sábado, 3 de agosto de 2013
quarta-feira, 19 de junho de 2013
quinta-feira, 23 de maio de 2013
CONFERÊNCIA
"VIAGEM AO OUTONO DA VIDA"
H. Vilaça Ramos (Prof. jubilado da FMUC)
24 de Maio de 2013 | Auditório do Exploratório CCV | 18h0O
O envelhecimento é, pela dimensão cada vez maior da população idosa, um tema de inegável interesse actual. Entre outros aspectos que ele poderia suscitar, serão abordadas as seguintes questões:O que é a velhice? Quando é que se é velho? Como é que se envelhece? O Homem é potencialmente imortal? A longevidade vai aumentar indefinidamente?Os que levam vida regrada devem ser solidários com os que tiveram estilos de vida deletérios? É má a qualidade de vida dos idosos?O valor da sua vida depende da qualidade de vida? Que direitos e deveres dos velhos?Venha, a sua presença e colaboração é muito importante para nós!Lojas de Saber
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sábado, 11 de maio de 2013
NA "JANTINHA"?- ESSA FOI CRUEL !
ACABEI DE PERCEBER PORQUE É QUE O BENFICA SE ESPALHOU COM O ESTORIL:
É QUE O JESUS NÃO JOGOU COM OS APÓSTOLOS, ou serão apóstrofos?
Detesto rir de aluno. E acho que, às vezes, até quando erram são criativos.
Vejam a pérola ...
À pergunta “Qual a função do apóstrofo?” - “Pra quem não se lembra, apóstrofo é aquele "risquinho" que serve pra suprimir vogais entre duas palavras. Ex: caixa d'água”.
E a resposta (imperdível) e vencedora, com direito a troféu e outros que tais:
Detesto rir de aluno. E acho que, às vezes, até quando erram são criativos.
Vejam a pérola ...
À pergunta “Qual a função do apóstrofo?” - “Pra quem não se lembra, apóstrofo é aquele "risquinho" que serve pra suprimir vogais entre duas palavras. Ex: caixa d'água”.
E a resposta (imperdível) e vencedora, com direito a troféu e outros que tais:
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terça-feira, 29 de janeiro de 2013
MATA DO BUSSACO
Os últimos dias têm sido de uma grande agitação, e tudo por causa do mau tempo . Pela mata do Buçaco, no Centro do país, andam dezenas de pessoas atarefadas a tentar resolver os estragos causados. Preocupam-se com milhares de árvores derrubadas, mas com uma em especial. É o centenário cedro do Buçaco que mais os comove, e isto porque se agarra a uma réstia de vida.
Plantado em 1644, ou talvez antes, o cedro do Buçaco já viveu muito. O seu nome científico – Cupressus lusitanica– sugere tratar-se de uma espécie portuguesa. Mas, na verdade, estima-se que a Ordem dos Carmelitas o tenha trazido das regiões montanhosas do México, da Guatemala e da Costa Rica.
Foi o naturalista Philip Miller quem descreveu a espécie, em 1768, a partir de exemplares que viu no Buçaco, quando lá esteve nessa altura. Daí o engano quanto à origem da árvore.
Apesar da sua classificação como um cipreste, a árvore foi popularmente reconhecida como um cedro e lá ficou no coração da mata do Buçaco, ao lado da Ermida de São José e, em honra deste santo, partilhou com ele o nome. Chamam-lhe "cedro de São José".
Ao longo de quase quatro séculos, resistiu a muitas chuvas e ventos e até a um ciclone, em 1941 – data das maiores rajadas de vento de que há registo em Portugal. Viveu situações que apenas os livros podem contar e neste fim-de-semana ficou com a vida em risco.
Restou o tronco
"É apenas um tronco e um pequeno ramo de pé", descreve Milene Matos, investigadora do departamento de Biologia da Universidade de Aveiro. Milene trabalha na Fundação da Mata do Buçaco há dez anos e há dez anos que estava habituada a ver os cerca de 5,5 metros de perímetro do tronco castanho-avermelhado do cedro de S. José rodeados de crianças em visitas escolares.
Foram dez anos – e muitos outros antes – de boas recordações e, por isso, no sábado do temporal, não resistiu quando olhou para a árvore. "Chorei baba e ranho. É quase como perder uma pessoa. É uma perda irrecuperável e um sentimento de impotência perante um acidente fortuito como este", explica a investigadora, que conhece quase de cor os 105 hectares e as mais de 250 espécies de árvores e arbustos da mata.
Helena Mergulhão é voluntária desde que a fundação abriu portas, em 2009, e também ela anda agora na luta para devolver ao Buçaco a tranquilidade que os carmelitas tanto apreciavam no século XVII. "Quando se entrava na mata do Buçaco, era um paraíso para quem gosta da natureza", conta, comovida, numa entrevista por telefone. "Estou a dizer-lhe isto e as lágrimas correm-me pela cara abaixo", acrescenta. Ouvem-se. De repente, param e dão lugar à indignação: "Quando cheguei à mata, entrei em pânico e chorei. Andámos nós anos a lutar sem meios, recebemos centenas de turistas, e não temos apoios. Os meios são os nossos braços e pernas."
Ao longo dos anos, o "cedro de S. José" sempre foi alvo de curiosidade de turistas e visitantes nacionais que, em excursões à Mealhada, na mata do Buçaco, eram apresentados a uma árvore verde de grande importância: a primeira espécie exótica introduzida no Buçaco, o cedro mais antigo de Portugal e, provavelmente, da Europa.
Às crianças, em vez de se falar no bispo de Coimbra D. Manuel, que, em 1628, entregou a mata aos carmelitas, contava-se a história do duende Alcino, um heterónimo inventado para atrair os mais novos. O nome era diferente, mas a bondade e o amor pela natureza eram os mesmos.
Acesso difícil
Agora, depois de milhares de árvores terem sido derrubadas pelo vento, o acesso ao cedro tornou-se difícil. Difícil de mais para as pernas de Henrique Gonçalves, que, passados 82 anos, já tiveram outra força. Entrou pela primeira vez na mata do Buçaco em 1945. "Ajudei a plantar os fetos e árvores e arbustos do jardim", conta. Em 1960, passou a guarda-florestal e viveu cinco anos na mata. "Aquilo marca uma pessoa e deixa saudades". Por isso, volta todas as semanas, geralmente aos domingos, e também ele não conseguiu conter as lágrimas ao saber que a relíquia da mata pode estar perto do fim.
