OUTRA VEZ LAGOS

Há dias, um amigo que muito prezo - o Fernando Rafael - dizia num comentário, que uma das minhas particularidades, é a minha dedicação a locais e a pessoas. Falava-se então da cidade de Lagos e do meu amigo - já falecido - Jorge Marreiros Pacheco. O Fernando Rafael tem razão. De facto não apago o passado como quem passa uma borracha numa folha de papel. Do Jorge Pacheco sinto que ainda não disse tudo. Por isso volto a desfolhar o meu livro de memórias. Viro mais uma página e relembro:
- O Jorge vivia no Largo do Adro, em Lagos. Residia numa casa humilde com um pequeno pátio de cimento em frente à porta da cozinha. O seu agregado familiar era constituído pela mãe, o pai e um irmão com perturbação mental. Tinham na pesca o seu único sustento. Um dia, a mãe adoeceu, gravemente, e despediu-se da vida. Ficaram os três homens em casa. Mas como parece que desgraça atrai desgraça, numa tarde de Verão o pai António, conhecido na cidade por António “maluco”, teve uma trombose. Ficou limitado para a toda a vida e nunca mais voltou ao mar. Lembro-me dele, e retenho na minha mente aquele homem de camisa preta e boné na cabeça, sentado no átrio da sua humilde casa com um cigarro barato a pender-lhe dos lábios. Cabisbaixo e ausente, remendava as redes que o Jorge havia de levar para a pesca como quem remendava o destino.
E assim ficou o Jorge Pacheco. Sozinho, a angariar o sustento de três pessoas. No Inverno enfrentava o mar revolto, perante a ansiedade dos que ficavam no cais. Por vezes, as autoridades marítimas barravam-lhe o caminho. Mas não era um aventureirismo irresponsável que o empurrava para a boca do lobo. Era a necessidade premente de ganhar o pão de cada dia. Amargo pão.
O resto da história, já sabem. Tal como a mãe, despediu-se precocemente do mundo terreno. Do pai e do irmão perdi o rasto. O António, certamente, já não ocupa o lugar dos vivos.
Do Jorge Pacheco fica a saudade. De um homem humilde, honesto, valente e dedicado ao seu agregado familiar. Não virou a cara ao infortúnio que se abateu sobre a sua casa. Bateu-se pela sobrevivência da família enfrentando com bravura o Atlântico. Nunca perdeu uma batalha no mar. Mas cedo perdeu a da vida.
Quito
9 Comentários:
Bravo! Quito!!!!
Bravos homens...
Vidas guiadas
Pela fúria das àguas
Vida de tristeza
Marcada pela incerteza...
J.Leitao
Boa Leitão !
Em cinco linhas, resumiste,e bem, a vida dos homens do mar.
O Jorge Pacheco, na sua simplicidade, nunca sonhou que um dia se lhe faria uma homenagem num blogue de amigos. Mereceu esta recordação. Apenas eu o conhecia. Por isso só eu tinha a obrigação de o fazer.
Nunca se apagará da minha memória. Mesmo que me esquecesse, a sua simples casa do Largo do Adro lá está para o recordar, como monumento a quem amava a familia, o mar e a vida.
Pois é Quito, um banhito de humildade, de vez em quando, faz-nos bem a tôdos.
Continua, amigo!
Mais uma história de uma vida sofrida,que nos servem para, por vezes, nos obrigar a dar valor ao que temos!
Vou fazer-te inveja...
Sabes que tomámos a bica hoje com o teu filho André?!
Simpático(não admira)informou-nos da chuvadas que vão por aí.
Cuidado, não te constipes.
Pois... fizeste-me inveja Celeste...
E não me posso constipar..Domingo em Sines vai ser mais uma almoçarada que Deus me acuda!
É que rapaziada da Companhia de Cavalaria 3 406 comem que nem lobos e bebem como um dormedário.
Está até a estudar-se a hipótese de uma conduta vinda directamente da refinaria para o restaurante só com vinho...
É dromedário e não aquela "coisa" que eu escrevi. Ainda não cheguei a Sines e já estou a sofrer com os vapores do tinto alentejano...
Personagens simples e comoventes.
Pena não merecerem história, nos nossos jornais diários.
Estes, sim... são os herois do mundo.
Agarram com valentia a vida... mesmo nas horas de infortúnio.
Estes sim, agarram a Vida, como diz a Nela, porque, os demais, tocam em papeis e...ja estão cansados
julia faustino
Um abraço Quito!
Consegues transmitir-nos através destas palavras carregadas de emoção o quanto significa para ti a vivência com pessoas simples, sofredoras, que em alguns casos com passagens tão curtas pela vida, mas o suficiente para sentirem na pele, quanto a vida é tão madrasta, tão ingrata...ao ponto de nós próprios e a ti principalmente que os tens constantemente a aflorarem no recôndito da tua memória, a interrogarmo-nos porque é que vida(?)de alguém, o seu percurso terreno, curto ou mais longo, tem de ser tão sofrido!
Tu és mesmo assim!
E jamais a simples casa do Largo do Adro que vai continuar todos os anos a fazer com que revivas estes teus amigos se apagará da tua memória,porque o monumento que nela ergueste a estes teus heróis foi construido com o sentimento do amor e da partilha da agrúria de vidas sofridas!
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