O TESOURO
O Brito morava na última Praça do Bairro, perto do Leite Braga. Frequentava, como todos nós, a Escola do bairro.
Rapaz alto, cabelo alourado às ondas, usava muitas vezes um casaco creme tipo africanista, com cinto e cheio de bolsos, impecavelmente engomado, o que o distinguia de todos nós que nos vestíamos com humildes camisolitas de malha e invariáveis bonés na cabeça.
Quase sempre trazia consigo uma grande quantidade de moedas de 2$50 e de 5$00 que nos faziam luzir os olhos de inveja. De facto, não era habitual a criançada do bairro possuir tanto dinheiro. Nem em dias de festa!
Ou porque suspeitava da sua eventual origem ilícita ou porque não queria que os outros miúdos se sentissem inferiorizados, o Professor um dia proibiu o Brito de vir para a Escola com tanto dinheiro.
Certa vez, no recreio, eu e o Zé Bento decidimos jogar ao berlinde. O Zé Bento afundou um dos buracos já abertos de dias anteriores no pátio de terra da escola, para que iniciássemos o nosso jogo.
De repente, à medida que escavava mais fundo, o Zé Bento ia encontrando, primeiro uma, depois outra e mais outra, reluzentes moedas prateadas. Ajudei-o na tarefa e, ofegantes de emoção, sôfregos, íamos encontrando cada vez mais moedas até que reunimos aquilo que para nós era uma pequena fortuna.
A algazarra da miudagem que se apercebeu do achado, atraiu o Brito que, afastando o círculo que se tinha formado à nossa volta, sentenciou:
- Esse dinheiro é meu! Escondi-o aí porque o Sr. Professor não quer que eu ande com ele nos bolsos!
Ninguém estava à espera do ar decidido e definitivo com que o Zé Bento, rapaz pacato e calmo, lhe respondeu sem lhe deixar margem para réplicas:
- Este dinheiro é um tesouro do tempo dos romanos. Quem acha é o dono. Vou dividi-lo com o Felício! Se quiseres vai fazer queixa ao Sr. Professor!
Durante uns dias, ele, eu e muitos dos nossos amigos da escola tirámos a barriga de misérias de rebuçados, gelados, pevides, amendoins, bolos...
Rui Felício
17-03-2009
Rapaz alto, cabelo alourado às ondas, usava muitas vezes um casaco creme tipo africanista, com cinto e cheio de bolsos, impecavelmente engomado, o que o distinguia de todos nós que nos vestíamos com humildes camisolitas de malha e invariáveis bonés na cabeça.
Quase sempre trazia consigo uma grande quantidade de moedas de 2$50 e de 5$00 que nos faziam luzir os olhos de inveja. De facto, não era habitual a criançada do bairro possuir tanto dinheiro. Nem em dias de festa!
Ou porque suspeitava da sua eventual origem ilícita ou porque não queria que os outros miúdos se sentissem inferiorizados, o Professor um dia proibiu o Brito de vir para a Escola com tanto dinheiro.
Certa vez, no recreio, eu e o Zé Bento decidimos jogar ao berlinde. O Zé Bento afundou um dos buracos já abertos de dias anteriores no pátio de terra da escola, para que iniciássemos o nosso jogo.
De repente, à medida que escavava mais fundo, o Zé Bento ia encontrando, primeiro uma, depois outra e mais outra, reluzentes moedas prateadas. Ajudei-o na tarefa e, ofegantes de emoção, sôfregos, íamos encontrando cada vez mais moedas até que reunimos aquilo que para nós era uma pequena fortuna.
A algazarra da miudagem que se apercebeu do achado, atraiu o Brito que, afastando o círculo que se tinha formado à nossa volta, sentenciou:
- Esse dinheiro é meu! Escondi-o aí porque o Sr. Professor não quer que eu ande com ele nos bolsos!
Ninguém estava à espera do ar decidido e definitivo com que o Zé Bento, rapaz pacato e calmo, lhe respondeu sem lhe deixar margem para réplicas:
- Este dinheiro é um tesouro do tempo dos romanos. Quem acha é o dono. Vou dividi-lo com o Felício! Se quiseres vai fazer queixa ao Sr. Professor!
Durante uns dias, ele, eu e muitos dos nossos amigos da escola tirámos a barriga de misérias de rebuçados, gelados, pevides, amendoins, bolos...