Até esta quinta-feira, a fundação vai continuar fechada ao público e, nos próximos meses, o cedro não poderá ser visitado. "Já foram técnicos especializados ao local para ver o que se pode fazer, como sarar as suas feridas", diz o presidente da Fundação da Mata do Buçaco, António José Franco, acrescentando que talvez em Março se possa ver o ex libris natural do Buçaco.
A incógnita permanece sobre a mata do Buçaco, embora todos estejam confiantes de que um cedro que já viveu mais de 300 anos poderá viver outros tantos. "Ele sempre esteve de saúde, nada disto se previa", diz Milene Matos, referindo-se ao efeito, na árvore, das fortes rajadas de vento que fustigaram a mata neste fim-de-semana. "Eu acredito que ele vai dar a volta por cima e voltar a ser a nossa jóia", considera António José Franco. O quadro clínico poderia ser melhor, mas, enquanto existirem folhas verdes, há esperança.

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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
ALDEIAS DE PORTUGAL
A VIDA DESTE PAÍS
"- Sabes, puseram-se para aí com luxos e manias das grandezas e agora vão comer o pão que o diabo amaçou.
Lembro-me aqui há uns anos que o meu neto chegou a casa porque na escola secundária os outros meninos gozavam com ele porque só usava roupa nacional. Dizia ele que todos os usavam roupa americana e sei lá mais de onde... Hoje o meu neto é um homem, tem casa, está casado com família, tem a vida dele e muitos dos colegas estão na miséria.
Mas sabes uma coisa Zé?
Diz ele que muitos entregaram o apartamento lá da cidade ao banco mas que continuam a andar com roupas daqueles com animaizinhos ao peito! Diz que existem camisolas que custam mais de cinco contos! O meu neto anda com animais a governar a vida e não se queixa, eles andam com animaizinhos ao peito e sabe Deus... bem, vou fazer o almoço, homem que aqui não ganhamos vida!
- E sabes o que é pior Adília? É que esses luxos foram pagos com a nossa miséria e sacrifício.
Foto: Domingos Moura
Texto: Paulo Costa
"- Sabes, puseram-se para aí com luxos e manias das grandezas e agora vão comer o pão que o diabo amaçou.
Lembro-me aqui há uns anos que o meu neto chegou a casa porque na escola secundária os outros meninos gozavam com ele porque só usava roupa nacional. Dizia ele que todos os usavam roupa americana e sei lá mais de onde... Hoje o meu neto é um homem, tem casa, está casado com família, tem a vida dele e muitos dos colegas estão na miséria.
Mas sabes uma coisa Zé?
Diz ele que muitos entregaram o apartamento lá da cidade ao banco mas que continuam a andar com roupas daqueles com animaizinhos ao peito! Diz que existem camisolas que custam mais de cinco contos! O meu neto anda com animais a governar a vida e não se queixa, eles andam com animaizinhos ao peito e sabe Deus... bem, vou fazer o almoço, homem que aqui não ganhamos vida!
- E sabes o que é pior Adília? É que esses luxos foram pagos com a nossa miséria e sacrifício.
Foto: Domingos Moura
Texto: Paulo Costa
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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
GUINESS BOOK
AL AIN PARADISE
De pequena cidade portuária a metrópole cosmopolita a distância foi a de uns poços de petróleo aliados à visão de um entreposto comercial e de lazer global. O Dubai é o grande bazar mundial entre o luxo das Arábias e o limite da imaginação.
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sexta-feira, 24 de agosto de 2012
sábado, 23 de junho de 2012
segunda-feira, 30 de abril de 2012
OBRAS À PORTUGUESA
CEM MILHÕES DE EUROS DEPOIS, NÃO HÁ METRO DO MONDEGO
O Estado decidiu criar, em 1994, um sistema de metro ligeiro de superfície nos concelhos de Coimbra, Miranda do Corvo e Lousã sem qualquer sustentação que mostrasse a viabilidade técnica, económica e financeira do projecto, lê-se no relatório do Tribunal de Contas. O ramal de comboio da Lousã foi encerrado para ser reconvertido no Metro, O primeiro estudo de viabilidade foi aprovado três anos depois e referia que o investimento necessário seria de 122,8 milhões de euros. Em Janeiro de 2011, a previsão aponta para um custo superior a 455 milhões. Já foram investidos quase 104 milhões de euros no Metro do Mondego, 10 deles em estudos e projectos.
O ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, afirmou entretanto que o projecto do Metro do Mondego está suspenso e está a ser avaliada a extinção da sociedade que o gere.
O Estado decidiu criar, em 1994, um sistema de metro ligeiro de superfície nos concelhos de Coimbra, Miranda do Corvo e Lousã sem qualquer sustentação que mostrasse a viabilidade técnica, económica e financeira do projecto, lê-se no relatório do Tribunal de Contas. O ramal de comboio da Lousã foi encerrado para ser reconvertido no Metro, O primeiro estudo de viabilidade foi aprovado três anos depois e referia que o investimento necessário seria de 122,8 milhões de euros. Em Janeiro de 2011, a previsão aponta para um custo superior a 455 milhões. Já foram investidos quase 104 milhões de euros no Metro do Mondego, 10 deles em estudos e projectos.
O ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, afirmou entretanto que o projecto do Metro do Mondego está suspenso e está a ser avaliada a extinção da sociedade que o gere.
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terça-feira, 27 de março de 2012
AS NOITES DE LISBOA
26 | 03 | 2012 20.12H
Luisa Castel-Branco
Vi na televisão uma reportagem comparando várias profissões em Portugal e na Alemanha, quer em termos do que ganhavam e gastam como no modo de vida. Também mostrava o dia-a-dia de estrangeiros a viverem em Portugal há 20 anos. Além da diferença abismal dos ordenados, o mais interessante foi ver que quer na Alemanha, quer os alemães em Portugal tinham como normal e salutar os jovens trabalharem nas férias para ganharem o seu dinheiro e não percebiam porque é que tal não acontecia em Portugal.
Da mesma forma se ouvirmos qualquer entrevista, a primeira coisa que os portugueses dizem é que querem dar tudo aos filhos e não conseguem. É este espírito que norteou a educação das gerações mais recentes. E o resultado está à vista. Numa crise profunda, estes jovens não conseguem sequer equacionar aceitar empregos que não estejam ao nível dos seus cursos. Mas a maior parte destes cursos não só não têm colocação como qualquer qualidade.
