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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Após 6 meses seguidos no mato

Norte de Moçambique - 1969
Após 6 meses seguidos no mato a construir picadas, pontes e pistas para aviões, eis que chega o esperado mês de férias.
5 dias de coluna no “pica chouriço” (a pé com varas a picar o terreno por causa das minas) para fazer uns 150 km, dormindo debaixo dos camiões…pelo sim, pelo não, e depois de uma noite no quartel, segue-se mais uma viagem de umas 7 horas de camião, em coluna, até à cidade mais próxima, então chamada de Nova Freixo, distante mais 250 km.
Dormida no aquartelamento e no dia seguinte avião a hélice até Lourenço Marques. Noite no aeroporto e partida no dia seguinte no Boeing 707 para Lisboa. Pais à espera no aeroporto e partida para Coimbra.
Paragem a meio da viagem para comer qualquer coisa. Vem a comida e bebidas e eu pergunto: a água é boa para beber? Hábito de quem escolhia os melhores locais dos rios por onde se passava para encher os depósitos de água adicionando os respectivos comprimidos. O empregado responde-me incrédulo pela pergunta: claro que sim.
Toca a beber pela garrafa e a mãe: Oh Vítor, deita a água no copo. Distracção de quem há muito não usava copo. Pratos lavadinhos como devem ser, garfo e faca, um luxo. Tomo mais atenção e não dou mais barraca.
Após um mês de férias, o regresso.
Chegada à sede da companhia e, dia seguinte, mato outra vez… que estás fresquinho, diz o capitão.
6 horas da noite o jantar, talvez feijão com toucinho. Os mosquitos, alguns com centímetros de comprimento, caem continuamente na comida. O pessoal empurra-os para a beira do prato e continua a comer. Eu, tendo perdido o hábito, perco também o apetite.
Um mês depois.
5h30 da manhã. Levanto-me, saio do abrigo e começo a cismar: hoje é que vai ser. Bacalhau assado.
Efeito Pavlov, começo a salivar.
Tinha trazido comigo, no regresso de férias, uns 10 kg de bacalhau.
Chamo o soldado cozinheiro e digo-lhe: hoje vais assar o bacalhau que eu trouxe e fazes as batatas assadas com a pele.
A notícia espalha-se. Tiros são disparados para o ar em sinal de contentamento.
Durante toda a manhã não se falou noutra coisa, o almoço é bacalhau, do bom, não daquele bacalhau liofilizado que comíamos de vez em quando.
12h00, regresso do local da construção da ponte, distante uns 500 metros da zona de protecção e dos abrigos.
Cozinheiro, o bacalhau?
Meu alferes é só mais 5 minutos.
Acabamos de nos sentar e…pum, pum, pum.
Começa um ataque em grande escala: granadas de morteiro chovem por todo o lado, tiros de metralhadoras pesadas e de automáticas também. Felizmente o nosso perímetro de segurança é um quadrado com uns 100 metros de lado, protegido com barreiras de terra. Tiros directos não entravam e as granadas iam passando por cima.
O ataque durava há mais de uma hora. Cheiro a pólvora por todo o lado. Estamos a ficar sem munições.
Peço, via rádio, a ajuda da força aérea. Os caças chegam uma hora depois, mesmo quando o ataque terminava, e os atacantes fugiam.
Damos indicação aos caças, via rádio, para onde se tinham dirigido os atacantes. Ouvem-se disparos de roquetes. Tudo tinha passado e felizmente ninguém ficou ferido. Descansamos e regressa a calma.
Ouve-se então um grito de angústia…O BACALHAU?
Corremos para a grelha e… um monte de qualquer coisa preta.
Chora-se.
Vitor Costa

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6 Comentários:

Anonymous Anónimo disse...

Olá!
Aqui fica mais um "episódio da guerra colonial"

Já enviei para alguns amigos/as do Cavalo Selvagem, e para não dar "seca" agradeço aos srs Adms que não a publiquem.

O título é sugestivo:
ALMOÇAR COM O INIMIGO - SERRA DO MAPÉ

"Há dias que nem o diabo quer colaborar connosco! Tal como hoje, em Macomia, o vague-mestre está em dia azarado. Não chegavam as dificuldades para reabastecer de "rações" os componentes dos grupos de combate que percorrem a serra do Mapé até ao Chai e aparece um Coronel-tirocinado do Exército em visita às instalações de Macomia. Essa presença veio causar alguma confusão entre o pessoal; pois, o dito já não é Coronel! O major H, preocupado com o facto do senhor Brigadeiro ainda usar as insígnias de Coronel, avisou os seus subordinados de que foi publicado na Ordem do Exército a promoção a Brigadeiro. Mesmo sem estrelas, todos o devem tratar de Brigadeiro, sob pena de sofrerem uma severa punição.

O aviso veio mesmo na hora em que o operador de transmissões recebia uma comunicação a dizer que a 2ª companhia estava a ser atacada com granadas de RPG e que havia feridos para evacuar a meio da serra do Mapé. Imediatamente, ausentando-se abruptamente do "breefing", o sargento vague-mestre meteu-se no Jeep e correu para o alto, onde fica a pista, para avisar o piloto do helicóptero da ocorrência e urgência de socorro a oeste de Macomia.