Rui Felício
17-03-2009
Etiquetas: Rui Felicio


18 Comentários:
Ó Rui,
vocês foram mauzinhos, mas se calhar, até nem fazia diferença ao Brito!?
Agora o que o Brito não sabia é que no tempo dos Romanos, já havia moedas de 25 tostões e 5 escudos.
Mereceu a tanga!!!
Ai o que eu vou gozar com esta história...
A Apetência já vinha de longe...só que o futuro tesouro... foi ESFORÇADO E MERECIDO.
RUI
Isto atá me pareceu vagamente o livro "A Ilha do Tesouro"...
Mas mereceste pelo esforço...
QUITO
Quito,
Garanto-te que não se trata de nenhuma paráfrase...
Passou-se mesmo!
O Zé Bento está aí para confirmar.
O Brito, infelizmente não sei nada dela...
O que deu um afundanço...
Não estou a ver o tal Brito... mas estou a ver mais uma das deliciosas histórias que só o Felício sabe contar com tanto afecto e tanta subtileza.
Parece que pouca gente se recorda do Brito.
Dizia-se que o pai dele ( ou o tio, já não sei bem... ) era uma pessoa que tinha sido bastante rica mas que tinha caido em desgraça por causa do jogo.
Teriam vindo viver para o bairro já numa altura em que tinham perdido os seus bens.
Sei que passados muito poucos anos o Brito voltou a sair do Bairro sem que se tenha percebido para onde foi...
Até hoje.
Não garanto a veracidade destes boatos sobre o jogo. Era o que se dizia....
Assim vamos conhecendo o vasto CV do nosso Rui Felício.
Mas como lhe conheço o seu enorme coração e a sua incomensurável generosidade, tenho a certeza que se encontrar o Brito lhe devolve as moedas romanas e com Juros.
saudações académicas
Tó Ferrão
O Brito vivia na zona da Praça de Cabo Verde. Era ele, o Caldas,o TO Alvaro, o Botas, os Pestanas,e o Jorge Artur.
Isso era a malta daquela Praça.
Tambem nunca mais soube nada dele.
Meu Caro Tó Ferrão,
Tudo tem o seu tempo! E se divida houve já está há muito prescrita.
Coração bom, mas nem tanto!
De resto, a decisão de confisco das moedas "romanas" foi do Zé Bento.
"Tirar" aos Ricos e dar aos Pobres!
Os ricos que paguem a crise!
Esta era uma das palavras de ordem
de alguns militares e de alguns de nós...Bons tempos!
Mas Felício,naquela altura,já ereis(?) vanguardistas...pois conheço o Carlos Brito e vivia já acima da média.Mas era boa gente.
olinda
Ontem o carrito, hoje as moeditas... e, assim, vais preenchendo as nossas horas de ócio e de "vício" de uma maneira bem divertida.
Um abraço da Isabel Parreiral
Rui
Eu lembro-me bem do Brito, e do Botas, e dos Pestanas, e do Tótó "Barançó", do Carlos Almeida, do Caldas, dos Dionisios,da Carolina e muitos outros daquela Praça...bons tempos...e da Dona Rosmaninho que foi minha catequista, mas pelos vistos não me catequisou grande coisa!!!
QUITO
Quito
Ainda hoje a nela curado comentava comigo a tua ausência...em boa hora apareceste...
A D Rosmaninho não te catequisou...ficaste só Quito
Continua
Julgo que o BRITO que é referido é tio de duas amigas minhas(a FÁTIMA e a LÍDIA).Nada sei dele há bastante tempo mas vou tentar saber.GINA
Gina
Não é tio é primo.
Os três são sobrinhos da Bela e o
Monstro como eram conhecidos ,ela pela sua beleza e ele pela sua obesidade,mas muito simpáticos.
A D.Julieta, de vez em quando,ainda a vejo.O marido,suponho dr.Gersão era professor no liceu masculino??
Cheguei a frequentar a casa.
olinda
A Bela e o Monstro. Era assim mesmo que lhes chamavam Olinda.
Já não me lembrava, mas agora bastou que falasses nisso para me recordar...
A Fatima e a Lidia não eram alentejanas de Montemor-o-Novo?
Ate fiquei sempre com a ideia que eram primas do Ze Afonso Gastão.
Não sei porquê mas ainda rondei a porta da Lidia por algum tempo.
Mas isso foi noutros tempos e passou depressa.
Alvaro Apache
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