Resultado? As hipóteses de encontrarem emprego são muito reduzidas e tendo sido criados com acesso a tudo, mesmo que esse tudo custasse aos pais muitos sacrifícios, não sabem viver sem telemóveis e computadores topo de gama, carro ou mota, tudo aquilo que erradamente lhes foi dado em vez de terem trabalhado nas ditas férias para os adquirirem.
Como vai ser possível mudar esta situação não sei. Mas a verdade é que com crise ou sem ela, os jovens desempregados continuam a encher as noites de Lisboa, a abarrotarem de gente nos passeios que lá dentro já esta tudo cheio. Quem paga estas saídas, pergunto eu?
BAIRRO ALTO
Luisa Castel-Branco
Vi na televisão uma reportagem comparando várias profissões em Portugal e na Alemanha, quer em termos do que ganhavam e gastam como no modo de vida. Também mostrava o dia-a-dia de estrangeiros a viverem em Portugal há 20 anos. Além da diferença abismal dos ordenados, o mais interessante foi ver que quer na Alemanha, quer os alemães em Portugal tinham como normal e salutar os jovens trabalharem nas férias para ganharem o seu dinheiro e não percebiam porque é que tal não acontecia em Portugal.
Da mesma forma se ouvirmos qualquer entrevista, a primeira coisa que os portugueses dizem é que querem dar tudo aos filhos e não conseguem. É este espírito que norteou a educação das gerações mais recentes. E o resultado está à vista. Numa crise profunda, estes jovens não conseguem sequer equacionar aceitar empregos que não estejam ao nível dos seus cursos. Mas a maior parte destes cursos não só não têm colocação como qualquer qualidade.
Resultado? As hipóteses de encontrarem emprego são muito reduzidas e tendo sido criados com acesso a tudo, mesmo que esse tudo custasse aos pais muitos sacrifícios, não sabem viver sem telemóveis e computadores topo de gama, carro ou mota, tudo aquilo que erradamente lhes foi dado em vez de terem trabalhado nas ditas férias para os adquirirem.
Como vai ser possível mudar esta situação não sei. Mas a verdade é que com crise ou sem ela, os jovens desempregados continuam a encher as noites de Lisboa, a abarrotarem de gente nos passeios que lá dentro já esta tudo cheio. Quem paga estas saídas, pergunto eu?
BAIRRO ALTO
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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
ILHAS DIOMEDES
As ilhas onde EUA e Rússia se encontram, e o Leste se torna Oeste
Há um lugar no mundo em que os territórios dos Estados Unidos e da Rússia estão a menos de 4 km de distância, mas qualquer percurso entre eles terá uma diferença de 24 horas...
Estamos falando das desconhecidas e isoladas Ilhas Diomedes, no Estreito de Bering, a inóspita porção marítima que separa o Alasca do extremo leste da Ásia, por onde provavelmente os primeiros habitantes da América atravessaram para estas terras.
As duas Ilhas, conhecidas como Grande Diomedes e Pequena Diomedes são separadas por uma faixa de água de apenas 4 km, que fica congelada durante boa parte do ano, permitindo a passagem a pé entre elas. O curioso é saber que Grande Diomedes é o ponto mais a leste na Rússia, e Pequena Diomedes é o ponto mais a oeste dos Estados Unidos.
Durante o período da Guerra Fria, os nativos que habitavam as ilhas antes da colonização russa ou americana não podiam circular entre as ilhas, nem trocar qualquer tipo de informação, na área que ficou conhecida como "Cortina de Gelo".
Após o final da 2a Guerra, todos os nativos da ilha russa de Grande Diomedes foram transferidos para o continente, e o arquipélago manteve um pequeno povoado apenas na ilha norte americana de Pequena Diomedes, que até hoje possui cerca de 170 habitantes, num dos locais mais isolados do planeta.
O que torna o lugar ainda mais curioso é que exatamente entre as duas ilhas passa a "Linha Internacional de Data", criando um fuso horário de nada menos que 24 horas numa distância que de tão pequena chega a ser visual.
Em 1987, um evento emblemático levou as pequenas ilhas às manchetes do mundo inteiro. A nadadora americana Lynne Cox atravessou os pouco mais de 3.700 metros que separam as ilhas irmãs, num gesto de aproximação entre as super potências que se esforçavam para estreitar os laços a tanto tempo separados.
Hoje, em tempos de paz, há vários projetos para criar monumentos que simbolizariam a paz entre os dois países. Num recente concurso , um projeto chamado de "Ponte da Memória", ligando as duas ilhas, ficou entre os campeões, no que seria a primeira ligação entre América e Ásia depois de dezenas de milhares de anos.
Humberto Eco, em seu romance "A Ilha do dia anterior" explora muito bem as idiossincrasias de viver em Diomede...
"Meia-noite de sexta-feira, aqui no navio, é meia-noite de quinta-feira na ilha. Se da América para a Ásia viajas, perdes um dia; se, no sentido contrário viajas, ganhas um dia: eis o motivo por que o [navio] Daphne percorreu o caminho da Ásia, e vós, estúpidos, o caminho da América. Tu és agora um dia mais velho do que eu! Não é engraçado?"
Há um lugar no mundo em que os territórios dos Estados Unidos e da Rússia estão a menos de 4 km de distância, mas qualquer percurso entre eles terá uma diferença de 24 horas...
Estamos falando das desconhecidas e isoladas Ilhas Diomedes, no Estreito de Bering, a inóspita porção marítima que separa o Alasca do extremo leste da Ásia, por onde provavelmente os primeiros habitantes da América atravessaram para estas terras.
As duas Ilhas, conhecidas como Grande Diomedes e Pequena Diomedes são separadas por uma faixa de água de apenas 4 km, que fica congelada durante boa parte do ano, permitindo a passagem a pé entre elas. O curioso é saber que Grande Diomedes é o ponto mais a leste na Rússia, e Pequena Diomedes é o ponto mais a oeste dos Estados Unidos.
Durante o período da Guerra Fria, os nativos que habitavam as ilhas antes da colonização russa ou americana não podiam circular entre as ilhas, nem trocar qualquer tipo de informação, na área que ficou conhecida como "Cortina de Gelo".
Após o final da 2a Guerra, todos os nativos da ilha russa de Grande Diomedes foram transferidos para o continente, e o arquipélago manteve um pequeno povoado apenas na ilha norte americana de Pequena Diomedes, que até hoje possui cerca de 170 habitantes, num dos locais mais isolados do planeta.