Mal sabia, o vague-mestre, que ao regressar ao aquartelamento ia ser confrontado com a ameaça dum processo disciplinar por não ter acatado o aviso-ordem do Major, situação mais agravada por dizer que tratará os graduados segundo as respectivas insígnias.

Em dois voos, foram socorridos cinco combatentes com ferimentos provocados por estilhaços de granadas que, ao rebentarem em cima de árvores, espalharam uma chuva de pedaços de metal fumegante.

As operações ao longo da serra decorriam há sete dias, numa floresta bastante perigosa, sendo a alimentação composta por conservas. Numa tentativa de animar o pessoal, o vague-mestre organizou um grupo de combate com elementos do aquartelamento, um cozinheiro e dois ajudantes para levarem uma refeição quente a um local combinado a Norte da serra do Mapé - a floresta não dava grande segurança para o lançamento de rações por via aérea.
Preparado o almoço, composto de batatas cozidas com bacalhau, três Unimogs saíram de Macomia na direcção do Chai, virando à esquerda para se encontrarem com os grupos de combate num cruzamento da "picada" que dá para Meluco. Os detalhes da aproximação foram combinados através do rádio, seguindo as panelas e outros apetrechos para serventia da rapaziada.

Os Unimogs seguem em marcha lenta, enquanto o sargento tenta o contacto com o rádio PRC-10, procurando o ponto de referência, mas a densa floresta limita a propagação das ondas e nada se ouve. Tratando-se de um grupo reduzido de combatentes, o perigo de recontro com o inimigo inquieta o pessoal que não tira os olhos da mata. Convictos de que estariam muito próximo do ponto determinado, os militares saltam das viaturas e tomam posições no terreno de brenhas densas, enquanto o sargento tenta a comunicação rádio. Mas o cabo F. logo fez tremer os companheiros, atirando fogo sobre dois guerrilheiros que espreitavam a posição das viaturas. Mesmo em fuga, dispararam as Kalach cujas balas zumbiram por cima das nossas cabeças, cortando as folhas. O tiroteio atiçou fogo e não havia condições para tentar qualquer envolvimento ao inimigo. Ninguém sabia a quantidade de guerrilheiros que estariam por ali, e os arbustos não permitem aventuras. Dois ou três minutos de silêncio pareceram uma eternidade! O condutor do Unimog da retaguarda tentou inverter a marcha, mas uma rajada vinda do flanco esquerdo causou um arrepio que silenciou as nossas armas por alguns segundos. Com a brusca manobra, as panelas bateram contra os taipais e já se previa que o almoço estava em risco.

O comandante da coluna deu ordens para ninguém arredar pé, porque os grupos de combate deveriam estar perto. Mas os turras não desistem e continuam a flagelar as folhas das árvores que nos caem em cima. Juntamente com mais três combatentes, o sargento posicionou-se em condições de lançar granadas de mão, caso se aproximasse algum guerrilheiro. Um lampejo de sorte surgiu na forma de comunicação rádio: os companheiros famintos aproximavam-se cautelosamente. Tomadas as necessárias precauções, obrigaram o inimigo a fugir, perseguido por duas secções de combate.

- Esqueceram-se de convidar o inimigo para o almoço, mas ele fez-se presente. – exclamou o comandante do 2º pelotão.

Estabelecida a ordem e a segurança, os combatentes deslocaram-se para uma clareira no terreno, onde foi servido o tão desejado almoço. Também foram distribuídas rações para mais três dias, tempo previsto para acabar a batida da serra do Mapé até ao rio Messalo. Como garantia de maior segurança, o 3º pelotão acompanhou os três Unimogs até à "picada" Macomia-Chai, seguindo, cada um, o respectivo desatino.

in "espaço etéreo"


JOSE LEITAO

9:43 a.m.  
Anonymous Anónimo disse...

boa caros amigos

e tinham-nas guardadas só para vocês :)))

CHICO

ps: Leitão e se postares a ultima que me mandaste? ... apesar de todas as " tristezas" ... SENTIR AFRICA

CHICO

11:47 a.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Vitor

Hoje,à distância dos anos,ainda se vê reflectida a frustração sentida nesse bacalhau queimado!

Cada um de vós conta as vivências dessa guerra infernal e os amigos aqui estão a escutá-las.

5:49 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Zé Leitão,qual seca?

Quem não gostar, que não leia.

Não estiveram lá...!

6:00 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

A vossa "viagem" pela guerra,feita de uma maneira muito real, leva-nos quase a "viver" os horrores
por que passaram e também os "bocados menos maus"... que
devem ter tido um sabor muito especial,naquele contexto assustador.

Olinda




















Olinda

10:07 p.m.  
Blogger Manuela Curado disse...

Eu bem digo que as nossa guerras são bem diferentes...
A tua, foi terrivel e por ela, lá se foi o bacalhau...
A minha é caseira e por causa do BLOG, lá tenho esturricado umas "coisinhas", incluindo a panela...

9:34 p.m.  

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