domingo fomos á Mealhada almoçar leitão!
O restaurante onde fomos(seria o Pedro dos Leitões?), notei a forma de tratamente familiar com o pessoal,nos cumprimentos e na facilidade de ràpidamente arranjar mesa!
Sem que te perguntasse logo me esclaresseste: já venho aqui há mais de 50 anos( se não foi 50, foi por aí perto!)
Estou mesmo convencido que na Mealhada nunca foste a outro restaurante!
É realmente uma particularidade muito especial da tua maneira de ser! Crias amizades, afeiçoas-te a lugares, pessoas e coisas carregadas de afectos e saudades que vão perdurando através dos anos!
A ti e á São um bom regresso de férias!

2:01 da manhã  
Blogger quito disse...

Meu caro Rafael
Obrigado pelas tuas simpáticas palavras.
Na realidade estimo muito a minha familia. Mas também gosto muito dos meus amigos.
Com o GEG, que tiveste a coragem de organizar,reencontrei uns e descobri outros que não conhecia. A ti e à Celeste Maria o devo.
Há dois dias atrás, jantei com a São no restaurante italiano de Lagos com uma nova amiga que conhecemos em casa do Ferrão. A Teresita, filha do nosso amigo Tonito. Veio de Faro de propósito só para jantar connosco.Foi muito gratificante para nós a a atitude dela. É uma boa pessoa. Sai ao pai.
Um abraço para ti e Celeste Maria.
Até breve

9:27 da manhã  
Blogger celeste maria disse...

Quitoooooo!
Sãoooooooo!

Chamei por vós,hoje,no Sammambaia,e não apareceram!

Convenci-me que vos iria reencontrar,tal como aconteceu com o Tó e a Talinha,todos morenaços.

Lá vai engrossando o grupo.
Vasco(mais três donzelas),Herculana,Mela e Nela;
Ló e Lili;Rui Pato, Tonito,Jú e Morais lopes;Jorge Luís,Isabel(?)e ainda todos os que foram falados...e foram tantos!!

Apareçam.Os cabritos estão a engordar!

6:54 da tarde  
Blogger azenha disse...

Quito que saudades tenho de te ver, espero que te encontre no "Cabrito de Sicó".
Um abraço

12:37 da manhã  

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