O que torna o lugar ainda mais curioso é que exatamente entre as duas ilhas passa a "Linha Internacional de Data", criando um fuso horário de nada menos que 24 horas numa distância que de tão pequena chega a ser visual.
Em 1987, um evento emblemático levou as pequenas ilhas às manchetes do mundo inteiro. A nadadora americana Lynne Cox atravessou os pouco mais de 3.700 metros que separam as ilhas irmãs, num gesto de aproximação entre as super potências que se esforçavam para estreitar os laços a tanto tempo separados.
Hoje, em tempos de paz, há vários projetos para criar monumentos que simbolizariam a paz entre os dois países. Num recente concurso , um projeto chamado de "Ponte da Memória", ligando as duas ilhas, ficou entre os campeões, no que seria a primeira ligação entre América e Ásia depois de dezenas de milhares de anos.
Humberto Eco, em seu romance "A Ilha do dia anterior" explora muito bem as idiossincrasias de viver em Diomede...
"Meia-noite de sexta-feira, aqui no navio, é meia-noite de quinta-feira na ilha. Se da América para a Ásia viajas, perdes um dia; se, no sentido contrário viajas, ganhas um dia: eis o motivo por que o [navio] Daphne percorreu o caminho da Ásia, e vós, estúpidos, o caminho da América. Tu és agora um dia mais velho do que eu! Não é engraçado?"
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terça-feira, 31 de janeiro de 2012
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
PENSAMENTO
Quero que minhas mãos se balancem ao vento, para que as pessoas possam ver que viemos com as mãos vazias e com as mãos vazias partimos.
ALEXANDRE MAGNO
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terça-feira, 3 de janeiro de 2012
MEMÓRIAS DO LICEU D. JOÃO III
Quando alguém me diz que andou no Liceu D. João III, logo percebo que, se não tiver a minha idade, por lá andará, com uma tolerância de mais ou menos 15 anos. Se me disser que andou no José Falcão então a coisa é mais dúbia, pois que tanto pode ter a idade dos meus filhos como a idade que teria hoje o meu Pai. E tudo isto por causa de uma estória cabeluda que passo a contar.
O Colégio da Artes, fundado por D. João III em 1548 para preparar os alunos para a entrada na Universidade, foi extinto em 1836, dando lugar ao Liceu de Coimbra, que viria em 1871 a ocupar o Colégio de S. Bento, situado a Norte do Jardim Botânico, no ponto onde a Rua do Arco da Traição entronca com o Aqueduto de S. Sebastião. Em 1914 o liceu tomou o nome de José Falcão e, anos mais tarde, viu nascer no mesmo edifício um segundo liceu – o Júlio Henriques. Tendo o Colégio de S. Bento ficado acanhado para os dois, construiu-se de raiz um edifício na Av. Afonso Henriques, o qual deveria vir a albergar apenas o Liceu Júlio Henriques. Como, entretanto, foi decidido que Coimbra tivesse apenas um liceu, mandou-se ampliar o novo edifício, onde estava já a funcionar o Júlio Henriques, e meteram-se lá dentro os dois, agora fundidos num só, com a denominação de Liceu D. João III. Esta mudança de patrono não terá sido pacífica – José Falcão, catedrático da Universidade de Coimbra e professor do Liceu de Coimbra, foi um ideólogo do republicanismo enquanto D. João III tem a mancha de ter trazido para Portugal a Inquisição – pelo que, chegados a 1974, o liceu retomou o nome de José Falcão. Quanto a Júlio Henriques, ilustre meste e cientísta de Botânica, o homem nem era político pelo que não contou para estas contas.
Foi, assim, apeado D. João III, o que não deixa de ser uma injustiça para um rei a quem a cidade deve a transferência definitiva da Universidade de Lisboa para Coimbra. Dito por outras palavras, deve a importância que teve ao longo de cinco séculos, até que outras Universidades fossem criadas em Lisboa e no Porto.
Andei no D. João III "8 - anos - 8", como se escreve nos anúncios das touradas. E o facto de 8 não terem sido 7, logo dá ideia de que aproveitei bem o tempo. Como diria Jorge Sampaio, há mais vida apara além do… liceu!
Lembro-me de quase todos os professores que tive. E muitos foram excelentes. Não podendo evocá-los a todos, citarei apenas um, aliás, uma, que me aturou 7 anos a fio, tantos quantos Jacob servia Labão, pai de Raquel... isso mesmo, Raquel. Era uma santa! Raquel Braga de seu nome, que todas as semanas promovia peditórios nas aulas de Ciências Naturais e que conseguiu, enquanto por lá andei, construir duas casas para famílias pobres com as economias dos alunos. De pequenino se aprendia a ser solidário!
O D. João III tinha várias singularidades. Desde logo era um Liceu Normal (onde os professores faziam os estágios). Como liceus destes só havia três no país, era, paradoxalmente, um liceu anormal... por ser normal!
Mas tinha mais. Sendo um liceu masculino, tinha ainda pelo início dos anos 50 uma meia dúzia de meninas que, para evitar confusões, passavam os intervalos num torreão ao nível do 3º piso, enquanto os recreios da rapaziada se quedavam pelos pisos térreos. É caso para dizer que o princípio Saias para cima! Calças para baixo! não contribuía aqui para aproximar os sexos, mas sim para os manter afastados. Curioso liceu este...
O D. João III tinha um reitor abominável: o Pulga! Corria que tinha vindo da Guarda, onde, uma bela noite, teria sido deixado pendurado pela gola do casaco num cabide da sala dos professores. Bem feita! Se era assim para os professores, como não seria para os alunos? Volta meia volta, metia um cigarro na boca e saía a passar revista às tropas. A rota era desconhecida. A hora não era anunciada. Mas certo era que seria num qualquer intervalo, que avançaria pelos corredores cheios de gaiatos, que à sua frente logo um grito abafado correria a avisar – Reitor! Reitor!, que a malta aterrorizada se coseria às paredes, que algum incauto se mexeria e que as galhetas sairiam fortes, fazendo saltar os putos do lugar, enquanto o reitor seguiria impávido. Estranho liceu este, onde os alunos saltavam enquanto uma pulga andava...
