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quarta-feira, 18 de março de 2009

O TESOURO

O Brito morava na última Praça do Bairro, perto do Leite Braga. Frequentava, como todos nós, a Escola do bairro.
Rapaz alto, cabelo alourado às ondas, usava muitas vezes um casaco creme tipo africanista, com cinto e cheio de bolsos, impecavelmente engomado, o que o distinguia de todos nós que nos vestíamos com humildes camisolitas de malha e invariáveis bonés na cabeça.
Quase sempre trazia consigo uma grande quantidade de moedas de 2$50 e de 5$00 que nos faziam luzir os olhos de inveja. De facto, não era habitual a criançada do bairro possuir tanto dinheiro. Nem em dias de festa!
Ou porque suspeitava da sua eventual origem ilícita ou porque não queria que os outros miúdos se sentissem inferiorizados, o Professor um dia proibiu o Brito de vir para a Escola com tanto dinheiro.
Certa vez, no recreio, eu e o Zé Bento decidimos jogar ao berlinde. O Zé Bento afundou um dos buracos já abertos de dias anteriores no pátio de terra da escola, para que iniciássemos o nosso jogo.
De repente, à medida que escavava mais fundo, o Zé Bento ia encontrando, primeiro uma, depois outra e mais outra, reluzentes moedas prateadas. Ajudei-o na tarefa e, ofegantes de emoção, sôfregos, íamos encontrando cada vez mais moedas até que reunimos aquilo que para nós era uma pequena fortuna.
A algazarra da miudagem que se apercebeu do achado, atraiu o Brito que, afastando o círculo que se tinha formado à nossa volta, sentenciou:
- Esse dinheiro é meu! Escondi-o aí porque o Sr. Professor não quer que eu ande com ele nos bolsos!
Ninguém estava à espera do ar decidido e definitivo com que o Zé Bento, rapaz pacato e calmo, lhe respondeu sem lhe deixar margem para réplicas:
- Este dinheiro é um tesouro do tempo dos romanos. Quem acha é o dono. Vou dividi-lo com o Felício! Se quiseres vai fazer queixa ao Sr. Professor!
Durante uns dias, ele, eu e muitos dos nossos amigos da escola tirámos a barriga de misérias de rebuçados, gelados, pevides, amendoins, bolos...
Rui Felício
17-03-2009

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18 Comentários:

Blogger Alfredo Moreirinhas disse...

Ó Rui,
vocês foram mauzinhos, mas se calhar, até nem fazia diferença ao Brito!?
Agora o que o Brito não sabia é que no tempo dos Romanos, já havia moedas de 25 tostões e 5 escudos.
Mereceu a tanga!!!

8:11 a.m.  
Blogger Manuela Curado disse...

Ai o que eu vou gozar com esta história...
A Apetência já vinha de longe...só que o futuro tesouro... foi ESFORÇADO E MERECIDO.

8:35 a.m.  
Blogger Quito disse...

RUI
Isto atá me pareceu vagamente o livro "A Ilha do Tesouro"...
Mas mereceste pelo esforço...
QUITO

10:19 a.m.  
Blogger Rui Felicio disse...

Quito,

Garanto-te que não se trata de nenhuma paráfrase...
Passou-se mesmo!
O Zé Bento está aí para confirmar.
O Brito, infelizmente não sei nada dela...

10:38 a.m.  
Anonymous Anónimo disse...

O que deu um afundanço...

10:45 a.m.  
Blogger Rui Pato disse...

Não estou a ver o tal Brito... mas estou a ver mais uma das deliciosas histórias que só o Felício sabe contar com tanto afecto e tanta subtileza.

11:11 a.m.  
Blogger Rui Felicio disse...

Parece que pouca gente se recorda do Brito.
Dizia-se que o pai dele ( ou o tio, já não sei bem... ) era uma pessoa que tinha sido bastante rica mas que tinha caido em desgraça por causa do jogo.

Teriam vindo viver para o bairro já numa altura em que tinham perdido os seus bens.

Sei que passados muito poucos anos o Brito voltou a sair do Bairro sem que se tenha percebido para onde foi...
Até hoje.

Não garanto a veracidade destes boatos sobre o jogo. Era o que se dizia....

11:54 a.m.  
Blogger Tó Ferrão disse...

Assim vamos conhecendo o vasto CV do nosso Rui Felício.

Mas como lhe conheço o seu enorme coração e a sua incomensurável generosidade, tenho a certeza que se encontrar o Brito lhe devolve as moedas romanas e com Juros.

saudações académicas

Tó Ferrão

11:54 a.m.  
Blogger Unknown disse...

O Brito vivia na zona da Praça de Cabo Verde. Era ele, o Caldas,o TO Alvaro, o Botas, os Pestanas,e o Jorge Artur.
Isso era a malta daquela Praça.
Tambem nunca mais soube nada dele.

12:17 p.m.  
Blogger Rui Felicio disse...

Meu Caro Tó Ferrão,

Tudo tem o seu tempo! E se divida houve já está há muito prescrita.

Coração bom, mas nem tanto!

De resto, a decisão de confisco das moedas "romanas" foi do Zé Bento.

12:20 p.m.  
Blogger olinda Rafael disse...

"Tirar" aos Ricos e dar aos Pobres!

Os ricos que paguem a crise!

Esta era uma das palavras de ordem
de alguns militares e de alguns de nós...Bons tempos!

Mas Felício,naquela altura,já ereis(?) vanguardistas...pois conheço o Carlos Brito e vivia já acima da média.Mas era boa gente.

olinda

1:36 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Ontem o carrito, hoje as moeditas... e, assim, vais preenchendo as nossas horas de ócio e de "vício" de uma maneira bem divertida.
Um abraço da Isabel Parreiral

2:16 p.m.  
Blogger Quito disse...

Rui
Eu lembro-me bem do Brito, e do Botas, e dos Pestanas, e do Tótó "Barançó", do Carlos Almeida, do Caldas, dos Dionisios,da Carolina e muitos outros daquela Praça...bons tempos...e da Dona Rosmaninho que foi minha catequista, mas pelos vistos não me catequisou grande coisa!!!
QUITO

3:44 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Quito
Ainda hoje a nela curado comentava comigo a tua ausência...em boa hora apareceste...
A D Rosmaninho não te catequisou...ficaste só Quito

Continua

5:04 p.m.  
Blogger Gina Faustino disse...

Julgo que o BRITO que é referido é tio de duas amigas minhas(a FÁTIMA e a LÍDIA).Nada sei dele há bastante tempo mas vou tentar saber.GINA

6:19 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Gina

Não é tio é primo.
Os três são sobrinhos da Bela e o
Monstro como eram conhecidos ,ela pela sua beleza e ele pela sua obesidade,mas muito simpáticos.

A D.Julieta, de vez em quando,ainda a vejo.O marido,suponho dr.Gersão era professor no liceu masculino??

Cheguei a frequentar a casa.

olinda

7:00 p.m.  
Blogger Rui Felicio disse...

A Bela e o Monstro. Era assim mesmo que lhes chamavam Olinda.
Já não me lembrava, mas agora bastou que falasses nisso para me recordar...

7:09 p.m.  
Blogger ... disse...

A Fatima e a Lidia não eram alentejanas de Montemor-o-Novo?
Ate fiquei sempre com a ideia que eram primas do Ze Afonso Gastão.
Não sei porquê mas ainda rondei a porta da Lidia por algum tempo.
Mas isso foi noutros tempos e passou depressa.
Alvaro Apache

9:58 a.m.  

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