O D. João III tinha as vidraças mais caras do mundo. 60$00 (mais de 30 euros nos dias de hoje!) era quanto o Pulga cobrava aos alunos por um quadradinho de vidro da treta que se partisse. Isto só para o vidro, que para os pregos, o betume e o feitio lá saía mais um par de galhetas e, para a colocação, havia o bom do sô Pedro, carpinteiro de descomunal barriga, cujas calças lembravam um funil de boca tão larga que era preciso abrir a segunda folha das portas para poder entrar nas salas de aula.O D. João III tinha as suas hierarquias. Quem entrava no 1º ano era recebido pelos do 2º com uma saraivada de caldos no cachaço, enquanto se ouviam as palavras da praxe – Abaixa, bicho! – e os putos se esgueiravam para o recreio por entre um túnel de pernas e braços que me faz hoje lembrar as descrições do selvático canelão à Porta Férrea. Por aqui se vê que o exemplo vem de cima...
Mas a hierarquia mais forte era a dos recreios. Os alunos dos dois primeiros anos coabitavam o recreio do 1º ciclo, para onde dava a carpintaria do sô Pedro. O recreio era um espaço fechado entre edifícios altos, um tanto exíguo, onde as brincadeiras eram o Agarra!, o Bone-catrapone-aí-vai-o-bone! e um jogo proibido dentro do liceu, em que uma bola, feita dum lenço ao qual se davam sucessivos nós, era atirada de baliza a baliza até que viessem as “forças do mal” – o Forte ou outro contínuo de serviço – e a empandeirassem para um canteiro alto, inacessível à garotada. Dizia-se que, a horas mortas, as “forças do mal” pediam a escada de madeira ao sô Pedro e subiam ao canteiro para ir buscar as bolas-de-lenço, donde os ditos seriam desembaraçados, estivessem eles limpos ou ranhosos, que o tempo era de penúria e na praça de Coimbra tudo se vendia.
O grau hierárquico seguinte, o 2º ciclo, era já um luxo. O recreio era um conjunto de espaços amplos, arborizados, com um campo de futebol, um ringue de hóquei e vista directa para as Repúblicas da Boa-Bay-Ela e do Bamus-ó-Bira. Quando os doutores vinham à varanda do 1.º andar e espreitavam por cima do muro do liceu, sentíamo-nos o centro das atenções. E receávamos, até, que estivéssemos a ser espiados para nos raparem mais tarde ou mobilizarem quando fossemos caloiros, não percebendo nós que os maraus estavam era a topar a melhor forma de saltar o muro e roubar a sineta que chamava para as aulas. Afinal eram nossos amigos...
Mas a grande mordomia estava reservada para o 3º ciclo, os 6º e 7º anos. Para esses, o recreio era a rua. Isso dava-nos uma importância nunca vista! Sentíamo-nos finalistas de qualquer coisa, um pé dentro e outro já fora. Quem vinha das aulas práticas trazia ainda vestida a bata branca, meio desabotoada, parecíamos alunos de Medicina... Fumava-se um cigarro, compravam-se pevides – uma barrica pequena ao Pianinho ou um sputnik ao Calmeirão – descia-se até à Cesaltina e ao Piolho. E os mais afortunados, ao ouvir em baixo o barulho duma Vespa vinda do lado de Celas em direcção à Sereia, acorriam às escadas, abriam uns olhos de espanto de quem vê a Deus e voltavam dizendo para os restantes: – Era o Ramin!
Lá dentro dos muros, os que não podiam ainda ver a Deus de tão perto, enrolavam os calções da Ginástica ao nível da cintura – “calções à Ramin” – imitando aquele que não tinha medo de esfolar as pernas para melhor voar ao encontro da bola. Ele era o maior, o ídolo da garotada, aquele cujos "calções em V" melhor cortavam o vento, numa época em que um guarda-redes tinha de ser valente, louco e muito homem, não como os de hoje, que usam calças se está frio, que socam a bola se está molhada ou vem enraivecida e que até põem máscara no hóquei só com medo de partirem os dentes! Maricas!...
E, no domingo, quando Ele mandasse afastar a barreira para, destemido e aventureiro, pegar o inimigo sem ajudas, como o Salvação Barreto fazia no Campo Pequeno, mostrando que maricas eram os do Sporting!, nós haveríamos de pensar que aquela defesa tinha sido feita para a malta do D. João III.
Zé Veloso
O Colégio da Artes, fundado por D. João III em 1548 para preparar os alunos para a entrada na Universidade, foi extinto em 1836, dando lugar ao Liceu de Coimbra, que viria em 1871 a ocupar o Colégio de S. Bento, situado a Norte do Jardim Botânico, no ponto onde a Rua do Arco da Traição entronca com o Aqueduto de S. Sebastião. Em 1914 o liceu tomou o nome de José Falcão e, anos mais tarde, viu nascer no mesmo edifício um segundo liceu – o Júlio Henriques. Tendo o Colégio de S. Bento ficado acanhado para os dois, construiu-se de raiz um edifício na Av. Afonso Henriques, o qual deveria vir a albergar apenas o Liceu Júlio Henriques. Como, entretanto, foi decidido que Coimbra tivesse apenas um liceu, mandou-se ampliar o novo edifício, onde estava já a funcionar o Júlio Henriques, e meteram-se lá dentro os dois, agora fundidos num só, com a denominação de Liceu D. João III. Esta mudança de patrono não terá sido pacífica – José Falcão, catedrático da Universidade de Coimbra e professor do Liceu de Coimbra, foi um ideólogo do republicanismo enquanto D. João III tem a mancha de ter trazido para Portugal a Inquisição – pelo que, chegados a 1974, o liceu retomou o nome de José Falcão. Quanto a Júlio Henriques, ilustre meste e cientísta de Botânica, o homem nem era político pelo que não contou para estas contas.
Foi, assim, apeado D. João III, o que não deixa de ser uma injustiça para um rei a quem a cidade deve a transferência definitiva da Universidade de Lisboa para Coimbra. Dito por outras palavras, deve a importância que teve ao longo de cinco séculos, até que outras Universidades fossem criadas em Lisboa e no Porto.
Andei no D. João III "8 - anos - 8", como se escreve nos anúncios das touradas. E o facto de 8 não terem sido 7, logo dá ideia de que aproveitei bem o tempo. Como diria Jorge Sampaio, há mais vida apara além do… liceu!
Lembro-me de quase todos os professores que tive. E muitos foram excelentes. Não podendo evocá-los a todos, citarei apenas um, aliás, uma, que me aturou 7 anos a fio, tantos quantos Jacob servia Labão, pai de Raquel... isso mesmo, Raquel. Era uma santa! Raquel Braga de seu nome, que todas as semanas promovia peditórios nas aulas de Ciências Naturais e que conseguiu, enquanto por lá andei, construir duas casas para famílias pobres com as economias dos alunos. De pequenino se aprendia a ser solidário!
O D. João III tinha várias singularidades. Desde logo era um Liceu Normal (onde os professores faziam os estágios). Como liceus destes só havia três no país, era, paradoxalmente, um liceu anormal... por ser normal!
Mas tinha mais. Sendo um liceu masculino, tinha ainda pelo início dos anos 50 uma meia dúzia de meninas que, para evitar confusões, passavam os intervalos num torreão ao nível do 3º piso, enquanto os recreios da rapaziada se quedavam pelos pisos térreos. É caso para dizer que o princípio Saias para cima! Calças para baixo! não contribuía aqui para aproximar os sexos, mas sim para os manter afastados. Curioso liceu este...
O D. João III tinha um reitor abominável: o Pulga! Corria que tinha vindo da Guarda, onde, uma bela noite, teria sido deixado pendurado pela gola do casaco num cabide da sala dos professores. Bem feita! Se era assim para os professores, como não seria para os alunos? Volta meia volta, metia um cigarro na boca e saía a passar revista às tropas. A rota era desconhecida. A hora não era anunciada. Mas certo era que seria num qualquer intervalo, que avançaria pelos corredores cheios de gaiatos, que à sua frente logo um grito abafado correria a avisar – Reitor! Reitor!, que a malta aterrorizada se coseria às paredes, que algum incauto se mexeria e que as galhetas sairiam fortes, fazendo saltar os putos do lugar, enquanto o reitor seguiria impávido. Estranho liceu este, onde os alunos saltavam enquanto uma pulga andava...
O D. João III tinha as vidraças mais caras do mundo. 60$00 (mais de 30 euros nos dias de hoje!) era quanto o Pulga cobrava aos alunos por um quadradinho de vidro da treta que se partisse. Isto só para o vidro, que para os pregos, o betume e o feitio lá saía mais um par de galhetas e, para a colocação, havia o bom do sô Pedro, carpinteiro de descomunal barriga, cujas calças lembravam um funil de boca tão larga que era preciso abrir a segunda folha das portas para poder entrar nas salas de aula.O D. João III tinha as suas hierarquias. Quem entrava no 1º ano era recebido pelos do 2º com uma saraivada de caldos no cachaço, enquanto se ouviam as palavras da praxe – Abaixa, bicho! – e os putos se esgueiravam para o recreio por entre um túnel de pernas e braços que me faz hoje lembrar as descrições do selvático canelão à Porta Férrea. Por aqui se vê que o exemplo vem de cima...
Mas a hierarquia mais forte era a dos recreios. Os alunos dos dois primeiros anos coabitavam o recreio do 1º ciclo, para onde dava a carpintaria do sô Pedro. O recreio era um espaço fechado entre edifícios altos, um tanto exíguo, onde as brincadeiras eram o Agarra!, o Bone-catrapone-aí-vai-o-bone! e um jogo proibido dentro do liceu, em que uma bola, feita dum lenço ao qual se davam sucessivos nós, era atirada de baliza a baliza até que viessem as “forças do mal” – o Forte ou outro contínuo de serviço – e a empandeirassem para um canteiro alto, inacessível à garotada. Dizia-se que, a horas mortas, as “forças do mal” pediam a escada de madeira ao sô Pedro e subiam ao canteiro para ir buscar as bolas-de-lenço, donde os ditos seriam desembaraçados, estivessem eles limpos ou ranhosos, que o tempo era de penúria e na praça de Coimbra tudo se vendia.
O grau hierárquico seguinte, o 2º ciclo, era já um luxo. O recreio era um conjunto de espaços amplos, arborizados, com um campo de futebol, um ringue de hóquei e vista directa para as Repúblicas da Boa-Bay-Ela e do Bamus-ó-Bira. Quando os doutores vinham à varanda do 1.º andar e espreitavam por cima do muro do liceu, sentíamo-nos o centro das atenções. E receávamos, até, que estivéssemos a ser espiados para nos raparem mais tarde ou mobilizarem quando fossemos caloiros, não percebendo nós que os maraus estavam era a topar a melhor forma de saltar o muro e roubar a sineta que chamava para as aulas. Afinal eram nossos amigos...
Mas a grande mordomia estava reservada para o 3º ciclo, os 6º e 7º anos. Para esses, o recreio era a rua. Isso dava-nos uma importância nunca vista! Sentíamo-nos finalistas de qualquer coisa, um pé dentro e outro já fora. Quem vinha das aulas práticas trazia ainda vestida a bata branca, meio desabotoada, parecíamos alunos de Medicina... Fumava-se um cigarro, compravam-se pevides – uma barrica pequena ao Pianinho ou um sputnik ao Calmeirão – descia-se até à Cesaltina e ao Piolho. E os mais afortunados, ao ouvir em baixo o barulho duma Vespa vinda do lado de Celas em direcção à Sereia, acorriam às escadas, abriam uns olhos de espanto de quem vê a Deus e voltavam dizendo para os restantes: – Era o Ramin!
Lá dentro dos muros, os que não podiam ainda ver a Deus de tão perto, enrolavam os calções da Ginástica ao nível da cintura – “calções à Ramin” – imitando aquele que não tinha medo de esfolar as pernas para melhor voar ao encontro da bola. Ele era o maior, o ídolo da garotada, aquele cujos "calções em V" melhor cortavam o vento, numa época em que um guarda-redes tinha de ser valente, louco e muito homem, não como os de hoje, que usam calças se está frio, que socam a bola se está molhada ou vem enraivecida e que até põem máscara no hóquei só com medo de partirem os dentes! Maricas!...
E, no domingo, quando Ele mandasse afastar a barreira para, destemido e aventureiro, pegar o inimigo sem ajudas, como o Salvação Barreto fazia no Campo Pequeno, mostrando que maricas eram os do Sporting!, nós haveríamos de pensar que aquela defesa tinha sido feita para a malta do D. João III.
Zé Veloso
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sábado, 31 de dezembro de 2011
domingo, 6 de novembro de 2011
TRAPEIRA DE JOB
CONSTANTINOPLA - ANTIGA BIZÂNCIO
05.11.2011
Isto que eu vou dizer vai parecer ridículo a muita gente.
Mas houve um tempo em que as pessoas se lembravam ainda, da época da infância, da primeira caneta de tinta permanente, da primeira bicicleta, da idade adulta, das vezes em que se comia fora, do primeiro frigorífico e do primeiro televisor, do primeiro rádio, de quando tinham ido ao estrangeiro.
Houve um tempo em que, nos lares, se aproveitava para a refeição seguinte o sobejante da refeição anterior, em que, com ovos mexidos e a carne ou peixe restante se fazia "roupa velha". Tempos em que as camisas iam a mudar o colarinho e os punhos do avesso, assim como os casacos, e se tingia a roupa usada, tempos em que se punham meias solas com protectores. Tempos em que ao mudar-se de sala se apagava a luz, tempos em que se guardava o "fatinho de ver a Deus e à sua Joana".
E não era só no Portugal da mesquinhez salazarista. Na Inglaterra dos Lordes, na França dos Luíses, a regra era esta. Em 1945 passava-se fome na Europa, a guerra matara milhões e arrasara tudo quanto a selvajaria humana pode arrasar.
Houve tempos em que se produzia o que se comia e se exportava. Em que o País tinha uma frota de marinha mercante, fábricas, vinhas, searas.
Veio depois o admirável mundo novo do crédito. Os novos pais tinham como filhos, uns pivetes tiranos, exigindo malcriadamente o último modelo de mil e um gadgets e seus consumíveis, porque os filhos dos outros também tinham. Pais que se enforcavam por carrões de brutal cilindrada para os encravaram no lodo do trânsito e mostrarem que tinham aquela extensão motorizada da sua potência genital. Passou a ser tempo de gente em que era questão de pedigree viver no condomínio fechado e sobretudo dizê-lo, em que luxuosas revistas instigavam em couché os feios a serem bonitos, à conta de spas e de marcas, assim se visse a etiqueta, em que a beautiful people era o símbolo de status como a língua nos cães para a sua raça.
Foram anos em que o campo tornou-se num imenso ressort de turismo de habitação, as cidades uma festa permanente, entre o coktail party e a rave. Houve quem pensasse até que um dia os serviços seriam o único emprego futuro ou com futuro.
O país que produzia o que comíamos ficou para os labregos dos pais e primos parolos, de quem os citadinos se envergonhavam, salvo quando regressavam à cidade dos fins de semana com a mala do carro atulhada do que não lhes custara a cavar e às vezes nem obrigado.
O país que produzia o que se podia transaccionar esse ficou com o operariado da ferrugem, empacotados como gado em dormitórios e que os víamos chegar, mortos de sono logo à hora de acordarem, as casas verdadeiras bombas relógio de raiva contida, descarregada nos cônjuges, nos filhos, na idiotização que a TV tornou negócio.
Sob o oásis dos edifícios em vidro, miragem de cristal, vivia o mundo subterrâneo de quantos aguentaram isto enquanto puderam, a sub-gente. Os intelectuais burgueses teorizavam, ganzados de alucinação, que o conceito de classes sociais tinha desaparecido. A teoria geral dos sistemas supunha que o real era apenas uma noção, a teoria da informação, substituía os cavalos-força da maquinaria pelos megabytes de RAM da computação universal. Um dia os computadores tudo fariam, o ser humano tornava-se um acidente no barro de um oleiro velho e tresloucado, que caído do Céu, morrera pregado a dois paus, e que julgava chamar-se Deus, confundindo-se com o seu filho e mais uma trinitária pomba.
Ás tantas os da cidade começaram a notar que não havia portugueses a servir à mesa, porque estávamos a importar brasileiros, que não havia portugueses nas obras, porque estávamos a importar negros e eslavos.
A chegada das lojas dos trezentos já era alarme de que se estava a viver de pexibeque, mas a folia continuava. A essas sucedeu a vaga das lojas chinesas, porque já só havia para comprar «balato». Mas o festim prosseguia e à sexta-feira as filas de trânsito em Lisboa eram o caos e até ao dia quinze os táxis não tinham mãos a medir.
Fora disto os ricos, os muito ricos, viram chegar os novos ricos. O ganhão alentejano viu sumir o velho latifundário absentista pelo novo turista absentista com o mesmo monte mais a piscina e seus amigos, intelectuais claro, e sempre pela reforma agrária e vai um uísque de malte, sempre ao lado do povo e já leu o New Yorker?
A agiotagem financeira essa ululava. Viviam do tempo, exploravam o tempo, do tempo que só ao tal Deus pertencia mas, esse, Nietzsche encontrara-o morto em Auschwitz. Veio o crédito ao consumo, a conta-ordenado, veio tudo quanto pudesse ser o ter sem pagar. Porque nenhum banco quer que lhe devolvam o capital mutuado quer é esticar ao máximo o lucro que esse capital rende.
Aguilhoando pela publicidade enganosa os bois que somos nós todos, os bancos instigavam à compra, ao leasing, ao renting ao seja como for desde que tenha e já, ao cartão, ao descoberto autorizado.
Tudo quanto era vedeta deu a cara, sendo actor, as pernas, sendo futebolista, ou o que vocês sabem, sendo o que vocês adivinham, para aconselhar-nos a ir àquele balcão bancário buscar dinheiro, vender-mo-nos ao dinheiro, enforcar-mo-nos na figueira infernal do dinheiro. Satanás ria. O Inferno começava na terra.
Claro que os da política do poder, que vivem no pau de sebo perpétuo do fazear arrear, puxando-os pelos fundilhos, quantos treparam para o poder, querem a canalha contente. E o circo do consumo, a palhaçada do crédito servia-os. Com isso comprávamos os plasmas mamutes onde eles vendiam à noite propaganda governamental, e nos intervalos, imbelicidades e telefofocadas que entre a oligofrenia e a debilidade mental a diferença é nula. E contentes, cretinamente contentinhos, os portugueses tinham como tema de conversa a telenovela da noite, o jogo de futebol do dia e da noite e os comentários políticos dos "analistas" que poupavam os nossos miolos de pensarem, pensando por nós.
Estamos nisto.
Este fim de semana a Grécia pode cair. Com ela a Europa.
Que interessa? O Império Romano já caiu também e o mundo não acabou. Nessa altura em Bizâncio discutia-se o sexo dos anjos. Talvez porque Deus se tivesse distraído com a questão teológica, talvez porque o Diabo tenha ganho aos dados a alma do pobre Job na sua trapeira. O Job que somos grande parte de nós.
Autor desconhecido
05.11.2011
Isto que eu vou dizer vai parecer ridículo a muita gente.
Mas houve um tempo em que as pessoas se lembravam ainda, da época da infância, da primeira caneta de tinta permanente, da primeira bicicleta, da idade adulta, das vezes em que se comia fora, do primeiro frigorífico e do primeiro televisor, do primeiro rádio, de quando tinham ido ao estrangeiro.
Houve um tempo em que, nos lares, se aproveitava para a refeição seguinte o sobejante da refeição anterior, em que, com ovos mexidos e a carne ou peixe restante se fazia "roupa velha". Tempos em que as camisas iam a mudar o colarinho e os punhos do avesso, assim como os casacos, e se tingia a roupa usada, tempos em que se punham meias solas com protectores. Tempos em que ao mudar-se de sala se apagava a luz, tempos em que se guardava o "fatinho de ver a Deus e à sua Joana".
E não era só no Portugal da mesquinhez salazarista. Na Inglaterra dos Lordes, na França dos Luíses, a regra era esta. Em 1945 passava-se fome na Europa, a guerra matara milhões e arrasara tudo quanto a selvajaria humana pode arrasar.
Houve tempos em que se produzia o que se comia e se exportava. Em que o País tinha uma frota de marinha mercante, fábricas, vinhas, searas.
Veio depois o admirável mundo novo do crédito. Os novos pais tinham como filhos, uns pivetes tiranos, exigindo malcriadamente o último modelo de mil e um gadgets e seus consumíveis, porque os filhos dos outros também tinham. Pais que se enforcavam por carrões de brutal cilindrada para os encravaram no lodo do trânsito e mostrarem que tinham aquela extensão motorizada da sua potência genital. Passou a ser tempo de gente em que era questão de pedigree viver no condomínio fechado e sobretudo dizê-lo, em que luxuosas revistas instigavam em couché os feios a serem bonitos, à conta de spas e de marcas, assim se visse a etiqueta, em que a beautiful people era o símbolo de status como a língua nos cães para a sua raça.
Foram anos em que o campo tornou-se num imenso ressort de turismo de habitação, as cidades uma festa permanente, entre o coktail party e a rave. Houve quem pensasse até que um dia os serviços seriam o único emprego futuro ou com futuro.
O país que produzia o que comíamos ficou para os labregos dos pais e primos parolos, de quem os citadinos se envergonhavam, salvo quando regressavam à cidade dos fins de semana com a mala do carro atulhada do que não lhes custara a cavar e às vezes nem obrigado.
O país que produzia o que se podia transaccionar esse ficou com o operariado da ferrugem, empacotados como gado em dormitórios e que os víamos chegar, mortos de sono logo à hora de acordarem, as casas verdadeiras bombas relógio de raiva contida, descarregada nos cônjuges, nos filhos, na idiotização que a TV tornou negócio.
Sob o oásis dos edifícios em vidro, miragem de cristal, vivia o mundo subterrâneo de quantos aguentaram isto enquanto puderam, a sub-gente. Os intelectuais burgueses teorizavam, ganzados de alucinação, que o conceito de classes sociais tinha desaparecido. A teoria geral dos sistemas supunha que o real era apenas uma noção, a teoria da informação, substituía os cavalos-força da maquinaria pelos megabytes de RAM da computação universal. Um dia os computadores tudo fariam, o ser humano tornava-se um acidente no barro de um oleiro velho e tresloucado, que caído do Céu, morrera pregado a dois paus, e que julgava chamar-se Deus, confundindo-se com o seu filho e mais uma trinitária pomba.
Ás tantas os da cidade começaram a notar que não havia portugueses a servir à mesa, porque estávamos a importar brasileiros, que não havia portugueses nas obras, porque estávamos a importar negros e eslavos.
A chegada das lojas dos trezentos já era alarme de que se estava a viver de pexibeque, mas a folia continuava. A essas sucedeu a vaga das lojas chinesas, porque já só havia para comprar «balato». Mas o festim prosseguia e à sexta-feira as filas de trânsito em Lisboa eram o caos e até ao dia quinze os táxis não tinham mãos a medir.
Fora disto os ricos, os muito ricos, viram chegar os novos ricos. O ganhão alentejano viu sumir o velho latifundário absentista pelo novo turista absentista com o mesmo monte mais a piscina e seus amigos, intelectuais claro, e sempre pela reforma agrária e vai um uísque de malte, sempre ao lado do povo e já leu o New Yorker?
A agiotagem financeira essa ululava. Viviam do tempo, exploravam o tempo, do tempo que só ao tal Deus pertencia mas, esse, Nietzsche encontrara-o morto em Auschwitz. Veio o crédito ao consumo, a conta-ordenado, veio tudo quanto pudesse ser o ter sem pagar. Porque nenhum banco quer que lhe devolvam o capital mutuado quer é esticar ao máximo o lucro que esse capital rende.
Aguilhoando pela publicidade enganosa os bois que somos nós todos, os bancos instigavam à compra, ao leasing, ao renting ao seja como for desde que tenha e já, ao cartão, ao descoberto autorizado.
Tudo quanto era vedeta deu a cara, sendo actor, as pernas, sendo futebolista, ou o que vocês sabem, sendo o que vocês adivinham, para aconselhar-nos a ir àquele balcão bancário buscar dinheiro, vender-mo-nos ao dinheiro, enforcar-mo-nos na figueira infernal do dinheiro. Satanás ria. O Inferno começava na terra.
Claro que os da política do poder, que vivem no pau de sebo perpétuo do fazear arrear, puxando-os pelos fundilhos, quantos treparam para o poder, querem a canalha contente. E o circo do consumo, a palhaçada do crédito servia-os. Com isso comprávamos os plasmas mamutes onde eles vendiam à noite propaganda governamental, e nos intervalos, imbelicidades e telefofocadas que entre a oligofrenia e a debilidade mental a diferença é nula. E contentes, cretinamente contentinhos, os portugueses tinham como tema de conversa a telenovela da noite, o jogo de futebol do dia e da noite e os comentários políticos dos "analistas" que poupavam os nossos miolos de pensarem, pensando por nós.
Estamos nisto.
Este fim de semana a Grécia pode cair. Com ela a Europa.
Que interessa? O Império Romano já caiu também e o mundo não acabou. Nessa altura em Bizâncio discutia-se o sexo dos anjos. Talvez porque Deus se tivesse distraído com a questão teológica, talvez porque o Diabo tenha ganho aos dados a alma do pobre Job na sua trapeira. O Job que somos grande parte de nós.
Autor desconhecido
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sábado, 5 de novembro de 2011
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
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